Jensen continuava fascinado com a luz que emanava de Jared cada vez que ele sorria. Um sorriso tão lindo, tão sincero, tão puro. E quando ele gargalhava jogando a cabeça pra trás? Algo se iluminava dentro de Jensen. Era como se algo se preenchesse dentre dele. Todas aquelas angústias, aquele vazio, iam embora. Jensen estava mais leve, mais tranquilo. Ele estava feliz. Mas ao mesmo tempo em que estava feliz, ele sentia muito medo. Não sabia muito bem o porquê, mas estava com medo. Só de pensar que em algum momento Jared iria embora, ele sentia um vazio dentro de si. Mas isso aconteceria cedo ou tarde, não é mesmo? Porque Jared não ficaria pra sempre morando na casa de Mrs. Margareth. Ele tinha a vida dele. Sem contar o fato de que provavelmente ele tinha alguma namorada. Este pensamento fez Jensen fazer uma carranca. Namorada. Será que ele tem uma namorada? Duvido que um bom partido igual a ele esteja solteiro. Ele deve ter algum compromisso com alguma garota...

-Um milhão por seus pensamentos – disse Jared, sorrindo.

-Eu...bem...não... – Jensen corou violentamente.

- Desculpe, não queria deixa-lo sem graça. É que você estava tão pensativo...

-Estava pensando em uma música... Nossa Jensen, que desculpa mais ridícula! -pensou Jensen.

-Aposto como era uma música da Lady Holiday! – disse Jared, sorrindo.

-Sim... era uma música que eu realmente gosto. – Jensen só tinha uma música dela na cabeça... The Man I love.

-Aposto como acerto! – disse Jared abrindo mais ainda o sorriso.

- Ok... o que você quer apostar? – Jensen também sorriu.

-O seu pedaço de bolo que Mrs. Margareth fez para sobremesa!

-Ah, isso não! É o melhor bolo de chocolate da cidade Jay!

-Está com medo? – disse Jared sarcasticamente.

-Não estou com medo! Trato feito, aposto meu pedaço de bolo. – Jensen disse, cruzando os braços e levantando as sobrancelhas.

- Ok! Lá vai! Alice, querida, segure minhas mãos, juntos nós vamos ler a mente de Jensen! – Jared olhou para a garotinha e piscou.

Ela o olhou com um grande sorriso estampado no rosto, pegou a mão dele e olhou expectante para Jensen.

-A música é... – Na mente de Jared os versos de sua música preferida ecoavam como um mantra.

- Jay? – Jensen o olhava. Jared estava com os olhos fechados, lábios entreabertos num leve sorriso.

- Someday he'll come along, the man I love. And he'll be big and strong. The Man I love… and when he comes my way I'll do my best to make him stay… (Algum dia ele vai chegar, o homem que eu amo. E ele será grande e forte. O homem que eu amo…e quando ele vier ao meu encontro eu farei o meu melhor para fazê-lo ficar...)

Jared cantarolou esta parte da música com os olhos fechados e com tanta paixão, com tanto amor, com tanta força que nem percebeu que estava chorando. Lágrimas escorriam por seu rosto e seu coração batia forte. Ele sentiu como se o mundo tivesse parado. Ele não sentia nada além da música.

- He'll look at me and smile I'll understand… (Ele olhará para mim e sorrirá, e eu irei entender...)

Agora foi Jensen quem cantou a música. Ele estava com a respiração acelerada e se sentia quente. Vivo. Completo. Finalmente ele entendeu a música, ele entendeu porque esta música mexia tanto com ele. O homem forte, e grande, com o sorriso que o faria entender tudo finalmente chegou. E Jensen estava disposto a fazê-lo ficar. Ele estava sentindo tanto amor, tanta paixão, tantos sentimentos lindos que o faziam se sentir forte. Ele iria lutar, nem que fosse para Jared ficar apenas ao seu lado, como amigo. Na verdade a única coisa que ele queria era ficar ao lado de Jared, mesmo que fosse apenas olhando pra ele.

Eles ficaram assim, durante vários minutos, com os olhos fechados apenas sentindo. A música. Amor. Paixão. Paz.

Alice os olhava e também chorava. Ela se emocionou. Era pura, era uma criança especial que enxergava o que muitos não conseguiam. Ela via luz emanar de Jared, e havia visto amor nos olhos de Jensen. E ela sabia que eles eram metade um do outro e que aquele momento era especial. Ela também sabia que a música os unia.

-Esta música é mágica! – Alice disse quebrando o silêncio que havia se formado.

Jensen e Jared não responderam nada. Apenas abriram os olhos e sorriram. A música realmente era mágica.

2012

Alice chegou ao hospital correndo e ansiosa. Ela havia recebido a ligação de Misha avisando que Jensen havia sido hospitalizado. Ele não entrou em detalhes pelo telefone para não assusta-la, mas não era necessário. Ela podia sentir que algo muito grave havia acontecido.

O que era estranho era que ela sentiu algo a mais ao entrar no hospital. Uma presença. Mas ela não sabia de onde vinha. Talvez fosse sua ligação com Jensen que era muito forte.

- A asma brônquica é uma doença inflamatória crônica potencialmente reversível das vias aéreas, marcada pela hiper-reatividade da árvore traqueobrônquica a diversos estímulos que se expressam clinicamente por uma doença episódica, exacerbações e remissões de dispneia, tosse e sibilância.

Os alunos da faculdade de medicina ouviam atentos enquanto o Dr. Pellegrino , que estava dando uma ronda pelo hospital com eles, e fez questão de usar o caso de Jensen que jazia na cama do hospital, para dar uma explicação sobre asma brônquica.

- A hiper-reatividade brônquica é a consequência direta da reação inflamatória crônica das vias aéreas. Estímulos tais como viroses respiratórias, contato com alérgenos, mudanças climáticas, exercício físico, agentes químicos, fármacos e estresse emocional, desencadeiam uma obstrução aguda das vias aéreas, culminando na crise asmática, a...

-O que você pensa que está fazendo Pellegrino? – Misha estava na porta do quarto, ao lado de Mrs. Alice.

-Estou trabalhando Collins. – Pellegrino respondeu.

- Em primeiro lugar, Jensen não é objeto de estudo. Ele é um médico deste hospital e MEU paciente. E eu não autorizei está "aula". Portanto, retirem-se. Todos.

- Calma Collins. Estou fazendo meu trabalho. E Jensen é apenas um paciente e...

-Ele não é apenas um paciente. E por favor, Pelegrino, me poupe de seu diálogo de "médico profissional". Todo mundo neste hospital sabe que você não gosta do Jensen. Então, apenas saia daqui antes que eu me esqueça de que estamos em um hospital. – Misha falava com raiva, cerrando os dentes.

- Nossa Collins, não precisa ficar tão nervoso. Já estou saindo. Vamos pessoal. Parece que o nosso paciente aqui é especial demais para ser tratado como os outros.

Misha estava roxo de ódio. Ele detestava Pellegrino e sabia que o outro morria de inveja de Jensen e sempre espalhava boatos sobre o outro. É claro que ele estava adorando ver Jensen tão frágil e vulnerável. E Misha não iria admitir que ele usasse a doença do outro para seu deleite.

Pellegrino e os alunos saíram do quarto e Misha tocou levemente o braço de Alice como num convite para ela entrar. Eles se aproximaram da cama, Jensen estava mais pálido do que o normal, os dedos e a boca dele estavam arroxeados e ele estava entubado. Alice estremeceu.

- Oh, meu querido! – Alice acariciou a testa de Jensen, e fechou os olhos deixando uma lágrima cair.

-Calma Mrs. Alice, não é tão grave quanto parece. Nós conseguimos socorre-lo a tempo.

-O que aconteceu?

Misha respirou fundo. Não seria fácil contar para Alice o que tinha acontecido.

-Jensen estava sendo assediado por um admirador secreto e ele o atacou. Ele se assustou e a asma atacou.

-Oh meu Deus! Mas este homem está preso, certo?

-Não...ele...ele escapou – Misha ruborizou. – Nós ficamos tão preocupados em socorrer o Jensen que não conseguimos segura-lo.

-Misha, querido, não foi culpa sua! – Alice o abraçou carinhosamente.

-Eu sei... Alice, eu tenho que ir falar com a polícia sobre o que aconteceu. Fique aqui com ele. Nós já o medicamos e a respiração dele está estabilizada. O entubamos para que ajuda-lo a respirar, mas em breve tiraremos.

-Obrigada querido, eu ficarei aqui com meu filho.

Alice viu Misha se retirar do quarto, pegou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama de Jensen. Segurou a mão dele e a beijou. Agora ela estava mais calma. Ela o estava vendo e sabia que ele se recuperaria.

Não era a primeira vez que Jensen ficava internado por conta de sua asma. O gatilho que a fazia atacar sempre tinha cunho emocional. E Jensen não era a pessoa mais estável emocionalmente. Ele também ficou internado uma vez por conta de uma alergia a kiwi aos 4 anos. Seus pais não sabiam que ele era alérgico. Frágil. Jensen tinha saúde frágil. Seu corpo refletia as mazelas de seu espírito.

1945

Uma semana se passou. E Jared estava fascinado com tudo o que tinha visto. E o fato de enxergar em preto e branco dava certo charme a situação. Ele se sentia tão à vontade naquele lugar, naquele tempo. A elegância em que as pessoas andavam com roupas de cortes militares e sempre de cores neutras. Influência da Guerra... Jared pensou.

Outra coisa que ele logo percebeu foi a música. Em cada canto da cidade alguém ouvia jazz. Jared sabia que nesta época nascia o estilo bebop que era um divisor de aguas na história do jazz. Ele imaginou se veria músicos como Charlie Parker, Dizzie Gillespie, Bud Powell e claro, a Diva Billie Holiday. É claro que estou sonhando.

Mas nem tudo eram flores. Apesar do final da Guerra, e de uma aparente paz reinar sobre o país, Jared sabia que a segregação racial estava em seu ápice. E que em New Orleans muitos negros haviam sido mortos pela polícia e por grupos racistas. Os negros não podiam se sentar nos bancos da frente dos ônibus, havia escolas para negros e para brancos. E negros não frequentavam escolas públicas.

Jacob tratava Jared bem, mas friamente. Ele ainda estava com um pé atrás, mesmo após Jared se oferecer para ajudar Chris na loja, e também estar dando aulas para Alice, que sempre ficava radiante com cada coisa nova que aprendia. Mas Jacob sabia que as pessoas comentavam. Tanto os negros do bairro, quanto os brancos que frequentavam a loja de Chris. Jared o entendia, ele sabia que viver em tempos tão difíceis em que os negros eram tão hostilizados, fazia com que Jacob tivesse sempre uma grande desconfiança e desconforto em ter um homem branco e completamente desconhecido morando em sua casa.

Mas o que mais fascinava Jared nesta sua nova realidade era Jensen. Jared o achava incrível. E sempre se via pensando: ele é tão educado... ele é tão inteligente, não acredito que não conseguiu passar na faculdade por ficar nervoso...ele é tão doce e respeitador... é tão bonita a relação dele com Mrs. Margareth... ele tem olhos tão penetrantes e...uma boca bonita...e as pernas arqueadas...a voz dele é tão forte, imponente...

-É tão bonitinha esta timidez toda...

-O quê? – Jensen corou como nunca em sua vida.

-Hã? Ah nada, eu... estava pensando alto, só isso. – Jared estava tão perdido em seus pensamentos que falou alto sem querer.

-Ok...bem... adivinhe quem irá se apresentar neste sábado no Bali Club?

-Quem? – Jared já estava sorrindo. Fosse quem fosse ele já estava feliz.

-Lady Billie Holiday! – Jensen abriu um largo sorriso.

- Oh meu Deus! – Jared ficou pálido de repente. E sentiu uma tontura, foi amparado por Jensen que o colocou sentado na cadeira.

- Jay? Você está bem? – Jensen estava igualmente pálido. Ele pensou que esta seria uma grande notícia para Jared.

- Sim...estou...me desculpe, eu...como sou bobo – Jared colocou as mãos em seu rosto, nitidamente envergonhado.

-Você não é bobo. Você é...- Jensen parou de falar. Ele ia dizer incrível, mas achou melhor ficar quieto.

- Desde criança eu tenho sonhos com Billie...fiquei emocionado, acho. Desculpe. – Jared estava nervoso. Ele sempre fora emotivo, mas parece que aqui as emoções o pegavam de outra forma, mais fortes, mais intensas.

- Desde criança? Quantos anos você tem? – Jensen ficou confuso. Billie Holiday não era conhecida a tanto tempo assim, e Jared aparentava ter mais de 20 anos.

-Hã? Oh, foi modo de dizer. É que parece que gosto dela a vida toda... – Jared disse tentando consertar o ato falho.

Jensen ficou enciumado. Ele não sabia bem porque, mas ficou.

Jared estava extremamente nervoso. Ir ao show de Billie Holiday era seu sonho desde ele começou a entender o que era música, e o fato de estar tão próximo de realiza-lo o fazia pensar que talvez tudo fosse mesmo um sonho e agora seria o momento em que ele iria acordar. E ele não queria acordar. Ele não queria perder Jensen. Perder como, se eu não o tenho?

- Jay, vamos, Chris e Jacob estão nos esperando lá em embaixo e...você está se sentindo bem?

- Sim... estou só um pouco nervoso... acho que é a emoção...- Jared deu um sorriso fraco.

- Olhe, eu já vi Billie cantando, é algo mágico, tenho certeza de que será uma grande noite. Não fique nervoso, o bar pertence à Mama e é um dos poucos frequentado por negros e brancos, então não teremos problemas.

-Não se preocupe Jen, estou bem, juro. Vamos então ver nossa musa inspiradora fazer sua mágica!

Alec Smith tinha 45 aos e era um ladrão fracassado, extremamente neurótico e violento. Viciado em cocaína, ele usava a droga como combustível para alimentar ainda mais suas fraquezas e ódio. Ele não sabia bem de onde vinha tanto ódio. Seu pai também foi um criminoso e sua mãe era uma prostituta que o abandonou com um pai maníaco que o introduziu no mundo do crime ainda criança. Estes eram grandes fatores de seu ódio, mas não eram os principais. Ele sentia que não seria diferente se tivesse nascido em uma família estabilizada. O ódio lhe dava prazer, era parte de si, era sua essência. Ele era um espirito doente. Rola um boato de que em seu primeiro "trabalho" como bandido, aos 15 anos, Alec matou uma mulher grávida que estava prestes a dar a luz.

Ele sempre se interessou por homens. Desde sua adolescência, após ter sido violentando por um dos comparsas de seu pai. Mas de certa forma, de uma forma doentia, ele havia gostado. E desde então ele só saia com homens. Às vezes se via na cama com alguma prostituta, após beber muito ou estar drogado, mas ele sempre gostou de homens, principalmente de abusar de homens, tê-los a força, como um dia o tiveram.

Ele nunca havia amado ninguém. Provavelmente ele não amava nem a si mesmo. Então um belo dia ele tropeçou na rua e caiu, de tão bêbado que estava, e um belo rapaz o ajudou a se levantar "O senhor está bem? Precisa de ajuda?" Quando Alec já estava prestes a xingar o garoto, ele o olhou nos olhos. Lindos olhos verdes, rosto de traços perfeitos, e feição preocupada. Ele ficou hipnotizado. Seu coração bateu de uma maneira diferente. Ele não quis soca-lo, ele não quis lhe fazer mal. Ele só o queria, mas não como ele queria os outros.

E desde então, Jensen se tornou uma obsessão para Alec. Ele levantou-se dizendo que estava bem, e no mesmo dia passou a seguir o outro. A vigia-lo. Descobriu a loja onde ele trabalhava. Descobriu que ele morava com aqueles negros. Ele odiava os negros. Não descobriu nenhuma namorada. Isto o deixou aliviado. Ele não queria nem imaginar seu Jensen com alguém. Ele seria dele, só precisava de um bom plano para tê-lo pra si sem machuca-lo.

E agora nesta ultima semana, apareceu este novo rapaz trabalhando na loja de Chris. Jovem, alto e bonito. Ele sorria o tempo todo, tinha um jeito infantil. Mas o que incomodou Alec foi a maneira como Jensen o olhava. Como Jensen sorria de um jeito que Alec nunca tinha visto nestes últimos 6 meses. Sim, ele o seguia a 6 meses e Jensen nunca sorria. Mas pra este garoto ele sempre sorria e olhava diferente. O ciúme o corroía por dentro. Maldito! Antes ele tinha ciúmes do dono da loja, um tal de Chris que era muito próximo de Jensen, mas não era nada comparado a este novo rapaz de sorriso infantil. Vou me livrar dele. E de Chris também, por fazer meu Jensen se misturar com os negros.

O primeiro aviso foi o vandalismo na loja de Chris. Mas pareceu não surtir efeito nenhum, então ele ouviu Chris dizendo pra uma garota que sempre ia à loja, que hoje à noite eles iriam ao show de Billie Holiday, no Bali Club. É hoje que Jensen será meu.

O Bali Club estava cheio. Mrs. Margareth o herdou de seu marido, e apesar de ser dona de um bar relativamente conhecido na cidade, eles não eram ricos. Aparentemente os negros, mesmo quando tinham um estabelecimento não conseguiam tanto prestígio quanto os brancos. Era uma das injustiças da segregação racial.

Jacob cuidava do bar e dos contatos. Seu pai tinha talento no piano e fizera muitos amigos músicos. Jacob também tocava piano e Chris cantava, desde criança, e sua linda voz encantava seu pai, que sempre o elogiava. Jacob tinha ciúmes dele na infância, apesar de nunca terem sido tratados com diferença por seus pais. Seu pai morreu tisico quando eles eram adolescentes e Mrs. Margareth assumiu os negócios da família. Ela era forte e inteligente. E tinha muitos amigos que a ajudaram e aos quais ela tinha enorme gratidão.

Billie Holiday já era uma grande Diva da música em 45 e o anúncio de que ela iria fazer um show no Bali trouxe um número record de público. Todos queriam vê-la cantar, e bebiam alegres e ansiosos esperando sua performance. 95% do publico era de negros, mas o bar não tinha problemas em receber brancos, até porque um dos donos era branco.

Jared estava fascinado, parecia uma criança num parque de diversões pela primeira vez. Ele sorria e fazia de tudo para guardar cada imagem daquele momento em sua cabeça. Jensen o olhava com carinho e um sorriso nos lábios. O sorriso que pertencia apenas a Jared e a mais ninguém.

Por volta das 22hs, Billie subiu ao palco. Ela estava descontraída e feliz. Sorriu ao ver o local tão cheio de pessoas que estavam ali exclusivamente para vê-la. Saudou o público e logo começou a cantar Miss Brown to you e as pessoas a ouviam fascinadas. Jared se sentiu flutuando, seu coração batia intensamente, ele sentia todo seu corpo quente e formigando. Jensen não conseguia olhar pra Billie. Ele não conseguia tirar os olhos de Jared, e também sentia um calor envolvendo seu corpo, como se fosse febre, mas sem sentir aquele calafrio. Era reconfortante. Era intenso. Era mágica.

Billie cantou várias canções, entre elas If you were mine, These Foolish things, The very thought of you e Did I remember?. Ela se sentia diferente aquela noite. Tinha olhado de relance para os dois rapazes sentados em uma mesa próxima ao palco e sentiu uma energia estranha. De repente pediu para a banda parar de tocar. Olhou diretamente para Jared e Jensen e disse:

-Esta é para vocês queridos.

E começou a cantar a capela The Man I love. Só a voz dela ecoando pelo bar, olhos fechados, lágrimas nos olhos. Ela cantou com intensidade e com o coração. Ela se sentia flutuar, sentiu sua alma conectada a música. A mágica da música. Amor foi o que ela sentiu.

Jensen e Jared não viam mais nada. Só ouviam aquela música e se deixaram levar por ela. O sentimento dentro deles era tão forte, tão avassalador que eles não sentiam seus corpos. Não era algo ligado a matéria, era ao espirito. Os espíritos deles se conectaram pra sempre, novamente, naquele momento. Porque eles haviam sido separados, o destino havia falhado. Aquela era pra ser a vida que eles deveriam ter tido e foram privados em outra época. Aquele momento era pra acontecer, e mesmo com a falha do destino, o amor deles era tão forte que uma canção conectou 2 mundos de forma metafisica.

Podemos dizer que eles alcançaram o nirvana. O show acabou, Billie saiu do palco muito cansada e com tonturas, e foi acudida por seu músicos. Era o calor, alguém disse. Mas ela sabia que não. E sentiu medo.

Chris os observava de longe. Ele chorou neste final do show. Ele também sentiu que algo estava acontecendo e um mal pressentimento encheu seu peito de dor. De repente uma sensação de sobrevivência o fez olhar ao redor. Então ele viu Alec, olhando para Jared com fúria nos olhos. Dentes cerrados, com o punho fechado e em posição de ataque. Chris olhou para Jacob que estava no bar, e foi o suficiente para o outro correr em direção a ele. A expressão de pavor no rosto de Chris era óbvia.

-O que foi irmão? – Jacob perguntou, preocupado.

-Aquele homem...temos que tira-lo daqui. – Chris olhava na direção de Alec

- Por quê? O que ele fez?

-Ele vai ferir Jared e Jensen!

-O quê? Como assim?

-Jacob, me ajude, por favor! Você confia em mim?

-Vamos tirá-lo daqui. – Jacob não hesitou. Ele confiava no instinto de Chris.

Chris se aproximou de Alec e sentiu medo. Ele nunca sentia medo de ninguém. Ele chegou a hesitar, mas a presença de Jacob o acalmava.

-Escute amigo, acho que você já bebeu demais então... – Jacob pensou em alguma desculpa esfarrapada para colocar o outro pra fora.

- SAIA DE PERTO DE MIM, SEU NEGRO IMUNDO!

Silêncio. Todos no bar olharam para Alec, surpresos com a audácia do outro.

Jacob desferiu um soco bem no nariz de Alec, o quebrando. A confusão foi geral. Todos começaram a correr em direção a Alec, prontos para lincha-lo. Jensen estava paralisado, mas não mais que Jared, que sentiu uma forte dor no peito e na cabeça. A única coisa que fez Jensen sair de seu transe foi sentir que Jared estava passando mal. Ele o chacoalhou e olhou diretamente em seus olhos.

- JAY! OLHA PRA MIM! Vai ficar tudo bem! É só uma briga de bar. – Jensen colocou a mão no peito do outro, como daquela vez.

Jared não conseguia ouvi-lo direito, mas o toque da mão de Jensen em seu coração fez a dor passar.

Mrs. Margareth, que não estava no Bar apareceu do nada. Obviamente ele havia sentindo que algo estava errado e correu para o Bar, pedindo carona para um de seus vizinhos. E com apenas um grito de BASTA ela pôs fim ao linchamento. Todos a conheciam e respeitavam.

- Ninguém vai morrer neste bar. Portanto, deixem este miserável ir embora.

Alec estava praticamente desmaiado. Muito ferido, mas vivo. Alguns rapazes, juntamente com Jacob, o levaram para longe dali. Chris tremia violentamente. Ele nunca havia se sentindo assim, tão vulnerável, tão apavorado. Mrs. Margareth o abraçou e o levou embora pra casa.

Todos começaram a dispersar. Jensen e Jared ajudaram um dos garçons a fechar o bar. Um silêncio desconfortável se formou, todos estavam um pouco atônitos com o ocorrido.

Ao chegar em casa, Jensen e Jared encontraram Jacob um tanto transtornado na sala. Ele não disse nada, mas Jared pôde jurar que viu o olhar acusatório com que o outro o olhava. Mas ele preferiu deixar como estava.

Mama estava no quarto de Chris. Ele dormia na cama, encolhido como uma criança. Ela fazia carinhos na cabeça dele e cantava uma canção, bem baixinho, o acalmando. Ela sentiu o medo e a dor de seu filho. Ela sabia que Chris estava se conectando com sua vida passada. Todos eles estavam.

Ao entrar no quarto que dividiam, Jensen e Jared se olharam nos olhos. Todas as emoções vividas àquela noite, com a música, com a briga, com a mão de Jensen no peito de Jared o livrando da dor, tudo isso estava preso naqueles olhares. O amor aflorou dentro deles. Era uma catarse.

Eles se aproximaram um do outro, sem parar de se olhar. Ao chegar bem perto, fizeram o que seus corações mandavam. Ao mesmo tempo, aproximaram seus lábios e os tocando levemente. Estavam se reconhecendo. Se reencontrando. Fecharam os olhos. E deixaram suas bocas se encontrarem. Suas línguas dançavam em suas bocas. Os corpos estavam quentes. A alma, leve. Então ambos abriram os olhos.

-Verdes... – Jared sussurrou. – seus olhos são verdes.