Capítulo seis
No domingo de manhã, o humor de Edward havia melhorado. Quando se levantou, desceu para tomar café lendo o jornal em que ele aparecia agarrado a Tanya, na companhia de vários companheiros de time. Depois foi para a academia e fez alguns alongamentos. Isso lhe faria bem. Quando acabou, colocou música. Coldplay sempre o fazia se sentir melhor. Entrou no chuveiro e logo em seguida o celular tocou. Ele nem se abalou, pois não queria conversar com ninguém. Dez minutos depois, enquanto se vestia, o celular voltou a tocar. Dessa vez ele atendeu: era seu agente, Toni Terón, com quem discutiu algumas cláusulas de um contrato para fazer propaganda de roupa esportiva.
— De verdade, te achei muito bem ontem à noite — Toni disse.
— Sim, estou contente, acho que a fisioterapeuta está fazendo um bom trabalho — reconheceu Edward, enquanto massageava a perna direita.
— Aliás, falando da fisioterapeuta, não acha que os honorários dela custam caro demais? Sabe… nem que ela revestisse sua perna de ouro a cada sessão.
— O trabalho dela vale. Você mesmo viu como estou bem.
— Eu sei… eu sei… Também queria discutir o assunto dos pagamentos feitos a ela. Acho que você poderia ter abatimento nos impostos por se tratar de algo assim.
— Algo assim? Do que você está falando?
— Os pagamentos que você me pediu para depositar semanalmente são cem por cento destinados à conta de uma instituição chamada Casa della Nonna.
— Casa della Nonna?! — Edward repetiu, muito surpreso.
— É um abrigo para crianças órfãs. Nossa, cara, essas coisas me comovem.
Edward ouviu com assombro o que seu agente lhe comunicava e, antes de desligar, pediu a ele o endereço do lugar. Abalado, ele se pôs a pesquisar no laptop. Leu tudo o que encontrou sobre o abrigo e se deu conta de que Isabella acabava de surpreendê-lo mais uma vez: o dinheiro que ele pagava não era para ela, mas sim integralmente destinado àquelas crianças. Isabella e seus segredos.
Chamou um táxi e decidiu visitar o centro. Não tinha nada melhor a fazer. Quando o taxista parou em frente ao chalé nos arredores de Milão, Edward estremeceu ao ver o aspecto muito decadente do lugar, que precisava de uns bons reparos na fachada.
Se estava daquele jeito do lado de fora, ele se perguntava como estaria por dentro. O taxista, emocionado por fazer uma corrida para Edward Masen, não cabia em si de felicidade e propôs esperar por ele. Edward aceitou e saiu do táxi com a ajuda de sua muleta.
Assim que abriu o portão para entrar no jardim, várias crianças de idades diferentes o olharam; afinal, era um estranho. Porém, como ocorria na maioria das vezes, saíram correndo até ele no instante em que o reconheceram.
— Você é o Edward Masen? — perguntou um menino moreninho de óculos.
— O atacante do Inter? — insistiu, alucinado, outro menino um pouco maior. Com um grande sorriso, o jogador confirmou.
— Sim, amigos, sou eu mesmo, mas cuidado que estou de muleta.
A algazarra instalada naquele momento foi espetacular. As crianças se amontoaram ao redor dele, desejando perguntar um milhão de coisas. Era tamanho o tumulto, que uma mulher saiu para ver o que estava acontecendo.
— O que foi, crianças? — perguntou com desconfiança, ao notar a revolução que o desconhecido havia causado.
— É o Edward Masen, nonna. O jogador do Inter de Milão — gritou um dos pequenos.
— Nonna… Nonna, é o atacante do Inter — gritou emocionado outro garoto. — É o Edward Masen.
Depois de ouvir aquilo, a mulher olhou para ele e o reconheceu. Era quase impossível não reconhecer.
O rosto de Edward estava estampado em milhares de outdoors e, além disso, aparecia constantemente na televisão anunciando artigos esportivos.
Emocionada por aquela visita, ela o convidou a entrar no abrigo. Rodeado pelas crianças, Edward chegou até a cozinha onde estava a nonna, que pediu para os pequenos irem ao jardim para que ela e o jogador ficassem a sós.
— Saiba que sua visita, senhor, é muito bem vinda…
— Por favor, senhora, me chame de você.
A mulher sorriu, colocou duas xícaras sobre a mesa e acrescentou:
— Perfeito, Edward! Nesse caso te chamo de você, se me chamar de nonna. Agora se sente e tome um café. Puro ou com leite?
— Puro, por favor.
Enquanto a mulher esquentava o café, Edward sorriu ao ver as crianças aparecerem na janela. Ele as cumprimentou e elas responderam com sorrisos. Assim que a mulher colocou os dois cafés sobre a mesa, sentou-se em frente ao visitante.
— Espero que sua perna esteja melhor.
— Ah, sim, senhora. Está sim, obrigado.
— Agora que tenho você sentado na minha frente, quero agradecer por toda a ajuda que está nos dando ao longo de todo este tempo. Desde que suas doações chegaram à nossa instituição, pudemos comprar várias camas novas para as crianças, roupas, livros e tudo o mais e, principalmente, começar a arrumar a casa. Como você pode ver, ela está velha como eu e precisa de uma boa reforma. Pedi à Isabella que lhe agradecesse. Ela fez isso, não?
Comovido pela sinceridade que via na mulher, ele fez que sim e, sem desfazer seu engano, respondeu:
— Sim, Isabella me agradeceu.
— Ah, Bells… que pessoinha mais encantadora. — Sorriu. — Desde que chegou a este abrigo, não deixou de nos apoiar em tudo o que pôde e, até que chegasse a sua doação, ela, junto com outras moças que vêm nos dar uma mãozinha, custearam os livros das crianças para que pudessem ir à escola. Saiba que, quando ela comentou comigo que tinha conversado com você e que você, de maneira muito amável, tinha prometido colaborar com a casa durante alguns meses, fiquei sem palavras. Ajudas desse tipo, espontâneas, não se recebem todos os dias e… ai, meu Deus! Preciso lhe dizer, rapaz, que nos chegou no melhor momento possível. Este ano minhas crianças vão ter um lindo Natal e, claro, cada uma o seu presente.
Emocionado pelo que ouvia, Edward nada conseguiu contradizer. Sentiu-se péssimo por não dizer a verdade enquanto aquela mulher amável e tão afetuosa abria o coração. De repente, na porta da espaçosa cozinha uma carinha conhecida pelo jogador apareceu. Ali estava a moreninha de olhos impressionantes do hospital. Ao vê-lo, seu rosto surpreso se iluminou. Ela foi até ele e disse, entregando uma folha de papel:
— Fiz um desenho. Toma, é um presente.
— Reneesme, não perturbe o moço, tesouro — repreendeu a nonna.
Edward respondeu que ela não estava perturbando, e a menina pegou sua mão, apertou do mesmo jeito que tinha feito quando se viram no hospital e, sem dizer nada, decidiu sentar no colo dele. Rapidamente, Edward a acomodou em sua perna boa para proteger a outra.
— Essa é uma árvore de Natal com bolinhas verdes — disse ela apontando com o dedinho. — Você gosta de verde?
— Gosto, é uma cor muito bonita.
A nonna, ouvindo o alvoroço do lado de fora, se levantou e disse a Edward:
— Me dê licença um momento, Edward. Vou ver o que aquelas ferinhas estão fazendo.
Ele concordou.
— Verde é minha cor preferida — disse a menina, capturando toda a sua atenção.
Edward sorriu e ela continuou, tocando o cabelo dele:
— Vou ser cabeleireira, sabia?
Achando graça no comentário, Edward arregalou os olhos.
— Ah… que maravilha. Espero que quando for cabeleireira, você corte o meu cabelo.
— Tá bom — respondeu ela.
Durante alguns segundos eles se entreolharam até que a menina perguntasse:
— Sua perna dói?
— Não. E a sua?
A criança tocou a perna enfaixada.
— Um pouquinho. Mas sou uma menina forte. Bells sempre me diz isso.
Ele sorriu e ela continuou com as perguntas.
— Como você se chama, mesmo?
— Edward.
— Você é bonito — surpreendeu-lhe a menina, fazendo um carinho cuidadoso em seu queixo.
Comovido, ele respondeu:
— Você sim que é bonita, Reneesme.
— O desenho é pra você prender na geladeira com ímãs.
— Vou prender, muito obrigado.
— Você não disse se gostou do meu desenho.
— É lindo… maravilhoso. Adorei! — Ele deu um grande sorriso.
— Você tem namorada?
— Não.
— Quer namorar comigo?
O pedido provocou uma gargalhada em Edward. Aquela menina com o sorriso tão doce o fazia sorrir também. Ele deu um beijo carinhoso em sua bochecha e, bem quando ia responder, entrou um adolescente.
— Reneesme, não aborreça o senhor — repreendeu ele.
— É meu namorado.
— Reneesme! — reprovou o garoto, olhando fixamente para ela.
Edward sorriu. O menino tinha os mesmos olhos espertos da pequena.
— Não se preocupe, ela não me aborrece — disse ele.
O garoto sorriu e se aproximou deles um pouco envergonhado.
— Pode me dar um autógrafo? — pediu.
— Claro, como você se chama?
— Antony.
— Quero que você dê um autógrafo pra mim também — pediu a menina.
— Senhor, pode colocar no papel "para Reneesme e Antony"?, minha irmã é muito chatinha.
Quando o jogador terminou de autografar o papel e o entregou, o garoto murmurou, olhando aquilo como se fosse uma cápsula espacial:
— Obrigado, senhor.
— Não me chame de "senhor", Antony, está bem? Deslumbrado ao ver como o jogador era acessível, o menino concordou. Depois, fez um aceno de cabeça para a irmã, que desceu do colo no mesmo instante, e foi embora de mãos dadas com ele. Nesse momento a nonna entrou e Edward se levantou. Precisava ir embora.
— Pode me dizer onde fica a casa da Bells? — perguntou antes de ir e, mentindo, inventou: — Estou tentando ligar pra ela, mas ela não me atende.
A mulher pegou uma caneta e um papel e anotou. Depois de se despedir da senhora e de todas as crianças, Edward prometeu voltar outro dia. Elas pularam de alegria.
Ao chegar à Via Pietro Mascagni, ele pagou o taxista e tirou uma foto com ele. O homem lhe agradeceu com um sorriso radiante e um aperto de mão e então Edward ficou sozinho em frente à entrada, colocando o boné com a intenção de não ser reconhecido. Olhou para o interfone e, quando ia ligar para o quinto andar, um morador saiu do prédio e ele decidiu subir sem avisar.
O elevador parou no quinto andar. Ele hesitou. O que estava fazendo ali? Mas as portas se abriram e, sem pensar em mais nada, ele foi até o apartamento C e tocou a campainha. Quando a porta se abriu, o rosto de Isabella era digno de se ver. O que ele estava fazendo ali? E, sem dar tempo para que ele dissesse nada, perguntou:
— Quem te disse onde eu moro?
Edward sorriu, se apoiou na porta.
— Agora todo mundo já sabe quem você é, por que ia ser difícil eu descobrir onde mora a filha do técnico?
— Meu Deus do céu! Ele sorriu.
— Aliás, como terminou a festinha ontem à noite?
— Bem — ela riu ao se lembrar. — Terminou muito bem.
Sem conseguir ficar calado, ele disse em tom suave:
— Pelo que eu pude ver, alguns dos meus companheiros estavam morrendo de vontade de dançar com você.
— E eu com eles. — E antes que ele dissesse qualquer outra coisa, ela confidenciou: — Aliás, sem usar tamanho 36 e sem ser tecnicamente perfeita, você já viu que quando quero, os homens babam por mim.
Percebendo o rumo que a conversa estava tomando, Edward decidiu mudar de assunto. Quem era ele para ter dito aquelas coisas?
— Queria que você tivesse me contado quem era o seu pai e…
— E perder a cara que você fez quando descobriu? Nem pensar!
Estava claro que Isabella tinha uma resposta pronta para tudo.
— Posso entrar? — Ele afinal perguntou.
Um tanto surpresa, ela o convidou a entrar e ele, apoiado na muleta, passou ao interior. Reparou na decoração: a casa tinha as paredes pintadas de cores vivas e estava repleta de plantas. Não disse nada e se limitou a segui-la até à sala. Assim que chegaram, ela o encarou e perguntou:
— O que você quer?
Edward soltou a muleta, sentou e respondeu:
— No momento, se não for muito incômodo, um pouco de água.
Sem entender o que ele fazia ali, Isabella foi buscar o que ele tinha pedido, enquanto ele olhava em volta e ouvia a música. Reconheceu a voz de Alejandro Sanz, o que lhe agradou. Começou a cantarolar sem perceber:
Mi hembra, mi dama valiente se peina
la trenza como las sirenas
y rema en la arena, si quiere.
Ay mi hembra, tus labios de menta te queman
mejor con los míos si ruedan, mejor tu sonrisa si muerde
Ay mi hembra…
Tirou a jaqueta de couro, levantou-se, deixou-a sobre a cadeira e voltou sua atenção para as fotografias da estante. Surpreendeu-se ao ver ali Reneesme e Antony, sorridentes, em companhia do técnico e de sua mulher. Em outra foto Swan estava com três jovens. Gostou de reconhecer Isabella de cabelo azul.
— Bisbilhotando?
Ao ouvir a voz dela, o jogador deixou de cantarolar. Virou-se e, ao ver seu sorriso, respondeu:
— Está bem, você me pegou no flagra. Sou um curioso, mas só estava vendo as fotos da sua família. Sem sair do lugar, Isabella comentou:
— É isso que faz falta na sua casa: fotos de família. Não só aquela foto enorme sua comemorando um gol. Que egocêntrico! Aliás, você estava cantando a música do Alejandro Sanz?
Edward fez que sim e respondeu, para a surpresa dela:
— Gosto da música dele, algum problema? Ela o fitou, impressionada. Edward se distraiu olhando uma foto de um lindo pôr do sol e quis mudar de assunto.
— E isso, onde é?
Chegando até ele, ela pegou o porta-retratos.
— É um vilarejo chamado Orta de San Giulio, na província de Novara. É um lugar tranquilo aonde vou me esconder sempre que posso. Tenho uma amiga lá que administra um hotelzinho muito encantador, Il Rusticone. Recomendo para quando quiser se esconder. Assim que ela ficou calada, ele pegou outra foto.
— É sério que você já teve cabelo azul?
Ela deu uma gargalhada e colocou a foto do pôr do sol no lugar. Olhando para o retrato apontado por Edward, respondeu com carinho:
— Fui a cobaia da minha irmã Janet. — Isabella a apontou na foto. — Ela estava estudando para ser cabeleireira e olha só como deixou o meu cabelo.
Achando graça, Edward lembrou que a pequena Reneesme também queria ser cabeleireira.
— Por isso que meu pai e meu irmão me chamam de Smurfette — ela explicou com alegria, sem contar realmente a verdade. — Naquela época, foi um desgosto pra minha mãe. Janet pintou o cabelo de verde e eu de azul. Quando ela se lembra disso hoje em dia, acha muito mais engraçado.
Os dois voltaram a rir. Edward notou a forma como ela olhava para a foto. A garota morena que estava entre seu irmão e ela devia ser Janet. Edward tocou o rosto de Isabella com ternura e murmurou:
— Sinto muito pela sua irmã. Deve ter sido horrível.
— Foi sim — suspirou. — Janet era maravilhosa, superanimada, divertida, minha grande companheira de aventuras e minha melhor amiga. Essa perda foi irreparável para todos nós. Mas a vida segue em frente e, como ela diria, o show tem que continuar!
— O que aconteceu?
— Um acidente de carro num dia de neve. Estávamos juntas e um caminhão perdeu o controle na M-30 de Madri e… bom… o resto você pode imaginar.
Afastando-se da estante, Isabella deixou o copo d'água sobre a mesa. Não queria lembrar. Ele a seguiu, pegou o copo e deu um grande gole, horrorizado por ter tocado em um assunto tão delicado. Edward deixou o copo sobre a mesa, e ela voltou a sorrir, antes de perguntar:
— Muito bem, o que você está fazendo aqui? Não me lembro de ter dado meu endereço, nem de ter te convidado para vir à minha casa.
— Queria te ver.
— E pra que você queria me ver?
— Por que não me contou sobre a Casa dela Nonna?
— O quê?! O que você disse?!
— Dona Segredinhos, por acaso você achou que eu não ia ficar sabendo para onde ia o meu dinheiro?
— Seu dinheiro? Ah, não… você quer dizer o meu dinheiro! — esclareceu ela, erguendo a voz. — Eu trabalho pra você e, como você deveria saber, posso fazer exatamente o que me der na telha com o dinheiro que ganho.
— Claro que sim — respondeu ele ao ver que ela se colocou na defensiva. — Eu apenas gostaria que você tivesse me contado que doa para esse lugar absolutamente tudo o que ganha me atendendo. E antes que diga qualquer outra coisa, porque eu te conheço, acho que isso foi a coisa mais maravilhosa que eu já vi alguém fazer por outra pessoa. Fique sabendo que estou incrivelmente orgulhoso, porque isso me mostra que você tem um coração imenso. Aquelas palavras a desarmaram, e o próximo comentário de Edward ainda mais:
— Estou vindo de lá agora mesmo. Conheci a nonna e algumas crianças. Inclusive Reneesme me deu um desenho que está no bolso do meu casaco. Ah, além disso, ela me pediu em namoro. — Isabella sorriu. — O que a Reneesme tem realmente?
— Osteossarcoma. — Edward a olhava sem entender, e ela continuou: — É um tipo de câncer nos ossos.
— Câncer?! — repetiu o jogador, com um semblante realmente preocupado. Ao ver a expressão dele, Isabella entendeu o quanto a palavra "câncer" o assustava, por isso quis tranquilizá-lo, diminuindo sua gravidade.
— Fique calmo, ela foi operada há alguns meses e está se recuperando muito bem.
— Câncer? Aquela menina tem câncer?
— Tem.
Completamente pálido, ele prosseguiu muito desconsolado:
— Meu Deus, pobre criança! Câncer, que horror!
— Fique calmo, ela está bem.
— E por que a menina está na Casa della Nonna?
— E onde você queria que ela estivesse?
— Ué, na casa dela.
Isabella suspirou e o olhou direto nos olhos.
— La Casa della Nonna é a casa dela, Edward — explicou. — As crianças que você visitou são crianças abandonadas, sem lar. Crianças que cresceram sem os pais e que, para o próprio azar, são grandes demais para que as pessoas queiram adotá-las. — O rosto do jogador mostrava cada vez mais o quanto ele ficava desconcertado, à medida que ela ia dando mais informações. — Elas foram acolhidas por várias famílias, mas no final, voltaram ao mesmo lugar de onde saíram. Reneesme e seu irmão Antony são exemplos disso. Eles passaram por várias famílias adotivas, mas quando ficavam sabendo do problema da menina, acabam devolvendo-os ao centro.
— Não posso acreditar — admitiu ele, comovido.
— Pois acredite, Edward. As pessoas querem adotar crianças tecnicamente perfeitas. — Isso tocou o coração dele. Isabella continuou: — Adotar uma criança com problemas não é fácil, te digo isso porque também não quero dar a entender que essas pessoas são más. Reneesme e seu irmão Antony ficaram órfãos. A mãe era marroquina e o pai, italiano. Eles são dois guerreiros. Você deveria conhecer Antony. É estudioso e está se esforçando para ser médico e poder curar Reneesme, uma princesinha encantadora.
São maravilhosos, são crianças incríveis que aceitam a vida como ela é, apesar de tudo o que ela os faz passar.
Espantado ouvindo tudo aquilo, ele engoliu o nó de emoções que havia se formado em sua garganta.
— Sinto muito… eu… eu não sabia…
— Eu sei, Edward… eu sei. Não se preocupe.
Edward ainda estava comovido, quando Isabella, sem dar trégua, perguntou:
— Você contou à nonna que sou eu quem doa esse dinheiro toda semana? Me diga, por favor, que não disse a verdade a ela. Ele a encarou sem entender nada e deu de ombros. Ela afastou o cabelo do rosto e continuou:
— Escuta, Edward, se eu dissesse que esse dinheiro era meu, a nonna não teria aceitado. Mas vindo de você, não houve nenhum problema. Você é uma estrela na Itália, o touro espanhol, um grande jogador de futebol, e ela sabe que você pode se permitir isso e até mais. E agora, me diga que não lhe disse a verdade.
— Me dá vergonha admitir, mas não tive coragem de dizer a verdade e…
— Que bom! Que bom! — aprovou Isabella, interrompendo. Mudando de assunto, ela perguntou tocando-lhe o braço: — Tem algum plano para o almoço?
— Não…
— Então te convido para uma salada incrível e espetacular com tomatinhos cereja, acompanhada de uma saborosa tortilha espanhola de batata com cebolinha que acabo de fazer. Quer provar?
— Você que cozinhou?
— Ahã…
— Huuum… não sei se devo me arriscar — brincou ele.
— Se arrisque, pode ter certeza que vai adorar.
— Notando o ar brincalhão no olhar dele, ela continuou: — Eu como com maionese e ketchup, mas você pode comer como quiser. — Notando ainda a expressão de Edward, Isabella disse: — Falei da maionese, porque pra manter essas curvas e esse corpão que Deus me deu, preciso me esforçar. Edward deu uma gargalhada. Aquela mulher era incrível.
— Isabella … chega disso. Eu…
— Fique tranquilo, príncipe… sou consciente das minhas imperfeições. — E sem dar tempo para ele continuar, insistiu: — Fique pra almoçar, te prometo que você vai até lamber os dedos. Edward gostou da hospitalidade acolhedora de Isabella. Sorrindo, por fim disse:
— Está bem, vamos ver se essa tortilha de batata está tão boa quanto a da minha mãe.
Dez minutos depois, estavam saboreando a comida na mesa da cozinha.
— Está tudo ótimo, você é melhor cozinheira do que eu pensava. Isabella riu.
— Isso é porque você está comendo minha especialidade. Se um dia quiser dizer exatamente o oposto, venha que eu faço fettuccini ao molho pesto. Sempre fica nojento!
— Posso te chamar de Bells, como parece que todos te chamam? — Ele se animou a pedir, notando o clima leve que se instaurava entre os dois naquele momento.
— Pode, mas saiba que só permito porque você comeu a tortilha que eu fiz e por isso mereceu.
Ficaram conversando e conversando. Isabella soube que dali a dois dias ele iria para a Espanha passar as festas de fim de ano com a família e não voltaria até o dia 4 de janeiro. Ela ficou contente por ele e brincou dizendo que tiraria umas férias de ver sua cara durante esse tempo. Riram.
Depois do almoço, se distraíram assistindo a uma partida de tênis na TV. Nadal estava jogando e eles ficaram torcendo. Com muito esforço e determinação, o espanhol ganhou e eles comemoraram com cerveja. Sem vontade de ir embora, notando que ela estava à vontade com sua presença, e vendo que Isabella também tinha a trilogia O Senhor dos Anéis, Edward propôs assistirem ao último filme, aquele que não tinham terminado de ver na casa dele. Ela aceitou feliz da vida e, estirados no sofá como dois bons amigos, começaram a assistir. Na metade do filme, Isabella deu pausa.
— Quer algo para beber?
— Outra cervejinha cairia bem, mas desta vez sem álcool, pode ser?
— Claro! Saindo!
Ela desapareceu da sala e, novamente, Edward sorriu. Como era fácil sorrir com Isabella. Deitado no sofá, ele observou o que ela gostava de ler. Havia ali uma estante enorme repleta de livros e muitos CDs. Ele se admirou de ver música de todos os estilos: espanhola, inglesa, italiana, americana, embora o que mais tivesse chamado sua atenção fosse a enorme coleção de Elvis Presley. Tinha a discografia completa. Quando ela reapareceu, trazia duas cervejas e uma bacia de pipoca. Edward voltou ao sofá e disse, pegando a garrafa que ela lhe entregava:
— Vejo que você gosta muito de Elvis.
— Claro. — E, vendo que ele ria, bateu sua cerveja na dele fazendo um brinde: — A música do Rei é a melhor que existe pra levantar o astral. Quando você quiser, eu te mostro. Sem dizer mais nada, ela deu o play no filme.
Mais uma vez eles mergulharam na história comendo pipoca e tomando cerveja. Ficaram assim até o final. Depois de um bom tempo de papo, ela olhou distraída para o relógio: eram nove e meia da noite.
— Bom, acho que é hora de você ir embora.
Ele não acreditava. Estava sendo expulso? Ao ver a cara de espanto de Edward, Isabella sorriu. Na verdade tinha pensado em convidá-lo para jantar, mas na última hora decidiu que não. Seria demais. Ele começaria a imaginar coisas e esperaria uma boa sobremesa. Por isso, ela se levantou do sofá, se espreguiçou e entregou a muleta a ele.
— Vamos, eu te levo em casa. Desconcertado com a forma direta como ela o estava mandando embora, ele negou:
— Não… é tarde e eu não quero que você ande sozinha de carro.
— Aiii… mas que atencioso! No fim das contas, é um cavalheiro. — Ela tocou o cabelo dele.
— É sério, Bells, não quero que você ande sozinha pelas ruas em uma hora dessas e por minha causa.
Ela voltou a olhar no relógio.
— Como assim "em uma hora dessas"? São apenas nove e meia da noite.
— Vou chamar um táxi, não se preocupe — insistiu o jogador.
— Vai sonhando! E, antes que continue dizendo bobagens, fique sabendo que sou uma mulher independente e acostumada a sair sozinha à noite e…
— Mas se podemos evitar, por que fazer isso?
— Porque eu quero. Se eu estivesse de muletas na sua casa, você não se ofereceria para me levar em casa? — Ele fez que sim e ela colocou um ponto final no assunto. — Então não diga mais nada.
Quarenta minutos depois estavam em frente à casa de Edward. Era a hora de se despedirem, mas nenhum deles parecia querer fazer isso.
— Você vai à festa à fantasia do Emmett? — perguntou ele, por fim.
— Não.
— Por que não?
— Simplesmente porque não tenho nada o que fazer lá.
— Eu ia gostar de te ver fantasiada. Tenho certeza de que ia ficar muito sexy — sussurrou Edward, sedutor.
— Sexy?! — Quase engasgou ao pronunciar aquela palavra, e uma gargalhada estalou em sua boca.— As mulheres gostam de fantasias de sereias, princesas ou Cleópatras sedutoras. Todas gostam de se exibir nesse tipo de festas. Não me diga que não.
Aquele comentário a fez rir. Era verdade que, quando ia a alguma festa desse tipo com suas amigas, todas gostavam de ir provocantes e sensuais. Ela quase lançou uma farpa, mas ele interrompeu, fazendo uma proposta:
— Quer entrar pra beber alguma coisa?
— Não.
— Podemos jantar, acho que tenho na geladeira um…
— Não, está tarde. Preciso voltar pra casa. Aliás, divirta-se na Espanha, cuide da perna e até o ano que vem! — E, apressando-o a entrar para que ela não acabasse se atirando em seu pescoço e o enchendo de beijos, Isabella brincou: — Vamos… vamos, principezinho, desça da carruagem antes que vire abóbora. Te trouxe são e salvo até seu castelo e agora tenho que voltar ao meu, que só tem um cômodo.
Edward não gostou do tom da piada, desejava ficar mais tempo com ela. Ele a encarou e respondeu:
— Fique sabendo que não acho graça nenhuma em você ser minha taxista. E fique bem claro que isso não é algo que vai se repetir, entendeu?
— Não sabia que você era tão tradicional. — E morrendo de rir, ela perguntou baixinho: — É sério que você está me dizendo que uma mulher não pode levar um homem até a casa dele?
— Isso mesmo.
Ela não conseguiu reprimir uma gargalhada bem sensual. Jogou a cabeça para trás de tal forma que seu pescoço se mostrou doce e tentador. Edward, desesperado, sentiu por alguns segundos que começava a ficar excitado e quis responder, mas ela se antecipou:
— Meu Deus! As coisas que a gente ouve em pleno século XXI. — Mudando o tom, ela pediu: — Pode descer antes que me diga mais bobagens?
E então aconteceu: Edward esticou a mão, pegou a nuca de Isabella, puxando-a para si, e a beijou. Com a língua a saboreou como havia dias queria fazer. Isabella era doce, suave, tentadora e o melhor de tudo: ela não o repeliu. Durante alguns minutos, eles saborearam um ao outro com delicadeza e prazer, até que ela reuniu forças, deu-lhe um empurrão e eles se separaram.
— Se você me beijar outra vez, juro que… E Edward fez de novo: a beijou outra vez. Queria mais. Aquele beijo tinha aberto seu apetite voraz e o fez insistir. Confusa pelo próprio desejo, Isabella correspondeu. Entrelaçou seus dedos nos belos cabelos do jogador e aproveitou. Porém, quando sentiu que as mãos dele subiam por sua cintura em direção aos seios, ela o afastou com todas as suas forças e o ameaçou:
— Volte a me beijar e eu deixo de ser sua fisioterapeuta.
— Você me deseja tanto quanto eu te desejo — sussurrou ele, com os lábios próximos aos dela. — Admita e venha comigo. Assim podemos fazer o que tanto eu como você queremos.
A tentação passou pela cabeça de Isabella. Ela o desejava. Sim, tinha consciência disso, mas respondeu:
— Vai sonhando!
— Bells…
— Ah não… e nem volte a me chamar de Bells— disse, empurrando Edward para se separar dele. — Meus amigos é que me chamam assim e com o que você acabou de fazer, me demonstrou que de amigo, tem muito pouco. Por isso, volto a ser Isabella pra você.
— Mas o que está dizendo?
E, sem responder à pergunta, ela prosseguiu:
— Fico feliz de não ter que te ver de novo por uns tempos, porque se tivesse que olhar pra você amanhã, nós dois acabaríamos muito mal. Só te peço uma coisa: quando voltar, troque o disco em relação a mim, porque isso não vai acontecer de novo, entendeu? — Ele não contestou. Só olhava para ela com desejo e ela ordenou entre dentes: — E agora, saia da droga desse carro para que eu possa ir embora se você não quiser que eu te expulse aos chutes.
Desconcertado por tudo o que aquele beijo o tinha feito sentir, ele desceu e fechou a porta. Isabella arrancou imediatamente e saiu dali pisando fundo.
Três minutos depois, entrando em casa, a cadela o recebeu. Ele deitou no sofá e gritou, ainda excitado:
— Maldita atacadinha!
Hey o que acharam do primeiro beijo deles?
Ai ai, amo esses dois rsrs
Beijos, até.
