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[2374 d.C., USS Szabo]

Passaram-se dois dias na coleta de informações no espaço romulano. O capitão decidira estender a missão, para coletar mais informações.

Lucy estava sozinha em sua cabine, tentando simular uma testa klingon, como treinamento. Na frente do espelho, pronunciou "kaplá" e achou que o sotaque não estava bom. Balançou a cabeça, negativamente. Transformou-se em um andoriano, girou as antenas. Não ficou satisfeita com a cor. Azul demais. Difícil acertar a cor. Assumiu a forma para sua próxima missão, conforme instruções do serviço de inteligência Dominion, depois da missão na Szabo. Sua altura diminuiu, alargou-se o quadril, seu cabelo ficou preto e ondulado. No uniforme da Frota, agora era possível reconhecer a tripulante da Enterprise, Deanna Troi. "Como ela faz mesmo?", perguntou-se a transmorfa.

— Estou sentindo muito medo nos habitantes desse planeta, muito medo...

A transmorfa simulou um desmaio, caindo, para se levantar logo em seguida. "Essa vai ser fácil imitar", pensou. "Preciso conversar mais com a Joanna para acostumar-me com a cultura betazoide. O complicado é que essa tal de Deanna Troi está há muito tempo na Enterprise, preciso decorar todas as informações sobre ela e seus relacionamentos com os tripulantes. E encontrar o momento propício para eliminá-la e substitui-la."

Ela simulou agora ser um homem e percebeu que não sabia direito como era um pênis. Tinha visto fotos nos bancos de dados, mas nunca vira um de verdade. Nunca simulara sexo com um humano. "Preciso ter relações sexuais com alguém daqui", pensou. "Pelo que sei dos humanos, não é difícil para uma fêmea conseguir machos para copular. Ou talvez seja mais seguro arrumar alguma coisa no holodeck. Mas será que a genitália masculina nos holoprogramas é exatamente igual à real? Deve ser, senão eu ouviria reclamações das fêmeas. O que ouço é o contrário: elas dizem que o desempenho dos homens dos holoprogramas é melhor do que dos homens reais. Para parecer real, o melhor é que eu veja como os homens reais fazem sexo, por mais repugnante que possa ser o pensamento de ter uma relação íntima com um sólido."

A transmorfa voltou à forma da Lucy e sentou-se na cama. Começou a rememorar seu passado, sentia saudade de seu povo, de unir-se a seus iguais. Já estava há muitos meses infiltrada entre os humanos. Foi escolhida face sua facilidade em assumir formas humanas, no que, por exemplo, Odo, da Estação 9, ainda tinha dificuldade e mostrava um resultado deplorável. Mas ela sabia que também tinha outra característica valorizada: muito ódio pelos sólidos, pelo que eles fizeram a seu povo, obrigando-os a assumir atitude belicosa e ativa; e ela também conseguia manter-se fria, impessoal, focada em seu objetivo diante de qualquer situação.

O bajoriano Herann, Wilson e o vulcano Voltak caminhavam para os alojamentos. Ao passarem pelo holodeck, a porta se abriu e o engenheiro de holodeck Sergei saiu.

— Vocês já participaram de uma simulação holográfica em formato de desenho animado?, perguntou Sergei. — O próprio corpo recebe uma matriz holográfica de desenho, é o que há de novidade em holografia. Acabei de testar um protótipo.

— Já me disfarcei num holoprograma, disse Voltak. — Mas isso era na época em que eu era jovem e não controlava bem meus impulsos sexuais. Entrava na simulação de alguma tripulante e interagia com ela fingindo-me de holograma. Alterava os sistemas de segurança, verificava entre os holoprogramas armazenados aqueles que eram mais interessantes. Em especial as fantasias eróticas das garotas. Isso foi há décadas, hoje o sistema de segurança não permite mais isso. Os programas holográficos são mais seguros.

— E realistas. Se o cara quer sexo, consegue uma simulação bem real, disse Wilson.

— Isso é bom, pois as garotas reais não conseguem me aguentar, disse Herann. — O meu é tão grande que, quando peguei uma trill, o simbionte reclamou que estava sendo cutucado.

Todos riram, exceto Voltak.

— Isso parece conversa fiada, disse Wilson.

— Eu tenho um programa para uso particular, mas se quiser usá-lo fique à vontade, disse Voltak para Herann. — Deixei no banco de dados. É bem exaustivo.

Voltak listou seus programas na tela. Herann acompanhou a listagem dos programas.

— Esse é o programa? Garotas Antanas 4? Vou dar conta tranquilo.

— Esse mesmo, pode acionar. Peça a versão com uma garota.

— Duas.

— Não recomendo. As antanas são realmente muito ativas sexualmente.

— Estou até pensando em três.

— Definitivamente, não recomendo, disse Voltak. — Computador, duas garotas no programa.

Herann entrou no holodeck. Passaram-se cinco minutos. Wilson e Voltak continuaram conversando, pertos do holodeck. Sergei já havia ido embora.

A porta do holodeck abriu de repente, com Herann ofegante e olhando, surpreso, para os dois. Ele não esperava que eles tivessem continuado no corredor. adentro

— Só saí para respirar ar fresco. Uma das garotas acendeu um incenso.

— Claro. Está gostando?, perguntou Voltak.

— Muito bom. Mas deixe-me voltar, senão as garotas vão reclamar.

Deu um sorrisinho e entrou de volta. Fechou-se a porta.

Os dois continuaram conversando. Passaram-se mais três minutos, a porta abriu e Herann saiu, mais ofegante ainda.

— Muito bom mesmo esse programa. Mas tive que parar porque lembrei que tenho um relatório para fazer.

— Ah, sim, um relatório, disse Wilson.

Herann caminhou pelo corredor, distanciando-se rapidamente, mas cambaleando um pouco e se apoiando nas paredes do corredor.

Wilson conteve o riso.

— E, daí, eu alterei a rotina de desmaterialização, disse o técnico da engenharia. — Quando elas se materializaram, as três estavam nuas. As roupas delas não foram desmaterializadas junto com elas, ficaram na origem.

— Você que fez isso?, perguntou o outro técnico. — O arquivo com as imagens circula até hoje! Como é que você conseguiu passar pelo sistema de segurança?

— Fiz com que o código fosse reconhecido como um comando do operador. E o código, ainda por cima, comandou que as imagens daquela sala de teletransporte fossem transmitidas para a área pública da rede.

— Você ainda tem o código?

— Tenho no meu PADD.

— Posso dar uma olhada?

— Vamos lá, deixei na minha cabine.

Cruzaram no corredor com Herann, que os saudou. Herann havia acabado de conversar com os binários sobre alterações no console de navegação. Entrou na ponte e retomou seu posto. Puxou conversa com Joanna.

— Eu queria saber como funcionam esses tradutores simultâneos.

— Por quê?

— São muito bons, parecem mágicos. Pode ser até uma raça que nunca encontramos e o tradutor já vai traduzindo mal o cara começa a falar. Isso, pra mim, é mágica! Imagine um que traduzisse o que as mulheres falam!

— Como assim?

— Por exemplo, às vezes as mulheres falam "não", mas querem dizer "sim". Com um "tradutor de mulher", quando ela falasse "não" querendo dizer "sim", o tradutor traduziria o "não" para "sim".

— Às vezes penso que você é maluco!, disse Joanna, e riu.

— O que acho maluco é a quantidade de alienígenas parecidos com os humanos.

— Grande parte deles são bem parecidos, inclusive bajorianos como você.

— Com a maioria dos alienígenas que eu encontrei, e já encontrei com um monte deles, eu fico com a impressão que se eu der uma boa esfregada com uma toalha no rosto, vira um humano perfeito.

— Dizem que isso ocorre porque temos muitos genes em comum.

— A maioria só tem a testa diferente. Nós, bajorianos, por exemplo, só temos de diferença na aparência essas pequenas protuberâncias acima do nariz. E vocês, betazoides, não tem nada na aparência que os diferencie de humanos.

— E qual sua teoria para essa semelhança na aparência?

— Talvez a seleção natural tenda a optar por essa disposição: um tronco com uma cabeça, dois braços e duas pernas.

— Mas não é muita coincidência o formato ser tão semelhante? Não haveria aí uma mão de uma entidade superior?

— Dizem que boa parte da galáxia foi como que semeada com um determinado código genético básico.

Mark aproveitou que estava a sós com Joanna no refeitório e perguntou-lhe

— Por que você acha que outros chegaram ao posto de capitão rapidamente ou pelo menos mais rápidos do que eu?

— Tem a ver com o que a Frota procura em comandantes: aqueles que se aventuram mais, participam ativamente das missões.

— Mas há aqueles que não podem se arriscar, pois são essenciais, por exemplo, para o bom funcionamento de uma nave.

— Parece que o comando da Frota não pensa assim. Por essa razão até capitães se arriscam em missões avançadas; pelo menos aqueles que visam o Alto Comando ou apenas conseguir o comando de naves de classe superior.

Foi uma breve conversa, mas, de certa forma, um erro, não o maior que Joanna ainda cometeria naquela missão. Às vezes, poucas palavras são o suficiente para alterar radicalmente comportamentos.

O klingon Vinci estava agitado na cama. Estava tendo um pesadelo recorrente. No sonho, ele era uma criança no início da vida escolar e estava na hora do recreio. As outras crianças klingons o cercaram no pátio e gritavam.

— E aí, Vinci, como você pode ser um klingon sendo assim tão mirrado?

— Um fracotão!

— É uma vergonha para a raça!

— Por que você não se mata?

— Não deveria ter nascido!

— Nem nome de klingon você tem!

Um dos garotos sacudiu um bastão no ar:

— Vamos mandá-lo para a nau?

Começaram a gritar em coro:

— Para a nau! Para a nau! Para a nau dos condenados!

— Gre'thor o espera!

O garoto klingon ergueu o bastão e começou o movimento para desferir um golpe na cabeça de Vinci.

Vinci acordou. Pulou da cama para o chão e começou a fazer flexões dos braços.

— Um, dois, três...

Pelos seus pensamentos passou a lembrança das agressões que sofrera das outras crianças klingons, por ser tão fraco.

— Quarenta e seis, quarenta e sete...

Lembrou-se do zelador da escola aconselhando-o que deveria se tornar habilidoso na luta, daí poderia revidar o ataque das outras crianças e passar a ser temido e respeitado.

— Cento e vinte, cento e vinte e um...

Por sua mente passaram os dias de academia de artes marciais, com a qual gastava toda sua mesada.

O suor escorria por seu corpo. O suporte de vida da cabine detectou a variação de temperatura da cabine e aumentou a refrigeração do ar.

— Duzentos e quarenta e quatro, duzentos e quarenta e cinco...

Havia ficado viciado em exercitar-se logo no começo da adolescência. Tentava alcançar o limite de um coração klingon. O limite que seus músculos, à beira da exaustão total, pudessem suportar.

— Trezentos e noventa e seis, trezentos e noventa e sete...

Nunca mais nenhuma criança zombara dele. Ninguém mais. Só esses pesadelos é que não cessavam. E a forma que havia descoberto para não tê-los era esgotar-se fisicamente antes de dormir.

— Seiscentos e cinquenta, seiscentos e cinquenta e um...

Estava totalmente esgotado. Deitou-se no chão mesmo e voltou a dormir em instantes.

Geralmente era um pouco monótono o trabalho do navegador. Na maior parte do tempo, ou uma nave estava em órbita de um planeta, ou estava seguindo uma rota pré-estabelecida. Herann, para se distrair, ficava lembrando do máximo de detalhes de tudo que tinha visto e ouvido. E, tentando fazer ligações entre tudo isso, vislumbrava o que, para ele, realmente estava acontecendo. E, assim, nasciam suas teorias de conspiração. Mas, às vezes, um sinal no seu painel o fazia despertar dessa ginástica mental criativa. E era o que acontecia agora. Seu painel acusava sinais de distorções espaciais adiante. Herann puxou os dados dos sensores científicos, já que não havia ninguém na ponte no posto de oficial de ciências naquele momento. Era o turno da noite, e só estavam na ponte ele, o capitão e a engenheira Mirian, que tinha desmontado todo um painel.

— Capitão, estou detectando fortes vestígios de distorções espaciais semelhantes às deixadas por motores de dobra, mas a potência estimada é muito alta.

— Faça uma sondagem de médio alcance, somente com sensores passivos, para que não sejamos detectados.

— Detecção de uma nave a cerca de 6 bilhões de quilômetros daqui e de resíduos deixados por um conduíte transdobra.

O computador reconheceu padrões borgs e recomendou manter-se distância e avisar os romulanos assim que a nave estivesse a uma distância segura. Mark ficou pensativo por alguns momentos. Concluiu que conseguir mais informações sobre os borgs poderia garantir-lhe pontos suficientes para que lhe dessem uma nave classe Galaxy para comandar.

— Vamos verificar, tenente. Essa nave tem que ser mesmo testada sob as mais diversas e adversas condições. Desativar sensores de longo alcance. Nível um de camuflagem na aproximação. Já passamos pelos romulanos, que possuem a melhor tecnologia de detecção de camuflagem; não são os borgs que irão nos detectar.

Mark não se lembrava mais dos relatórios que lera sobre os borgs, nem mesmo os tinha lido com atenção. Tinha, naquele momento, em seus pensamentos, os pontos que acumularia em sua carreira com essa iniciativa de ir além do previsto naquela missão, vislumbrando-se como Almirante no futuro. Conforme as horas avançavam, a ponte ia tendo seus postos ocupados e a tripulação ficava sabendo, com algum espanto, sobre o que seria feito a seguir.

Após 9 horas da detecção, a Szabo aproximava-se agora da nave borg, que estava imóvel. Todos na ponte estavam apreensivos. A Szabo passava vagarosamente perto da nave borg.

— Ative a sondagem passiva total, disse o capitão. — Mantenha a modalidade furtiva no máximo. Trace uma rota de órbita em torno do cubo borg.

A maior parte dos sensores da Szabo começou a captar tudo que conseguia do cubo borg. Faixas largas de frequência em diversos tipos de onda foram lidas e armazenadas. O silêncio era mantido na ponte, embora não fosse necessário tanto rigor; era consequência da tensão dos tripulantes.

— Capitão, já temos algumas interpretações das informações por nossos computadores. O senhor quer ouvir o que temos até agora?, perguntou Voltak.

— Sim, prossiga.

— O cubo está com os motores desligados, escudos e sistema de armas em modo de repouso. As dimensões são as maiores já registradas num cubo borg: aresta de 7.020 metros. Há cerca de oitenta mil sinais individuais de vida orgânica. Quase todos parecem estar nos casulos de regeneração, pois os sinais são fracos.

— Poderíamos entrar em combate e destruir essa nave?

Mark não era maluco para tentar isso, mas queria ter uma ideia sobre o poder de combate daquele cubo borg.

— Processando as informações, senhor...

Voltak havia comandado o computador que analisasse o sistema de armas e de escudos com base nas informações coletadas. Após alguns minutos, gráficos e números apareceram em sua tela.

— Não é recomendado, senhor. Mesmo com o fator surpresa totalmente do nosso lado, não conseguiríamos danificar suficientemente a nave antes que ela ficasse totalmente operacional. Poderia causar sérios danos à Szabo, com 80% de probabilidade de nos destruir.