Capítulo
7: "O Círculo Mágico"
(No qual os
atores participam antes de uma apresentação)
Era aquela dia da semana novamente; Um dia depois do retorno de Jack, Libby já estava conduzindo outra de suas sessões de terapia. Tendo começado como terapia de casais, se metamorfoseado em terapia de pais e agora englobando toda a família, as sessões eram um sustentáculo na ilha, muito embora ninguém pudesse dizer se a terapia funcionava ou não.
Mas, todos confiavam em Libby. Numa carta muito comovente que ela havia escrito e lido para eles há um tempo atrás, ela assegurara que fôra totalmente licensiada e que nunca, jamais, estivera confinada em uma instituição mental.
Ela também proclamara que o termo 'louco' era usado com excessiva liberalidade em sua profissão e que o MDEDM IV (Manual de Diagnoses e Estatísticas das Desordens Mentais, 4ª revisão), um útil guia para doenças mentais, era na melhor da hipóteses, incorreto e na pior, uma total porcaria.
Especialmente quando chegava no diagnóstico de psicose, esquizofrenia e distúrbio bi-polar - coisas que Libby jamais sofrera. Ela então, ficou de costas para eles dizendo que tinha algo em seu olho e gargalhou nervosamente enquanto seu olho direito pulava descontroladamente. E foi assim que ela virou a psiquiatra residente da ilha.
Um grupo bem grande de pessoas sentou em círculo nos troncos e seus filhos sentaram na areia, à frente deles. Ou pelo menos, a maioria das crianças se sentou.
Os cinco filhos de Jack estavam
ocupados num extravagante jogo de pega-pega, sendo Jacka Sayida e
Josefina as mais agressivas. Hugo Jr, que já havia se cansado
do jogo, se encastelou dentro de um tronco, pensando estar seguro.
Ele imediatamente ficou entalado e adormeceu.
Gunner notou seu
traseiro gordo e suas pernas suavemente cabeludas saindo do fundo do
tronco e se levantou por um breve momento para puxar as calças
do menino. Claire, com sua mão segurando o ombro do pequeno
Aaron, de quatro anos, olhou através da fogueira,
desaprovadoramente. Ela balançou a cabeça,
mentalmente.
Estavam lá Jin, Sun e Soon-Yi, perto deles
sentavam Sawyer, Kate e Gunner, a seguir Jack, sua assistente de
escritor Alex e seus cincos filhos em frente deles. Ana estava lá,
também, de cara feia, parecendo desinteressada e entediada. E
perto dela estava Charlie, Claire e o pequeno Aaron de quatro
anos.
Charlie, é claro, não era pai de nenhuma das
crianças ali, mas, longe disso ser um empecilho para sua
presença. Em todo esse tempo ele jamais parou de insistir que
tinha uma obrigação dada por Deus como pai de Aaron.
E falando de lésbicas, Libby estava lá também, sentada calmamente em posição de lótus num tronco perto da fogueira, seus olhos vidrados, enquanto tentava escutar as preocupações dos Kwons.
"Estamos
tentando convencê-la que, a longo prazo, matemática é
muito mais importante do que literatura americana contemporânea,
como vocês devem saber." Disse Sun ao grupo. "Mas,
ela realmente adora livros. E tem um livro em particular, de um homem
chamado Stephen King. Ela gosta tanto dele que nós
simplesmente não conseguimos arrancar de suas mãos.
Qual é o nome dele?"
Jin olhou para as mãos de
sua filha, onde o livro estava firmemente seguro.
"Gerald´s Game."
Se Sun e Jin tivessem conseguido arrancar o livro das mãos de sua filha, teriam visto que Gerald´s Game era a estória de um marido e sua mulher que vão para uma cabana revigorar sua vida sexual. A estória também envolve algemas, um chute fatal na virilha, uma aparição deformada e um cão comedor de carcaças.
"Bom
livro," disse Sawyer.
O grupo ficou esperando,
silenciosamente, o que Libby tinha a dizer. Ela estava ocupada
tentando combater o tédio que estava sentindo há
aproximadamente 27 minutos, desde que Sun havia começado a
falar sobre os hábitos de estudo de sua filha.
"Hum."
Ela deu de ombros. "Soon-Yi é esperta."
E parece
que isso era tudo que Libby tinha a dizer.
"Aaron e eu
temos problemas maiores."
"Sim," disse Libby,
revigorada pela perspectiva de lidar com um caso que não
tivesse nada a ver com matemática e crianças asiáticas
geniais. "Você fez algum progresso naquilo que conversamos
semana passada?"
"Eu não vou parar," disse
Claire.
"Claire, nós já falamos sobre os
prós e os contras. Aaron tem quatro anos de idade. Ele está
muito grande pra continuar a ser amamentado."
Claire encarou
Libby. "Eu não, vou, parar." ela repetiu,
deliberadamente dessa vez.
"Ok," disse Libby,
suspirando. "E sobre a outra coisa que discutimos? Está
finalmente convencida de que Aaron não é doente?"
Com
tantas tentativas de raptos que Aaron sofreu quando bebê (Os
Outros, Rousseau, Charlie) era natural que Claire se transformasse
numa mãe super-protetora. E desde que ele nasceu ela estava
convencida de que Aaron era doente. Algumas vezes eram assaduras,
outras vezes eram cólicas. Quando ele estava quieto, Claire
achava que ele estava morrendo. Quando estava agitado, bem... ela
também pensava que ele estava morrendo. No momento, ela estava
obcecada com a idéia de que ele tinha constantes ataques de
febres.
"Alguém pode, por favor, sentir a testa
dele!" ela exigiu.
Alex esticou o braço para sentir.
"Não está particularmente quente."
"Isso
não é a testa de Aaron," disse Kate.
Alex havia
'acidentalmente' alcançado e apertado o peito direito de Kate,
ao invés. O que era estranho, considerando qeu Kate estava
sentada no lado oposto ao de Aaron.
"Legal, né?"
repontou Sawyer.
Alex dramaticamente puxou sua mão como
se ela tivesse acabado do tocar um forno quente. Não que ela
soubesse como um forno quente era. Mas, ela havia escutado
estórias.
Ela voltou a seu bloco de papel para escrever
algumas notas.
Enquanto isso, Charlie havia colocado sua mão
contra a testa do menino, mas, Claire imediatamente a tirou com uma
palmada. "Você lavou sua mão?" ela perguntou.
"Eu sei onde suas mãos estiveram, Charlie. Seus germes
não vão chegar perto do meu bebeee!"
"Ela
tá ficando doida, não tá?" exclamou
Charlie. "Ela me levou ao lesbianismo, vocês sabem."
"Oh, só por causa das minhas alucinações?"
ela exclamou. "Você disse que não ia mencionar
isso!"
"E não mencionei!"
"Que
alucinações?" perguntou Libby.
Claire
respirou fundo e se inclinou. "Em minhas alucinações,"
disse ela. "Eu vejo... dingos." (cachorros selvagens
australianos, mto perigosos, com fama de devoradores de bebês.)
Todo
o grupo olhou para ela por um minuto.
"Bem," disse
Libby. "Sobre isso, Aaron, tem alguma coisa que você
gostaria de dizer?"
O garotinho, que estava sentado entre os
joelhos de Charlie e Claire, era a cara de sua mãe. Ele tinha
pele clara e era franzino, baixinho para 4 anos de idade. Tinha os
cabelos muito louros, quase brancos, aparados, perto do couro
cabeludo. Sua caracteristica principal, entretanto, eram seus grandes
e observadores olhos azuis, que ficavam ainda maiores através
dos grandes óculos de armação grossa para
adultos que ele usava. Embora, provavelmente, ele não
precisasse deles, à princípio, agora ele, infelizmente,
não podia mais viver sem eles.
Seguindo esse padrão,
se Claire tivesse encontrado algum inalador na ilha, ele
provavelmente, teria asma hoje em dia.
Com todas essas qualidades,
ele poderia ser um garotinho adorável (talvez quase tão
adorável quanto Gunner) apenas, se ele não fôsse
tão sério. Ele raramente sorria. E estava todo o tempo
acompanhado pela sombra da mão onipresente de sua mamãe.
Ademais havia aquela coisa toda dele comer cola, o que também
lhe tirava pontos.
"Bem, Aaron?"
Tirando o dedo
do nariz, Aaron abriu a boca para falar e numa mistura de sotaque
australiando e britânico (em seu mundo protegido ele somente
ouvira as vozes de Claire e Charlie, enquanto crescia) ele disse
calmamente, "Tio Locke disse que vocês vão todos
pro inferno."
Todos ficaram em silêncio. Os Kwons
engasgaram e Jin se curvou para cobrir os ouvidos de Soon-Yi.
"Bem,"
disse Libby. "Parece que fizemos algum progresso com os
Littletons, hoje. Vamos adiante com alguém mais."
Libby
olhou para Sawyer e Kate e internamente, Sawyer resmungou. Ele
realmente detestava a terapia. Mas, ele detestava especialmente a
idéia de seu filho ir à terapia. Mas, Kate havia
insistido e Libby era licensiada, então, relutantemente, ele
concordou em trazê-lo junto para as sessões em
família.
"Sawyer, Kate e Gunner," declarou
Libby, "Problemas? Perguntas? Comentários?
Preces?"
"Bem," começou Kate. "Estive
pensando em como Gunner vai reagir quando seu irmão ou irmã
chegar. Sawyer e eu fomos ambos filhos únicos então não
sabemos se ele vai ficar enciumado ou confuso... ele tem olhado para
o meu estômago de um jeito engraçado,
ultimamente."
"Engraçado?"
"Como se
achasse que ele é mau."
"Mau?"
"Quando
eu acordei no outro dia, ele estava com a cabeça pressionado
contra meu corpo e parecia que ele estava murmurando alguma coisa em
latim."
"Gunner," começou Libby, "Você
está entusiasmado com ganhar um irmão ou irmã?"
O
menino não respondeu.
"Ele é tímido."
Explicou Kate.
Ele não era.
"Vamos lá,
Gunner, você pode me contar," insistiu Libby. "Você
não quer um irmão ou irmã?"
Finalmente
ele respondeu. "Yeah."
"Estão vendo?"
disse Libby sorrindo. "Vocês dois não tem com o que
se preocupar.
Mesmo assim Sawyer e Kate subitamente pareceram
muito preocupados.
"Ele está mentindo," declarou
Sawyer.
Eles sempre sabiam quando o menino mentia.
Suas
desconfianças de que talvez Gunner não estivesse muito
feliz sobre o Barrigão, não eram mais apenas
desconfianças.
"Gunner mentiu ao meu filho esta
manhã mesmo," Claire foi em cima. "Ele lhe disse que
Os Outros iriam me sequestrar se Aaron não o deixasse brincar
com o seu apito contra estupro."
Sim, Aaron tinha um apito
contra estupro. Era para sua proteção.
"Sua primeira vigarice," disse Sawyer numa voz abafada. Ele levou a mão a seus olhos subitamente brilhantes de orgulho e rapidamente explicou que tinha caído alguma coisa em seu olho.
"Parece que você têm um problema com
mentiras," Libby contou a Gun numa voz cantada, feliz por
diagnosticar problemas. E aparentemente, igualmente feliz por deixar
os dito cujos se resolverem sozinhos.
Gunner, carrancudo e fazendo
beicinho, olhou por cima de seu ombro e viu seus pais parecendo
tristes. E viu que os pais de Soon-Yi pareciam aborrecidos também.
Todo mundo à sua volta estava deixando ele maluco.
Naturalmente, ele decidiu descontar em Aaron.
"Aaron é
um bastardo!"
Os Kwons engasgaram pela segunda vez
naquela noite e Jin cobriu os ouvidos de Soon-Yi de novo.
Claire
olhou horrorizada enquanto apanhava Aaron para segurá-lo em
seus braços protetores, onde, aparentemente, palavras não
poderiam tocá-lo.
"Kate, eu disse a você semana
passada qeu Gunner fica xingando na frente de Aaron."
"Eu
sinto muito, eu-"
"Bela educação vocês
estão dando."
Kate só pôde ficar ali sentando, parecendo mortificada, com as mãos se mexendo nervosamente. Ela estava tentando se explicar ou pelo menos defender seu filho enquanto tentava se apresentar numa luz positiva. Vê-la desse jeito, toda enrolada e embaraçada, partiu o coração de Sawyer. E ele não ia ficar ali sentado, sem fazer nada.
"Ei, espere aí!" ele estalou. "Seu
garoto acabou de dizer que íamos todos pro inferno e Kate é
a mãe péssima?"
"Sawyer-" Kate tentou
interrompê-lo antes que ele dissesse algo que não
devesse.
"Bem, e é verdade!" exclamou Claire.
"Nenhuma dessas crianças é batizada!"
"Escuta
aqui, Mamãezinha Querida," ele falou. "Kate é
uma mãe 10 vezes melhor do que você jamais será.
E meu filho pode xingar, mas, pelo menos ele não é um
mariquinhas mimado como o seu! E sabe o que mais é verdade?
Aaron é um bastardo!"
"Está anotando tudo isso?" murmurou Jack para Alex a seu lado. A garota fez que sim com a cabeça, sem tirar os olhos do bloco uma única vez. Ela escrevia furiosamente, erguendo os olhos somente para pegar a reação de Kate. E a de Jack. Jack era o personagem principal ali.
"Estou chocado," sussurrou Jack a
Alex. "As acusações feitas contra Kate são
completamente absurdas. Eu sempre achei Kate uma excelente mãe."
Alex
fez com a boca as palavras 'excelente mãe' enquanto
escrevia.
"Eu me sinto superior e meio abalado... aqui
dentro."
Ela concordou e anotou tudo isso.
"Vamos
nos acalmar," Libby mandou. "Já acabamos com os
Austen-Ford, certo? Colocar pra fora seus sentimentos deve ter
ajudado muito."
"Não ajudou mer-"
"Os
Cortez-Shephards!" Disse ela cortando Sawyer. "Já
que Jack ficou longe por um tempo, por que não deixamos Ana
Lucia compartilhar algumas de suas queixas parentais conosco."
Ela
sempre estava ali apenas por que era obrigada, mas pela primeira vez
parecia que Ana iria realmente participar na sessão
familiar.
"Bem, Libby. Eu quero perguntar a Jack se ele já esqueceu que Alex é uma Outra. Ele está com uma Outra convivendo com meus filhos!"
"Então,
Alex está vivendo com você, Jack?" perguntou
Libby.
"Quando aceitei Alex como minha assistente, concordei
em lhe prover quarto e comida," ele respondeu. "E é
José."
"Deve ser um pouco estranho para seus
filhos. Conviver com uma nova mulher em sua vida. Eu acho que Ana
está preocupada com a química de vocês
juntos."
"Não é nada disso," disse
Ana.
"Shhhhhhhhhhhhhh, deixe ele responder,"
repontou Libby.
"Eu concordo, Libby. Química é
importante," disse ele. "Existem certas pessoas nessa ilha,
como Sawyer e Kate, por exemplo, que vivem juntos como amantes muito
embora sua química esteja toda errada."
Kate e Sawyer olharam como se quisessem dizer alguma coisa, mas, Libby ergueu sua mão e pediu que Jack se explicasse.
"Eles tem mais um tipo de amor como o de irmão e irmã. Totalmente errado para um relacionamento. Minha química com Kate, por outro lado, tem muito mais a ver com uma relação adulta. E todo mundo também acha isso."
"Agora, por que não perguntamos a Alex como ela se sente sobre mim?"
"Alex?" perguntou Libby.
"Eu o idolatro."
Jack sorriu e baixou a cabeça em modéstia.
"E este é exatamente o tipo de respeito que todo relacionamento necessita para funcionar," ele continuou. "Não que Alex e eu estejamos num relacionamento. É só que, se estivéssemos, nós provavelmente, seríamos perfeitos um pro outro. Mas, não estamos num relacionamento."
"Mas, ainda assim, ela está vivendo com você," replicou Libby.
"Certo."
"Ele é um herói," Se maravilhou Alex.
A sessão acabou na mesma hora.
