N/A: Longo e importante. Não sei se gosto dele...
Disclaimer: sim, certo. Nada me pertence.
Anteriormente: Lily decide se reconciliar com Snape. Carlotta Meloni conta a Lily que beijou Frank Longbottom durante as férias e espera que ele queira algo sério com ela.
Chapter 7 – Failures of Courage
(Falta de Coragem)
Or
"Smoke Gets In Your Eyes"
"Eu decidi," disse Severus Snape a Nicolai Mulciber na sexta-feira à noite.
Mulciber ergueu os olhos do dever de casa de Transfiguração. "É mesmo?" disse ele, com indecifrável emoção ou até mesmo preocupação em sua voz.
"Sim," respondeu Snape. "Eu decidi que vou."
Mulciber assentiu. "Fico feliz. Você é um sujeito esperto, sabe."
Severus sabia. Ele olhou para o fogo que se extinguia na sombria sala comunal da Sonserina. "Que horas partimos?"
"Me encontre aqui às onze e meia, amanhã à noite," respondeu o outro.
Assentindo lentamente e sentindo que aquilo era muito importante, disse Snape: "Estarei aqui."
(A Primeira Conversa)
Em uma perspectiva mais simples, era apenas uma sexta-feira. Era Halloween, chovia e o treino de quadribol da Grifinória foi cancelado. Mas, por outro lado, foi um Halloween chocantemente mediano (em uma perspectiva mais simples). Ninguém em Hogwarts foi parar na Ala Hospitalar, ninguém engravidou, ninguém largou a escola, e ninguém foi expulso. As aulas começaram como de costume, e a vida meio que seguiu. Em uma perspectiva mais simples.
Naquela sexta-feira, Severus Snape teve duas breves conversas com Nicolai Mulciber, Lily Evans fez dupla com James Potter na aula de DCAT, Mary Mcdonald conheceu um lufano, o capitão de quadribol leu uma carta de sua mãe na hora do almoço, a aula de Herbologia passou como de costume (com Mary Mcdonald rejeitando um garoto da Corvinal), Lily Evans teve uma conversa com o monitor-chefe, e descobriu que James Potter fumava demais. Foi, numa perspectiva mais simples, apenas um dia bastante normal.
Em um plano maior, aquela sexta-feira de Halloween acabou sendo muito importante. Lily não percebeu isso no momento, e James também não, mas Severus Snape sim. Na verdade, ele se deu conta assim que pôs o pé na sala comunal da Sonserina naquela manhã.
"Snape," disse a voz de Nicolai Mulciber, quando o rapaz se aproximou dele. Ele se inclinou e, de forma reservada, disse: "Eu, Avery e Hester vamos sair amanhã à noite."
"Sair?" repetiu Snape secamente. "Que romântico."
"Vamos encontrar Malfoy," elaborou Mulciber friamente, e antes que seu colega de casa pudesse, desnecessariamente, questionar a razão, acrescentou: "Era isso que estávamos esperando. Eu não tenho que explicar, tenho, Severus?"
Snape sacudiu a cabeça. Seu estômago revirou desconfortavelmente.
"Você vem?" indagou Mulciber. Severus não queria ir, ou melhor, ele queria ir, mas desejou que não quisesse.
"Eu vou pensar," disse Snape, e desceu para o café.
(Lily Faz Dupla com James na Aula de Defesa)
O primeiro período da aula de Defesa Contra as Artes das Trevas começou de forma tortuosa. Lily sabia disso desde que passara pela porta e sentiu a perspectiva de ficar sentada por 80 minutos sufocá-la. Sentou-se ao lado de Donna e esperou, batendo o pé ansiosamente contra o chão. A amiga tentou perguntar o que a estava deixando tão nervosa, mas a ruiva insistiu que "não podia dizer."
Na verdade, sua mente estava uma confusão há dias. Angústia e indecisão a atormentavam como uma noite de chuva: uma dúvida sombria e inoportuna suspensa no ar. Contar ou não contar...
Toque. Toque. Toque.
"Quer parar com isso?" disparou James Potter.
Pela forma como seu dia estava se passando, Lily percebeu que não devia ter ficado surpresa quando, após sua chegada, o Professor Black anunciou que todos eles iam formar duplas, e pediu que todos os alunos cujos sobrenomes começassem com as letras de A a L fossem à frente e escrevessem seus nomes. Ela não devia ter ficado surpresa que, embora sendo estatisticamente mais provável que escolhesse um amigo (Shacklebolt, Snape, Mcdonald, Price, McKinnon...) e não um inimigo (Potter, por exemplo), o pedaço de pergaminho no qual escreveu contivesse o nome de alguém pertencente à última categoria.
Esse, porém, foi o caso e a razão pela qual, após quinze minutos de aula, era James Potter quem dividia a mesa com ela ao invés de Donna, e era James Potter quem estava reclamando de seu incessante batido de pé.
Toque. Toque. Toque.
"Quer parar com isso?"
"Não," retrucou ela, estranhamente irritada. Afinal de contas, ele realmente não tinha feito nada.
"Bem, você ao menos terminou sua parte da redação?"
"Só faz 10 minutos que estou trabalhando nela," defendeu-se Lily.
"Posso considerar como um 'não'?" James deu uma olhada no papel dela antes que conseguisse esconder. "Você mal escreveu um parágrafo. Veja, estou quase terminando." Ele lhe mostrou uma folha de pergaminho coberta por uma letra desleixada.
"Você ficou com a parte mais fácil," respondeu a monitora. "Qualquer um pode escrever bastante sobre os efeitos da maldição Imperius. A história requer pesquisa."
"Informação que você já teria, se tivesse lido o que foi passado."
"Quem é você? A Professora McGonagall? Eu li o que foi passado, Potter. Eu só não consigo me lembrar de todos os detalhes de cor."
"Bom, talvez..."
"Bom, talvez," interrompeu Lily. "devêssemos parar de falar, e você devia me deixar voltar ao trabalho."
James deu de ombros e voltou para parte que lhe cabia na tarefa, fazendo os retoques finais na redação. Enquanto isso, Lily mastigava a ponta da pena, tentando se concentrar.
O primeiro incidente no qual a Maldição Imperius foi oficialmente citada como diretamente ligada a uma fatalidade ocorreu em St. Petersburg em 1908, e... e... e... e…
E?
Ela estava indo a algum lugar com essa frase, mas aonde? Talvez Frank estivesse sob a Maldição Imperius...
Toque. Toque. Toque.
James largou a pena, virando-se novamente para sua colega de mesa. "Evans."
"Que é?" Ela se deu conta de seu pé nervoso. "Ah."
"O que está acontecendo?" questionou ele, passando a mão pelo cabelo. "Estou falando sério: quanto mais cedo você desabafar, eu não mais terei que lutar contra a vontade de te estrangular." (Não que qualquer desejo daquele gênero realmente existisse no momento, mas isso – como dizem – nem influi, nem contribui).
"Eu só... eu não consigo me concentrar," respondeu Lily suspirando. "Desculpa, eu vou tentar ser..."
"O que aconteceu?" repetiu James. "Ora, vamos, Snaps, me diga."
Lily também largou a pena e apoiou o queixo na palma da mão. "Eu... não posso."
"Evans..."
"Estou falando sério, não posso. Não posso. Não posso. Eu… Eu sei de uma coisa." Ela sussurrou e James arqueou uma sobrancelha.
"Por que você está sussurrando?" perguntou ele (sussurrando). "Não tem ninguém por perto, ninguém está prestando atenção na gente." Era verdade, com as duplas estabelecidas, a sala inteira estava repleta de discussões participativas, e as mesas ao redor dos dois estavam desocupadas, em qualquer caso. A conversa deles realmente era particular.
"Porque eu quero," respondeu a ruiva de forma pouco criativa. Ela amarrou a cara.
"Então, o que é?"
"O quê?"
"O que é que você sabe?"
"Eu disse: não posso te dizer. Está ao menos prestando atenção?"
"Bem," disse James, "está claro que você precisa contar a alguém... eu recomendo um bom psicurandeiro. Essa coisa está te consumindo. E está me dando dor de cabeça". Ele indicou o pé dela.
N/T: James fala em "psych-healer", que seria um curandeiro psicologista, por isso traduzi como "psicurandeiro".
"Está me consumindo," suspirou Lily, massageando a têmpora miseravelmente. "Eu simplesmente não sei o que fazer."
"Bem, eu te diria o que fazer," respondeu o companheiro, "se me dissesse o que é que você sabe."
Lily sacudiu a cabeça. "Não é tão simples."
"Então... é um segredo?"
"Mais ou menos. Eu não sei. Eu só… alguém me contou uma coisa… e foi em segredo, mas a coisa que a pessoa me contou envolve outra pessoa, e eu não sei se deveria contar a essa pessoa que envolve."
"Se te contaram em segredo, não deveria contar," disse James. "Não é tão complicado."
"Mas não é isso..."
"Simples," concluiu ele com ar de quem sabe das coisas.
"Certo." Lily mordeu o lábio, ponderando a questão por um momento. "Tudo bem, então, vamos supor que você tivesse uma namorada..."
"Por quê?"
"Apenas siga meu raciocínio. Vamos supor que você tivesse uma namorada..."
"Uma namorada muito atraente."
"Sim, uma namorada muito atraente e que você gostasse muito."
"Tudo bem. Eu supus."
"Então, suponha que essa namorada meio que... beijou outra pessoa, ainda namorando você..."
"Improvável. Praticamente impossível, sério."
"Certo, mas essa sua namorada, ela estava... meio embriagada e passando por uma espécie de crise existencial, então ela beija esse outro cara nas férias... é uma daquelas coisas que simplesmente acontecem, e então ela imediatamente se arrepende de tudo. Não é nenhum tipo de caso sórdido contínuo... apenas uma única escapulida. Você ia querer saber disso?"
James revirou aquilo em sua mente diversas vezes, e então perguntou: "Foi mesmo apenas uma vez? E não havia nenhum... sentimento complicado ou qualquer bobagem desse tipo?"
"Bem..." Lily mordeu o lábio. "Talvez, apenas talvez, o cara tenha beijado sua namorada novamente, e ela o beijou de volta, mas então ela fugiu e ficou perfeitamente estável com você."
"Dois beijos e alguns conflitos emocionais?" indagou James. "Eu definitivamente ia querer saber. Primeiro para que eu pudesse acertar uma no cara, e segundo para que eu pudesse terminar com minha namorada vadia."
"Mas ela não é uma vadia! Ela é um anjo! Ela é maravilhosa e doce e sensível e vocês estão namorando há muito, muito tempo!"
James arqueou as sobrancelhas, inclinando-se com um sorrisinho intrigado. "Você traiu o Harper, Snaps?"
A monitora lhe deu um tapa de leve. "Não. Não estou falando de mim. Pare de rir, Potter. Não é sobre mim. Não foi sequer uma garota que traiu – foi um cara, se quer saber."
"Entendo," disse o capitão de quadribol, assentindo lentamente. "Não foi o namorado de Marlene Prince, foi? Eu definitivamente consigo enxergá-lo andando por aí com alguma vadia..."
"Não. Agora, pare de tentar adivinhar! Eu tenho que terminar essa redação..." Ela tentou voltar ao trabalho, mas James a agarrou pelo braço.
"Espere, não, eu vou falar sério. Então, esse casal misterioso – o cara, ele saiu de férias e apenas... se deparou com outra garota por acidente, certo? Não foi planejado?"
"É claro que não."
"E ele é um cara legal?"
"Sim, definitivamente."
"Então ele beijou uma garota acidentalmente e se arrependeu, mas depois ela o beijou novamente e ele... possivelmente retribuiu um pouco?"
"Sim," disse Lily. "E então, a bruxa que ele beijou, ela... ela me disse que tem sentimentos verdadeiros por esse cara, e ela pensa que alguma coisa poderia acontecer. Porém, pelo que posso observar pessoalmente da situação, parece que ele quer seguir em frente e esquecer tudo."
James assentiu lentamente. "Você não pode esconder, Evans. Tem que contar."
"Mas se ele estiver arrependido de verdade, eu poderia separar um grande casal sem nenhuma razão aparente."
"Há uma razão aparente," reclamou o rapaz. "Ele beijou outra garota... duas vezes."
"Mas se estiver no passado…"
"Não está no passado se a namorada dele não sabe que ele é capaz de fazer algo assim, não é? É uma questão não resolvida que requer solução."
Lily mordeu a ponta da pena. "Você pode estar certo," admitiu a ruiva sem rodeios. "Mas eu realmente, realmente, não quero contar a verdade a ela... Quer dizer, ela o ama de verdade, e ele não é uma má pessoa, mas..."
"Snaps," interrompeu James, "você não devia contar à namorada."
"Não devia? Mas você disse..."
"Esse cara – ele é seu amigo?"
Lily assentiu.
"Então você devia falar com ele. Você não quer confundir os fatos e dar início a uma briga imensa por algo que ouviu de segunda mão, certo? Mas, ao mesmo tempo, é claramente importante o bastante para você apenas ignorar. Então, tem que conhecer os fatos – conversar com ele, ver o que ele diz, e então formar um juízo. Diga a ele que sabe de tudo e veja o que ele tem a dizer sobre isso. Se ele for realmente tão correto, vai confessar. Mas, convenhamos, não é você que deve dizer à garota que o namorado dela beijou outra menina... não se eles são tão loucos um pelo outro como você diz. Portanto, não faça nada drástico. Apenas... fale com ele."
James concluiu e esperou com expectativa a resposta dela, mas a completa surpresa de Lily fez com que demorasse um tempo para se pronunciar. Por fim, ela afastou uma mecha esvoaçante de seu ondulado cabelo ruivo dos olhos e assentiu. "Você está certo. É um... bom conselho. Obrigada."
Ele curvou a cabeça um pouco e voltou à tarefa. Lily fez o mesmo.
Durante décadas, a origem da Maldição Imperius foi atribuída aos esforços do governo alemão, que esperava eliminar a inconstância da vontade humana nas expedições militares do final do século XIX. No entanto, até mesmo os relatos mais antigos de...
...Potter tinha dado um conselho consistente... surpreendentemente consistente. Por que era que ele conseguia ser tão legal, e segundos depois se provar um maldito idiota? Por que era que...
...relatos mais antigos de feitiços "controladores", que manipulavam e até desarmavam a livre vontade da vítima, foram descobertos na China, Índia, e em partes da...
...O mais estranho de tudo, é que havia tão pouca diferença perceptível entre o Potter maldoso e mal humorado e o Potter sincero e prestativo. O seu tom de voz mal mudava, e ainda assim as duas personalidades tinham efeitos tão opostos...
…partes da África do Sul. O feitiço "Imperio" não surgiu oficialmente até 1902, publicado em um jornal americano como a descoberta de...
...Mas seria possível que o verdadeiro Potter fosse o genuíno, carismático e divertido, e o outro fosse apenas...
...de um imigrante alemão, que mais tarde foi reportado por ter roubado a informação do projeto do governo para o qual contribuiu. O feitiço "Imperio" provou-se muito mais poderoso que os seus antecessores, tais como "Untersuchen!" e "Atakku!". Todavia, ao tempo de sua descoberta, o "Imperio" também foi, falsamente, considerado invencível: ou seja, acreditava-se que nenhuma pessoa a ele submetida poderia superar os efeitos...
...uma armadura de imaturidade?
"Concluído," anunciou James, fazendo Lily dar um pulo. Ele olhou para o pergaminho dela. "Bem, pelo menos você fez algum progresso."
"Posso te perguntar uma coisa?" disse a ruiva, largando a pena. Ele arqueou as sobrancelhas novamente, e ela interpretou como uma afirmação. "Não leve a mal... não estou tentando te culpar ou algo assim, o.k.? Eu só... eu só queria saber por que não confessou a McGonagall sobre a briga do Hall de Entrada."
Após algum tempo, James – com amargura – respondeu: "Você quer uma desculpa, não é? Mas eu não tenho uma. Não tenho uma boa razão que faça isso tudo desaparecer. Eu só estava... eu só estava sendo um idiota. Foi isso."
"Eu não acredito nisso," disse ela, antes que ele pudesse se virar. "Eu acho que tem uma razão. Tem que ter uma razão."
"Por que tem que ter uma razão?" questionou ele, frustrado. Lily suspirou.
"Por que, você... você bateu nele. Você bateu em Mulciber. Simplesmente apareceu do nada e deslocou o queixo dele, e isso não condiz com alguém que se preocupa com as consequências. Não se... encaixa."
James respirou pesadamente. Ele pareceu trabalhar algo em sua mente por quase um minuto antes de finalmente optar por falar. "Você já ouviu na regra das setenta e cinco, Snaps?" perguntou. Ela balançou a cabeça. "É uma regra antiga de Hogwarts. Muito antiga, e não costuma ser muito invocada. A… hum… a coisa é que, essa regra – das setenta e cinco – diz que se um aluno receber setenta e cinco detenções, ele ou ela é apresentado ao corpo docente e... e eles votam se o aluno deve ou não ser expulso."
"Então, você está dizendo que…"
"Eu tenho setenta e quarto detenções," interrompeu ele. Lily arregalou os olhos.
"Setenta e quatro? Isso é... muito. Eu tenho cinco."
James não estava surpreso. Sorrindo amargamente, ele disse: "Enfim, essa é a verdade. Se eu confessasse ter socado Mulciber estaria correndo risco de ser expulso, e... eu estava com medo de receber uma detenção," disse ele com grande ironia, e observou a reação da monitora. "Nada heroico, hã?"
"O corpo docente te adora, Potter," disse Lily, ignorando as últimas palavras dele. "Até mesmo Slughorn te adora, e você não é particularmente brilhante em Poções. E então tem Flitwick, McGonagall, sem falar em Dumbledore, e Puttman e provavelmente Black também... você tem algumas das maiores notas da turma. Tenho certeza que votariam a seu favor."
"Snaps... as duas únicas outras pessoas que atingiram setenta e cinco detenções foram expulsas. É só... o esperado. Não importa se gostam de mim. Eles se sentiriam obrigados a…"
"E por que simplesmente não me disse? Ou a Black, a Remus ou a alguém?"
James franziu o cenho, perplexo. "Por que eu faria isso?"
Lily olhou para ele como se a resposta fosse espantosamente óbvia. "Porque qualquer um de nós teria alegremente assumido a culpa! Quer dizer, eu fiz isso para que a Grifinória não perdesse pontos – é claro que teria feito o mesmo para impedir que você fosse expulso."
"Mas... espere... quê?"
"Bem, não acredita em mim?"
"Por que você me impediria de ser expulso? Você nem gosta de mim. Na verdade, você não meio que me odeia? Eu sou o 'cafajeste tirano' que sempre aborrece o seu melhor amigo!"
"Você me aborrece um pouco também," lembrou Lily. "E talvez haja momentos nos quais eu não me importaria em ver você sendo expulso, mas você... você socou Mulciber. E ele merecia. Talvez tenha sido inapropriado e mal pensado, mas... você não merece ser expulso por aquilo."
O capitão de quadribol piscou os olhos. "Eu não... quer dizer, eu realmente não te entendo. Mas… obrigado, eu acho."
"Por nada." Ela baixou os olhos para a tarefa.
"Precisa de ajuda para terminar?" indagou James.
"Não, só tenho mais um ou dois parágrafos, eu acho. Não deve demorar tanto." Ele apenas assentiu em resposta, antes de voltar os olhos para sua própria tarefa, a qual começou a reler. Com os olhos no papel, Lily acrescentou suavemente: "E eu não te odeio."
...
"Ah. O.k."
(Mary Mcdonald Conhece um Lufano)
Mary Mcdonald estava tendo um péssimo dia. Estava usando um cachecol laranja em comemoração ao feriado, e quase o deixara cair em sua poção duas vezes. Tropeçara a caminho do café da manhã, e agora tinha um corte no joelho. Sentia-se como se estivesse pesando trezentos quilos por nenhuma razão aparente, e a saia de seu uniforme parecia um pouco mais apertada e curta naquela manhã. Além disso, queria ter feito dupla com Sirius Black ou Donovan Atwater, e, ao invés disso, acabara com um lufano sem graça.
Não disposta a ser educada, Mary decidiu que deveria ser franca com seu parceiro – o garoto de olhos esbugalhados que olhava demais e andava com Adam McKinnon de vez em quando – e, portanto, enquanto ele pegava seus ingredientes de poção, a garota se virou para ele e disse: "Eu queria fazer dupla com Donovan Atwater."
O lufano piscou os olhos. "Ah."
"Achei que devia saber."
"Ah."
"Porque Donovan Atwater é excelente em poções, e eu sou terrível, e não nos falamos a semana toda, Donovan e eu."
"Ah."
Mary franziu os lábios, que reluziam com brilho labial. "É tudo que tem a dizer?" indagou (era um dia muito terrível). "Ah?"
Os olhos do lufano ficaram – se possível – mais arregalados. "Eu... sinto muito?"
Mary suspirou. Ele não era um sujeito horrível, mas de forma alguma bonito. Tinha um queixo fino e uma cabeleira castanha sem graça, cortada (ou melhor, não cortada) como um dos Monkees, cobrindo principalmente suas orelhas e tocando o colarinho de sua camisa de Oxford. Tinha sardas, dentes decentes e um nariz longo e fino. O rapaz parecia definitivamente aterrorizado pela excepcionalmente bela Mary Mcdonald.
Ela teve pena dele. "Você não tem culpa," admitiu a garota, sentindo-se um tanto culpada. "E só que eu... eu tive um dia péssimo, eu acho. Eu queria muito fazer dupla com Donovan Atwater... e agora ele está fazendo dupla com aquela vadia da Alexa Kyle."
"Alexa Kyle não é uma vadia!" disse o garoto, alcançando o que devia ser seu recorde pessoal de inteligência. "Ela é muito bacana, na verdade, e ela me ajudou em Transfiguração no quarto ano!"
Foi a vez de Mary piscar os olhos confusa. "Certo," disse ela, "mas no momento ela está fazendo dupla com Donovan Atwater, e ele não parece nada infeliz com isso, então ela é uma vadia!"
"Mas ela não é." Ele claramente não entendia a situação. Ambos ficaram calados por um momento, antes de o lufano continuar: "Então, Donovan Atwater é seu... seu namorado ou algo do tipo?"
"Eu não sei," admitiu Mary. "Quer dizer, não, acho que não. Nós tivemos um encontro esse fim de semana, e... bem... vamos apenas dizer que eu não tive nenhuma notícia desde então."
"Vocês tiveram um encontro? Como podem ter tido um encontro? Não houve nenhum passeio a Hogsmeade ou jogo de quadribol…" Ele aguardou uma explicação, e Mary sentiu-se corar sob o olhar inocente dele. Mary nunca corava.
"Você não sai muito, não é?" perguntou ela. O lufano não entendeu a que ela estava se referindo e, consequentemente, fingiu preparar os ingredientes de sua poção. "Nós... nós ficamos no castelo," Mary tentou explicar. E eu dei a um cara que nem sequer é meu namorado como uma perfeita vadia... "Passamos um bom momento juntos, e... eu não sei, não tive notícias de Donovan ultimamente, então estava esperando que caso fizesse dupla com ele hoje, tivéssemos chance de conversar. Em vez disso, estou com você, e ele está com a vadia da Alexa Kyle, e acho que está gostando disso."
O lufano assentiu. "Bem," começou ele lentamente, sem encará-la, "se é ele quem parece feliz em fazer dupla com Alexa Kyle, isso não faria dele a vadia? Porque eu conheço Alexa Kyle, e ela é muito legal. Ela me ajudou em Transfiguração no quarto ano."
"Você mencionou isso," falou Mary. "Mas garotos não podem ser vadias."
"Aposto que podem," respondeu em voz baixa, fazendo Mary rir.
Com uma última olhada para Donovan Atwater, a morena voltou a atenção para seu estranho parceiro lufano. "Qual é o seu nome, afinal?"
"Reginald." Ele não parecia nem um pouco surpreso por ela não saber seu nome, embora estivessem no mesmo ano.
"Reginald?" repetiu Mary. Talvez ela pudesse chamá-lo pelo sobrenome. "Reginald o quê?"
"Cattermole. Reginald Cattermole."
Ou não.
"Então… como seus amigos te chamam, Reginald Cattermole?"
"Bem..." ele pensou um pouco, e havia algo quase fofo em sua expressão naquele processo. "Bem... eles me chamam principalmente de 'Reginald'."
"Tudo bem, então, Reg," disse Mary. "Vamos ter que te arranjar um apelido."
(O Capitão de Quadribol Recebe uma Carta)
"O treino de quadribol está cancelado," informou Adam McKinnon a Donna Shacklebolt no almoço. O Salão Principal estava acinzentado naquela tarde. Apesar da luz laranja que emanava das abóboras suspensas no ar, o céu nublado parecia envolver o cômodo inteiro em uma névoa, conforme gotas de chuva caíam do céu sem molhar nada. Com a notícia que seu colega de time acabara de fornecer, a morena pousou o garfo e franziu o cenho.
"Onde você ouviu isso? E por que foi cancelado? Nosso primeiro jogo é em duas semanas."
"Black me disse para espalhar para o time," respondeu Adam, sentando-se ao lado dela e dando de ombros. "Ele só disse que Potter tinha cancelado o treino. É tudo que sei."
"Potter nunca cancela os treinos," comentou Donna. "Ele marca treinos adicionais. É típico dele. É por isso que é capitão. Fanatismo."
Marlene Price, Mary Mcdonald e Lily Evans chegaram à refeição. "Donna e Adam, sentados numa árvore..." cantarolou Mary, fazendo Donna olhar feio para ela.
"Cresça e vá embora," disse ela, embora Mary não tenha obedecido a nenhum dos pedidos, sentando-se em frente aos dois. Lily e Marlene imitaram seu gesto.
"Sobre o que vocês dois estavam conversando?" indagou Marlene no que seria um tom casual, enquanto se servia de uma maçã e não encarava ninguém.
"Potter cancelou o treino de quadribol," informou-lhes Donna. "McKinnon estava divulgando a notícia. E quando foi que se tornou crime eu falar com ele, afinal?"
"Não é crime," disse Marlene, um pouco mais confiante. "Eu só achei estranho, já que você nunca conversa com garotos, Don, ou... sabe... com as pessoas em geral."
"Eu converso com as pessoas!"
"Pessoas chamadas Lily Evans," sugeriu Mary.
"Me pergunto porque Potter cancelou o treino," interferiu Lily, focando-se nesse assunto, embora não soubesse o porquê. "Não foi por causa do tempo, foi?"
"Potter nos faria treinar num furacão," disse Adam secamente, e Donna concordou.
"Ele deve estar de mau humor," disse ela. "Agora que estou pensando nisso, eu o vi saindo quando entrei há poucos minutos, e ele parecia um pouco chateado. É claro que é difícil dizer. E, Mary, eu falo com um monte de pessoas além de Lily."
"Como quem?"
"Bem... os professores, quando fazem perguntas na aula, e..."
Suas colegas continuaram a discutir, mas Lily se viu desinteressada. Como Donna dissera, o capitão de quadribol estava, de fato, ausente da mesa da Grifinória, e – após um momento de debate interno – a ruiva se levantou. Inventando uma desculpa para as amigas distraídas, a monitora saiu rapidamente do salão.
Ela não sabia ao certo porque se sentia compelida a procurar por James Potter... era algo que alguém faria por um amigo, e James não era exatamente seu melhor amigo. Ao mesmo tempo, ele tinha sido completamente legal durante a aula de Defesa... e prestativo também.
Quando a ruiva chegou ao Hall de Entrada, estava procurando tão intensamente por James, que não viu Frank Longbottom e esbarrou com ele.
"Ah, desculpa!" gritou o monitor-chefe, agarrando seu braço para que a garota não caísse no chão. "Você está bem?"
"Bem? Ah, sim, estou... ouça, Frank, eu tenho que…" Lily ficou dividida por um momento, e então continuou: "Eu tenho que falar com você mais tarde... é muito importante."
"Hum… sim, tudo bem, estou livre agora, se você quiser conv..."
"Não posso agora. Te vejo mais tarde."
Com isso, Lily se afastou, andando rapidamente pelo saguão lotado. Trabalhando sob a premissa de que James fora para a sala comunal, começou a subir a escadaria. Quanto mais subia pelos corredores do castelo, encontrava cada vez menos alunos. Quase todos tinham ido almoçar quando ela alcançou o sexto andar.
Uma rápida olhada pelo corredor lhe disse que estava deserto. Uma segunda olhada lhe disse o contrário, pois um pouco mais abaixo uma figura estava de pé, recostada na parece, com as mãos nos bolsos. E era James.
"Potter, você está bem?" indagou Lily, aproximando-se. Ele a encarou, mas não parecia compreender direito sua presença, e ela sabia que jamais tinha visto aquela expressão no rosto dele antes: uma terrível combinação de raiva, angústia e confusão.
"Ele está... ele está voltando," disse James, como se não conseguisse entender as palavras que proferia. "Ele está simplesmente... ele está voltando." Em seguida, o capitão de quadribol ficou em silêncio e Lily não sabia o que dizer. Tudo que entendia era que a expressão no rosto do garoto a atormentou, e desejou nunca tê-la visto. De repente, ele pareceu perceber que não estava sozinho. O rapaz começou a se endireitar e passou a mão no cabelo. Por outro lado, Lily notou um pedaço de pergaminho amassado. "Sinto muito," disse James. "Sinto muito... eu não… tenho que ir."
E ele saiu depressa.
(Herbologia Passa Como de Costume)
(Com Mary Rejeitando um Corvino)
James voltara ao normal na aula de Herbologia aquela tarde. Ou, afinal, foi o que pareceu. Ele ficou com os outros Marotos e, em algum momento, colocou uma bomba de bosta na mochila da Samuel Avery. O rapaz terminou sua tarefa sobre descaroçar uma Gordyshot com ao menos duas explosões fedidas nesse meio tempo, e amenizou as coisas quando o Professor Puttman quis saber por que vários sonserinos pareciam estar exalando um terrível odor.
N/T: Gordyshot. Eu sinceramente não encontrei essa planta em nenhum dos livros, se alguém souber a tradução, me avise, por favor, que eu altero ^^
Era um dia bastante normal, pelo menos até onde Lily podia observar, e não era muito. Escolhera um lugar ao lado de Marlene, que era particularmente talentosa em Herbologia, o que significava que não se incomodaria em perceber que a ruiva estava distraída ou mesmo dedicando atenção acima da média a James Potter.
Não que isso impostasse, pois Marlene também estava ocupada analisando a turma. A loira tinha percebido que Mary Macdonald estava ajudando um garoto da Lufa-Lufa com a planta.
"Aquele garoto com Mary," disse Marlene, quando ela e Lily começaram a se limpar após terminarem de coletar as sementes necessárias... "é o que estava com Adam naquela noite, não é?"
"Qual noite?" questionou Lily, e então, compreendendo, continuou: "Ah, você quer dizer o sujeito que o viu quase... pulando?" Estremecendo, Marlene concordou: "Sim, é ele. O nome dele é Reginald."
"Ele fez dupla com Mary hoje em Poções, certo?"
"Certo." Lily observou os dois. "Você não acha que tem alguma coisa ali…?"
Marlene sacudiu a cabeça. "Eu creditaria a Mary muita coisa," disse ela, "mas aquele garoto não é nem de perto... Mary o bastante."
Lily deu de ombros. "Dê um tempo a ela. Ela só tem dezesseis anos e é..."
"Bonita," terminou Marlene. "Eu sei."
Do outro lado da sala, os Marotos se lavavam em outra pia. "Querem saber o que eu penso," começou Sirius pensativo, "eu não acho que Merlin existiu. Aposto que é tudo invenção... como um mito."
"Bobagem," disse Remus, revirando os olhos acinzentados. "É claro que ele existiu."
"Então por que é que em cada quadro ele aparece diferente?" questionou. Sirius "E as vozes sempre soam diferente."
"Isso não prova nada," argumentou o Sr. Moony. "Ele era um velho biruta com uma barba branca... ninguém presta atenção à aparência delas. Provavelmente as telas foram pintadas com base em memórias."
"Ou [ imaginação," sugeriu Sirius com o ar de quem sabe das coisas. "E tem outra coisa – como é que não há nenhum retrato de um jovem Merlin. Ninguém pensa nele como um cara jovem."
"Porque ele não realizou nada de importante quando jovem," disse Remus.
"Ou porque ele não existiu até alguém inventá-lo como um cara velho," finalizou Sirius com satisfação. Mais uma vez Remus revirou os olhos, uma prática que se tornou uma espécie de hábito nos últimos anos. Ainda debatendo o assunto com o amigo, ele terminou de lavar as mãos e rumou de volta à mesa, enquanto Padfoot o seguiu, sorrindo contente. Peter ficou para trás enquanto James esfregava os últimos resquícios de sujeira das unhas.
"Você está bem, Prongs?" indagou Wormtail. "Você desapareceu na hora do almoço. Está tudo bem?"
O capitão terminou de lavar as mãos e secou-as com uma toalha. "Está tudo bem, Wormtail," disse ele pela primeira vez desde o início da aula, revelando tudo, menos alegria em sua voz. "Eu estou bem. Vamos, eu tenho outra bomba de bosta com o nome de Mulciber nela."
Peter não discutiu a questão.
Quando a aula terminou, estava chovendo novamente, e houve uma espécie de corrida pelos guarda-chuvas. Sirius Black convocou um do castelo, alargando-o para abrigar os quatro Marotos. Alguns alunos mais espertos conjuraram feitiços para repelir a chuva, e, quanto a Lily, ela trouxera o próprio guarda-chuva para a aula. Havia espaço para abrigar duas pessoas.
"Eu digo para deixarmos Mary cuidar de si mesma," disse Marlene. "O cabelo dela fica tão perfeito molhado, quanto seco... garota de sorte."
"Eu só vou me certificar," respondeu Lily, esperando Mary terminar de guardar os materiais.
Ficando impaciente, Marlene notou Miles do outro lado da estufa e rumou na direção dele.
"Você tem um guarda-chuva?" perguntou a loira ao namorado. Ele sacudiu a cabeça, indicando a varinha.
"Eu tenho magia, Marly," disse sarcasticamente. "Você deveria tentar algum dia." Miles acenou a varinha, murmurando um feitiço. "Um Impervius," informou ele. "Você não vai se molhar se sair na chuva agora. Te vejo na festa à noite." Com isso, ele se foi.
Desanimada, Marlene retornou até Lily, que ainda esperava por Mary. "Eu vou para o castelo," disse a loira. "Feitiço Impervius," acrescentou em resposta ao olhar questionador da ruiva. "Te vejo daqui a pouco." No entanto, Marlene não dera três passos, quando sentiu gotas de chuva em seu cabelo.
"Droga," xingou a loira, sacando a varinha para conjurar seu próprio Impervius, quando a chuva parou. Pelo menos para ela.
"Desafiando a natureza?" perguntou Adam McKinnon, aparecendo. Ele segurava um guarda-chuva sobre a cabeça dela. "É um negócio arriscado, Price."
"Eu estava com um Impervius, mas não deve ter sido um muito bom," respondeu Marlene, aproximando-se agradecida.
"Às vezes uma ou duas gotas de chuva podem se esgueirar através do melhor Impervius," consolou-lhe Adam casualmente.
"Bem, eu não me importo. Miles conjurou o feitiço."
"Hum… acho que não foi um feitiço muito eficiente, não é mesmo?"
Marlene riu. "Não, acho que não foi."
Enquanto isso, o lufano com quem Mary passara a aula estava indo embora com um de seus colegas de Casa, e a garota dirigia-se a uma paciente Lily quando algo – ou melhor, alguém – a desviou.
"E aí, Mary," disse Donovan Atwater, um corvino bonito e de ombros largos, aproximando-se da grifinória com um sorriso. "Desculpa se estive distante essa semana... estive um pouco ocupado ultimamente. Os dias da semana são sempre tão agitados."
"Sem problemas, Donovan," respondeu Mary, e sua voz assumiu aquele tom doce e sedutor de quando falava com garotos. "Feliz Halloween."
"Feliz Halloween," respondeu o corvino. "Gostei do seu... do seu cachecol." Ele indicou o acessório laranja vivo, e ela o agradeceu timidamente. "Então, eu estava imaginando se você queria ir à festa de Halloween comigo hoje à noite... como um encontro. Eu me diverti bastante no sábado."
Mary pensou sobre aquilo. Ele tinha um sorriso bacana. A grifinória sorriu para ele. "É muito gentil de sua parte, Donovan, mas tenho outros planos."
Surpreso: "Ah. É mesmo? Um… ah… encontro?"
"Não. Eu vou com Marlene, Lily e Donna," disse Mary. Por que aquilo era tão... satisfatório?
"Bom," começou Donovan, seu sorriso retornando, "elas são suas colegas de quarto. Aposto que não se importariam se passasse a noite comigo."
"Eu tenho certeza que não," disse Mary. "Mas não estou nada interessada em ser seu projeto de fim de semana." Com isso, a bruxa deu as costas e se juntou a Lily, que tinha uma expressão curiosa no rosto.
"O que foi aquilo?" indagou a ruiva, enquanto se dirigiam ao castelo. "Donovan Atwater te convidou para sair de novo?"
Mary assentiu. "E eu disse 'não.'"
"É mesmo?"
"Sim."
"Eu pensei que gostasse dele."
"Eu gosto."
"Então, por que você disse 'não?'"
Mary considerou a pergunta, e então sorriu. "Porque ele é uma vadia."
Lily riu. "Uma vadia?" repetiu. "Você sempre disse que garotos não podem ser chamados de 'vadias.'" A morena simplesmente deu de ombros. "Mary Mcdonald, eu acho que você deve estar evoluindo."
"Acho que você pode estar certa, Lily. Tinha que acontecer eventualmente."
(Uma Palavrinha com o Monitor-Chefe)
Talvez numa tentativa de distrair os alunos de Hogwarts das terríveis situações do mundo lá fora, ou talvez para distrair os alunos de Hogwarts das terríveis situações dentro da própria escola (a investigação de Lathe se mostrara, até então, pouco frutífera), a Festa de Halloween foi particularmente esplendorosa aquele ano. A comida foi mais farta e de melhor qualidade, a decoração mais elaborada, e os fantasmas encenaram o que supostamente devia ser uma versão bastante dramática do conto da Varinha das Varinhas, mas – devido ao envolvimento de Peeves – virou comédia mais de uma vez.
Quando todos estavam sentados para começar a apreciar a deliciosa refeição preparada para eles, Lily notou que Luke Harper sentou-se à sua direita. Ele a beijou no rosto, e a ruiva percebeu que não tinha falado com o namorado nos últimos dois dias. Ela se inclinou e o beijou mais apaixonadamente nos lábios.
Ele sorriu quando se separaram (Donna – que estava por perto – revirou os olhos) e perguntou: "O que foi isso?"
Sobretudo remorso. "Você é um bom namorado, foi por isso" respondeu Lily. Luke serviu-lhe um copo de suco de abóbora: um gesto desnecessário, mas não tão desagradável. "Por que está nessa mesa?"
"Ninguém presta atenção às formalidades das Casas nos feriados," disse o rapaz animadamente. "Você não se importa, não é?"
"Não, é claro que não."
"Ótimo. É claro que a comida não vai ser tão boa quanto geralmente é nessas festas." Luke escolheu uma fatia considerável de presunto. "Eles encomendaram de alguma loja em Londres, em vez da loja da minha família em Hogsmeade."
Lily perguntou educadamente porque tinham feito isso, e enquanto Luke embarcava na explicação, a ruiva lançou um olhar à mesa da Sonserina do outro lado do salão. Snape não olhava para ela, mas estava sentado sozinho. Então, com menos razão ainda, a monitora se viu procurando os Marotos. James, acompanhando, como de costume, pelos outros três, parecia estar em perfeito bom humor. Ela não tivera nenhum contato com ele desde seu estranho acesso no almoço.
"… de qualquer forma, foi isso que minha irmã disse na carta," Luke terminava a história, e Lily assentiu.
"Isso é…" Péssimo? Bom? O que é que ele estava dizendo? "... interessante."
"São os negócios," respondeu Luke dando de ombros. Naquele instante, Lily viu Frank Longbottom entrar no salão com Alice ao seu lado. Uma onda de apreensão a engoliu quando lembrou que tinha de confrontá-lo naquela noite. Luke não pôde deixar de notar o súbito desconforto da namorada. "Você está bem, Lily?"
"Quê? Sim, estou bem. É só… algo que tenho que fazer. É… coisa da monitoria. Estou meio temerosa, só isso."
"Posso fazer alguma coisa para ajudar?" ofereceu o corvino. Lily desviou os olhos de Frank, fixando-os em Luke.
Não. Não havia nada que ele pudesse fazer, havia? Considerou compartilhar alguma versão da história... perguntar o que ele pensava da situação, mas, novamente, aquilo parecia desnecessário. Ela já sabia exatamente o que tinha de fazer, e podia se conter porque, para falar a verdade, já tinha discutido o assunto.
Com James Potter.
"Frank!"
Lily alcançou o monitor-chefe após a festa, quando os alunos dirigiam-se às salas comunais, empanturrados de comida (comida muito boa, não importava o que Luke Harper dissesse). Ele sorriu bondoso para ela, enquanto a ruiva esperava os outros alunos passarem por eles na escadaria.
"Olá, Lily," cumprimentou ele. "Você queria falar comigo, certo? Ah, e já que está aqui, eu estava pensando – e eu normalmente não pediria isso – mas eu estava pensando se você poderia trocar os turnos das patrulhas com Bertram Aubrey, por conta de..."
"Eu sei, Frank."
"Você sabe…?"
Em uma fração de segundos, Lily considerou tudo. Considerou Alice e considerou o sorriso de Carlotta quando estavam sentadas na cama do dormitório, discutindo seu novo amor, considerou há quanto tempo conhecia Frank, e considerou como – há tantos anos atrás – ele passou semanas criando coragem apenas para falar com Alice, e considerou que poderia perder o amigo.
"Eu sei sobre Carlotta," interrompeu Lily. A expressão de Frank mudou radicalmente, a cordialidade casual dando lugar ao completo choque em meros segundos. "Eu sei o que aconteceu nas férias e sei o que aconteceu domingo, e não posso mais ficar calada."
"Lily," começou Frank trêmulo, "foi uma névoa..."
"Por favor, não," continuou Lily em voz alta. "Por favor, não aguento mais isso. Se acabou... se realmente acabou com Carlotta, você tem que falar com Alice. Se não acabou, eu vou falar, porque isso não é justo com ela."
"Eu sei disso, e..."
"Não é justo porque ela te ama, e você esteve escondendo isso dela, e não há nunca... quero dizer, nunca, uma desculpa para trair." Frank ficou calado. "Você tem que contar a ela, Frank. Hoje. Agora."
Ele ainda estava calado, e então levantou os olhos para encará-la. "Eu vou contar."
(Lily Evans Descobre que James Fuma Demais)
Sinceramente, era uma visão um tanto engraçada. James Potter ali, esticado sobre a mesa da Grifinória com um cigarro entre dois dedos, levando-o aos lábios e inalando. Seus olhos avelã fixos no céu encantado – uma massa preta de ar, a luz branca das estrelas e nuvens pesadas, que pareciam se afastar. Era tarde, e as chances de ele ser pego eram poucas, mas devia ter sido mais cauteloso, pensou Lily, pois sequer a ouviu entrar no Salão Principal. Na verdade, não a ouviu de forma alguma até que falasse.
"Você fuma."
Ele se assustou e olhou em volta. Então – percebendo que era apenas Lily – tornou a deitar a cabeça sobre a mão que não segurava o cigarro. "Devo inventar uma forma genial de te dizer quão eficientemente fez a declaração mais óbvia do mundo, ou um simples 'bom, é óbvio' basta?"
"Posso ver porque você fuma," disse Lily secamente, "te faz ficar de bom humor."
James esperou a garota se aproximar da mesa: esperou pela afirmação que quase todo ser humano fazia ao descobrir seu hábito de fumar. Esperou pela observação cliché e abundantemente óbvia, que geralmente era algo semelhante a: "Essas coisas vão te matar, sabe." Não veio. Lily alcançou a mesa da Grifinória e sentou-se no banco, completamente impassível ao fato de ele estar deitado em cima da mesa (ou ficando calada sobre isso, de qualquer forma). Na verdade, eles ficaram daquela maneira por um tempo, em total silêncio, até ele se sentir compelido a falar.
"Ouça, sobre mais cedo…" começou ele, esperando que a garota o interrompesse, mas ela não o fez. "No corredor, na hora do almoço, eu... não foi nada. Foi só uma coisa de momento, e... não foi nada..."
"O que aconteceu?" incitou Lily calmamente.
"Minha mãe escreveu," disse James, sem saber porquê. "Ela só estava... ela disse que meu pai está voltando para casa... ele e minha mãe se separaram no verão, e agora eu acho que ele... está de volta."
Lily sentiu que estava ouvindo algo que ainda não fora pronunciado em voz alta. A ruiva assentiu lentamente, tentando não parecer tão chocada, porque, na verdade, as únicas palavras que vieram à sua mente seriam completamente inapropriadas para o momento. No entanto, essas quatro palavras batucavam repetidamente em sua cabeça, como um disco arranhado, superando sua hesitação em acreditar nelas.
James Potter é humano.
"Sinto muito se isso é algo que te desagrada," disse ela após um tempo. "Sinto mesmo."
James não respondeu. Em vez disso, perguntou sem cerimônia: "Então, como me encontrou? Ou será que foi o destino?"
"Sirius Black, na verdade," disse Lily. "Ele disse que eu te encontraria aqui."
"Por que estava me procurando?" insistiu o outro, com uma pitada de divertimento que fez a ruiva se sentir desconfortável.
"Para te agradecer," disse de uma vez. "Você foi muito bacana na aula de Defesa, e achei que devia te agradecer por isso – e pelo conselho. Considere isso um reforço positivo." Aquilo fez James rir, o que fez Lily sorrir, embora ele não tenha visto, pois ainda estava deitado sobre a mesa, com os olhos no teto que projetava o céu, enquanto ela continuava devidamente sentada no banco. James corrigiu a postura um momento depois ao se sentar, e Lily, por seu turno, colocou-se sentada sobre a mesa, ao lado dele.
"Posso te perguntar uma coisa?" indagou a ruiva, enquanto ele dava uma longa tragada. James disse que ela podia. "Por que você não quer que seu pai volte para casa? Quer dizer, não estou fingindo saber muito sobre você, mas... pelo pouco conhecimento que tenho de você, de Sirius e tudo mais... você e sua família sempre aparentaram se dar muito bem. A primeira vez que eu te conheci... no trem no primeiro ano... você disse que queria ser um grifinório por conta do seu pai."
James exalou. A fumaça do cigarro subiu girando em direção ao escuro céu noturno. "Eu passei a maior parte da minha vida idolatrando meu pai," começou o bruxo pensativo. "Queria ser ele quando crescesse. Queria assumir sua posição no Ministério, e me sentia orgulho porque minha mãe dizia que eu parecia com ele. Não sei ao certo quando percebi que ele a fazia infeliz, mas... eles simplesmente não combinam. Não estou dizendo que a culpa é dele ou dela. Mas, sei lá, um dia a criança olha para seus pais como pessoas de verdade... não apenas como seu pai e sua mãe, mas como pessoas, e... como pessoas, eles não combinam. Eles são apenas… eles são errados. Eles brigam, e eu sei que seriam mais felizes separados: meu pai com todo o tempo para si e minha mãe sem... sem ter que imaginar se deve ou não guardar o jantar." Outra longa tragada.
Lily tentou se lembrar se já pensara algo do tipo sobre seus pais. "Meu pai morreu," disse ela por fim. James a encarou. "Você já deve saber disso – eu perdi alguns dias de aula no quarto ano, e as notícias sempre se espalham rápido."
"Eu tinha esquecido," admitiu James.
"Certo, bom… meu pai não era perfeito, nem especial, ele apenas… ele era apenas normal." Lily se esforçou para expressar tudo com as palavras certas. "Ele e minha mãe brigavam às vezes Ele também tinha problema com apostas... não algo sério como perder todo nosso dinheiro ou algo assim, mas o jogo sempre foi uma tentação para ele, então não podia ir para corridas ou coisas do tipo. Ele bebia um pouco, também. Geralmente ele conseguia lidar com isso, mas teve essa vez, quando eu tinha cerca de... sei lá, sete anos talvez, ele perdeu o emprego, saiu e ficou completamente embriagado. É claro que não quero que pense que meus pais eram infelizes, porque eles não eram... de forma alguma. Eles eram um daqueles casais feitos um para o outro, que todos esperam que seus pais sejam, mas... sabe, as coisas nem sempre funcionavam perfeitamente. Eles brigavam pelas coisas mais ridículas também, do tipo... meu pai fumar dentro de casa, ou minha mãe trabalhar demais. Uma vez, eles discutiram sobre – sei lá – dinheiro ou algo assim, e minha mãe ficou tão chateada, que foi para o quarto chorar, e eu fiquei tão... zangada com meu pai, que pensei: 'quando estiver desenhando na escola, e a professora mandar levar o desenho para os pais, não vou entregar a ele'. Eu tinha seis anos, então desafiar a ordem sagrada da professora era a coisa mais dolorosa que eu podia imaginar para fazer com meu pai. E, claro, como eu disse, eu tinha seis anos, então quando ele trouxe sorvete para mim e para Petunia e flores para minha mãe, tudo foi perdoado, mas... Eu acho que deve ter sido a única vez em toda minha vida que direcionei toda a minha raiva a um único objeto. Eu simplesmente queria muito machucá-lo. Foi... assustador." Lily respirou.
James esperou um bom tempo para falar. "Eu realmente não sei do que você está falando, Snaps," disse ele por fim.
"Eu estou dizendo," insistiu Lily destemida, "que meu pai não era perfeito... nem de longe, mas ele está morto agora, e eu daria tudo para tê-lo de volta."
Incapaz de pensar em uma resposta adequada, James encarou o cigarro, que diminuía. "Isso é grandioso e tudo mais, Evans," começou bruscamente, "mas não é a mesma situação de forma alguma, sabe, e..."
"Ah, eu sei," interrompeu Lily de imediato. "Não, eu só... eu só queria te contar algo, porque me contou também."
"Eu não sei por que te contei."
"Porque eu estou aqui, e sou uma garota bonita," disse Lily, fazendo James sorrir. "Por que você fuma?" perguntou casualmente.
Ele ponderou a pergunta. "Gosto da aparência."
"Deus, esse é o motivo mais ridículo que já ouvi."
"Não, não foi isso que eu quis dizer," corrigiu James rapidamente. "Olhe." Ele deu uma tragada e exalou. Uma coluna de fumaça prateada cascateou à frente, serpenteando e girando contra as paredes do salão escuro, como que estimulada por uma força invisível. "Está vendo?" disse James em voz baixa. "Tem que admitir, há algo impressionante na fumaça."
Lily tirou os olhos da névoa e olhou para ele. "Continua sendo um motivo ridículo," disse ela com sinceridade. "Mas pelo menos é interessante." E talvez ele estivesse certo.
"Obrigado." Ele prosseguiu fumando, e Lily observou a fumaça. "Imagino que tenha dado ouvidos ao que eu disse na aula de Defesa, então?" perguntou James depois de um tempo. "Falou com esse cara da namorada?"
"Sim. Acho que todos vão estar a par de tudo em breve… não vou estragar a surpresa para você."
"Não se preocupe muito com isso," aconselhou o outro. "Quer dizer, se esses dois são tão feitos um para o outro quanto você parece acreditar, eles vão sobreviver."
"Não consigo acreditar que eu tenha sido tão covarde sobre essa coisa toda," lamentou Lily. "Eu devia ter falado logo. Estava só me enganando: não há nunca uma desculpa para trair."
"Não sei não," disse James.
"Você não sabe?"
"Sei lá… a vida é complicada. Acho que não há desculpa, mas… as coisas nem sempre fazem sentido. Talvez empatia seja a melhor opção."
Lily não concordava, mas sentar ali com James era estranhamente reconfortante, e ela não queria arruinar aquilo com uma briga. Observou as incandescentes brasas cor de laranja na ponta do cigarro e esperou que ele falasse novamente. O cigarro estava quase no fim quando ele falou, e foi sobre outro assunto: "Ele simplesmente foi embora, sabe..."
Pega de surpresa, Lily indagou: "Seu pai?"
James assentiu. "Quer dizer, ele disse à minha mãe e tudo mais, mas sequer passou pelo meu quarto para dizer 'tchau'. Na manhã seguinte ele apenas... não estava lá."
"Talvez ele tenha pensando que ia ser muito difícil ir embora se te visse," sugeriu ela. James sacudiu a cabeça, divertindo-se com ironia.
"É mais provável que soubesse que eu não queria vê-lo. Na maior parte do verão, eu e ele não estávamos nos dando bem... ele estava numa onda de 'disciplina'. Tentando estabelecer toque de recolher pela primeira vez e tudo mais. Deve ter lido algum livro sobre paternidade... finalmente."
"Disciplina? Imagine só."
"Eu sei, o.k.?"
Rindo, Lily disse: "Então, suponho que não tenha sofrido muita punição na infância?"
James suspirou. "Eu não quero que pense que sou uma espécie de 'pobre garotinho rico', sabe. Meus pais estavam encantados comigo... minha infância foi relativamente sem drama. Eles nunca tentavam me controlar ou me dizer o que fazer – eu tinha as melhores vassouras, animais de estimação e heranças da família. E, na maior parte do tempo, mas pais eram legais... era tudo uma… loucura, com meu pai no DELM… que é o Departamento de Execução das Leis da Magia, o que significava que ele trabalhava praticamente o tempo inteiro. Minha mãe não voltou a trabalhar até eu ingressar em Hogwarts, e, por essa época, ela já criara um filho e tinha crescido. Meu pai... ele apenas ganhou dinheiro. Não que a gente precisasse, a proposito, já que somos cheios da grana."
"Legal."
"Eu não vou mentir," disse James. "Eu poderia gastar cem galões todos os dias sem ganhar um nuque, e não teria que me preocupar durante anos."
"Isso é loucura. E o que você vai fazer quando terminar Hogwarts? Não vai ter que se preocupar com o aluguel... vai ficar sem fazer nada, lendo revistas e comendo feijõezinhos de todos os sabores?"
"Quadribol," respondeu. "Eu gostaria de jogar quadribol." Mas ele achou que não queria falar sobre isso ainda, então redirecionou: "E você?"
"Eu quero escrever," disse Lily.
"Nobre," comentou James. "Uma profissão mais nobre do que a que eu escolhi, suponho. Então, para quem, Profeta Diário? Ou você é mais uma romancista?"
"Bem, eu, infelizmente, vou ter que me preocupar com o aluguel," explicou Lily, "e romances dificilmente são uma forma prática de começar a fazer essa conta."
"Praticidade é entediante."
"Praticidade é necessária."
James encolheu os ombros. "Bem, estou feliz por não viver de acordo com o que é 'prático' o tempo todo. Eu ficaria entediado pra caramba. Não sei como consegue, Snaps."
"Você provavelmente não teria setenta e quatro detenções se tivesse um pouco mais de praticidade, Potter."
"E daí? Eu me diverti imensamente com quase todas as coisas me levaram a receber detenção. Não retiraria nada do que fiz."
Lily olhou para ele, e ele apreciou ela parecer um pouco desapontada. "Não mesmo? Nada?"
E ele seria um mentiroso se, naquele instante, dissesse que não se arrependia de absolutamente nada. "Talvez algumas coisas," confessou o capitão de quadribol. "Acho que nem sempre fui um grande exemplo de gentileza, e há um ou dois lufanos que... sei lá... talvez eu não tivesse azarado, se pudesse fazer tudo de novo." Um pensamento lhe ocorreu: "Ei, talvez eu deva tomar outra detenção. Acho que ser expulso ia aborrecê-los pra caramba, hã?"
Lily revirou os olhos. "Eu te proíbo de ser expulso para aborrecer seus pais," disse ela.
"Você me proíbe? Com que fundamento?"
"Eu não sei… sanidade, por exemplo. E quem ia manter Sirius na coleira?" James riu. Lily corou levemente. "Ouça, Potter," começou ela sem rodeios, "o que – o que estamos fazendo aqui, exatamente?"
"Eu estou fumando. E você está me colocando na berlinda."
Cruzando os braços, Lily arqueou as sobrancelhas. "Em primeiro lugar: está enganado. Em segundo lugar, não estou me referindo a isso. Quis dizer... hoje, nós fomos... legais. Você me deu um bom conselho, e eu o segui, e agora estamos sentados aqui, conversando como se talvez fôssemos..." Mas ela não teve coragem de dizer a palavra. "...não fôssemos inimigos."
"Será que tudo precisa de definição, Evans?" indagou James com um suspiro. Lily sacudiu a cabeça vigorosamente.
"Não estou dizendo que devíamos ser melhores amigos," argumentou ela. "Só estou... eu só quero consistência. Se você vai ser legal comigo às vezes, quero um aviso. Se vai dizer que sou uma idiota e me colocar para baixo sem razão alguma, quero um aviso, para que eu possa manter algumas pedras num tamanho razoável na bolsa para atirar na sua cabeça de vez em quando. Eu só... você me confunde, e eu odeio isso, e me faz não gostar de você mesmo... especialmente quando age como um cara decente. O que..." acrescentou rapidamente, "é muito raro, mas é isso aí."
James olhou atentamente para ela. Na luz fraca luz das tochas e do luar artificial, Lily Evans parecia quase perfeita, e James sabia o que ele queria, mas também sabia que essa seria a última vez, em um longo período, que ela sentaria tão perto dele, se lhe dissesse a verdade naquele momento. Em vez disso, com bastante segurança, ele disse: "Bem, o que você quer que eu diga?" E talvez tenha saído um pouco mais rude do que ele pretendia, mas... só um pouco.
Lily percebeu que havia uma inconfundível tensão em sua voz, mas, por alguma razão, ela descobriu que não se importava muito. Achou que talvez pudesse se acostumar com a aspereza dele. "Eu não ligo para o que diz," disse friamente. "Mas eu meio que quero ser sua amiga."
(Aqui, até Lily se surpreendeu com Lily)
"Ah." Pela primeira vez, James não tinha nada para dizer.
"Mas de um jeito ou de outro," continuou ela. "Se você quiser ser um idiota comigo e com todo mundo, é problema seu, mas... bem... acho que você poderia ser legal se apenas... desinflasse e acreditasse em si. E podem parecer ideias conflitantes, mas não são. Então…" Lily deslizou de cima da mesa, e, ajustando a saia, preparou-se para sair do salão. "... é assim que me sinto. Mas está em suas mãos."
A ruiva começou a se afastar. Caminhara cerca de um quarto do salão antes de James dizer: "Snaps." Lily se virou, com as mãos nos bolsos das vestes. "Como... como seu pai morreu?"
(Incerta) "Por que pergunta?"
"Porque… eu te contei outra coisa sobre mim, e você devia me contar mais alguma coisa sobre você." A bruxa não parecia convencida. "E porque é algo que se deve saber sobre sua potencial... amiga." James levou o cigarro à boca para preencher o silêncio.
Lily mordeu o lábio por um momento. Sem nenhum traço de ressentimento, julgamento, nem nada, exceto ironia, ela respondeu: "Câncer de pulmão." E então foi embora.
(A Segunda Conversa)
Severus tinha decidido. Ela sabia. Talvez sempre soubesse, ou talvez a visão com a qual infelizmente se deparara no Salão Principal fosse apenas a manifestação de um dos seus pesadelos mais aterrorizantes. De qualquer maneira, Severus Snape nunca se sentira tão mal quanto quando entrou na sala comunal da Sonserina na sexta-feira à noite.
Ele tinha decidido… mas talvez também já tivesse decidido. Talvez a visão de Lily Evans e James Potter conversando como melhores amigos do Salão Principal fosse apenas um empurrão na direção do caminho pelo qual decidira há muito tempo. Talvez fosse uma desculpa, ou talvez fosse simplesmente um surto necessário de coragem. De qualquer forma, quando os olhos de Severus Snape repoisaram sobre Nicolai Mulciber, sentando próximo à lareira e terminando seu dever de Transfiguração, todas as dúvidas sumiram.
"Eu decidi," disse Snape a Mulciber.
O ultimo tirou os olhos do dever de casa. "É mesmo?"
"Sim," disse Snape. "Eu decidi que vou".
"Fico feliz. Você é um sujeito esperto, sabe."
"Que horas partimos?"
"Me encontre aqui às onze e meia, amanhã à noite."
Assentindo lentamente e sentindo que aquilo era muito importante, Snape disse: "Estarei aqui".
