-:- CAPÍTULO 07 – A Confissão de Naraku para InuYasha -:-

InuYasha se deparou com uma imagem que se instalaria por toda a eternidade nas profundezas de sua mente. Lá estava sua querida Kikyou. A massa vermelha e amorfa na qual ela fora inserida havia tornado-se um gigantesco globo, de uns dois metros de raio. Havia mais raízes do que antes, dispostas com uma forma similar a de um bulbo: vinham do alto por uma abertura relativamente estreita, seguiam a curva do globo, se aproximando em seu pólo, e depois iam descendo e se prolongando pelo chão como o apoio de uma taça ¹ . Apesar do líquido intensamente vermelho do interior da esfera, era possível enxergar a sacerdotisa muito bem: seu corpo, desnudo; ela estava com os joelhos próximos à testa; as pernas cruzadas na altura dos calcanhares; sua mão direita estava logo acima do mesmo seio e o outro completamente à mostra; o outro braço estava apoiado no abdômen, logo acima do umbigo; a boca levemente aberta e os olhos bem cerrados, parecia repousar tranquilamente ² . O cordão umbilical feito pela árvore descia pelo corpo da moça, contornava sua pélvis e seguia a coluna espinhal, até começar a subir. O tramo dado pela bruxa havia adentrado o corpo da sacerdotisa e estava enrolado em seu coração, conforme o decorrer do tempo no casulo ele seria absorvido pelo órgão.

Ao ver aquela imagem, todos ficaram bastante impressionados, porém InuYasha, não há como descrever o que sentiu naquele momento. Vê-la ali, ainda mais daquele jeito e com aquela expressão. Tão serena, tão bela, tão cândida, adorável e inebriante. Ele então começou a caminhar em direção ao casulo, com os olhos vidrados. Naraku não gostou nem um pouco daquilo, sua vontade era aproveitar-se da distração do jovem para corta-lhe a cabeça. O-Ren olhava para InuYasha com um jeito apático. Quando chegou bem próximo do casulo, que começava pouco acima de sua cabeça, ele estendeu uma mão para tocá-lo, fazendo a feiticeira chamar-lhe a atenção:

– Ei! Não faze isso!

Ele nem ouviu. Ao tocar, sentiu uma corrente elétrica forte, mas que logo se dissipou. Kikyou então começou a mover-se freneticamente lá dentro. Todos ficaram pasmos, InuYasha chegou a se assustar. O que ocorria era que apesar de a moça estar sem sua alma, esta ainda estava ligada a ela e o casulo fazia conexão entre o ambiente, o corpo da jovem e sua alma guardada. Assim sendo, seu sentimento pelo meio-youkai cão a fazia se atiçar. Além de Kikyou, movia-se também o vaso que continha sua alma. Ele ficou tremulando. Era um vaso bege, alongado, com uma forma que lembrava um cone, com a parte superior convexa. Havia uma escultura de dragão vermelho em alto-relevo que ia da base do vaso até a tampa; o dragão tinha a boca aberta e olhos assustadores, como se estivesse protegendo o conteúdo do vaso; o lacre estava posicionado sobre a tampa, logo acima das alças, que foram feitas no corpo do recipiente como se houvesse uma subtração no local.

– Olha só! – exclamou O-Ren. – Ela reage muito a ti! Deslumbra como ela está agitada!

O canídeo ficou profundamente surpreso, chegou a começar a suar frio. Do outro lado, o araneídeo ficou com o sangue fervendo. Seu coração convulsionava dentro de seu peito, num misto de ódio e dor. Abaixou a cabeça, apertou as mãos e os dentes. Sango e Kohaku ficaram assustados com aquilo. De repente, a dor pareceu falar mais alto. O vilão desprendeu um expiro abafado e seu rosto promulgou uma tristeza monumental: as sobrancelhas derribaram, o corpo estremeceu e os quentíssimos vermelhos de seus olhos tornaram-se gélidos, uma capa aquosa chegou a recobrir toda a sua esclera. Ao ver aquilo, a exterminadora ficou absurdamente pasma. Não conseguiu acreditar, mesmo diante de seus olhos. Tristeza se esboçara naquele rosto tão malévolo e arrogante. Vendo que a agitação da sacerdotisa estava demasiada, O-Ren chamou a atenção de InuYasha mais uma vez:

– Ei, garoto! Sai daí, agora! Isso pode fazer mal a ela.

Ele então obedeceu de pronto. Ao tirar sua mão, chegou a sair com um grude. Ele já sentira que Kikyou estava querendo puxá-lo para dentro. Foi se afastando devagar, mas sem dar-lhe as costas. Seu nariz sacudia, o cheiro da moça estava por toda a parte, e ficou ainda mais forte depois daquilo. Naraku então passou uma mão por seu rosto e tentou se acalmar antes que fizesse alguma bobagem. Quando se deu conta que Sango não lhe tirava os olhos e que seu rosto tracejava certa de compaixão, reclamou:

– O que foi?! Por que está me olhando com essa cara de piedade?

A moça nada disse, apenas desviou o olhar. Kohaku continuava com uma expressão de surpresa. Depois que InuYasha voltou a se juntar ao grupo, a sacerdotisa finalmente se acalmou. Ele ainda a fitava arrebatado. Naraku ainda o fitava de forma aterradora. Seus olhos chegavam a tremer de ódio. E O-Ren percebia como aquilo havia deixado o araneídeo entorpecido de ciúmes. Para tentar findar aquela tensão, a feiticeira dirigiu-se logo a Kohaku:

– E então, mocinho? Estás pronto? – indagou com um tom de voz meigo e abaixou até ele, inclinando o torso e apoiando as mãos nos joelhos sem flexioná-los.

Ao ver os enormes seios da moça comprimidos entre si, bem à mostra e bem próximos ao seu rosto, o garoto corou imediatamente e não conseguiu desgrudar os olhos. A feiticeira o olhava de um jeito safado, deixando Sango louca da vida. Entrou na frente do menino e declarou:

– Ele está!

O-Ren então se ergueu novamente, fitando-a com jeito de deboche. Posicionou-se atrás da jovem, a segurou pela cintura e disse em seu ouvido esquerdo:

– Não te preocupes, não irei tentar qualquer ato libertino com teu irmão.

A exterminadora saiu de perto dela, bem ruborizada, fazendo-a rir. Kohaku então puxou sua irmã para perto e questionou:

– Escute, tem certeza que podemos confiar nesta pessoa? E, principalmente – pausou –, no Naraku?

– Meu irmão, você sabe que não posso garantir-lhe nada! Mas acho que não temos escolha.

Ele estava nervoso. A exterminadora também estava bem tensa. InuYasha não menos. E Naraku desesperado. Kohaku então foi para perto da feiticeira e assentiu com a cabeça. De repente, o meio-youkai aranha enfiou um tentáculo nas costas do garoto, roubando seu fragmento. InuYasha finalmente tirou seus olhos de Kikyou. O garoto caiu para frente, batendo o rosto no abdômen da bruxa. Ela o segurou pela nuca para que não fosse ao chão.

– Kohaku! – berrou Sango.

– Seu maldito! Fez isso de novo! – vociferou o meio-youkai cão.

O meio-youkai aranha o respondeu com um tom de voz medonho, falando com os dentes cerrados e aos poucos:

– Cale essa maldita boca!

Percebendo todo o conflito no lugar, O-Ren se pronunciou:

– Ora, gente, façam-me o favor, isso tinha de ocorrer mesmo...! Daisuke! – chamou seu servo.

Sango e InuYasha ficaram pensando quem seria aquele estranho youkai que ficava tocando flauta. O-Ren jogou o menino nos braços de seu servo e ele então o foi carregando para a abertura da direita, igual como fez com Kikyou. Naraku guardou o fragmento dentro de seu quimono, junto com os que eram de Kouga. Depois que Daisuke sumiu, O-Ren disse a eles que o fato de Kohaku estar intacto aceleraria bem o processo. No máximo, em três meses o garoto estaria pronto. Disse também que antes de começar, iria coletar um fragmento do corpo do menino para guardar sua alma, bem como todo o resto do processo. Indagada por InuYasha, ela explicou também como fez com Kikyou e o tempo que ela ficaria confinada em seu casulo. Sobre ter tirado parte da alma de Naraku para transferir para ela, chegou a dar detalhes, percebendo o quanto o meio-youkai cão ficara impressionado, bem como a exterminadora.

– Bem, já sabeis tudo – disse a mulher. – Basta esperar a tua sacerdotisa ficar pronta! – dirigiu-se a InuYasha, acariciando seu rosto e fazendo-o corar. – Agora, saí daqui! – ordenou, dando-lhes as costas e caminhando em direção a onde estava o menino.

– Puxa, como ela é bonita! – exclamou o meio-youkai cão.

– E safada! – resmungou Sango. – Ainda bem que o Miroku não veio, senão ia pedir para ter um filho com ela!

– Acho que ele não precisa mais fazer isso.

– Duvido que um dia ele deixe de fazer!

Naraku então começou a sair da gruta. Sango e InuYasha foram em seguida, com ele olhando Kikyou mais uma vez. A exterminadora atentou-lhe então para algo bem fora do comum:

– Você percebeu que o Naraku está perto de nós fora da barreira?

– Não, imagine! – disse irônico.

– É sério, InuYasha! Tenho uma sensação estranha quanto a isso.

– Ora, Sango, ele nos tem nas mãos! Por que ficaria se blindando?

– Mas mesmo assim eu... – Ela então parou de falar por um tempo. Já fora da gruta, voltou: – InuYasha...

– O que é agora?

– Eu o vi sofrer.

– O quê?! – assustou-se.

– Sim! Quando a O-Ren disse que a Kikyou estava "reagindo" a você, ele ficou muito nervoso, mas depois... Depois ele fez uma cara extremamente melancólica, cheguei até a ficar com um pouco de pena dele.

– Não é possível!

– Sabe, quando a Kagome disse que ele se lamenta pela Kikyou, eu não consegui acreditar, aliás ainda não acredito! No entanto, o que eu vi...

Ele nada disse. Apenas ficou pensando no que ela lhe contara. De repente, o meio-youkai aranha, que estava a alguns metros deles, o chamou:

– InuYasha! – Pausou. – Quero ter uma conversa contigo.

Ele então começou a caminhar, receoso, em direção a Naraku e seguido por Sango.

– Eu disse: "InuYasha"! – a repreendeu, o maligno.

Ela então ficou ali parada, enquanto o canídeo continuou a caminhar. O araneídeo caminhou também, os afastando ainda mais da exterminadora. Eis então que InuYasha chegou ficando bem perto dele, fazendo-o voltar-se para frente. Enquanto isso, Byakuya, que estava lá no alto da árvore, pôs-se a observá-los apreensivo.

– Ih! Agora que a coisa vai ficar feia! Sei como é quando ele fica desse jeito! – exclamou.

E lá estavam mais uma vez os dois inimigos cara a cara. Uma brisa passou, balançando seus cabelos e vestes, denunciava um encontro importante. Sob os olhos atentos de Sango e Byakuya, eles começaram uma guerra fria:

– O que quer? – indagou o cão, bem ríspido.

– Olhe aqui e vê se usa essas suas enormes e ridículas orelhas para alguma coisa que...

– Ah, vai começar a me ofender deste jeito de novo?!

– InuYasha! – chamou-lhe a atenção. – Quero saber o que pretende quando ela acordar – retrucou.

– Isso não é da sua conta!

– Ah, é sim! Quero saber se ficará com a Kikyou ou a outra.

– O quê?!

– Não se faça de desentendido! A sua relação com aquela menina não me diz respeito e tão pouco me interessa. Já com a Kikyou, pode até não me dizer respeito, mas muito me interessa! Quero que me fale o que vai fazer.

– Não vou lhe dar explicações!

– Diga logo! – bradou. – Vai deixar a outra e ficar com a Kikyou, ou vai continuar sem saber o que fazer? – provocou.

Grr, seu maldito!

– Eu não vou permitir que você continue a fazê-la sofrer!

– Do que está falando?! Eu não a fiz sofrer! – rebateu meio inseguro.

– Fez sim! Você deu as costas para ela para correr atrás da Kagome. No entanto, toda vez que ela reaparece, você larga a outra e vai correr atrás dela! Pelo jeito, não é só eu quem fica brincando com os sentimentos dos outros.

– Ora, seu...

– Você é mesmo um cachorro estúpido! Quem te chama você vai abanando o rabinho!

– Cale a boca!

– Se você ama a Kikyou, porque não ficou com ela? O seu renascimento foi pouco depois de você ter sido desperto daquele lacre. Não me diga que algumas semanas é tempo suficiente para se esquecer de quem ama! Você podia muito bem ter ficado com ela e mandado a outra de volta para o seu mundo. Mas, você a abandonou! E ficou correndo atrás da Kagome igual a um cachorrinho sarnento e sem dono! E, mesmo depois de saber que um dos meus principais objetivos era matá-la, mesmo assim, você ainda deixou-a sozinha!

Nesse instante, InuYasha ficou sem saber o que responder. As palavras de seu odiado inimigo faziam sentido. E ele continuou:

– E por quê? Ela não é a Kikyou de verdade, é só uma cópia estúpida de barro? É isso que você pensou? Ou alguém te disse e você acreditou? Acredita em tudo que lhe dizem? Você é patético! Fique sabendo que, viva ou morta, de barro ou de carne, aquela mulher é a Kikyou. Se você a ama, como teve a coragem, ou melhor, a covardia de dar-lhe as costas?! – exaltou-se.

– Você a matou! E duas vezes!

– Não, InuYasha, eu a matei uma vez! A "segunda" – pausou – foi você!

Os olhos do meio-youkai cão se arregalaram, seu coração disparou e seu sangue ferveu, devido a imensa fúria que subiu-lhe a cabeça:

– O quê?! – bradou, fazendo Byakuya e Sango se assustarem, enquanto Naraku ficara impassível. – Como tem a coragem de dizer um absurdo desses?!

– Há 50 anos, você não teve escolha, é verdade, tudo foi armado com primazia. Porém, aquela vez no Monte Hakurei ³, foi você!

– Seu maldito!

– Enquanto você estava lá dentro do monte "brincando" com os seus amiguinhos e salvando a Kagome, eu estava matando a Kikyou. E você sabia disso! Minha nossa, você sabia! E mesmo assim não fez nada!

InuYasha o olhava desesperado, sabia que tinha alguma razão. E Naraku prosseguiu, massacrando-o:

– Se você não a tivesse abandonado, a deixado para trás, eu nunca, nunca, teria encostado um dedo nela, nunca! E não adianta me olhar com essa cara de "cachorro que quebrou o pote"! – Pausou. – Se bem que, nesse caso, provavelmente eu não conseguiria tê-la trazido até aqui – ponderou. – Aconteceram muitas coisas antes, coisas que não ocorreriam se você estivesse com ela.

– O quê? – indagou confuso.

Por um momento, Naraku pensou em contar-lhe tudo, no entanto, achou melhor continuar mantendo aquilo em sigilo:

– Não lhe diz respeito – rebateu, desviando o olhar.

– "Mas muito me interessa!" – retrucou, deixando o outro tenso.

– Pare de me dar voltas! Diga logo, o que irá fazer? – cobrou-lhe.

– Escute aqui, você fica aí dizendo que ama a Kikyou, que eu a fiz sofrer, no entanto, desgraçou sua vida, e por causa de quê?! Da Joia de Quatro Almas! Você me recrimina por não saber o que fazer a respeito das duas, mas trocou a Kikyou por uma ambição suja!

Naraku viu-se encurralado, sabia que o outro falava a verdade. Porém, logo tratou de replicá-lo:

– Seu moleque, eu não tinha a menor chance de ficar com a Kikyou por sua culpa! Ela o ama, mesmo sabendo que você a desamparou! Você não sabe...

– Eu não sei o quê? – indagou bravo.

– Você não sabe o que é rejeição!

– Não sei?! – revoltou-se. – Não sei, eu sou um meio-youkai, cresci sendo humilhado, esnobado, ridicularizado por humanos e youkais devido a isso, meu irmão me abomina por esse motivo, e você vem me dizer que eu não sei – explodiu – o que é rejeição?!

– Ora – constrangeu-se –, não me venha com desculpas, eu também sou um meio-youkai...

– Você nunca se importou! – retrucou bem bravio, e continuou, aos berros: – A única razão pela qual você queria se tornar um youkai era para ter poder, poder e mais poder! Pura ambição! – Pausou. – Eu também queria me tornar um youkai para obter mais poder, não nego, porém, o que eu mais queria era achar um lugar neste mundo!

Naraku ficou nervoso, mas ao mesmo tempo, impressionado com aquelas palavras. O próprio InuYasha ficou. Ele continuou:

– Aí, eu conheci a Kikyou e soube da Joia, descobri que ela se encontrava numa situação semelhante a minha e nós acabamos nos apaixonando. Aí eu desisti de virar youkai. Mais! Decidi me tornar um humano! Resolvi abrir mão de meus limitados poderes demoníacos para viver ao seu lado! Mas aí... Aí veio você! Veio você e destruiu tudo, tudo! – Pausou, observando a face pasma e irritadiça do meio-youkai aranha. – Sabe, Naraku, você não foi rejeitado... Porque não há como te rejeitar, porque você não dá chance para as pessoas fazerem isso, uma vez que já sai passando por cima de tudo e todos para satisfazer suas vontades mesquinhas e cruéis!

O araneídeo ficou um tempo quieto, apenas lhe encarando. Porém, logo o rebateu novamente:

– Eu errei, InuYasha. Eu poderia optar entre a Kikyou e a minha cobiça! Eu escolhi minha cobiça, e por três razões básicas: um, a Kikyou o ama e nada irá mudar isso; dois, eu achava que o fato de alguém ter sangue youkai o desabilita a sentir amor, piedade, medo ou dúvidas; e três, eu achava que só amava a Kikyou por causa do Onigumo, aquele bandido estúpido! Aliás, minto, eu me negava a acreditar que a amava por mim mesmo. Afinal, parte daquele coração era o humano Onigumo, mas a outra, a outra era o youkai Naraku, ou melhor, o meio-youkai Naraku. Eu me agarrei à esperança de que, quando jogasse fora a porção "Onigumo", eu finalmente esqueceria a Kikyou. E quando a matei, lá no monte, eu acreditei que tinha finalmente me livrado daquilo. Não! Minto mais uma vez, eu me convenci a acreditar naquilo! Por um instante sim, até senti prazer quando estava prestes a acertá-la, mas algo obscuro estava por trás daquele prazer. Uma dor imensa e esmagadora. Eu me neguei mais uma vez! Continuei atropelando o meu coração! Ele me implorava, "por favor, não faça isso!", enquanto minha mente também implorava, "mate-a, mate-a, mate-a, só assim você finalmente alcançará a plenitude!". Eu me forcei a seguir minha mente. E fiz aquilo. Mas, eu não conseguia esquecê-la, sua imagem continuava ricocheteando na minha cabeça, eu fingia não entender o motivo. Quando soube que ela ainda estava viva, eu fiquei desesperado, fui caçá-la alucinado, eu precisava me livrar de sua existência, senão nunca teria paz, nunca alcançaria a "plenitude"! Aí, eu descobri que o veneno que tinha injetado em seu corpo retornara e a estava derretendo de dentro para fora, ela finalmente desapareceria deste mundo para sempre! Então, lhe dei o golpe final: manipulei o miasma para corroê-la de vez ¹¹ . E a Kagome conseguiu purificá-la mais uma vez, no entanto, com seus poderes fragilizados e ante a potência brutal do tóxico, Kikyou voltou a sucumbir a ele. Concluí que não havia possibilidade de ele ser salva, o veneno retornaria sempre e cada vez mais forte. Nesse instante, eu senti uma euforia, uma falsa euforia, e depois, finalmente caí em mim. Minha ideologia, meus objetivos, minha Joia de Quatro Almas, nenhum deles mais foi capaz de me abarcar! Eu entrei em pânico, eu senti um desespero muito maior do que antes, eu chorei, InuYasha, eu chorei tudo o que sempre tive vergonha e ainda choro! Eu pensava, "Seu estúpido, pare de agir desse jeito!" e meu coração me massacrava, "Viu só?! O que foi que te avisei?!". Eu não me segurei mais! Deixei tudo aquilo que eu tinha aprisionado se liberar. Deixei explodir, deixei queimar. E foi violento. Eu achei que não suportaria! Ouvir minha própria lamúria soava como uma música dos infernos. E meus sentimentos me usaram de palco para o seu espetáculo dos horrores. Me pisotearam. Eu fui soterrado pelas minhas próprias emoções. Então, resolvi procurar pela Kikyou e descarregar sobre ela toda a verdade. Que bom que ela me ouviu. Hoje estamos aqui.

Depois de escutar aquilo tudo, InuYasha ficou calado, sem saber o que fazer. Se pudesse escolher, simplesmente desapareceria dali. E Naraku resolveu judiá-lo mais um pouco:

– Você me condena por eu ter preferido a minha ambição, mas eu me arrependi! Céus, como eu me arrependi! Só que depois, eu resolvi escolher a Kikyou, fazer aquilo que meu coração sempre implorou. E eu me descontrolei completamente, faço coisas que nunca pensei que faria, ajo da forma que sempre debochei, estou sendo completamente insano, sentimental e intempestivo, tudo aquilo que definitivamente não é do meu feitio, estou atropelando o meu tão estimado "orgulho youkai"! Tudo por ela, tudo para salvá-la, tudo para saber o que é estar com ela ao menos uma vez! Ah, sim, esqueci deste detalhe, há uma quarta razão para eu ter escolhido minha cobiça: eu sinto um desejo absurdo pela Kikyou, e, por alguma razão, eu me sentia sujo, me sentia como se estivesse profanando-a caso possuísse quaisquer pensamentos impudicos com ela, porque a vejo como algo sacro, puro, intocável. Eu me sentia como um andarilho sedento no meio de um deserto escaldante que avistou uma fonte de água fresca e cristalina. Ah, como seria delicioso saboreá-la! No entanto, essa água é proibida e quem dela beber descerá até o fundo do inferno e sua alma sofrerá por toda a eternidade. Eu então me ajoelhei diante da fonte e fiquei apenas a olhando. Apesar de olhá-la aumentar minha sede, parecia me sentir bem melhor, só de ouvir seu barulhinho, sentir seu orvalhar em minha pele. De repente, percebi que a fonte estava a secar, que ela iria desaparecer deste mundo! Não resisti e molhei meus braços e meus lábios nela. Em seguida eu ignorei tudo e enchi minha boca com sua água. E aí, que surpresa! O chão abriu-se sob meus pés, e eu senti como se estivesse pousando na morada dos deuses! Eu caí nas profundezas do Mundo Inferior, mas minha alma não sentia dor alguma, apenas a mais sublime e suprema paz. – InuYasha não estava compreendendo, talvez achasse que o outro estivesse tendo algum tipo de delírio, mas aquela relação que Naraku fazia referia-se à sua noite com Kikyou: a sacerdotisa era a fonte; a sede do meio-youkai aranha, seu desejo; beber da fonte, possuir a moça; o inferno, sua consciência; molhar seus braços e lábios, abraçar e beijar a sacerdotisa; a fonte secar, a morte de Kikyou. – Eu achava que me sentia melhor a odiando. Eu estava brutalmente enganado. É tão melhor amá-la, é incomensuravelmente melhor! E agora eu só quero que ela viva! E mesmo que ela corra para os seus braços, eu sei que não vou me arrepender. Eu sei! – Pausou. – InuYasha, eu a amo tanto, mas tanto, tanto, que sou capaz de atirá-la em seus braços se isso a fizer bem! Porque é só isso o importante, que ela fique bem! Sabe, enquanto você provavelmente vai ficar sentado com seu grupinho esperando, eu vou ficar aqui, olhando para ela todos os dias! Porque isso é tudo o que quero. Apenas olhar para ela... Apenas poder admirá-la... Sentir meu coração querer saltar de meu peito e, desta vez, sem mais me recriminar por isso. Eu quero que ela sorria, sorria de verdade, feliz, espontânea, e não mais aquele sorriso de gentileza que ela faz para os outros se sentirem bem, enquanto ela está ruindo por dentro.

InuYasha se encontrava completamente paralisado. Parecia uma mosca presa no fluido de uma planta carnívora. Ou talvez numa teia de aranha. E ver os olhos de Naraku, sempre tão furiosos, altivos e perversos mudarem o seu brilho, tremerem e marejarem; ouvir sua voz, sempre tão firme e austera, completamente soluçante, era absurdamente espantoso. Eis que o vilão o fez uma revelação inédita:

– Outra coisa, InuYasha, não fui eu quem matou a Kikyou há 50 anos.

– O quê?! – vociferou.

– O Onigumo se combinou com um bando de youkais que desejavam a morte de Kikyou. Como líder desse enxame, havia um minúsculo youkai aranha, o mais poderoso, que foi o coordenador da ação ¹² . Daí a minha natureza aracnídea, uma vez que eu não deveria ser um tipo específico de youkai por ser formado por vários. Quanto ao meu nome, simplesmente o do abismo onde fora atirado o "cadáver" daquele humano imundo ¹³ . O que o Onigumo queria era se apoderar da Joia e da Kikyou, no entanto, os youkais queriam vingar-se da sacerdotisa. Por serem mais fortes, Onigumo não pode controlá-los ²¹ . Naquele momento, eu ainda não existia em consciência. E então, aconteceu tudo o que você já sabe. Depois, aquela bagunça toda começou a se sintetizar e eu, não o humano Onigumo, nem o youkai aranha, mas o meio-youkai Naraku vim à luz. E eu não sou um mero produto da fusão dos dois, mas sim um ser completamente distinto, com minha própria mente, meus próprios anseios e também meu próprio coração! Demorou cerca de algumas semanas para a minha consciência eclodir. Pois bem, aquilo já estava feito. – Pausou. – Sabe, InuYasha, a Kikyou era uma menina sonhadora. Pode parecer bobagem, mas o seu real desejo era apaixonar-se loucamente, casar, ter filhos e viver essa vidinha sem graça. Mas ela havia nascido com poderes espirituais e, com isso, deveria tornar-se uma sacerdotisa e abandonar esse desejo. E foi o que ela fez! No entanto, aquela menina sonhadora ainda estava lá, e ela fora enclausurada nas profundezas do coração de Kikyou. E, quando foi dado a sacerdotisa o pesado e cruel fardo de proteger a Joia de Quatro Almas, essa menina começou a adoecer, uma vez que a Kikyou teve que sepultar vivo o seu coração definitivamente. E a garotinha foi sucumbindo, definhando, definhando... Mas aí, a Kikyou o conheceu! E a pequena Kikyou se curou! Ela viu uma luz naquele cativeiro coronário e começou a persegui-la obstinadamente! Entretanto, as vontades podres do bandido Onigumo atraíram para ele milhares de youkais que desejavam exterminar a Kikyou. E, esses youkais, não eu, esses youkais o fizeram! E por que eles jogaram você e a Kikyou um contra o outro ao invés de simplesmente roubar a Joia? Porque era o que o Onigumo queria, que vocês se odiassem ²¹ ! Fora o fato de que a Joia deveria ser corrompida. Que jeito melhor de fazê-lo do que pela putrefação do coração daquela que a protegia? Aí, a pequena Kikyou sofreu o golpe final, uma facada glacial pelas costas, ou melhor, um rasgo mortal no ombro esquerdo! Com isso, a garotinha foi tumulada junto com a sacerdotisa. 50 anos depois, a Kikyou foi ressuscitada. Mas a menininha não. Seu corpo continuou estirado nos porões do coração da infeliz sacerdotisa. E agora, tudo o que eu quero é não só recuperar a sacerdotisa, mas também a pequena Kikyou, cuja essência ainda teima dentro da sacerdotisa! – Pausou. – InuYasha, eu estou disposto a dilacerar o meu próprio coração para libertar essa garotinha. Para deixá-la ser feliz! E mesmo que eu sofra todos os meus dias por não ter a Kikyou nos meus braços, eu vou saber que ela finalmente estará livre de sua angústia! Eu estou disposto a deixar meu coração agonizando dentro de meu peito até o fim dos meus dias para findar o sofrimento de Kikyou!

– C-Como...? – indagou o cão, aos sussurros.

– O quê?

– Como afinal você se... Se apaixonou pela Kikyou?

Naraku hesitou um pouco. Aquela pergunta foi um tanto além de suas expectativas. Mas resolveu dizer-lhe:

– Bem, depois do fim de Kikyou, eu segui a minha rota e investiguei a história da Joia de Quatro Almas. Concluí que se tratava de uma espécie de maldição e que um dia ela retornaria para este mundo. Ela iria aproveitar-se do amor e do ódio que a Kikyou sentia por você para arranjar uma maneira de volver e, foi o que fez. Então, 50 anos depois de seu desaparecimento, uma jovem cruzou o poço conector de eras e surgiu aqui. Essa jovem carregava dentro de si a Joia, que deveria ter pulverizado junto com a carne de Kikyou. E essa mesma jovem estilhaçou a Joia em milhares de fragmentos. Dessa forma, minhas expectativas se concretizaram. Durante 50 anos gravitei em torno da Joia, aguardando que ela volvesse, dediquei cada dia a isso. No mais, eu tinha que sobreviver e preparar-me para o grande dia. Manipulei pessoas, traí pessoas, procurei por gente que poderia me ser útil para realizar o meu desejo: possuir a Joia de Quatro Almas e tornar-me um youkai poderosíssimo. Conheci o Bankotsu, a sacerdotisa Hitomiko, amaldiçoei a família do monge Miroku, cujo parente atreveu-se a intervir no meu caminho ²² ... Entretanto, havia outra coisa forte em minha cabeça: as lembranças de Kikyou, oriundas de Onigumo e também dos youkais. Fiquei pensando, "Quem realmente é essa mulher?". Eu tinha em mente seu sorriso, sua voz, seus gestos, suas palavras, seu comportamento, seu cheiro... Era como se eu, o meio-youkai Naraku, a tivesse conhecido. Eu até cheguei a investigar sobre a vida de Kikyou, a mãe era uma sacerdotisa, o pai era militar e morreu em uma sangrenta batalha, enquanto a mãe de Kikyou esperava por Kaede, estava grávida de oito meses. A mãe de Kikyou ficou muito triste, adoeceu e, com isso, iniciou-se o parto um pouco prematuro de Kaede, um parto agonizante que durou quase dois dias, a mãe de Kikyou sangrou até a morte e depois abriram sua barriga, feito um animal abatido, para salvar Kaede. Kikyou, pura e bondosa, nunca culpou a irmãzinha pela morte de sua mãe, conforme muitas crianças fariam, e a amava profundamente. – Pausou, observando a face atônita do cão. – Bem, com a mãe morta, a pequenina Kikyou, de apenas oito anos de idade, teve que cuidar de um bebê. Claro, as mulheres do vilarejo a ajudaram, mas quem teve que cuidar mesmo foi a Kikyou. E ela então viu-se tendo que se esforçar para controlar seus poderes e tornar-se uma respeitável sacerdotisa, sem pai, sem mãe e com um bebê recém-nascido para criar e alimentar. Ela era apenas uma criancinha e não podia brincar, correr, não tinha quem a oferecesse os ombros e os ouvidos para suas lamentações "infantis", teve que amadurecer "na marra". Isso sem falar no fato de que ela sempre foi muito pobre, ela já passou dias sem comer para não faltar alimento para a bebê Kaede, ela já se esforçou para aquecê-la com seu pequeno corpo quando faltou-lhes um bom cobertor. Kikyou sempre cuidou de Kaede com dedicação e esmero e nunca apontou o dedo para ela culpando-a pela morte de sua mãe, nunca sentiu isso! A pequena Kaede a admirava muito, tanto por isso, quanto pela Kikyou sempre ter seguido seu caminho com determinação, mesmo não sendo o seu desejo. Todos a admiravam, a mulher forte, de nervos de aço, bela, audaz, inteligente, empenhada... Mas no fundo aquela mulher era mais frágil do que um artefato de porcelana, aquela mulher plácida, gentil e equilibrada gritava desesperadamente, mas ninguém a ouvia. Nem mesmo você a ouviu. E ainda não ouve! A única pessoa que havia percebido isso era a Kaede, a pequena Kaede, que nada pode fazer para mudar o trágico destino de sua honrada irmã. O desejo de Kaede era apenas que Kikyou ficasse bem! A infeliz sacerdotisa Kikyou... A infeliz humana Kikyou! Você nunca se perguntou por que ela era tão triste? Ela não pode ser uma criança comum, com isso, ela não pode ser uma mocinha comum e, logo, não pode ser uma mulher comum, o que sempre almejou avidamente! Você nunca se perguntou por que ela era tão triste?

– Ela nunca me disse nada – balbuciou.

– A mim muito menos! – replicou indignado. – A verdade é que você nunca se importou, você nunca quis saber! Você nunca percebeu... Mas também, mesmo o amando, ela nunca abriu o coração para você. Você roubou o coração de Kikyou, mas não conseguiu compreende-lo, não tentou desvendá-lo. Você alguma vez verbalizou o que sente por ela? Parece estúpido, mas isso é realmente significativo! Por que você acha que foi tão fácil para eu chegar até a Kikyou? Porque você a abandonou, você não sabe nada sobre a Kikyou! Eu não tenho seu coração, mas eu enfiei minha mão dentro dele e a ofereci para a arruinada garotinha! Ela segurou com desespero e eu farei de tudo para puxá-la para fora de seu cárcere! Eu não irei soltá-la, eu não irei deixar seus dedos escorregarem, eu não irei desistir dela! Você desistiu... Mas também, um coração que sempre fez o que bem entendeu, sem medir consequências, não compreenderia um que teve que abdicar de seus sonhos em prol de algo "mais importante". Entretanto, Como pode abandoná-la, como pode deixá-la agonizar enquanto ela clamava por você?! – enfureceu-se. – Enfim, você me perguntou como me apaixonei por ela, certo? O fato é que eu sempre me interessei em descobrir quem era a Kikyou, e não deixei de pensar nela um só dia nesses 50 anos! Eu fiz das memórias do Onigumo e dos youkais minhas próprias memórias e vi a Kikyou com o meu próprio coração. Mas eu negava a mim mesmo que estivesse sentindo aquilo. Aí, 50 anos depois, eu vi a Kagome pela primeira vez, aquele rosto me pareceu familiar, pensei que ela pudesse ser a Kikyou, todavia, ela havia morrido, não podia ser ela. Além do mais, aquela garota não possuía a mesma expressão de Kikyou, os mesmos gestos, os cabelos eram diferentes, a pele não era cor de neve, o olhar era outro. Ela não era a Kikyou ²³ ! Então, eu descobri que aquela garota era sua reencarnação, daí ter trazido a Joia dentro de seu corpo. Aí eu soube que, além disso, a Kikyou havia sido ressuscitada e a porção do espírito daquela garota que conservava as mágoas e anseios da encarnação como sacerdotisa Kikyou fora inserido no corpo de terra e cinzas. Quando eu soube que ela estava de volta neste mundo, não a Kagome, mas a Kikyou, meu coração disparou, minha mente se alucinou, eu precisava vê-la! Eu dei um jeito de levá-la para o meu extinto castelo e então eu vi a minha querida Kikyou pela primeira vez ³¹ ! Eu fiquei tão nervoso... Julguei que fosse pela surpresa, mas não era isso! Bem, eu não podia sentir aquilo, aquilo iria me atrapalhar. Pus a culpa em Onigumo, a Kikyou achava que era por causa dele, você e todo mundo também. Mas não era isso. O que realmente acontecia era que a porção Onigumo continuava forte dentro de mim e apenas me impedia de matá-la. Porém, eu não amava a Kikyou porque eu tinha o coração do Onigumo, aquele coração era, é meu, do meio-youkai Naraku! A porção Onigumo apenas me impedia de ferir a Kikyou. No Monte, quando livrei-me da essência suja daquele bandido egoísta e pervertido, eu consegui feri-la. Mas o meu sentimento permaneceu intacto. E a verdade, InuYasha, é que eu não queria a Joia apenas para me tornar um youkai poderoso, uma ambição mesquinha conforme você disse. Eu queria também tornar-me um youkai completo para deixar de amar a Kikyou. Mas, eu acho que, mesmo assim, eu não conseguiria isso! Eu sou apaixonado pela Kikyou há 50 anos. Um amor oriundo das memórias de outros seres, mas que a mim pertence! E creio que uma mera transmutação não seria capaz de expurgar esse sentimento do meu peito. Creio que nem mesmo a mais suprema das forças, a morte, irá ser capaz de fazê-lo. Aliás, não é a morte a mais suprema das forças, mas sim o amor. Porque ele é capaz de transcender o tempo e a vida.

– V-Você... Disse que... Fez o que fez para esquecer a Kikyou... – balbuciou. – Mas isso não o justifica! – tentou rebater o cão, mais uma vez.

– Eu não estou me justificando, estou apenas explicando o que me motivou! Mas já que quer falar em justificativa, a maioria de vocês me persegue por seus próprios erros e os dos outros.

– O quê?! Não me diga um absurdo desses! Você matou a Kikyou...

– Os youkais mataram, já lhe disse, e, depois, foi por sua culpa!

Grrr, você amaldiçoou o Miroku, aprisionou o Kohaku, exterminou os companheiros do lobo fedido...

– Espere, espere! Eu amaldiçoei a família do Miroku porque seu avô quis intervir nos meus planos! Aliás, eu fiz um favor para ele!

– O quê?!

– Afinal, eu podia simplesmente tê-lo matado, e se eu tivesse feito isso, aquele monge vadio não existiria hoje, não é mesmo? O que será que ele preferiria? Nascer com uma maldição ou não nascer? Creio que a primeira opção! Isso sem falar no fato de que ele usufruiu bem dessa maldição, que era também uma arma e tanto!

– Ora, seu...

– O quê?! Vai negar? Quanto aos companheiros do Kouga, não me culpe por sua estupidez!

– Como é que é?!

– Aqueles vândalos invadiram o meu castelo e tentaram me furtar!

– Era uma armadilha, seu cretino!

– E daí?! "Isso não justifica"! Se eles tivessem feito isso com qualquer outra propriedade, a retaliação seria a mesma! Eles foram até mim porque quiseram, invadiram o meu castelo porque eram bárbaros e caíram em uma armadilha porque eram burros! E o Kouga os abandonou a própria sorte!

Grrrr, maldito!

– Escute, se você não tem nada de bom para falar, porque não simplesmente cala-se? O Miroku sofreu as consequências dos atos de seu avô e essas consequências foram muito mais tênues do que poderiam ter sido; o Kouga desamparou seus companheiros e estes eram estúpidos; os youkais mataram a Kikyou e depois você a abandonou... Os únicos que sinto culpa de fato são o Kohaku e a Sango, afinal, eu os usei mesmo e não havia como eles perceberem, embora eu ainda tenha sido muito generoso com ambos por ter deixado aquele pirralho vivo até aqui, e também a Kikyou, afinal, mesmo que por sua culpa, mesmo que por culpa dos youkais, ela morreu pelas minhas mãos. E isso eu não posso negar. A culpa que eu sinto é idêntica a que o Kohaku sente, afinal, ele estava sendo controlado quando matou os pais e amigos e feriu sua irmã, porém, foram as mãos do Kohaku que executaram aquele massacre! Igual ao que aconteceu comigo há 50 anos, não era eu, mas era eu! E lá no Monte, por sua culpa ou não, eu a feri! A Kikyou, irrefutavelmente, sofreu muito pelas minhas mãos. E essa culpa é uma carga pesadíssima que eu arrasto pelo chão. E que fere a minha pele, distende meus músculos, fragiliza meus ossos, adoece meus órgãos e fulmina minha alma. Mas mesmo assim...! Você pode me condenar por ter ignorado meus sentimentos pela Kikyou e ter persistido em destruí-la, porém o que você faz é bem pior! Porque eu errei! E você não fez nada! Porque dentro do meu coração só existe a Kikyou! E ninguém mais! Eu ficaria com a Kikyou mesmo ela estando presa àquele corpo de terra, mesmo sabendo que a gente nunca poderia ter um relacionamento normal por causa disso. E seria capaz até de deixá-la morrer se seu sofrimento se tornasse maior que o meu amor e não houvesse outra opção! Porque eu a amo InuYasha, a amo e de uma maneira que você não tem ideia! Enquanto você parece que a abandonou por ela não estar viva de verdade. E ela continua o amando mesmo depois de você tê-la magoado! Mas eu compreendo. Se ela me magoasse, eu acho que meu sentimento não iria se importar.

– Não há... Como ela te magoar! Não há como ninguém te magoar...! – disse ríspido o cão, entretanto, uma rispidez displicentemente simulada.

– Ah, sim! Não se esqueça que a Kagome o ama muito! O que fará, InuYasha? – Nesse instante, o araneídeo retomara com tudo o seu típico olhar maligno e desenhara um sorriso grotesco em seus lábios. – Você irá abandonar a garota que te ama e ficar com a mulher que te ama, ou deixara a mulher que te ama de uma vez por todas para ficar com a garota que te ama? Vai magoar a Kikyou mais uma vez, ou fazer com a Kagome o que fez com a Kikyou? Vai igualar as duas, ou açoitar a Kikyou outra vez? O InuYasha tinha dois cordeiros... Lembre-se, lá no monte, você deixou um de seus cordeiros para o lobo, e o lobo veio buscá-lo. Cadê a Kikyou que estava aqui? O Naraku comeu! Talvez, outro lobo busque seu outro cordeiro – disparou.

Aquela analogia, aquele sorriso, aquele olhar, aquelas palavras. Ah, como InuYasha ficou cheio de ódio, armou o punho e o largou na face de Naraku com vontade, o fazendo ser lançado para longe, destroçando as árvores em seu caminho. Em contrapartida, da escuridão surgiu Naraku e descarregou seu punho na face de InuYasha, fazendo-o voar para o outro lado. Aquilo o deixou ainda mais irritado, sacou sua espada e saltou para uma guerra quente:

– Ferida do Ventoooo! – anunciou, desferindo seu ataque.

Naraku transformou sua mão em uma lâmina imensa, de diamante, nos moldes de uma lâmina de foice e disparou uma rajada de meteoritos de miasma na mesma proporção do outro. InuYasha não percebeu, mas em um raríssimo momento, Naraku fora para um conflito direto, sem truques ou barreiras, e fulo da vida. Ao se atingirem, os ataques se anularam em uma grande explosão. InuYasha rasgou o fogo com sua espada e avançou sobre o outro, que saltou contra ele. Ao se encontrarem no ar, chocaram suas lâminas, voltaram ao chão e correram um para o outro, cruzando suas lâminas novamente. Byakuya preferiu não se intrometer, mas Sango correu para separá-los:

– Osso Voador!

O imenso bumerangue passou entre os dois, obrigando-os a se afastarem, e levantou uma muralha de terra. O araneídeo então a rasgou e, quando ele e o canídeo foram mais uma vez para cima um do outro, a jovem exterminadora catou seu Osso Voador e se posicionou entre os dois e os parou, estendendo seus braços contra os brigões.

– Parem! – berrou a moça. – Vocês perderam a cabeça?! Um conflito desses pode trazer problemas para o Kohaku e a Kikyou! – alertou.

– Atenção! – bradou O-Ren, do portal da gruta e com as mãos na cintura. – Por acaso estais pensando que aqui é a casa dos senhores?! Já disse que não quero zona por aqui! – brigou. – E além do mais, a garota tem razão, vós estais perturbando a árvore! Saí! – ordenou.

– Pessoal... – pediu a exterminadora mais uma vez.

Eles se acalmaram. Sango então reparou em sua mão segurando a gola do colete de Naraku, o olhou, percebendo que ele também se sentiu um tanto constrangido:

– Nossa, nunca imaginei uma situação dessas! – exclamou ela, retirando sua mão.

Os dois então se afastaram, guardando suas armas. Naraku deu as costas para InuYasha e Sango. Byakuya então saltou lá do alto, pousando bem ao lado do meio-youkai aranha.

– Bom pessoal, por hoje é só! – exclamou ele, brincalhão.

– De onde você surgiu?! – indagou o meio-youkai cão, aos berros.

– Ah, não amole! – rebateu.

Grrr, maldito Naraku, sempre armando! – InuYasha quis atacá-lo de novo, mas foi parado por Sango:

– InuYasha!

– O que foi? Ainda quer lutar? Venha! – provocou Naraku, também querendo atacá-lo, mas sendo travado por Byakuya.

– Ah, não, já chega! Faça o favor de controlar-se! – resmungou o ilusionista.

– Ei! – bradou a bruxa. – O que foi que eu disse?!

Humpf! – o meio-youkai aranha voltou a dar as costas.

– Você... É um imbecil! – exclamou InuYasha.

O meio-youkai aranha o ignorou, armando sua barreira e envolvendo seu servo também. Se ergueu um pouco e anunciou:

– Andem, quero me livrar logo de vocês!

Sango então ajeitou sua arma e montou nas costas do meio-youkai cão. Naraku começou a se impulsionar e InuYasha foi seguindo-o. Mantiveram a mesma distância horizontal de antes, uns quinze metros, mas desta vez o araneídeo estava com os pés na linha dos olhos do canídeo. O-Ren ficou esperando eles sumirem de suas vistas e depois começou a voltar para o interior da gruta, resmungando:

Humpf, insuportáveis!

Enquanto isso, Sango questionara InuYasha sobre sua conversa com Naraku:

– Escute, você ficou bem abalado com isso, não é?

– Do que está falando? – indagou constrangido.

– Ora, eu vi como você ficou nervoso! Os berros, aquele soco...

– Ele me provocou!

– O que foi que ele te disse? Ele te disse algo sobre a Kikyou? Sobre como aconteceu para mudar de ideia a seu respeito, assim tão repentinamente?

Ele ficou um tempo quieto. Realmente aquela conversa o deixara completamente sem chão. As palavras de Naraku não paravam de circular dentro de sua cabeça. Ele então voltou-se para Sango, com a voz calma e tímida:

– Eu só – pausou – prefiro não falar sobre isso.

A jovem resolveu respeitá-lo, deixar que aquilo arrefecesse. Byakuya queria puxar assunto com Naraku, mas preferiu ficar quieto, percebera o quão nervoso ele estava. Não queria levar outro fora do meio-youkai aranha. E lá foram todos, voltando para sua região.

-:- CONTINUA...

¹ "InuYasha", 4º filme: Fogo Na Ilha Mística (Gurem no Houraijima).

² "Dânae", pintura do século XX, de Gustav Klimt.

³ "InuYasha", 4ª temporada, episódio 124: Adeus, Kikyou, minha amada / Adeus, minha querida Kikyou.

¹¹ "InuYasha Kanketsu-Hen", episódios 07 e 08: O mausoléu do Monte Azusa e Entre as estrelas cintilantes.

¹² "InuYasha", 5ª temporada, episódios 147 e 148: Uma fatídica canção de amor antes de nos encontrarmos.

¹³ "InuYasha", 3ª temporada, episódio 87: A jornada solitária que a Kikyou percorre / A viagem solitária de Kikyou.

²¹ "InuYasha", 3ª temporada, episódio 71: A batalha mortal dos três homens / A batalha dos três até a morte.

²² "InuYasha", 4ª temporada, episódio 121: A batalha final! O último e mais forte da Shichinin-Tai / Batalha decisiva! O último e mais forte dos guerreiros zumbis; "InuYasha Kanketsu-Hen", episódio 16: A barreira de Hitomiko; "InuYasha", 1ª temporada, episódio 16: O houshi deliquente e sua mão direita / O Buraco do Vento na mão direita. Miroku, o monge delinquente.

²³ "InuYasha", 1ª temporada, episódios 21-22: A verdadeira identidade de Naraku é revelada. A alma de Kikyou / A verdade sobre a origem de Naraku. A alma de Kikyou.

³¹ "InuYasha", 1ª temporada, episódio 32: Kikyou e InuYasha envolvidos pelo jyaki / Kikyou e InuYasha atraídos pelo miasma.

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NOTA: Pessoal, o capítulo ficou enorme, mas não tive como cortá-lo, precisava dar algumas informações importantes para a fic. Porém, ainda há muitos buracos para serem tapados, farei isso mais para frente. Pelo menos consegui postar o capítulo na data combinada, ufa! Bem, o 8º, somente dia 12 de agosto, marquem no Facebook para que não se esqueçam \o/. Até lá!