VII – Fogo
Naquela noite, Draco não dormiu. Pensava silencioso no que havia acontecido mais cedo em sua sala. Não, não era para ser daquela maneira. Esperava que Harry cedesse às suas investidas logo de primeira, logo no primeiro Serpenccia, mas nada acontecia como se planejava. Draco não resistira a provocar Harry e este não segurou seu temperamento explosivo. Draco não soubera como seduzi-lo. Harry não tinha sido tão fácil como esperava que fosse. E então, Draco fez tudo errado, beijando Harry à força, e o deixando com mais ódio do que já tinha. Tudo errado. Talvez, o plano "perfeito" que Draco tinha criado falhasse. Aliás, era muito mais provável que o plano perfeito falhasse. Depois daquele fracasso inteiro, era impossível que desse certo.
E Draco se odiava por sua capacidade de estragar tudo o que tinha planejado. Uma oportunidade como aquela de se aproximar de Harry não viria novamente tão cedo. Era única e se não desse certo, estragaria todas as outras. Como se aproximar de Harry, agora, e criar um assassinato eficiente, que desse os resultados que ele esperava? Só estar em Hogwarts com Harry não bastava para fazer o que tinha de fazer. E ele não conseguiu. Sim, tentaria emendar o problema. Seu medo era que a emenda ficasse pior que o soneto e, aí sim, ele teria que desistir. Vender alguma empresa e pagar a secretária.
Secretária, aliás, que há muito não dava sinal de vida, nem uma coruja, nada. Menos mal. Sem a velha caquética por perto Draco, pelo menos, não se irritaria com a cara feia dela.
Mas não era só a secretária e a falha do plano que lhe tirava o sono. Tinha beijado Harry, e aquilo o incomodava muito. Verdade, por uma quantia como a que a velha secretária oferecia, beijar Harry não era nada, mas, que aquilo o incomodava consideravelmente, incomodava. E não havia ninguém para ele culpar por aquilo. Ele sozinho criou o plano, a idéia de manter algum "relacionamento" com Harry foi dele, então. Antes, tinha pensado em ser amigo, ou qualquer coisa do gênero, mas tinha certeza que não daria certo. Só via como solução beijar Harry e, quem sabe, algo mais.
Draco nunca havia beijado um homem, nem mesmo considerado a hipótese. Só pensou naquilo quando tinha a informação sobre a sexualidade de Harry em mãos, e a tarefa de matá-lo. Considerou por um grande tempo se valia a pena manter um relacionamento homossexual com o outro. Mas todas as vezes que descartava a idéia, lembrava da grande soma em dinheiro que a secretária o oferecia pela morte de Harry. Dinheiro compra qualquer coisa, até mesmo a sexualidade de alguém. E ainda mais a de Draco, que nunca tinha sido preconceituoso com relação à sexualidade. Nunca tivera nada contra homossexuais. Nem a favor.
Mas, ele tinha de admitir: beijar Harry não tinha sido de tudo ruim. Não que tivesse sido bom, mas não causara asco, nem nada do gênero em Draco. Foi algo indiferente, um beijo como tantos outros que Draco já tinha distribuído por aí; sem sentimento, sem amor, sem nada, nem mesmo com prazer. Algo mecânico, um simples movimentar de línguas e lábios, uma troca de saliva. Não correspondida, diga-se de passagem.
A verdade era que o problema em torno da sexualidade não incomodava em nada a Draco Malfoy. Para ele, beijar, ou eventualmente fazer sexo com Harry, era simplesmente uma parte nova e necessária de seu trabalho. Trabalho que prometia fracassar. Assim, com medo do fracasso, Draco revirou-se na cama a noite inteira procurando uma solução, uma luz que não vinha, uma maneira de consertar. Nenhuma eficaz. A única chance que tinha era tentar de novo com Harry, de outra maneira dessa vez , calma, dócil, não violenta. Totalmente contrária à natureza de Draco, mas necessária para o sucesso do plano.
Assim que os primeiros raios de sol surgiram por entre as cortinas de Draco, este se levantou da cama, finalmente convencido a desistir de dormir. Teria uma aula em breve, e não adiantava nem tentar dormir. Vestiu a primeira roupa que encontrou pela frente, sem se preocupar muito com beleza – não havia roupa que lhe desse beleza com aquela cara de sono e as olheiras que ele levaria por todo o dia – e desceu para a sala dos professores ainda vazia. Sentado a uma das mesas, olhava uma tarefa que tinha pedido, tomando café – Draco se recusava a descer no estado em que estava – quando alguém entrou. Automaticamente, Draco tirou os olhos do papel e olhou quem tinha chegado. Harry Potter parou à porta ao ver que somente Draco estava ali, como que decidindo que entrava ou voltava mais tarde. Draco demorou a baixar a cabeça, pensando naquela chance única de dar continuidade ao plano, Harry continuava na encruzilhada. Draco, por fim, abaixou a cabeça, e voltou aos papéis, sem dar atenção a Harry, que, tranqüilizado pela aparente indiferença de Draco, resolveu entrar. Dirigiu-se para seu armário, onde pegou alguns livros e papéis, quando , foi pego de surpresa por Draco pelo braço, e jogado contra a parede atrás do armário. Draco o prensava contra a parede com o corpo, deixando Harry sem ação. Os dois rostos encostados, bem próximos...
– Acho que não acabamos nossas reuniões, Potter.
– Eu não vou mais em reunião nenhuma, Malfoy.
– E vai fazer essa desfeita enorme com o pedido da diretora.
– Ela vai me entender, posso garantir.
– Tem algum jeito de eu te convencer a voltar às nossas reuniões?
– Me prensar contra a parede da sala dos professores, correndo o risco de que, a qualquer momento, alguém entre eu garanto que não é uma maneira de me convencer.
Draco tinha uma resposta gélida na ponta da língua, mas se lembrou: ser dócil. Conquistar Harry Potter. Implicar com ele não daria em nada, e só colocaria o plano por água abaixo. Então, ele simplesmente olhou Harry nos olhos antes de se afastarlentamente, como quem deseja voltar, relutando em abandonar o toque do corpo alheio. Assistiu ao olhar tenso de Harry, como que se sentisse que o outro relutava também em deixar que Draco se afastasse dele, mas parecia que o orgulho grifinório falou mais alto, e Harry simplesmente suspirou quase tão baixo que Draco mal pode escutar.
– Desculpe-me, Potter, eu não pude resistir.
Draco se amaldiçoou eternamente por ter dito aquilo. Draco Malfoy falando aquilo? Era ruim demais para ser verdade. Mas aí lembrava da grana que a secretária estava lhe prometendo, e seguia em frente. No entanto, Harry não esboçou a menor reação perante as novas atitudes de Draco, simplesmente o tirou do caminho com um empurrão, pegando seus livros e saindo da sala dos professores com estardalhaço. Draco tinha quase certeza de que tudo daria errado.
Desde que tudo aquilo começou, Draco por nenhuma vez pensou tanto em desistir. Nem mesmo dar aulas para alunos aparentemente incapazes de aprender algo mais complicado que um Expelliarmus, e que não faziam nada além de bagunça o incomodou tanto quanto a perspectiva de ter seu plano infalível falhando. E era o que acontecia. Sozinho, em sua sala, num último fio de esperança que Harry voltasse depois do bilhete que deixara em seu armário, ele tentava terminar de escrever a maldita coreografia para a aula, mas simplesmente não conseguia. De minuto em minuto, lembrava-se de seu enorme fracasso, e espancava a mesa com socos violentos, ou rabiscava o papel inteiro, ou rasgava alguma folha.
Olhou para o relógio. Onze e dez. Harry não viria mais. Àquela hora, grande parte dos alunos já dormia, professores também. E talvez Harry também. Juntou os papéis devagar e, num acesso repentino de raiva, ateou fogo, atirando-os ao chão, assistindo-os queimar. Enquanto o fogo consumia o frágil pergaminho, Draco começou a apagar as tochas da sala, foi então que a porta se abriu quase sem ruído nenhum.
– Além de maníaco sexual, você virou incendiário, Malfoy?
Draco virou rápido, varinha apontada para o lugar de onde a voz tinha vindo. Encoberto por um capuz, escondido entre a pouca luz da sala, com as folhas da coreografia meio queimadas nas mãos, estava Harry. Malfoy se perguntava como ele tinha entrado sem que percebesse – seus instintos de assassino profissional costumavam ser aguçados; não perceber aquela entrada era uma falta grave.
Por um instante, Malfoy pensou em pular em cima de Harry, socá-lo até a morte por tê-lo feito esperar, mantê-lo naquela expectativa, naquela possibilidade de tudo falhar. Mas não, Harry Potter, no final das contas estava ali, como se ele estar ali fosse algo óbvio, que Draco deveria esperar todas as noites. Mas então Draco lembrou-se: tinha que fazer tudo de outro jeito, tinha que ser dócil, tinha que ser gentil, amável, qualquer coisa, menos ele mesmo. Então forçou um sorriso e disse, quase se odiando por falar algo como aquilo:
– Que bom que você veio! Achei que não viria mais.
– Ah, eu não vinha. Resolvi há uns quinze minutos. Você tem razão, seria uma grande desfeita com a diretora – disse enquanto ia até Draco e lhe dava o resto da folha queimada. – Acho que ainda dá pra ler o que tinha aí, acho que salvei a tempo a sua coreografia. Aliás, o que deu em você para por fogo nisso?
– Se você não ia mais me ajudar com a aula, não tinha mais sentido em ter uma coreografia.
– Que interessante! Ontem eu ia ser seu auxiliar, hoje você precisa da minha ajuda na aula.
Novamente, Draco se segurou para não falar algo que faria Harry ir embora no segundo seguinte. Auto-controle era algo que ele estava aprendendo bem naquele trabalho.
– Okay Potter. Você vai ou não me ajudar?
– Estou aqui, não estou? Desde que você não use sua maravilhosa coreografia para me assediar novamente.
– Será que você pode parar de falar nisso?
– Na realidade, não – disse Harry indo até a mesa de Draco, e olhando os papéis que ali tinham sobrado. – Você parecia estar bem irritado, não é, Malfoy? Os que você não queimou, rasgou, ou rabiscou. Isso tudo é frustração porque eu não retribuí ao seu beijinho de ontem?
– Push Master! – berrou Draco de onde estava, fazendo Harry voar por cima da mesa. Já era o suficiente. Harry o estava provocando demais e por mais que ele quisesse se segurar para manter o plano, algumas coisas eram simplesmente insuportáveis.
Harry se levantou meio zonzo, uma expressão não muito agradável no rosto. Pareceu pensar por um instante em sair e deixar Draco novamente, mas por fim ergueu a varinha e disse:
– Pelo visto você não está muito para conversas hoje – disse colocando a varinha entre os olhos, na posição de cumprimento de duelo. – Vamos começar?
Draco fez o mesmo. Os dois se curvaram, e iniciaram o duelo. Os dois seguiam a coreografia à risca, sem, por um instante, se falarem. Então, chegou o momento de Harry usar um Serpenccia em Draco. Com Draco logo à sua frente, esperando a continuação da coreografia, Harry falou, com a varinha encostada na barriga de Draco:
– Sabe, até agora não entendi aquilo que aconteceu ontem. O que deu em você para me agarrar à força? Push Master! – Draco voou para longe, mas usou um feitiço para não se chocar com a parede e, enquanto descia suavemente em direção ao chão, respondeu.
– Algumas coisas não têm explicação, Potter – e emendou um feitiço que derrubou Harry no chão. Com um gesto da varinha, amarrou magicamente as pernas de Harry e, com outro, o puxou arrastado pelo chão. Com a varinha apontada para o rosto de Potter, complementou – Por que você bate tanto nessa tecla do que aconteceu ontem, Potter? Por acaso você gostou e quer mais? – com o pé, Harry deu uma rasteira em Draco, derrubando-o no chão também. Em um gesto rápido, pulou para cima de Draco, com a varinha encostada em seu pescoço.
– Não, não, Malfoy. Eu só gostaria de saber o que acontece com você. Que eu me lembre, as últimas vezes que falei com você, você deixou claro que me odeia, o que eu posso garantir, é recíproco. Agora, ontem você me chama à sua sala, e me beija a for...
Com um feitiço inesperado de Malfoy, Harry rolou de cima dele para o outro lado da sala.
– Impulso, Potter. Carência, sei lá – respondeu Draco sem olhar para ele, levantando-se e batendo a mão pela roupa, como que tirando uma poeira imaginária. – Sabe, meses enfiado nessa escola, onde o que temos de melhor é Flitwick e Sinistra. E algumas meninas gostosinhas do sétimo ano, mas essas são proibidas. Não quero perder meu emprego.
Harry não se levantou, ficou deitado de barriga para cima no chão, rindo para o teto.
– Quer dizer que alguns meses sem sexo faz você agarrar aquele que você mesmo declarou ser seu pior inimigo? Aquele que garantiu que seus pais fossem beijados por dementa... – outro feitiço de Draco fez com que Harry batesse a cabeça várias vezes na parede, parando de falar imediatamente.
– Fale o que quiser, Potter, mas nunca abra a boca para falar de meus pais – disse Draco entre dentes. Harry se levantou devagar, sentando-se com as costas encostadas na parede, as mãos segurando a cabeça abaixada, tentando voltar ao normal depois de levar aquelas pancadas na cabeça. – Quer continuar feito gente, ou quer ir embora, em memória ao seu lado trouxa covarde? – Harry não respondeu, continuou sentado, com as mãos na cabeça, apertando as têmporas como se elas doessem muito. Draco se aproximou devagar, varinha baixa – Potter? Está tudo bem?
– Minha... cabeça... dói.
Draco se abaixou em frente a Harry, tocou cauteloso o joelho dobrado de Potter.
– Potter, olha pra mim – mas Harry permaneceu de cabeça baixa, apenas tirou as mãos das têmporas, e continuou como estava. – Potter, quer que eu te leve para a ala...
– Push Master! – Draco voou de onde estava para o outro lado da sala. Caiu no chão ouvindo as risadas de Harry. – E eu que achei que fosse mais difícil enganar você, Malfoy.
Draco se levantou, andou até sua mesa, e colocou a varinha sobre ela.
– Já chega, Potter. Você está muito engraçadinho hoje. Pode ir embora, eu não me importo – Harry parou quase que instantaneamente de rir. Andou até Draco, que continuava encostado na mesa, olhando para ele com uma expressão vazia.
– Sabe, Malfoy, tudo que eu estava fazendo era ser um pouquinho você, por um dia, às vezes, é bom provar um pouco do próprio veneno. Não gostou?
– Já foi, não é? Agora você pode ir embora. Volte amanhã, se você quiser.
– E se eu não quiser voltar?
Era esta a resposta que Draco temia. Se Harry não quisesse voltar? Se Harry não voltasse? Não, ele não podia falhar uma segunda vez, ele não podia ter Harry em sua frente, sozinho com ele, uma segunda vez, e deixar a chance passar. Ele não podia deixar o plano afundar ainda mais. Pensou o mais rápido possível numa resposta neutra, e lançou de uma vez só.
– Você tem algum motivo para querer voltar?
Harry colocou a varinha na mesa de Draco, ao lado da dele, e deixou a mão ali, aproximando-se um tanto considerável de Malfoy.
– E se eu te disser que eu não tenho motivo para querer ir?
Não. Era bom demais para ser verdade.
– Como? – respondeu Draco se fazendo de desentendido, esperando a derradeira confirmação de Potter.
– Sabe, Malfoy, eu também estou a alguns meses nessa escola sem ninguém mais interessante que o Flitwick – e virou a cabeça para o lado, como se estivesse com vergonha do que tinha acabado de falar. Draco segurou o rosto de Harry pelo queixo, virando-o devagar para si. Olhou Harry nos olhos por um instante. Um silêncio incômodo tomava a sala toda, antes que Draco dissesse.
– Han... Potter... Eu... posso? – Harry deu um sorriso sem graça, e assentiu com a cabeça, devagar. Sem nenhuma violência, sem movimentos bruscos, Draco aproximou o rosto de Harry. Os lábios se tocaram. Os dois voltaram por um instante, se olharam novamente, como para se perguntar se aquilo ia mesmo acontecer, e então, sem dúvidas, os dois se beijaram. Um beijo curto, que serviu para provar que, dali em diante, as carências de Harry seriam supridas. E que o dinheiro da secretária, em breve, iria parar na conta de Draco em Gringotes.
Os dois se separaram, se olharam novamente, esperando alguma manifestação, e então, Draco disse:
– Ah, Potter.
– Diga.
– Eu só perguntei se eu podia para você não dizer novamente que eu te assediei. Sabe, normalmente eu beijo sem pedir e...
– Cala a boca, Malfoy – disse Harry rindo. – A partir de agora, pode me beijar sem pedir. Não é mais assédio nenhum.
Deitado em sua cama, sem conseguir dormir, agora por outro motivo, Draco enrolava devagar os fios loiros de seu cabelo olhando para o teto. Harry, provavelmente, devia ter ponderado muito naquela noite que separou o dia em que Draco praticamente o agarrou, e o dia em que o beijou espontaneamente. Realmente, não havia nenhuma explicação melhor para a mudança súbita de idéia de Potter com relação a ele, só podia ser carência. Provavelmente Harry não beijava ninguém, não tinha carinho de ninguém, não tinha sexo com ninguém, desde de que Furion tinha morrido. Diga-se de passagem, pelas mãos de Draco.
O loiro se perguntava como a mudança de idéia de Harry o estava fazendo feliz. Depois de uma noite sem dormir de desespero por ver seu plano infalível falhar, por ver a fortuna que a secretária lhe oferecia queimar numa lareira, agora não dormia de alegria. Alegria e um pouco de ego inflado. O dinheiro que ela oferecia era muito, sim, mas nada essencial para a sobrevivência de Draco. O desafio também era um pouco de combustível para aquela missão e ter conseguido que Harry Potter cedesse aos seus caprichos assassinos era uma vitória sem igual. Verdade, verdade, matá-lo seria ainda mais difícil do que conseguir uns beijos dele, mas aquilo viria com o tempo. Se tudo ocorresse como Draco esperava, em um mês ele teria uma fortuna a mais na conta, uma cliente chata a menos para aturar e depois de um tempo, para deixar a poeira baixar, ele poderia ir embora de Hogwarts, e voltar para sua casa em Londres. Tudo estava indo de vento em popa.
E continuou, nos dias seguintes. Harry e Draco tinham uma relação puramente carnal. Nunca tinham dito palavras bonitas, nunca um "eu te amo" tinha saído da boca de nenhum deles, nem mesmo um "gosto muito de você", nada. A relação se resumia a "agarros" na sala de Draco, curiosamente sempre precedidos por um duelo um tanto quanto violento demais para um simples ensaio de uma demonstração a se fazer aos alunos e, em alguns dias tinha evoluído também para noites de sexo no quarto de Harry. Sexo que acabava concomitantemente com a partida de Draco. Nunca os dois ficaram juntos na cama trocando carícias, ou beijos, ou mesmo sorrisos. Nunca Draco dormiu lá. Sempre se levantava, vestia a roupa, os sapatos, dava um rápido selinho em Harry, e saía pelos corredores de Hogwarts em direção a seu quarto. E os dois pareciam felizes assim. Os dois eram felizes assim. Ou ao menos estavam satisfeitos. Draco jamais poderia imaginar que aquela relação com Harry pudesse ser algo prazeroso, porém, era.
Fora da sala de Draco e do quarto de Harry, os dois se tratavam como sempre tinham se tratado desde que entraram em Hogwarts como professores: duas pessoas que compartilhavam o mesmo local de trabalho, mas que não tinham nenhuma amizade, nenhuma relação além dos "bom dias" e "boa aula" dados por pura educação.
E era assim que Draco gostava. Ainda mais porque, primeiramente, sabia que sofreria terríveis preconceitos se alguém descobrisse. A escola iria abaixo, Rita Skeeter iria ao delírio com a notícia de pederastia dentro de Hogwarts! Os alunos comentariam e, em pouco tempo, os pais ficariam sabendo e adeus Hogwarts aos dois. À Draco, adeus grana! Jamais! Segundo, de maneira alguma aquela relação podia evoluir, visto que o objetivo final dela para Draco era a morte de Harry.
O outono chegou a Hogwarts e junto com ele brotou uma idéia na cabeça de Draco. Finalmente ele saberia como Harry iria morrer. Ele só tinha que esperar o dia da aula e depois, adeus Harry Potter, olá din din, adeus Hogwarts, olá Mansão. Adeus secretária, o que particularmente empolgava Draco ainda mais.
E o dia da aula chegou. Os dois ensaiavam uma última vez na sala de Draco. Por um Serpenccia lançado por Draco, os dois estavam bem próximos, bem próximos. Geralmente, aquilo terminava em beijo, e era o que ia acontecer, quando a porta se abriu. Harry e Draco praticamente voaram cada um para um lado, quando Denise Liptsey entrou na sala. Denise, que junto com Helena Wyehts formava o par de melhores duelistas que Draco já tinha visto dentro de Hogwarts. Helena era filha de Auror, Denise, ele nunca tinha perguntado, provavelmente de algo parecido, no entanto, mesmo que os pais as tivessem ensinado um pouco, elas eram boas demais para terem aprendido só com dicas dos pais.
– Atrapalho? – disse Denise sem parecer ter percebido alguma coisa comprometedora.
-- Não, não, senhorita Liptsey. Eu e o professor Potter estávamos apenas praticando uma última vez antes da chegada de vocês.
– Ah, desculpe-me, professor, eu não queria incomodar. Só que eu não tinha nada para fazer até o horário da aula, e resolvi chegar um pouco mais cedo.
– Tudo bem, tudo bem – respondeu Harry afobado, atropelando as palavras.
– Aproveitando que você está aqui – disse Draco cortando qualquer intervenção de Harry – me diga, a senhorita já treinava duelos antes de ter aulas aqui em Hogwarts? Seus resultados excedem as expectativas.
– Ah, professor, meu pai me colocou ainda pequena num curso para duelos. Fui duelista profissional mirim até o quinto ano, mas os NOMs me obrigaram a parar.
– Não devia ter parado – disse Draco recobrando sua frieza habitual após o susto. – Hoje seria uma duelista de grande porte.
– Obrigada, professor.
Harry estava no fundo da sala. Mexia em alguns papéis e nos objetos trazidos para a aula, tentando esconder a vergonha.
– Ah, professor. O senhor sabe tanto de duelos, eu gostaria de saber se é possível retornar para a liga profissional depois do sétimo ano.
– Possível é, mas acredito que a senhorita seria rapidamente desclassificada nas eliminatórias. Na liga profissional temos pessoas que nunca pararam de duelar, nem mesmos nos NIEMs. Talvez, se encontrar um treinador particular. Mas precisará de resultados bem superiores do que os que tem aqui.
– Assim o senhor me desanima.
Draco quase respondeu "é essa a intenção, para ver se você cala a boca", mas preferiu dizer:
– É apenas a realidade, senhorita Liptsey.
– O senhor fez parte da liga profissional?
Não, tudo que eu sei eu aprendi matando pessoas.
– Nunca me interessei a fundo pelo duelo como um esporte. Para mim, duelar é algo sério demais para ser tratado como brincadeirinha para uma platéia de milionários sem mais o que fazer apostar e perder dinheiro.
– Mas, professor, duelos não são apenas apostados e...
– Senhorita Liptsey, o mundo dos duelos esportivos é tão sujo quanto o submundo do crime. Mas, se você pretende seguir por ele boa sorte, é o melhor que eu tenho para lhe desejar – e deu as costas para a garota, indo para perto de Harry.
– Você não precisava desencorajá-la desse jeito, Malfoy – disse Harry em voz baixa, pegando um papel e amassando.
– Desde quando eu encorajo alguém, Potter?
– Deveria. Você é um professor, está aqui para orientar os alunos.
– Aluno, para mim, é dinheiro, não amizade.
– Eu me esqueço que, mesmo com... o que a gente... tem agora, você continua sendo o mesmo.
– Nunca duvide disso, Potter.
Os alunos começaram a chegar, lotando a sala em poucos minutos.
– Boa noite a todos. O feitiço de hoje é um muito comum em duelos, porém, poucos sabem utilizá-lo com maestria. Chama-se Serpenccia. Sozinho, não serve para absolutamente nada...
– A não ser que você queira assediar alguém – disse Harry num sussurro que apenas Draco pode ouvir.
– ...porém, se utilizado num golpe conhecido como "Abraço da Serpente" – continuou Draco ignorando o comentário de Harry – tem efeitos espetaculares. Chama-se "Abraço da Serpente" por se assemelhar ao que uma serpente costuma fazer com suas vítimas: se enrolar em torno delas, quebrar seus ossos, e depois se alimentar. O Serpenccia trás seu oponente ate muito próximo de você, para que então você lance um outro feitiço de uma distância mínima, potencializando a sua força e diminuindo para quase zero a possibilidade de erro. O Professor Potter, de Defesa Contra as Artes das Trevas está aqui comigo e vai me assistenciar nesta aula, para que façamos uma demonstração do uso do feitiço num duelo real.
Talvez, aquela tenha sido a primeira vez que Harry e Draco fizeram por completo, e sem nenhuma estripulia, a coreografia escrita por Draco há tanto tempo. Os alunos aplaudiram ao final da apresentação, ao que Harry agradeceu com um aceno e Draco, com outro, fez com que parassem.
– Vamos a aula de hoje. Por enquanto, não vou me arriscar a deixar que vocês usem este feitiço uns com os outros, quando tiverem maturidade o suficiente para não fazer surgir um tentáculo no rosto de seu oponente quem sabe, não é mesmo? – os alunos fecharam a cara imediatamente, e Harry virou-se sem falar nada, achando incrível a capacidade que Draco tinha de se fazer ser impopular até mesmo entre os alunos da Sonserina. – Por enquanto, usarão estes objetos – e apontou para um canto. – Eu sei, eu sei, vocês não devem ver a menor diferença entre este feitiço e o feitiço Accio, já que usarão objetos. Porém, o feitiço Accio trás o objeto até a mão, enquanto o Serpenccia faz com que esse pare à distância exata para que outro feitiço seja feito, isso é, se vocês conseguirem fazer um Serpenccia que preste, o que eu, particularmente, duvido. Além do mais, o Accio não é capaz de trazer pessoas. Podem começar. O Professor Potter e eu estaremos verificando.
– Você tem um gosto especial por humilhar os alunos, não é mesmo? – disse Harry tão logo a movimentação na sala começou.
– Eu só digo a realidade, Potter. Você bem sabe que eles são um bando de incapacitados. Me pergunto o que será do mundo se outro Lorde das Trevas surgir, com esse bando de idiotas.
-–É, na sua mão eles realmente vão se tornar um bando de incapacitados. Malfoy! Pelo amor de Deus! Sem incentivo, eles não vão a lugar nenhum.
– O incentivo fica por sua conta. Sabe, se todos os professores fossem como eu...
– Ninguém aprenderia duelos – respondeu Harry interrompendo Draco.
– ...teríamos poucos duelistas, porém, todos de alto nível – continuou Draco ignorando a interrupção. – Você sabia que eu odeio ser interrompido?
– E você sabia que eu pouco me importo? Didática, Malfoy, é isso que te falta.
– Questione os métodos de ensino de outro professor e... Petrificus Totalus! – gritou Draco apontando a varinha para um aluno do outro lado da sala que, instantaneamente, enrijeceu como uma pedra, e caiu pesadamente no chão. – O que foi que eu te disse, Potter? – falou antes de se encaminhar até o meio da sala, para perto de um aluno em cujo rosto surgiam enormes furúnculos. – Finite Incantatem – disse apontando a varinha para o rosto do garoto, porém, os furúnculos continuaram a surgir. – O que foi que esse imbecil fez? – disse Draco quase aos berros, apontando para o garoto que tinha sido petrificado.
– Lançou uma combinação de azarações nele, professor. Acho que só o Finite Incantatem não vai adiantar e... – disse uma garota.
– Não pedi a sua opinião, senhorita. Só perguntei o que aconteceu. Dez pontos a menos para a Corvinal. Que mania idiota vocês têm de resolver suas diferenças na minha aula! Usem a aula do Potter! – vários alunos riram, o que de fato não irritou Draco. – De que casa é o imbecil? – a garota hesitou em responder, e Draco disse, agressivo – Responda!
– Da Lufa-lufa, professor.
– Ótimo. Menos cinqüenta pontos para a Lufa-lufa – disse se levantando e andando até o garoto caído. – E uma detenção, que eu vou deixar para o Filch escolher. Estão todos dispensados, a aula acabou. Potter, leve este aqui para ala hospitalar, por favor – complementou Draco pegando o garoto pelos ombros e o levantando com dificuldade. – Potter, me ajude! – Harry ficou por um instante parado no mesmo lugar, sem saber o que fazer, então, fez um gesto para a sala, ao que todos os alunos começaram a se movimentar em direção a saída, seguindo Harry, que levava o menino para fora. Harry já estava longe, e Draco se preparava para sair também quando alguém disse.
– É... professor – era menina da Corvinal a que Draco tinha perguntado de que casa era o garoto.
– O que é? – respondeu Draco áspero.
– E... ele? – disse apontando para o garoto petrificado no chão.
– Cuide dele você, se quiser – e saiu da sala.
Draco estava realmente irritado, não era só sua pose habitual de professor irritadinho. Andava em direção à ala hospitalar soltando fogo pelas ventas, sabia que Madame Pomfrey iria querer explicações dele para o que tinha acontecido. Ao chegar lá, encontrou Harry parado à porta.
– Madame Pomfrey quer falar com você – disse Harry sem olhar para Draco e apontando para dentro da ala hospitalar. Draco passou também sem olhar para ele, ainda batendo pé. – Malfoy – chamou Harry.
– Quê? – disse Draco se virando rápido, deixando visível sua irritação.
– Você não pode tratar os alunos assim, Malfoy. Imagina se algum deles conta que você andou petrificando alunos para os pais? McGonnagall te manda embora no dia seguinte e...
– Quero mais que eles contem, para me tirar desse lugar maldito. Queria muito saber o que eu tinha na cabeça quando aceitei vir para cá. Não vejo a hora de ir embora daqui, e mandar tudo isso para o inferno.
– Malfoy!
– Quero mais é que essa escola exploda com todo mundo dentro.
– Inclusive comigo?
Draco segurou o mais rápido que pode o impulso de dizer "principalmente com você dentro". Mas lembrou do dinheiro.
– Você é a única coisa que faz dessa escola um lugar suportável, Potter – e se pegou pensando na veracidade daquelas palavras. Realmente, Harry fazia de sua vida dentro de Hogwarts algo... melhor? Não, não, menos pior era mais adequado. Draco tinha de admitir que estava gostando de sua relação luxuriosa com Potter. Talvez, se Draco tivesse adotado um outro plano, que não se aproximar de Harry pelas vias sexuais, o humor dele estivesse bem pior do que estava.
Harry sorriu quase sem querer depois daquela declaração de Draco e o mais rápido que pôde, conteve o sorriso novamente.
– Posso tentar então melhorar a escola para você? Pelo menos por esta noite?
Draco deu um sorriso lascivo, olhou para o lado um instante, se aproximou de Harry e disse baixo em seu ouvido:
– Poderá se divertir esta noite – e lhe deu um beijo rápido nos lábios antes de empurrar a porta da enfermaria e entrar, deixando Harry para trás.
Olhos fechados, peito nu, Harry dormia em sua cama. Os cabelos desgrenhados caídos sobre o rosto, o lençol cobrindo-lhe a cintura, ressonava calmamente. Draco, sentado em uma poltrona logo ao lado da cama, calçava o par direito de seu sapato observando em silêncio Harry dormir. Toda vez era assim, Draco saía enquanto Harry ainda dormia, sem fazer barulho algum. Daquela vez, seria diferente. Terminado de amarrar o cadarço, Draco recostou-se na poltrona,e pensou por um instante, enquanto olhava para a figura adormecida de Harry. Tinha sido bom enquanto durou; agora era chegada a hora de por um fim naquilo, o motivo de todo aquele relacionamento tinha chegado: Harry Potter tinha de morrer. Enfiou a mão no bolso e tirou um pequeno frasco com um líquido preto. Rodou o frasco entre os dedos e olhou novamente para Harry; então guardou o frasco no bolso. Levantou-se e olhou para as roupas de Harry espalhadas pelo chão perto da cama. Um rastro se fazia que ligava as roupas à lareira.
Colocou as mãos nos bolsos e voltou silenciosamente para perto de Harry, o observando uma última vez. Por fim, abaixou-se, e lhe beijo os lábios levemente. Harry fez um ruído qualquer, e se virou na cama, puxando o lençol à altura do pescoço. É – pensou Draco – foi divertido enquanto durou. Então, Malfoy tirou o frasco com o líquido preto de seu bolso, o derramou aos poucos pela cama de Harry e pelo chão, seguindo a trilha de roupas até a lareira. Tampou e guardou o que sobrou no bolso novamente. Andou até a porta, virou-se, e apontando para o pequeno espaço que separava a lareira da primeira roupa próxima a ela, disse quase num murmúrio:
– Incendio! – virou-se, fechou a porta e saiu. Sem olhar para trás.
