Capítulo 7
Claire saiu do carro da madrasta irritada. Mas onde será que Jack se metera que esquecera que tinha que levá-la à escola? Por causa dele tivera que contar com a carona da chata da mulher do seu pai. Como era de costume, Margot ou a ignorava ou passava sermões intermináveis. Claire preferia sempre a primeira opção. Mas hoje, Margot escolhera falar. E como falava. O caminho inteiro viera criticando Claire. E desta vez não se limitara a destilar seu veneno contra a "bastarda", como a chamava, e estendera as críticas a sua amiga Kate. Se é que Kate ainda ia querer ser sua amiga depois do fiasco do dia anterior.
E ela precisava tanto de uma amiga! Estava achando que podia estar apaixonada. Mas, sinceramente, nunca tinha namorado e não sabia se o que sentia era mesmo amor. Charlie era um cara legal e já tinha deixado claro seu interesse nela. Mas às vezes, Claire achava que era só amizade. Contava com os conselhos de Kate, que era anos luz mais experiente do que ela neste assunto.
Segurando desajeitadamente os livros pesados, ela procurou Kate com o olhar por entre os estudantes na porta da escola. Mas a amiga não estava ali. Desanimada, Claire subiu os degraus, sentindo-se péssima
-Oi, Claire.
Ela levantou a cabeça ao ouvir a voz de Charlie e sorriu.
-Oi!
-Deixa que eu seguro pra você.
-Obrigada! Você não tem obrigação de fazer isto sempre pra mim! – ela falou enquanto ele pegava os livros de sua mão e dava de ombros a seguindo para dentro da escola.
-Não tem problema algum. Vê? Eu não trago nenhum livro. Estudar não é comigo. Meu negócio é a música.
-Percebi... – Claire falou rindo – mas você pensa em continuar com isto? Quero dizer – ela se corrigiu ao ver o olhar atravessado ele – quer ser músico profissional, viver disto?
-Claro que sim! Você desaprova?
-Não! Não é isto! É só... É uma vida difícil. Conseguir gravadora, estas coisas.
-Eu sei. Mas eu tenho um irmão mais velho. Ele esta batalhando pela gente. Temos uma banda. Ainda vai ouvir muito falar da gente.
-Eu sei que sim – Claire falou, encantada com a confiança dele – Mas já estou até vendo. Vai ficar famoso, rico e esquecer-se dos amigos! – ela brincou.
-Esquecer de você? Eu acho que não – ele falou lentamente e Claire prendeu a respiração e depois baixou o olhar.
-Você diz isto agora...
-Quer ir ao baile comigo? – ele indagou de repente e Claire levantou o rosto, surpresa.
-Como?
-Baile de formatura.
-Oh... Nem tinha pensado nisto.
-Não precisa pensar muito. É só dizer sim ou não.
Claire mordeu os lábios, hesitando.
- Mas por quê? Não era isto que queria? De repente desejou ter Kate ali com ela. Com certeza Kate saberia o que dizer numa hora destas.
- E então? – ele insistiu, meio inseguro
Claire sorriu e o fitou.
-Sim, eu vou ao baile com você.
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Ana caminhava arrastando os pés, pelo pátio ensolarado. Desanimada, ela sentou numa mesa vazia e abriu seu lanche. Mas não estava com a menor fome. Pensava em como era tonta por ter achado que Sawyer poderia querer alguma coisa com ela. Mordeu os lábios, a vontade de chorar vindo com força. A dor da rejeição era terrível. Queria nunca ter ido à casa dele. E pensar que por causa daquela idéia maluca de sedução tinha feito um piercing no umbigo! Piercing igual de Kate, lembrou-se agora. Teria inconscientemente tentado imitar a namorada de Sawyer? Talvez.
Mas só na sua mente inocente para achar que Sawyer deixaria a linda e popular Kate para ficar com ela. Olhou para suas roupas. Desiludida, ela tinha voltado a usar as roupas largas e sem graças. Para que se vestir de outro jeito, se Sawyer nem a olhava?
Fungando, ela deu uma mordida no lanche e ajeitou os óculos. Precisava deles apenas para ler. Mas os usava agora para esconder as lágrimas traidoras. De repente ouviu barulhos de assovios e palmas e levantou a cabeça. Shannon e algumas amigas tão loiras e lindas como ela passavam por entre as mesas distribuindo panfletos.
Os homens as comiam com o olhar e Ana se pegou sentindo inveja das líderes de torcida. Será que um dia poderia ser admirada assim? Suspirou, sonhando com um futuro diferente daquela realidade sufocante que vivia agora. Uma das meninas piscou para um garoto que deixou cair todos os livros no chão e a galera riu, fazendo algazarra. Ana de repente ficou curiosa para saber o que tinha naquele panfleto que deixava todos alvoroçados. Mas, as líderes passaram por ela como se fosse invisível, ignorando a sua mesa e distribuindo os papéis na mesa mais adiante. Ana abaixou o olhar, irritada. Mas o que esperava? Meninas como Shannon não estavam nem aí para ela.
-hei, Ana, finalmente te achamos! – Naomi e Libby sentaram na sua mesa
-Mas que roupas são estas? – Libby indagou – achei que tinha mudado de visual
Ana sorriu sem graça. Libby também era linda. Mas não fazia parte da turma dos populares e sim dos cdfs. Como Ana.
Ana deu de ombros
-Aquilo não era pra mim.
Naomi e Libby se entreolharam
-Não entendi. E o gato que queria conquistar? – Naomi insistiu
Ana se irritou
-Não quero falar sobre este assunto!
-Mas...
-Não! Por favor, não insistam! Eu estava surtada ontem. Agora já voltei ao normal.
-Ok, se insiste – Libby falou - mas sinceramente, achei que ficou linda, com novas roupas e sem estes óculos horrorosos! Aquele seu gatinho pode não ter te dado bola, mas olha quantos garotos tem aqui? Aposto que ficariam babando se aparecesse aqui vestida com uma mini saia, mostrando seu piercing...
-Pára com sito, Libby! Acha mesmo que me olhariam como olham para Shannon?
-Eu acho que sim! Você fica aí neste mundinho de alto comiseração, porque é cômodo pra você. Mas tem que ir a luta! – Libby jogou um panfleto para ela
-O que é isto?
-O baile de formatura. Um bom lugar para a nova Ana Lucia se revelar
-Eu não sei...
-Pois eu sei. Pense nisto.
O sinal bateu e Libby e Naomi se afastaram e Ana olhou o panfleto. Baile de formatura? Nem pensara neste baile. Não era para ela.
Mas porque não? Não era aluna e não ia se formar como todos os outros? Podia muito bem ir ao baile. Quem sabe Sawyer também fosse e...
Ela mudou o rumo dos pensamentos, brava consigo mesma. Tinha que parar de pensar nele. Esquecer. Podia ir ao baile. Mas iria para provar a ela mesma que era atraente como qualquer moça naquele colégio. Se de quebra, conquistasse Sawyer...
-Chega, Ana Lucia! – se repreendeu, pegando os livros e deixando o refeitório para a próxima aula.
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Kate entrou na sala de aula atrasada. Perdera a hora porque tivera que passar em casa e trocar de roupa, já que dormira na casa de Sawyer. Graças a Deus era muito cedo para que seu padrasto ou sua mãe estivessem acordados. Então ela pudera entrar, tomar um banho e se trocar numa boa.
Com a cara fechada, ignorou as pessoas que a cumprimentavam e sentou na última carteira. Ainda bem que aquela palhaçada de estudos estava acabando. Em um mês se formaria e finalmente poderia dar o fora dali. Só faria 18 anos daqui a quatro meses, mas não pretendia esperar tudo isto para dar o fora da sua casa e daquela cidade. Na sua cabeça, todos os planos já tinham sido feitos. Se formaria, arranjaria um emprego qualquer, que pudesse juntar uma grana e daria o fora. Estava cansada de ter que agüentar Wayne. Sentia muito por sua mãe. Não queria que ela ficasse naquela vida, mas Diane não queria ser ajudada. E Kate não ficaria ali para virar outra Diane Austen.
Ela teria uma vida diferente. E mostraria para pessoas como Margo Shephard e seu filho que ela podia ser alguém. E eles jamais a humilhariam novamente. Pensar em Jack lhe trouxe a lembrança do beijo. Fechou os olhos, contando até dez mentalmente. Tinha que tirar aquele episódio no quarto dele da cabeça. Mas estava difícil. Bastava se distrair que lá estava. Os olhos dele sobre seu rosto, os braços em volta de si, a respiração quente contra sua face, o toque os lábios firmes sobre os seus, derretendo seus sentidos...
-Kate?
Ela abriu os olhos sobressaltada e viu Claire a sua frente.
-Oi... Claire.
Claire deu um sorriso amarelo e sentou na carteira ao lado da sua.
-Achei que não viria na escola hoje.
-Não deveria ter vindo mesmo – Kate resmungou
-Kate, eu... queria pedir desculpas, pelo o que aconteceu na minha casa... Minha madrasta é horrível.
-Tudo bem, Claire. Sei que não é culpa sua.
-Esta tudo bem mesmo? – Claire indagou esperançosa – Ainda somos amigas?
Kate pensou que seria muito mais fácil, se deixasse de andar com Claire. Não por causa dela, mas por temer ter que ver seu irmão de novo. Mas as aulas estavam acabando. E a vida delas com certeza tomaria um rumo diferente. Então sorriu.
-Claro que sim.
-Ai que alívio. Achei que não fosse mais falar comigo depois daquilo.
-Esquece. Eu já esqueci – mentiu
-Òtimo! Estava louca para conversar com você!
-Sobre o que?
-Charlie me convidou para ir ao baile.
Kate fez uma careta
-Por que fez esta cara?
-Sou totalmente contra este baile! Não ponho os pés naquela cafonice nem que me paguem!
Claire ficou decepcionada.
-Então acha que não devo ir?
Kate deu de ombros.
-Você quem sabe. Não está afim do Charlie?
-Acho que estou sim.
-Então vai!
-Mas você não vai?
-Claire, isto não é pra mim, ok? Tudo o que eu quero é me ver livre desta espelunca e seguir com minha vida. Não sei no que um baile acrescentaria alguma coisa! Aliás, muito me admira o Charlie querer ir. Deve estar amarradão em você mesmo!
-Por que diz isto?
-Porque o pessoal da nossa turma nunca vai a estes eventos caretas e retrógrados da escola. Preferimos ir beber por aí.
-Então é melhor eu não ir...
-Claire, pára com isto. Sei pela sua cara que está louca para ir!
Sim, Claire queria ir. Mas não queria ficar contra Kate.
-Não. Você tem razão. Vou dizer ao Charlie que não vou! Além do mais, podemos nos encontrar em outro lugar não é?
-Sim, podem sim. – Kate riu e chegou mais perto de Claire, falando baixo – Vou falar para o Sawyer emprestar a casa dele para vocês!
Claire ficou vermelha.
-Kate! Não sei se tenho coragem!
Kate gargalhou.
-Estou brincando sua tonta!
Claire sorriu sem graça.
-Não que isto não vá acontecer. Mas... A gente nem saiu ainda. Não sei se tenho certeza se o que sinto pelo Charlie é algo do tipo... Você entende? Talvez... Sejamos apenas amigos.
Kate encarou a amiga. Sim, ela entendia. Namorava com Sawyer, mas não tinha absoluta certeza se gostava dele realmente. Lembrou-se na noite anterior. Não fora boa idéia ir para casa dele. Sabia o que ele queria. E estava disposta a ceder daquela vez. Mas na hora, já não tinha tanta certeza se valia a pena. Ir para cama com Sawyer apenas para provar que não sentia nada por Jack não era real, não era uma boa idéia.
-Entendo, assim, Claire – respondeu por fim – mais do que imagina.
O professor entrou na sala e elas encerraram o assunto.
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Ana Lúcia respirou fundo e tomou coragem. A mesa do comitê de formatura presidido por Shannon estava montada no pátio naquela hora da saída do colégio. Estava ensaiando há dois dias para ir lá comprar a entrada para o baile. Sabia que Shannon a odiava e estava com medo de ser humilhada pela líder de torcida. Mas não podia ficar daquele jeito. Tomando coragem, ela aproximou-se da mesa.
-Oi, quero uma entrada – falou colocando o dinheiro na mesa
Shannon olhou para o dinheiro e depois para ela. Então sorriu de forma irônica.
-Você? Quem pensa que é para ir a este baile?
Ana sentiu as mãos suarem frio.
-Sou uma aluna como todo mundo aqui.
Shannon riu afetadamente e as amigas acompanharam.
-Pois eu sou a presidente do comitê. E não vou vender nada para uma mal vestida como você – falou a medindo com desprezo e Ana sentiu o rosto queimar.
-Não pode fazer isto!
-Não? Claro que posso! Uma cdf feia como você não vai me dizer o que não posso fazer! Não tem espelho em casa não?
Aquilo foi demais para Ana.
-Não pode fazer isto. Vou denunciá-la ao diretor!
-Vai nada! Esqueceu a bronca que levamos por causa daquela briga? E tudo por culpa sua!
-Culpa minha?
-Sim, sua! Pensa que me esqueci daquele incidente? Eu falei que ia ter volta! Me ferrei por sua causa e agora pode dar meia volta.
-Mas eu...
-Suma daqui. Não vai a este baile, entendeu? Como presidente quero tudo perfeito e uma cafona feito você não vai estragar meu dia!
Ana respirou fundo várias vezes. A raiva começando a subir na sua cabeça, mesclado com a vergonha, pois tudo mundo em volta prestava atenção na discussão. Pensou em esmurrar o nariz perfeito daquela cara fresca de Shannon. Mas então estaria em maus lençóis novamente. E queria ir aquele baile! Mas como convencer a patricinha que tinha todo direito a ir?
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Kate e Claire saíram para o pátio ensolarado e Claire lançou um olhar enviesado para a mesa da comissão de formatura. Bem que elas podiam ir ao baile... mas já tinha dito não a Charlie. Ele ficara decepcionado, mas Claire dissera que podiam marcar outro encontro e ele em resposta tascara um beijo na sua boca. Claire exultara e eles iriam ao cinema naquela noite! Não precisavam mesmo de um baile retrógrado, como dizia Kate.
-O que esta acontecendo ali? – Kate indagou ao ver Shannon e Ana trocando palavras ásperas.
Claire deu de ombros.
-Pelo o que entendi, Shannon se nega a vender uma entrada para o baile a Ana Lucia.
-Ela pode fazer isto? – Kate indagou.
-Kate, as coisas são iguais na Austrália e em qualquer lugar do mundo. Garotas populares mandam!
-Que ridículo! Nunca gostei muito desta Shannon!
-Eu também não vou com a cara dela.
-E esta Ana Lucia... Jesus, é uma coitada!
-Bem, é problema delas! Vamos, prometeu me ajudar a achar uma roupa transada para eu sair com o Charlie!
Mas Kate não se mexeu. Olhava intrigada a cena de Shannon e Ana Lucia. A morena estava visivelmente sendo humilhada pela loira. E Kate de repente sentiu-se mal com isto. Quem aquela metida da Shannon achava que era? Resoluta ela aproximou-se das duas.
-Qual o problema, Shannon? Acabou a água oxigenada?
-O que?
-Estou te vendo tão brava! Se não é a água oxigenada deve ter se dado conta finalmente que não tem cérebro!
Todos riram a volta e Shannon virou rubra de raiva.
-O que quer aqui? Achei que você e sua turminha de arruaceiros não gostavam deste tipo de evento?
-Não gostamos mesmo! Se for para ter que agüentar gente como você! Mas sabe de uma coisa? Mudei de idéia!
-Kate! – Claire exclamou as suas costas
-Não queria ir ao baile Claire? Pois nós vamos!
-Mas eu pensei...
-Não vão não! – Shannon negou.
-Não? Pois vou sim. Não só eu e Claire, como nossa amiga Ana Lulu aqui!
-Eu?! – Ana exclamou surpresa e Kate sorriu para ela.
-Claro! Vamos, cadê nosso convite?
Shannon e as amigas encararam as três horrorizadas.
-Meu deus! Mas como são lentas! Sabia que não tinham cérebro, mas achei que fossem mais espertas! – Kate pegou o dinheiro, juntou com o de Ana Lucia e colocou em cima da mesa – Vamos! É para hoje!
-Você não... – Shannon começou a falar finalmente, mas Kate a interrompeu, pegando-a pela blusa.
-Eu o que? Quer que eu quebre esta sua carinha bonitinha aqui?
-Não, ela não quer não – falou Nikki, passando, com as mãos trêmulas, os convites para as mãos de Ana.
Kate soltou Shannon, que nem ousava respirar.
-Vamos meninas, acabamos por aqui.
Ana seguiu Claire e Kate.
-Obrigada...
Kate sorriu para Ana.
-Não agradeça. Shannon mereceu esta.
As três riram e Ana deu as entradas a elas.
-Vão mesmo ao baile?
Claire encarou Kate também a espera da resposta.
Kate deu de ombros.
-Seria divertido ver a cara delas.
-Adorei! - Claire deu pulinhos – Sim, sim, vamos ao baile!
-Claire, não sei... Eu nem tenho o que vestir! – Kate confessou.
Nem ousaria pedir dinheiro para comprar um vestido de baile a sua mãe ou a seu padrasto, fora de questão. Fora uma idéia estúpida aquela de ir ao baile.
-Ah, mas você tem que ir! Agora fiquei tão animada!
-È, eu também não tenho o que vestir – Ana comentou.
Então Claire ficou pensativa por um instante e de repente seu semblante se iluminou.
-Já sei! – remexeu na bolsa e tirou um cartão de lá, balançando na frente das duas - não queria pegar isto, mas o Jack insistiu! Agora vai servir para nossos propósitos!
-O que é isto? – Ana indagou
-Um cartão de crédito com um limite muito, mas muito alto – ela falou o valor e o queixo das duas caiu – E nós vamos comprar nossos vestidos de baile.
-Claire, se seu irmão descobre isto... – Kate hesitou. Não estava mais a fim de arranjar problemas com o irmão de Claire. Tinha passado esta última semana sem topar com ele e queria que as coisas continuassem assim.
-Não seja boba! Quando ele descobrir, já estaremos fora da escola, o baile já vai ter passado e ele não vai poder fazer mais nada! Vamos, por favor... Este dinheiro não vai fazer falta para eles...
Kate sorriu, um pouco tomada pela animação de Claire. Nunca tivera muito dinheiro para gastar. O que tinha arranjava em empregos temporários que fazia. E realmente seria muito bom, por um dia, não se preocupar com aquilo.
-Ok, vamos as compras!
Claire exultou
-Sim, sim! Você também pode vir com a gente Ana. Esta na hora de você mudar este visual mesmo!
-Eu? – Ana falou surpresa e feliz
-Claro – Kate falou, puxando seus cabelos que se soltaram – precisa de um visual novo para botar a chata da Shannon no chinelo!
Ana sorriu
-Sim, isto seria demais!
-Então, meninas, vamos às compras?
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Kate, Claire e Ana Lucia passaram à tarde nas lojas de Beverly Hills. Foi uma festa. Nenhuma delas, até aquele dia, tinha estado em lojas tão chiques e caras e estavam aproveitando para se divertirem.
-O que acha deste? – Claire falou saindo do provador da décima loja que entraram, pois não se limitavam a procurar só o vestido para o baile, também estavam comprando outras coisas. Agora ela vestia uma mini saia roxa que a vendedora, adorando ter três adolescentes com um cartão com um limite tão alto a sua disposição, garantira que era a última moda.
-Eu não gostei – Ana falou sincera
-Preciso achar algo maravilhoso para sair com o Charlie! – Claire falou chorosa, voltando para o provador. – Nós vamos ao cinema esta noite.
Kate apareceu com um monte de roupas e jogou para ela.
-Veja estas aqui! Eu que escolhi e são maravilhosas.
-E vocês?- indagou Claire. – Já escolheram o que querem?
-Sim – Ana falou animada com suas roupas novas
Kate riu e olhou o relógio. Era mais de cinco horas. Sentiu um calafrio ao pensar que seu padrasto não gostaria nada se voltasse tarde para casa.
-Claire, ande logo com isto. Preciso ir pra casa.
-Não seja chata! - Claire falou saindo do provador agora com um vestido preto curtíssimo – E este?
-Arrasou! – Ana falou.
-Sim, ficou ótimo, agora vamos! – Kate falou impaciente ao mesmo tempo em que a vendedora aparecia com um sorriso polido.
-As garotas não vão querer mais nada? Lingeries, talvez?
-Sim, precisamos disto também! Como não pensei nisto! – Claire falou.
Kate revirou os olhos.
-Claire...
-Mais algum minuto não vai tirar pedaço. – virou-se para a vendedora – Pode trazer tudo o que tiver de lindo para nós três.
O sorriso da mulher alargou-se e ela desceu para o primeiro andar. A dona da loja estava desligando o telefone
-E então? – a vendedora indagou ansiosa
-O cartão tem limite sim.
-E não é roubado, como desconfiou?
-Não, a moça branquinha que se chama Claire, é a irmã do titular. Falei com ele.
-Oh! E ele sabe que ela está gastando o dinheiro dele com as amigas?
-Agora sabe! E disse que está vindo pra cá buscar ela.
-Ai meu Deus! Não deveria ter ligado, e se perdermos as vendas? Vou lá correndo buscar as lingeries e tentar fechar tudo antes que o irmão zangado apareça!
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Jack estacionou o carro em frente a caríssima loja alguns minutos depois. Sorte sua estar ali por perto quando recebera o telefonema da dona da loja. Claire e duas amigas estavam fazendo compras com o cartão que dera a ela. Jack soltou uma imprecação; podia imaginar quem era uma das amigas de Claire. A outra não fazia idéia de quem seria, mas não estaria longe de descobrir, pensou, entrando na loja. Uma mulher de meia idade e cabelos ruivos o abordou
-Olá, em que posso ajudar?
-Sou Jack Shephard.
-Oh – a mulher reconheceu o nome – Sim, nos falamos ao telefone...
-Onde esta Claire? Ainda esta aqui?
-Sim, nos provadores lá em cima...
-Será que eu posso ir falar com ela?
-Bem, me desculpe, mas preciso perguntar, as compras serão canceladas? Porque já passei quase tudo no cartão e...
-Não, tudo bem, pode confirmar tudo – Jack falou. Claire iria explicar aquela história direitinho depois. Mas não ia fazer escândalo na loja.
-Já que é assim - a mulher sorriu solícita – claro que pode subir, fique a vontade...
Jack subiu as escadas de mármore e se viu numa ante sala muito elegante, com três provadores fechados a frente. Hesitou por um instante e de repente a cortina de um deles se abriu e Jack arregalou os olhos ao ver Kate emergir de lá de dentro, vestindo apenas uma calcinha verde minúscula e um corpete também verde, que apertavam a cintura fina e espremia os seios delicados...
Kate parou assustada ao ver-se frente a frente com Jack Shephard. Mas o que é que ele estava fazendo ali? Sentimentos conflitantes a dominaram. Raiva, medo, ressentimento. E bem lá no fundo, uma estranha... alegria, de ver ele de novo. Ficou tão pasma com este sentimento, que nem se tocou que ele a mirava estranhamente. Por um momento, ficaram apenas assim, parados, em silêncio, e então os olhos dele foram baixando por seu corpo e Kate fez o mesmo e soltou uma exclamação de horror ao ver o que estava vestindo! Voltou a fitá-lo e o que viu naquele olhar a deixou sem ar.
Um desejo líquido a percorreu, fazendo seu corpo aquecer-se e um arrepio subir por sua espinha. E apesar de sua consciência gritar para se afastar, ela não conseguiu se mover e quedou-se ali, vestindo aquela lingerie provocadora, a respiração presa na garganta, em frente ao olhar examinador de Jack.
Jack sentiu a boca seca e o sangue se agitar enquanto a media de cima a baixo. Kate era maravilhosamente perfeita. E a peça íntima de um verde que era quase o mesmo tom dos seus olhos, apenas enfatizava suas formas tentadoras. Ele a fitou nos olhos, e soube que ela sabia exatamente o que se passava por sua cabeça. Que ele se lembrava de quando a teve nos braços, trêmula e entregue e que desejava, neste exato momento, repetir tudo de novo, e desta vez, sem interrupções.
Ele a viu ofegar e o movimento fez os seios subirem mais um pouco e ele franziu os olhos, deliciando-se com a visão. As mãos quase tremendo de vontade de tocá-la. E, sem pensar, ele chegou a dar um passo a frente para fazer exatamente isto, esquecendo-se de onde estavam ou de quem eram, mas um telefone tocou e o encanto foi quebrado. Piscando aturdida, Kate, deu um passo atrás e fechou a cortina rapidamente e Jack soltou o ar dos pulmões lentamente, tentando controlar o corpo excitado. O que fora aquilo? Desde quando perdia a cabeça por uma mulher vestindo uma lingerie? Mulher, não, corrigiu-se. Uma garota. Uma garota com um corpo de mulher. Que ele começava a desejar mais que tudo.
Jack soltou um palavrão, e antes que pudesse dar meia volta e escapar dali, Claire emergiu de dentro de um dos provadores. Deu um gritinho e segurou a cortina contra o corpo
-Jack? O que faz aqui? – indagou horrorizada.
-Não imagina? – ele falou sério – Vista-se e vamos embora.
-Não estou sozinha...
-Eu sei. – da pior maneira ele sabia – Vou esperar vocês lá em baixo
Assim que ele desceu, Ana saiu do provador com os olhos arregalados de medo.
-Claire, seu irmão vai nos matar!
-Eu sei – Claire falou conformada – Por isto é melhor fazermos o que ele mandou antes que fique pior – Kate, esta tudo bem aí? – a menina indagou estranhando o silêncio do provador. Kate abriu os olhos. Ainda estava encostada na parede, tentando fazer seu coração parar de bater descompassado. Limpou a garganta
-Sim, já vou me vestir.
-Viu quem apareceu?
-Sim, eu vi – E como tinha visto. Ou seria melhor dizer, Jack a tinha visto? Respirou fundo e se vestiu rapidamente. Tinha que esquecer daquilo também. Como esquecera o beijo.
A quem estava enganando? Não esquecera nada! E agora seria pior! Como iria encará-lo lá embaixo.
As três desceram as escadas ressabiadas.
-Estamos fritas – Ana falou – Não deveria ter vindo...
-Aí estão vocês - falou a vendedora animada – Seu irmão é mesmo um rapaz muito gentil senhorita Claire.
Claire fitou Jack, que estava muito sério perto da porta da loja, aos pés dele, várias sacolas
-Vamos levar tudo isto? – indagou com medo.
-Sim, vamos. Ou melhor, é tanta coisa, que achei melhor mandar entregar lá em casa. Depois você manda para suas amigas.
-Mas...
-Em casa conversamos, Claire. E ainda temos que levar suas amigas em casa
-Sim, claro! – ela falou rapidamente indo para o carro
Claire e Ana entraram no carro, mas Kate não.
-Eu não vou com vocês.
-Mas...
-Não, Claire, não insista. Eu sei me cuidar – Kate falou fechando a porta e virando-se.
Deu de cara com Jack.
-Não vai entrar no carro? – ele perguntou
-Não.
-É melhor entrar, Kate. Te levo em casa, vai ficar tarde.
-Sei me cuidar – repetiu o que tinha dito a Claire.
-Aposto que sim. Mas está muito longe da sua casa...
-Eu já liguei para o meu namorado – ela mentiu sem pensar.
Viu a expressão de Jack mudar de preocupação para uma fria irritação.
-Claro. Porque não imaginei isto antes?
-Sim, o meu namorado que deve cuidar de mim
-Se fosse você não esperava isto de Sawyer. Ele não é bom nem para cuidar de si mesmo.
-Ele me contou como se conheceram...
-Contou também que for preso roubando carros?
Kate fechou a boca. Sabia disto, claro. Todo mundo sabia de como Sawyer tinha conseguido aquela passagem pela polícia.
-Claro que sei disto. E não me importo.
-Não se importa de dormir com um marginal?
-Isto é problema meu não é?
-Eu só queria abrir seus olhos...
-Olha, agradeço que perca seu tempo falando comigo, mas não me interessa, ok? Sei muito bem quem o Sawyer é. Mas ele é o cara que eu gosto e não me importo! Agora se me der licença, tenho mais o que fazer! – ela tentou se afastar, mas Jack, num impulso, segurou seu braço.
-Kate, sobre aquele beijo...
Ela sentiu-se fraquejar a menção do beijo e com as mãos dele em seu braço, mas, irritada, puxou o braço com força
-Que beijo? Não me lembro de nada! – falou cinicamente e se afastou quase correndo, atravessando a rua, sem olhar para trás.
Jack a viu se afastar, lutando contra o impulso de correr atrás dela e... Fazer o que?
Fazê-la se lembrar do beijo? Fazê-la enxergar que Sawyer não valia nada? Jack sacudiu a cabeça, aturdido. Não podia fazer nada daquilo. Tinha que entrar no carro e esquecer.
Continua...
