Capítulo 6
Time to heal
Pela terceira vez naquele dia Harry apagou mensagens de voz deixadas em seu celular por Oliver. Em todas elas ele dizia que sentia falta do moreno e que precisava falar com ele urgentemente. Harry sinceramente não sabia o que "urgente" significava no dicionário do rapaz, porque certamente havia coisas muito mais urgentes a serem tratadas naquele momento.
Como, por exemplo, o estado crítico no qual se encontrava Melttown, a cidade vizinha a Little Aiming. Tarde da noite do domingo, o prefeito de Melttown entrara em contato com Dumbledore pedindo pelo amor de todas as coisas nas quais ele acreditava que ele mandasse qualquer tipo de ajuda financeira e/ou profissional.
Por algum motivo – o qual os investigadores da própria cidade e os enviados de Little Aiming tentavam descobrir qual era – todo o dinheiro da cidade estava, literalmente, desaparecendo. Todo o comércio estava segurando-se por um único fio e seu romper era temido por muitos.
E era nisso que Harry estava pensando, honestamente. Little Aiming estivera nessa mesma posição há alguns anos e talvez isso fosse um aviso – ou talvez fosse apenas o resultado de um governo ruim. A manchete do jornal daquela manhã gritava a situação na qual a cidade vizinha se encontrava. Os cidadãos de Little Aiming estavam informados e não havia com o que se preocupar ainda.
Claro que era nisso que o moreno de olhos verdes estava pensando, e não no fato de ele ter visto Draco Malfoy conversando com Neville no quintal de sua casa na manhã anterior, quando Harry estava na casa de seus pais. Não havia nada no que se pensar quando Draco riu alto de algo que Neville havia dito e Harry havia esquecido a beleza de ouvir aquele som até então.
Os quintais das duas casas – a dos Potter e a dos Malfoy – eram divididos por uma cerca viva de um metro e nada mais. Nunca fora necessário, durante todo o tempo em que o local era ocupado pelos Malfoy, aumentar a cerca ou adquirir alguma outra coisa que lhes desse um pouco mais de privacidade.
Lily havia lhe dito que Draco não passava muito tempo em casa, mas Neville estava tentando reconstruir o jardim, ao que a única coisa que parecia realmente viva era a cerca que dividia os espaços. Sempre gentil, sua mãe oferecia almoço e um pequeno lanche a Neville, que passou a aceitar após a insistência diária.
Uma pequena batida soou na porta do escritório de Harry e ele rezou para que não fossem más notícias, mas rapidamente permitiu que a pessoa entrasse. O moreno quase deixou um xingamento escapar alto de sua boca quando a cabeça de Oliver surgiu na fresta, sorridente.
- Você está ocupado? – Ele perguntou com certa expectativa.
- No momento não. Pode entrar. – Harry forçou um pequeno sorriso e acenou para a poltrona em frente à mesa, onde Oliver sentou. – A que devo sua visita?
- Eu não tenho muito tempo, infelizmente. Vou ter que ir treinar o pessoal da Universidade em menos de uma hora, mas quis aproveitar esse tempo para vir falar com você. – Oliver explicou com um tom de voz forçadamente calmo. – Você recebeu minhas mensagens?
- Claro. Todas as oito que você mandou. Desculpe por não ter respondido, mas se você tiver visto o jornal desta manhã, acho que não precisarei explicar nada. – O moreno disse com simpatia.
- Harry, o que está acontecendo? – Ele perguntou e Harry esperou que ele continuasse para saber do que ele estava falando exatamente. – Você não atende meus telefonemas, não responde minhas mensagens e nunca está em casa quando eu vou até seu apartamento. Eu fiz alguma coisa errada?
- É claro que não. – Harry sacudiu a cabeça e de repente ele estava se sentindo a pior pessoa no mundo. – Não tem nada a ver com você, Oliver.
- Agora você me vai sair com "o problema não é você, sou eu"? – Harry quis rir, por que era exatamente isso. – Nós nos conhecemos há tanto tempo, Harry. E eu sinceramente achei que estava indo tudo bem, que nós estávamos mais do que bem. Até aquela noite no bistrô, quando você parecia estar passando mal e sumiu por alguns dias. Você sabe que pode falar comigo.
- Eu sinto muito, de verdade. Eu queria poder fazer alguma coisa, mas eu não posso. – Ele baixou a cabeça e suspirou pesadamente.
- Já se passaram mais de duas semanas. Eu estou sentindo sua falta. – Oliver escorregou até a ponta da poltrona, inclinando-se o máximo que podia sobre a mesa de Harry, forçando-o a levantar o rosto e olhando no fundo de seus olhos. Levantando-se para se aproximar ainda mais, Oliver o beijou.
A maciez dos lábios do outro rapaz não era mais nenhuma surpresa para Harry, assim como sua gentileza, mas a grande novidade era a falta do friozinho em sua barriga quando Oliver agia tão apaixonado.
Harry sentiu quando Oliver segurou seu rosto entre suas mãos, acariciando suas bochechas com os polegares, escorregando uma delas para as mechas de seu cabelo em seguida. Levado pela familiaridade da situação, guiado por movimentos automáticos, Harry o puxou pela gravata listrada azul e cinza que Oliver usava e se entregou ao beijo.
A posição com certeza era desconfortável para Oliver, provavelmente ele tinha medo que qualquer movimento brusco de sua parte poderia fazer Harry parar, mas mesmo assim o rapaz fez jus à atração que Harry sentia por ele.
Quando ambos precisaram respirar, Oliver colou suas testas, suas duas mãos ainda nos cabelos negros de Harry, e deu um sorriso estupidamente brilhante. Harry também sorriu, dando um pequeno beijo nos lábios sorridentes do rapaz antes de se afastar e levantar-se.
Oliver o seguiu, parando atrás dele quando Harry encostou-se ao parapeito da janela e enlaçou sua cintura com um abraço. Aquela sensação também não era nova, a do peito definido de Oliver contra suas costas, mas o moreno recostou-se nele mesmo assim.
- Eu senti sua falta. – Oliver sussurrou em seu ouvido, ainda sorrindo.
Harry apenas se encolheu nos braços do rapaz, suspirando enquanto observava os poucos carros e muitos pedestres do lado de fora da janela. Muitos rostos conhecidos passaram e os dois permaneceram naquela mesma posição até o relógio de pulso de Oliver começar a apitar.
- Eu tenho que ir. – Ele avisou, colocando as mãos na cintura de Harry para girá-lo e colocá-lo de frente para ele. – Quando sair daqui vá até meu apartamento. Eu realmente estou sentindo sua falta, Harry.
Com um último beijo, uma piscadela e um sorriso promissor, Oliver deixou Harry sozinho em seu escritório novamente, pensando em nada além da situação de Melttown.
Harry estava prestes a descer até o apartamento de Oliver quando a campainha tocou. Ele havia decidido ir por que Harry acreditava que o outro rapaz não havia ligado sua reação a presença de Draco, então, enquanto Oliver não fizesse perguntas, Harry estaria satisfeito.
O moreno abriu a porta para ver o sorriso amigável de Blaise, que ainda usava o jaleco branco com seu nome bordado e o emblema do hospital. Harry tentou não encarar muito, mas o rapaz ficava extremamente atraente naquela vestimenta.
- Veio cobrar o autografo que eu lhe prometi? – Harry deu um passo para o lado e deixou Blaise adentrar o local.
- Hoje não, mas agradeço a oferta. – Ele deu uma piscadela e sorriu. – Você resolveu se enfiar dentro deste apartamento e não me dar mais notícias, então o único jeito de falar com você, aparentemente, é vir até aqui.
- Blaise, por favor, eu não quero falar sobre o que aconteceu, está bem? Eu já falei e ouvi o suficiente de pelo menos uma dúzia de pessoas. – Com um suspiro cansado, Harry tirou os óculos e massageou a ponte de seu nariz.
- Do que você está falando? – Blaise perguntou franzindo o cenho. – Eu vim aqui por que acabei de voltar do hospital e descobri que não tenho nada descente para comer na minha geladeira.
- Você quer que eu cozinhe pra você? – Harry riu. – Sinto muito. Mesmo se eu estivesse disposto a fazer isso, não poderia. Oliver está me esperando no apartamento dele.
- Uh, teremos um ménage a trois esta noite, então. – Blaise disse de maneira oferecida.
- Dificilmente. E com você usando esse jaleco eu não iria querer dividir. – Ele explicou com um pequeno sorriso, cruzando os braços.
- Ora, ora, ora. – Blaise riu. – Harry Potter tem um fetiche.
Com passos felinos Blaise foi se aproximando do outro rapaz, puxando-o pela gola da camisa quando pôde alcançá-la. Harry apenas sorriu. Há tempos ele já havia se acostumado com essas atitudes de Blaise.
- Você deveria ir me visitar no hospital qualquer dia desses, Harry. Nós iríamos nos divertir muito, sem nem ao menos deixar minha sala.
- Você deveria pensar duas vezes antes de fazer esse tipo de proposta, Blaise. – Ele avisou assim que o rapaz se afastou com um pequeno sorriso.
- Por quê?
- Eu posso acabar aceitando. – Harry piscou e alinhou sua camisa branca, rindo quando Blaise grunhiu e murmurou alguma reclamação.
- Oliver tem muita sorte. – Blaise resmungou e jogou-se no sofá da sala, folgando a gravata em seu pescoço e abrindo os dois primeiros botões de sua camisa.
- O que você realmente veio fazer aqui, Blaise? – Ele perguntou com um sorriso brincalhão.
- Eu vi a manchete do jornal de hoje.
- Parou de roubar os de Ginny?
- Até parece. – Blaise bufou e os dois riram. – É preocupante para nós o que está acontecendo em Melttown, você não acha?
- Eu estou tentando não ligar um evento ou outro, mas é alarmante. – Ele suspirou.
- Você teve mais alguma notícia?
- Dumbledore mandou toda ajuda que pôde e o prefeito de Melttown pediu ajuda a outras cidades vizinhas também, mas acho que sem saber exatamente onde se encontra o problema, fica difícil resolver a situação.
- E se for Riddle? – Blaise perguntou com certo receio.
- Dumbledore está esperando mais algum sinal, mais algum alerta, e se ele suspeitar que seja Riddle, todos nós seremos colocados em alerta.
- Little Aiming está mais forte agora. Precauções passaram a ser tomadas. Talvez não tenhamos tantos problemas se ele tentar alguma coisa dessa vez.
- O problema é que Riddle não é estúpido, Blaise. Ele vai ter pensado em tudo isso. Nas precauções e em nossas preocupações. Riddle vai saber por onde atacar.
- Hermione disse que Dumbledore está suspeitando de seguidores dele estarem infiltrados na prefeitura. Talvez ele vá começar por lá. – Blaise deu de ombros.
- Talvez seja isso que ele espera que nós pensemos.
- Como você consegue dormir a noite, Harry? – Ele brincou, levantando-se.
- Quando foi que eu disse que consigo? – Harry respondeu e o seguiu até o elevador.
Na sexta-feira tudo o que Draco queria era cair na cama e dormir pelo resto do ano. A semana havia sido cheia no hospital e os jornais matinais traziam notícias sobre a situação de Melttown, a cidade vizinha. Ele estava um tanto quanto assustado com a velocidade com a qual a cidade estava ruindo, declarando oficialmente um estado de emergência.
Draco inclusive pensara em ligar para Cedric e desmarcar o jantar no Centro para o qual ele o havia convidado, mas fora a surpresa que ele teve ao pisar na sala de estar de sua casa que o fez mudar completamente de ideia.
- Draco, querido. – Narcissa exclamou, levantando-se rápida e graciosamente da poltrona onde ela relaxadamente bebericava uma xícara de chá. – Eu não o esperava de volta tão cedo, mas fico muito feliz em vê-lo novamente. Eu estava em Londres morrendo de saudados do meu filho.
- Mãe? – Draco arregalou os olhos. – Pelo amor de Deus, o que você está fazendo aqui?
- Ora, Draco, depois de passar tantos anos tornando você esse homem digno que você é hoje em dia eu esperava uma recepção mais calorosa, sinceramente. – Ela reclamou, aproximando-se dele para beijar-lhe as bochechas.
- Sem drama, mãe, não faz o seu estilo. – Ele revirou os olhos.
- Eu estava apenas com saudades e me senti muito sozinha em Londres, seu pai anda ocupado com algo que ele prefere não me dizer o que é. – Narcissa fez um movimento vago com a mão e voltou para sua poltrona.
- Então você resolveu vir até aqui? Por que, exatamente?
- Eu sou sua mãe, Draco, e quer você queira ou não, você precisa de mim. Se você adoecer, quem vai cuidar de você? – Ela perguntou, exasperada.
- Mãe, eu sou médico. – Draco observou.
- Pediatra. – Narcissa corrigiu. – E você não é mais uma criança, querido.
Draco apenas a encarou. Ali estava Narcissa Malfoy com toda sua amabilidade e graça, sendo adorável como sempre, e Draco riu alto. Ele não havia percebido até vê-la bem na sua frente, mas Draco sentira falta de sua mãe.
- A propósito, querido, eu acho que você precisa mesmo de minha ajuda. – Ela sussurrou como se conspirasse contra algo. – Quero dizer, quando se trata de contratar serviçais, você não tem tanto aptidão quanto eu, e não tem problema é claro, esse é o meu dever, mas esse seu mordomo é muito estranho.
- Mordomo? – Draco franziu o cenho. – Eu não tenho um mordomo.
- Bem, ele se apresentou como Neville e quando eu pedi que ele me fizesse um chá, ele me olhou como se eu tivesse duas cabeças. – Narcissa riu contidamente.
- Você pediu para Neville preparar chá? – Ele segurou mais uma risada alta. – E ele fez?
- Você acha? – Ela olhou para o filho com uma expressão de obviedade. – Havia uma adorável senhorita com ele, Luna. Ela se ofereceu para fazer e devo dizer que ela sim é uma boa empregada. Foi uma boa escolha, querido, estou orgulhosa.
- Mãe, Neville é meu jardineiro e Luna é ajudante dele. – Draco explicou após uma crise de risos onde Narcissa apenas o assistiu com um pequeno sorriso. – Eu o contratei para tentar reconstruir o quintal.
- Oh. – Narcissa olhou por cima do ombro, na direção de onde o jardim se encontrava. – Bem, isso explica muita coisa. – Ela afirmou com a cabeça e voltou a observar seu filho. – Enfim, e como está Harry? Mal posso esperar para vê-lo novamente.
Em um segundo o bom humor e o fantasma da risada do loiro se foram. Narcissa obviamente percebera a mudança repentina do humor de seu filho, mas ela apenas permaneceu ali sentada, analisando cada movimento dele enquanto tranquilamente tomava o chá que fora feito por Luna.
- Ele mudou muito nesses seis anos? – A loira perguntou com uma inocente curiosidade.
- Não, não muito. – Aquela era apenas uma pequena mentira, afinal Harry não havia mudado muito, mas ele estava estupidamente mais bonito.
- Tenho certeza que ele continua adorável. Quando eu poderei vê-lo?
- Por aqui? – Draco riu amargamente. – Talvez se você olhar pelo batente da porta ou pela janela da sala seja possível vê-lo quando ele vier visitar os pais. Ou então é só ir até a casa de Andrômeda que ele poderá estar presente. É apenas uma questão de sorte.
- Oh, minha querida irmã. – Narcissa lamentou-se dramaticamente. – Preciso vê-la urgentemente, é claro. E o pequeno Teddy, você o conheceu?
- Ah, sim, ele é um ótimo menino. – O loiro sorriu diante a lembrança da criança. – Muito inteligente e cheio de vida.
- Ele tem o espírito de Tonks, então. – Ela assentiu com a cabeça como se fizesse uma confirmação mental.
- Andrômeda ainda não me disse os reais motivos da morte dela.
- Ora, Draco, esse não é o tipo de conversa que se tem durante um jantar ou numa manhã de trabalho. Quando for o momento certo, eu sei que ela vai lhe contar tudo, apenas não a pressione. – Narcissa pediu. – Você acha que Lupin está fazendo um bom trabalho com Teddy?
- Bem, eu não tive muito tempo com ele. Não passamos muito das apresentações. – Draco murmurou, seguindo até as escadas, mas sua mãe veio logo atrás.
- Por quê?
- Fomos interrompidos. – Ele deu de ombros e continuou subindo.
- Por quem?
- Pessoas. – O loiro respondeu por cima do ombro apenas para ter certeza de que sua mãe o estava seguindo.
- Draco!
- Harry, Lupin e Sirius. – O primeiro nome fora dito mais rápido e mais baixo, enquanto os dois últimos foram alongados e mais demoradamente pensados para que a lista parecesse mais longa.
- Querido, você sabe que fugir dos seus problemas não vai levá-lo a lugar nenhum, não sabe? Eu fico muito chateada vendo-o assim. Eu me lembro de como você e Harry costumavam ser sempre tão unidos, sempre tão amigos, e esse tipo de coisa não simplesmente some.
- Simplesmente? – Draco riu. – Não é simples, mãe. Eu cometi um erro e agora estou tendo que arcar com as consequências. Eu tentei colocar a culpa em outra pessoa, mas agora eu sei que ela é inteiramente minha. Eu fui fraco.
- Fraco não entra na sua lista de adjetivos, meu filho. – Narcissa negou com a cabeça, sentando-se na beira da cama de Draco, quanto este seguiu seu caminho até seu quarto. – Você não pode desistir, Draco.
- Não há desistência quando não há pelo que se lutar. – Ele respondeu e em seguida virou-se para seu guarda roupa para procurar algo para vestir mais tarde.
- Como você pode dizer que não há pelo que se lutar? – A loira soou horrorizada.
- Harry seguiu em frente, mãe. Eu ter voltado para Little Aiming também fora um erro meu. Eu deveria ter pensado no que isso provocaria. – Draco suspirou. – Você tem alguma ideia do quanto dói vê-lo por ai com um idiota pendurado em seu braço quando ele nem ao menos suporta olhar pra mim? Se por acaso você souber o que eu devo fazer para tirar aquela expressão de desprezo do rosto dele toda vez que ele me olha, eu ficaria eternamente grato.
- Querido, você tem que ser eternamente grato a mim por eu ter lhe carregado na minha barriga por nove meses e lhe criado. – Narcissa observou. – Mas quanto ao assunto anteriormente tratado, é você mesmo quem vai mudar a impressão de Harry sobre você, Draco. E, sinceramente, ficar aqui atrás do que vestir para sair com outra pessoa não o trará de volta, pode ter certeza disso.
- É mais complicado que isso. – Ele murmurou.
- E vocês complicam muito mais. – A loira resmungou, revirando os olhos. – Deus, os dois são adultos, homens feitos, sentem e conversem como pessoas civilizados ao invés de ficarem com discussões e um jogando sal nas feridas do outro. Eu sei que é isso que vocês fazem, mas tente outra abordagem. Surpreenda-o, querido, e talvez ele possa lhe dar uma nova chance.
Draco não havia percebido que sua mãe havia levantado do colchão confortável e agora estava há alguns passos de distancia dele, os quais foram rapidamente cortados para que Narcissa beija-se sua testa, deixando o quarto em seguida.
Harry abriu o armário e tirou algumas caixas da prateleira superior, colocando-as no chão até que ele tivesse acesso ao que procurava. No fundo, praticamente escondida, havia uma pasta preta com aparência de em algum momento no passado ter sido frequentemente manuseada.
Draco subiu as escadas num ritmo mais lento, continuando a caminhar ao longo do corredor ao invés de dobrar à direita e ir para seu quarto. Ele parou em frente a uma porta de madeira escura e entalhada, girando a maçaneta de cobre frio e adentrando o local.
As mãos de Harry tremiam quando ele sentou-se no sofá com a pasta em seu colo. Ele passou as páginas e seu coração acelerou enquanto em sua mente ele revivia com as lembranças que cada imagem lhe trazia.
Após fechar a porta atrás de si, Draco deu uma volta no cômodo, o tempo todo evitando encarar seu reflexo nas paredes espelhadas. O carpete puramente branco contrastava perfeitamente com o piano preto, chamando todas as atenções para ele quando a luz refletia em ambos.
Com um suspiro trêmulo, Harry deixou seu desenho preferido aberto e pousou a pasta sobre a mesinha, alcançando uma folha em branco e um lápis preto em seguida. Encontrando uma posição confortável no sofá, seus olhos fecharam-se por alguns segundo antes de sua mão começar a correr sobre o papel.
Draco sentou-se no banco igualmente preto, sua postura ajustando-se automaticamente. Com apenas alguns segundos de hesitação, ele abriu a tampa para revelar as teclas brancas convidando-o. Experimentalmente Draco passou a ponta dos dedos sobre elas, sem realmente aperta-las, apenas sentindo-as.
O queixo angular que surgira na folha era dolorosamente familiar, assim como um pequeno sorriso que foi tomando forma sob a ponta ágil do lápis que se encontrava firme na mão de Harry.
Dando alguns suspiros profundos, Draco deixou seus dedos afundarem-se nas teclas e a melodia encheu o quarto automaticamente. Algumas notas tristes atingiram os ouvidos do loiro e prosseguiram contando sua história.
Conforme mais alguns traços conhecidos iam aparecendo, o tremor nas mãos de Harry diminua até cessar completamente. A forma do nariz dera abertura para as sobrancelhas e os olhos, onde o moreno se deixara guiar pela memória.
O ritmo que batia contra as paredes agora era frenético e há algum tempo Draco havia fechado os olhos, deixando a emoção pulsar em suas veias como se fossem sua própria. Enquanto seus dedos corriam sobre as teclas, ele se juntava a eles. Ele correra para longe, o mais longe que podia, sua respiração estava acelerada e suas mãos trêmulas, mas ele estava familiarmente seguro.
Todas as feições aristocráticas já se mostravam contra o papel puramente branco, contrastando com os riscos pretos do lápis. A emoção nos olhos cinza fora o que o fizera prender a respiração e reprimir um soluço – saudades.
Draco.
O frenesi chegava ao fim e o coração do loiro bombeava com força, fazendo-o sentir-se preso naquele cômodo que de repente parecia pequeno demais. Enquanto a emoção o guiava, Draco se deixou levar até que ela se acalmasse, restando apenas o reflexo da lembrança dela mesma nos olhos esmeralda. Havia um nó em sua garganta, algo queimava atrás de seus olhos e suas mãos tremiam como consequências daquele sentimento – medo.
Harry.
Há seis anos Draco não tocava piano. Há seis anos Harry não desenhava. Há seis eles não se viam. E de repente tudo mudou.
