Capítulo 6.
Sábado de manhã era o dia favorito de Rose, mas tinha que ser exatamente de manhã, pois a tarde já tinha a impressão de que domingo se aproximava. E odiava ver domingos se aproximando. Era extremamente desagradável, principalmente porque seu plantão começava domingo no fim do dia.
- Como está a minha prima favorita? - Perguntou Lily ao entrar no apartamento de Rose e sentar-se em frente a bancada da cozinha. A dona da casa preparava seu famoso chá de frutas vermelhas.
Rose balançou a cabeça negativamente, embora sorrisse:
- Você não deveria dizer que sou sua prima favorita - falou. Lily deu de ombros em descaso.
- Como se isso fosse uma grande novidade. Todos já estão acostumados que você é a minha favorita.
- O que aconteceu que você precisava tanto conversar? - Perguntou Rose preocupada.
Lily mandara um patrono mais cedo naquele dia para Rose, dizendo que precisava conversar e que era questão de vida ou morte. Naquele momento, Lily mordia o lábio e inspirou profundamente.
- Certo, você sabe que tenho treinado para virar auror ao mesmo tempo que jogo quadribol - começou Lily. Rose concordou com a cabeça. - Eu não sei como dizer ao time que sairei. Estamos no final da temporada e o meu substituto, não querendo me gabar, não chega nem aos meus pés.
- Menina sincera.
- Estou falando sério - disse Lily nervosa. - Só que o treinador quer aumentar a quantidade de treinos na semana e as minhas provas do curso de auror começarão agora. É humanamente impossível treinar mais e, ao mesmo tempo, estudar pras provas.
- Você terá que tomar uma decisão - disse Rose. Lily bufou contrariada e escondeu o rosto no mármore da bancada.
- Odeio tomar decisões... são tão...
- Decisivas? - Perguntou Rose rindo. - Lily, uma hora você terá que tomar decisões na vida. Não pode sempre agir por impulso ou continuar achando que nada será sério.
- Nossa, você está mandando alguma indireta sobre o Carl? - Perguntou Lily franzindo o cenho. Rose arregalou os olhos, assustada.
- Eu não havia pensado nisso. Na verdade, eu não havia pensado em nada disso. Quem pensou foi você.
- Ah... - Lily sorriu constrangida e desviou o olhar. A boca de Rose se escancarou.
- Ah, meu Merlin. Como estão você e o Carl? - Perguntou Rose curiosa. Lily deu de ombros.
- Estamos normais desde ontem, obrigada por perguntar. Nós nos falamos ontem, Rose. Não mudou muita coisa. Nos encontramos pra jantar, jantamos, fomos a um motel, trans...
- Não precisa dizer - interrompeu Rose. Lily riu.
- Ok, fizemos e foi isso - terminou Lily, sorridente. Rose estreitou os olhos.
- E depois você foi pra casa?
- É... hoje de manhã, depois obviamente, por assim dizer.
Rose arregalou os olhos e tapou a boca com as mãos.
- Ah Merlin, vocês passaram a noite juntos!
- Em um motel, devo te lembrar! - Urrou Lily sentindo o rosto esquentar. - Não foi nada romântico, ok?
- Imagino que não - ironizou Rose, piscando o olho. - Então, e vocês pediram um vinho com morango e chocolate?
- Ah, cale a boca - gritou Lily fazendo Rose gargalhar.
- Ok, eu não falarei mais nada.
- É bom mesmo e... - O que Lily diria Rose não soube, pois ouviram batidas na porta. As duas olharam para a entrada e Lily apontou para Rose. - Está esperando alguém?
- Não que eu me lembre - respondeu Rose encaminhando-se para a porta. - Deve ser o porteiro querendo entregar algum pacote e...
- Olá - Rose estancou, ao ver um loiro parado na soleira de sua porta. Sorriu involuntariamente, perguntando-se o que diabos Scorpius estava fazendo ali.
- Olá - cumprimentou a mulher surpresa -, o que está fazendo aqui?
- Você me disse que sua folga era no sábado, achei que gostaria de fazer algo hoje - respondeu Scorpius. Rose olhou para o relógio do pulso.
- São dez da manhã - falou, assustada. Scorpius sorriu timidamente, como se estivesse invadindo alguma privacidade.
- Sim, mas se temos apenas hoje de folga, pensei em aproveitarmos ao máximo - piscou o olho para Rose e, depois, deu uma espiada atrás da mulher. - Ah, olá, Potter.
- Olá, Scorpius - disse Lily animadamente enquanto corria até onde os dois estavam. Pegou o casaco que pendurara no cabide da entrada. - Eu estava de saída mesmo.
- Mas você acabou de chegar - disse Rose constrangida. Lily sorriu para a prima.
- Acabei de lembrar que eu tenho que fazer uma coisa.
- Ah é? - Perguntou Rose cruzando os braços. - Que coisa?
- Ah, você sabe, coisas - respondeu Lily e piscou para a prima. - Até mais, Rose. Até a próxima, Scorpius.
- Um prazer te rever - disse Scorpius vendo Lily descer as escadas do prédio. O homem virou-se, sorridente, para Rose. - Ela é bem discreta, não?
- Você ainda não viu nada - Rose riu da observação de Scorpius. - Hm, gostaria de entrar? Eu estava fazendo um chá.
- Claro, por que não? - Rose chegou para o lado para dar licença a Scorpius. Entretanto, o homem não se moveu. - O que houve? Algum problema?
- Esqueci de te cumprimentar descentemente.
- Mas você me cumprimentou - disse Rose franzindo a testa. Scorpius sorriu de lado.
- Não do jeito que eu queria - respondeu, parecendo levemente tímido. Aproximou-se de Rose e depositou um selinho em seus lábios. Rose sentiu o coração descompassar a medida que Scorpius se afastava. - Olá, Rose.
- Olá, Scorpius - disse Rose em um fiapo de voz. Scorpius não tirou o sorriso do rosto e adentrou no apartamento.
- Você tem um belo apartamento - observou o homem ao analisar os cômodos. - Bem... claro.
- Ao contrário do seu que é todo cinza - disse Rose. Scorpius riu e concordou com a cabeça.
- Você esperava o quê? Uma toca toda verde? - Perguntou divertidamente. Estava sentado no balcão da cozinha, olhando Rose que preparava o chá.
- Esperava uma masmorra - disse Rose fingindo seriedade -, com várias correntes, instrumentos masoquistas e animais empalhados.
- Aposto que você ia curtir os instrumentos masoquistas - havia um tom malicioso na fala de Scorpius. Rose sorriu com aquilo.
- Você me conhece tão bem.
- Eu estava pensando - Scorpius se aproximou da mulher e beijou-a delicadamente no pescoço -, o que você pensa de parques de diversão? Bem do modo trouxa.
Rose virou-se assustada para Scorpius, oferecendo-lhe uma das xícaras em que preparara seu famoso chá.
- Desde quando você frequenta o mundo trouxa?
Scorpius pareceu pensar na pergunta e tomou um gole da bebida.
- Desde que eu gosto de parque de diversões.
- Eu adoraria ir em um - disse Rose. Scorpius respirou aliviado.
- Ótimo, eu tenho todo o dia preparado. Primeiro, vamos ao parque de diversões e tem uma comida deliciosa. Eles chamam de algodão-doce, você já provou? Óbvio que você deve ter provado, sua mãe nasceu trouxa. Enfim, depois tem um restaurante magnífico perto desse parque. Eles servem uma massa que é divina. E depois poderíamos ir ver um filme no... como eles chamam mesmo? "Cimema"? "Cimena"? Nunca gravo esse maldito nome.
- Cinema - corrigiu Rose rindo. A mulher mordeu o lábio inferior e afastou-se ligeiramente de Scorpius, sentindo a xícara tremer em suas mãos.
- Aconteceu algo? - Perguntou Scorpius acompanhando os passos da mulher. Rose sentou-se no sofá e sorriu para Scorpius. - Eu te incomodei com algo? Foi os planos que eu fiz? Você não gosta de massas? Podemos comer peixe se quiser, eu soube que eles comem peixe cru! Parece nojento, mas sempre tive curiosidade.
Rose ampliou o sorriso ao ouvir aquilo e beijou Scorpius, pegando o homem de surpresa. Scorpius retribuiu ao beijo, sentindo as mãos de Rose tremendo em sua nuca.
- Rose, aconteceu alguma coisa? - Perguntou preocupado.
Rose fez que não com a cabeça.
- Eu só, eu só fiquei emocionada.
- Com o quê? - Scorpius parecia ainda mais perdido. Rose segurou a mão do homem.
- Eu não sei, acho que ninguém fez tantos planos comigo para um só dia.
Scorpius sorriu e Rose pôde jurar que os olhos do homem se iluminaram por alguns segundos.
- Então garanto que farei desse um longo dia. Vamos então? Por falar nisso, esse chá está uma delícia. Você precisa me dar a receita depois.
Rose riu e fez que sim com a cabeça. Scorpius tentou se levantar do sofá, entretanto Rose o impediu.
- Hm, tem mais algo que você queira falar? - Perguntou educadamente. Rose fez que não com a cabeça e puxou Scorpius para um beijo apaixonado. O homem retribuiu, sentindo a mulher deitar-se no sofá.
Scorpius beijou lentamente toda a extensão do rosto e pescoço de Rose, ouvindo um leve suspiro saindo da boca dela. Sorriu maliciosamente e sussurrou antes de voltar a beijá-la:
- Acho que podemos nos atrasar um pouquinho...
O restaurante do hospital não tinha lá as melhores comidas, mas Rose e Lily conversavam animadamente sobre o fim de semana que haviam tido.
- Então, eu resolvi que ia passar o meu sábado e domingo inteiros assistindo filmes tristes e sem graça, para lembrar o quão maravilhosa era minha vida, mesmo com as decisões que eu não queria tomar - contou Lily fazendo Rose rir. As duas tentavam separar os tomates horríveis que haviam posto em suas saladas. - Depois de longas horas assistindo casais morrendo, deprimidos ou separados, programas sobre mortes horríveis e bizarras, eu me senti muito bem comigo mesma. Você tem razão, essa "tevelisão" é demais.
- Televisão, Lily. Por Merlin! - Corrigiu Rose pela centésima vez a prima. Lily deu de ombros.
- Tanto faz, mas funcionou. Foi demais. E o seu domingo, como foi?
- Bom, eu acordei, tomei meu banho, comi, voltei a dormir para me preparar para o plantão. Li um pouco, comi novamente e vim para o plantão - contou Rose. Lily estreitou os olhos.
- Scorpius não dormiu na sua casa? - Perguntou a garota parecendo surpresa. Rose fez que não com a cabeça. - Como assim? Achei que já tivessem dormido juntos.
- Sim, mas na casa dele. Na minha é outro passo, foi como eu te disse. Não quero adiantar as coisas.
- Pensei que não fosse levar isso a diante - disse Lily assustada. - Nossa, no que eu te transformei? O que o Scorpius achou disso?
- Disse que era muito bom dormir comigo, mas que entendia que eu trabalhava no dia seguinte e precisava descansar.
- Own, e você conseguiu dispensar um cara desses? - Perguntou Lily com os olhos brilhando. - Que homem meigo, nem parece o adolescente idiota que ficava rindo de piadas indecentes em Hogwarts. Sair de lá o fez muito bem.
- E o Carl te visitou? - Perguntou Rose curiosa.
- Não. Ele me "telofonou", eu não sabia que ele também tinha um "telofone", mas eu disse que ia estar muito ocupada nesse fim de semana.
- Vendo filmes tristes...
- Hey, não julgue a terapia de cada um, ok? - Disse Lily e Rose riu. - Quando você e Scorpius vão se ver novamente?
- Eu não sei. Ele me perguntou se eu poderia durante essa semana, mas eu falei que trabalharia igual a uma condenada, então não sairia do hospital. Ele me perguntou se poderíamos nos ver sábado, mas eu tenho um almoço marcado com a minha mãe e prometi que dormiria lá na casa dos meus pais.
- Uou, parece que alguém não quer vê-lo nessa semana - disse Lily. Rose franziu o cenho.
- Não é verdade.
- Rose, você arrumou todas as desculpas possíveis para dispensar um cara. Me admiro que ele não tenha ficado chateado com isso. Você conversou com ele sobre contar aos seus pais com quem está saindo? Você vai contar a sua mãe?
- Não - exclamou Rose assustada. Os olhos da mulher estavam arregalados. - Óbvio que não! Não faz nem duas semanas. Não! Absolutamente não.
- Ok, Rose. Eu entendi no primeiro não. Falou isso para ele?
- Não, nem chegamos a discutir esse assunto.
- Entendo. - Lily pareceu cabisbaixa por alguns segundos, mas voltou a sorrir logo em seguida. - Oh, sendo romântico como ele é, aposto que o Scorpius vai aparecer na hora do seu almoço algum dia desses aqui.
- Você acha? - Perguntou Rose esperançosa. Lily ergueu as duas sobrancelhas para a prima.
- Olhe quem ficou animada com a possibilidade...
- O que tem demais ele vir almoçar aqui? - Perguntou sem entender. Lily bufou e passou a mão na testa.
- Você realmente não pensa em nada, né? Vir encontrar alguém no trabalho é marcar território. É chegar em um estrangeiro e colocar sua bandeirinha, entende? Como se dissesse para cada um que te conhece, trabalha contigo ou um curandeiro gato que te paquera nesse restaurante: "olhe, ela já tem dono. Então cai fora".
- Scorpius não viria por esse motivo, isso é ridículo - disse Rose. Lily deu de ombros.
- Estou dizendo, é assim que as coisas funcionam. Se ele chegar aqui, sem avisar antes, com flores na mão ou um enorme letreiro escrito "minha propriedade", não diga que eu não avisei.
- Você está me deixando assustada.
- Não é para te deixar assustada, é normal nos relacionamentos você querer marcar território.
- Mas eu não quero que isso chegue logo nessa fase, estou tentando ir com calma, lembra? - Perguntou Rose irritada. Lily afastou-se ligeiramente da prima.
- É, mas a questão é: ele também está querendo ir com calma? Porque, aparentemente, ele quer passar todos os sábados contigo.
- Isso é ridículo - Rose bufou, exasperada. Lily franziu o cenho.
- Não, Rose. Ridículo era o seu ex que queria passar o sábado inteiro ou fazendo porcaria nenhuma ou com a amante dele. Você tem que se decidir, se quer um caso sem compromisso ou um cara como o Scorpius. As duas coisas você não poderá ter.
Rose mordeu o lábio enquanto encarava Lily. Somente depois de alguns segundos percebeu que esquecera de respirar.
Era extremamente clichê dizer aquilo, mas sentia que não encontrara Scorpius na hora certa.
Só não sabia que hora era a certa para esquecer da merda do ex e deixar um cara almoçar no restaurante do seu trabalho.
n/a: Eu sei, a Rose está toda confusa, tadinha... Mas eu não a culpo. Deve ser extremamente ruim ser largada por um noivo para ficar com outra. A Lily, por outro lado e como será mostrado no próximo capítulo, está um pouco mais propensa a relacionamentos. Será que ela e o Carl vão finalmente ceder aos relacionamentos sérios? ;)
Obrigada aos que comentaram. Um beijão e até o próximo.
Um spin off do que está por vir no capítulo sete:
"- Weasley? Rose Weasley? Olá, Rose - Rose assustou-se ao ver alguém agitando as mãos em frente ao seu rosto. Uma das curandeiras sacudia animadamente as mãos, tentando visivelmente chamar-lhe atenção.
- Oh, olá, Anne. Não te vi aqui. Desculpe - disse Rose endireitando-se no sofá. - Gostaria de sentar?
- Não, preciso voltar para meu turno. Eu só estava querendo avisar que tem um homem extremamente atraente e loiro te esperando no saguão do hospital - falou Anne piscando o olho. - E ele parece ansioso."
"- Você não veio marcar o território, veio? - Interrogou. Scorpius arregalou os olhos.
- Eu vim marcar o quê? - O homem parecia perplexo com as perguntas. Do que diabos Rose estava falando? De onde saíra aquilo?"
"- Olá, Carl - Lily não percebera que estava sorrindo bobamente. Foi em direção à sala, com Carl seguindo-a de perto. - Seja bem vindo, o primeiro que conhece meu apartamento.
Os olhos de Carl se arregalaram e o homem tossiu um pouco. Lily virou-se para encara-lo.
- Eu sou o primeiro que entra aqui?"
