Naruto © 1999 pertence à Masashi Kishimoto/SHUEISHA Inc.
Capítulo 7
Me deixe
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Estava escuro no quarto, tão escuro que não se podia ver nada. Um brilho fraco vinha de um poste, ou talvez da luz da lua que cruzava a parede, passando pela pequena fresta ao lado da cortina. Sakura não tinha certeza o que era, mas realmente não ligava muito.
Sasuke se mexeu levemente e a soltou enquanto se revirava num sono impaciente. Ela se encolheu vagarosamente e se levantou, movendo-se até a janela de onde a luz vinha. Seu longo cabelo rosa estava trançado e ela puxou levemente a liga que o prendia e deixou-o cair pelos ombros. Ela passou os dedos por eles, seus olhos mirando nada em particular, observando o brilho pela janela de Sasuke.
A luz da rua.
Ela podia ouvir os seus pequenos murmúrios enquanto ele se mexia, sonhando com o que ela imaginava serem dolorosos e assombrosos pesadelos. O chão escuro de madeira estava frio e quase macio embaixo dos pés dela e ela deslizou as costas pela dura parede para sentar debaixo da janela. Sua visão podia apenas registrar a silhueta se movendo embaixo de um lençol branco.
Sasuke.
Ela se sentia tão mal por ele, e com seu sofrimento ela também sofria. Ela desistiu de uma chance com Kakashi e agora ela teria que se esforçar, e sorrir superando a perda. A dificuldade pra dormir começou a aparecer, fazendo o seu humor variar e um misto de emoções surgirem. E apesar de tudo isso tinha que manter uma fachada de felicidade na frente de Sasuke. Embora essa noite ela não quisesse. Ela só queria pensar sobre o que ela havia desistido.
Sentindo o sono chegar ela se deitou no chão frio passando os dedos pelas fendas da madeira encostando o rosto nela. Ela relembrou a noite e imaginou como poderia ter sido diferente. Ela estaria no apartamento de Kakashi, envolta nos braços dele, sentindo o toque dele pelo seu corpo.
Ela cobriu o rosto com as mãos, mas não chorou.
"O que você tá fazendo aí embaixo?" Sasuke estava de pé olhando a kunoichi adormecida agraciando o seu chão. A expressão dele era fria.
"Sei lá." Ela respondeu da mesma forma. Sem se importar se ele gostou da resposta ou não.
"Naruto quer se encontrar para o café da manhã, você vem?"
Ela balançou a cabeça negativamente.
"Volto em algumas horas se você quiser sair um pouco. Você disse que me ajudaria a limpar alguns quartos hoje. Se você estiver com vontade." Ele a lembrou.
"Eu te espero." Foi tudo o que ela respondeu antes de se jogar na cama. Ela se enrolou no lençol branco e cobriu a cabeça com ele.
"Você está bem?" ele perguntou.
"Só estou cansada, Sasuke. Vai, estou bem." Ela respondeu debaixo do lençol, soando abafado.
Ele saiu e não voltou por algumas horas. Sakura continuou na mesma posição na cama, sem se mover. O calor aconchegante da cama a envolveu e o silêncio a fez cair em um sono profundo e sem sonhos.
"Ainda na cama?" A voz de Sasuke a despertou.ela se levantou e viu que o quarto estava escuro de novo. Já era noite?
"Eu saí essa manhã e quando voltei você ainda estava dormindo. Deixei um bilhete pra você nos encontrar na vila. Naruto estava lá também. Eu não acredito que você ainda não tinha acordado."
"Acho que estou ficando gripada."
Sakura finalmente deixou seus pés tocarem o chão e foi em direção ao banheiro. Ela entrou no chuveiro tentando acordar, deixando a temperatura da água fria.
Ela vestiu uma camiseta preta e os shorts cargo que furtou de Kakashi, e quando saiu viu que Sasuke estava sentado na cama.
"Sakura, você está se sentindo bem?"
"Estou... se você não se importa, vou dar uma volta."
"Não me importo. Naruto está vindo pra cá com a Hinata e até a Ino, ela está vindo também então não demore." Ele disse explicitamente.
"Ino, não tenho visto ela por algum tempo... não vou demorar." E depois disso ela partiu. Se movendo devagar, sentindo a poeira nos seus dedos a cada passo pelas ruas de Konoha. Eram quase 9 horas e ela se sentiu um pouco perdida, relembrando os eventos da noite anterior. Ela cometeu um erro, deveria ter ido com Kakashi, mas mesmo agora ela sabia que se tivesse que escolher de novo, faria a mesma coisa.
Cada noite que Sasuke se mexia na cama e acordava gritando e se mexendo, ela o abraçava. Ela sabia que deveria ficar lá por ele, ele não podia passar por isso sozinho. Se alguém o visse desse jeito também iriam quere ajudá-lo, era o dever dela como amiga.
A cada noite ele parecia menos agitado, dormindo longamente, encontrando mais motivação para sair da cama nas manhãs. O rosto dele ainda carregava um olhar abatido de alguém derrotado e enfraquecido por algo interno. Sua batalha emocional, embora mais fácil, duraria bastante tempo.
Ela seguiu no caminho até o memorial dos quatro Hokages e se sentou na cabeça do quarto, lembrando de quando se sentou ali naquela manhã, pelo que pareceu horas, presa às costas de Kakashi. Uma sensação de conforto e segurança a envolveram ali; ela não queria sair nunca de lá. Agora ela imaginava se iria se sentir assim de novo.
Ela se levantou sem nenhum propósito, limpando a sujeira de si e voltou para a casa de Sasuke encontrando Ino, Hinata e os garotos.
"Sakura!" Ino gritou, se levantando da frente da lareira e indo abraçar a amiga. "Sasuke só estava me entretendo enquanto eu esperava por você. " Ela piscou.
Ela sabia que Ino estava provocando, elas sempre tiveram aquela rivalidade por causa dele, mas com o tempo elas perceberam que enquanto amadureciam a restituição da amizade delas era possível. Entretanto, Ino adorava provocar, mas Sakura não estava com humor pra aceitar a provocação.
"Estou feliz porque tenho certeza de que não sou eu quem você veio ver, Ino." Ela ergueu as sobrancelhas e percebeu que Ino corou. Ela de repente se sentiu mal por implicar com ela desse jeito. Ela secretamente esperava que Sasuke fosse confortado por Ino, que ela pudesse tomar o comando enquanto Sakura iria tomar seu próprio rumo.
O pequeno grupo passou o tempo conversando e bebendo e Sakura se sentiu melhor, ficando um pouco intoxicada e com a mente ocupada. Ela estava feliz de ter Ino com ela e riu alto de algumas das histórias sobre seus anos de criança. Ino era um grande conforto e Sakura ficou triste quando ela disse que iria embora.
Hinata também disse que precisava ir enquanto lançava a Naruto alguns olhares e Sakura imaginou que não era a sua casa que ela queria. Como o tempo tinha mudado pra todos eles. Ela olhou para Sasuke e viu que ele a observava.
"É bom ouvir você rindo, deve ser bom não ter preocupações." Ele disse calmamente, sem expressão real no seu rosto, as palavras dele quase inaudíveis.
Ela franziu as sobrancelhas pra ele e os dois caminharam juntos pela escada até o quarto dele. Ela retirou os shorts, passando as mãos por eles antes de dobrá-los e cuidadosamente colocá-los numa cadeira e indo para a cama. Ela não se importava de estar somente de camiseta e calcinha, ela não se importava de ir dormir com outro homem. Ela só queria dormir.
Ela fechou os olhos sentindo o corpo se moldar ao colchão e seus olhos se fecharam logo. Ela estava adormecendo. Começou a sonhar; sonhar com Kakashi, suas mãos fortes agarrando sua cintura e puxando-a pra perto na cama. A respiração dele no pescoço dela, beijando e dando leves mordidas. Ela sentiu sua respiração acelerar quando a mão dele deslizou até o meio das suas pernas deixando escapar um pequeno gemido de prazer.
"Sakura..." Uma voz chamou suavemente no ouvido dela.
Ela começou a recobrar os sentidos, o lugar que estava e a voz no seu ouvido. Não era a de Kakashi. Os dedos de Sasuke passando pelo seu corpo; sua outra mão dentro da camiseta dela. Era uma coisa tão boa que ela pensou em fechar os olhos e fingir; fingir que aquele era Kakashi a segurando e tocando. Ela considerou de verdade em se render ao desejo, mas isso seria errado, ela não tinha esperado tanto pra simplesmente deixar Sasuke fazer sexo com ela num estado bêbado. Ela soube naquele momento que isso não deveria acontecer com Sasuke. Mesmo tendo desejado isso quando era mais nova, esse importante momento da sua vida não seria com ele.
"Sasuke... pare." Ela disse calmamente na orelha dele.
Ele obedeceu imediatamente, erguendo o rosto pra olhá-la, seus olhos semi-abertos parecendo intoxicados e cansados. Ela percebeu que pela quantidade de álcool que ele bebeu provavelmente não seria capaz de fazer sexo de jeito nenhum. Ele deitou a cabeça no travesseiro e ela logo ouviu os roncos dele.
Ela teve que rir, ele provavelmente nem se lembraria disso de manhã, e ela esperava que nem ela. Ela imaginou o que Kakashi poderia estar fazendo enquanto voltava a dormir, esperando sonhar de novo.
Céu cinzento. Chuva fina. Mais um dia maravilhoso em Konoha, Sakura pensou enquanto se sentava e observava Sasuke dormindo ao lado dela. Ela imaginou que ele fosse dormir o dia inteiro e depois de tanto descanso ela finalmente obteve mais energia, embora nenhum apetite.
Ela se vestiu de novo, não se importando de mudar a camiseta com que dormiu. Colocou os shorts e parecendo desarrumada, saiu pela rua deixando a chuvinha cair sobre seus ombros e peito. Seu cabelo embaraçou levemente e colou no rosto dela. Ela achou refrescante ter o vento frio batendo na sua pele e sentiu arrepios, a névoa sendo expirada a cada passo.
Ela caminhou sem rumo, a maioria em Konoha ainda não havia acordado. As lojas ainda estavam fechadas e as ruas estavam vazias, ela gostava de tudo assim. Sentia como se tivesse tudo apenas pra si mesma e isso se encaixava perfeitamente no seu humor, inclusive a manhã cinzenta.
Ela voltou para seu apartamento e sentiu-se bem por estar lá. A cama permanecia arrumada durante dias e ela descansou em cima da coberta macia. Ela queria ficar sozinha, descansar no maravilhoso silêncio. O leve cair da chuva nas janelas eram tão serenos que ela se sentiu relaxada de novo.
O céu sem cor fez que o quarto ficasse agradavelmente difuso, nenhuma sombra era preciso pra escondê-la no seu pequeno apartamento. Permaneceu na cama por mais de uma hora até decidir que não podia continuar deitada. Tomando seu caminho até a cozinha ela olhou pra garrafa de vinho que ganhou de Kakashi no seu aniversário.
"Quieta." Ela disse pra garrafa enquanto saía pela porta novamente. Ela sabia que hoje era o dia e que havia se esquecido disso depois de tantas coisas perturbadoras acontecendo, a escura garrafa de vinho a fez lembrar.
Depois do que pareceram horas vagando sem propósito por Konoha, Sakura se encontrou finalmente passando por perto do centro de operações ANBU e decidiu checar os avisos para novas posições. Ela havia planejado participar e fazer os testes, mas sempre mudava de idéia sabendo o tipo de trabalho que teria que fazer e como era pesado para mulheres.
O posto para três novos membros chamaram sua atenção através do plástico quebrado que cobria o quadro de avisos ao lado de fora. Ela tomou coragem e entrou, cuidadosamente procurando a área das inscrições. Ela finalmente encontrou o escritório de recrutamento e deu seu nome a secretária que fez uma careta e não parecia nada impressionada com o guarda-roupa de Sakura.
"Eles lhe informarão amanhã." Ela disse nasalmente enquanto seus olhos miravam os largos shorts dela.
"Obrigada."
Estava feito; ela ia fazer algo que queria agora. Se estivesse ao seu poder, ela passaria os testes e seguiria em frente com suas próprias metas. Ela respirou profundamente sentindo a clima ameno da cortina de chuva ao seu redor.
E agora?
Logo Kakashi voltou a aparecer na sua cabeça pressionando ela a decidir sobre ir até a clareira, a favorita dele. Enquanto ela se aproximava ela viu uma pequena bola de chamas iluminando a névoa da chuva. Ele estava lá. Ela meio imaginou, meio esperava que ele estivesse lá. Ela só queria ter um vislumbre dele, algo para sustentá-la durante as noites com Sasuke.
Kakashi não se virou quando sentiu a presença dela ali, mas ela sabia que ele sabia. Ela se sentou no lado oposto da clareira como havia feito tantas vezes pra observá-lo, com os pés esticados e as mãos atrás dela. Ele apenas usava sua blusa e calça preta, sem colete. A máscara e a bandana no lugar como sempre. Ele executou outro ninjutsu, seus dedos dançando entre os outros rapidamente e ela observou a névoa e a chuva rodopiarem ao redor dele, escondendo ele de vista.
Ela se ergueu um pouco vendo que ele não reapareceu por um momento, imaginando se ele teria ido embora. Ela sentiu uma leve dor em seu peito até que ele reapareceu bem perto dela. Ele ainda mantinha as costas pra ela.
"Eu imaginei se veria você hoje." Ele disse calmamente.
O som da voz dele era quase arrebatador e ela sentiu seu peito se inchar ao ouvi-la. O profundo tom de voz ressoou através dela. Ela rangeu os dentes tentando manter a compostura mas sentiu as sobrancelhas se franzindo dando à ela um olhar desesperado. Ela se levantou com os pés juntos, punhos fechados, seus olhos mirando o chão.
Ela sentiu um aperto na garganta sabendo que não seria capaz de falar. Os pés dele se mexeram e seu corpo começou a se mover pra fora do campo de visão dela. Ele não se aproximou. Estavam a alguns metros de distância um do outro.
Ela finalmente ergueu os olhos pra ver o dele. Ele não estava sorrindo. Apenas a observava.
"Eu disse que você tinha que parar de fazer isso, Sakura." O tom dele não era frio, mas não era bem-humorado como sempre.
"Kakashi… me dê o que eu quero." Ela conseguiu falar suavemente enquanto seus olhos verdes mantinham o foco no dele. Ela não tirou os olhos dele e também não pegou nenhuma arma da maneira que o jogo deles normalmente começava.
Sem aviso, a mão dele deslizou até a máscara e os olhos dela se arregalaram. Para seu completo choque, ele vagarosamente começou a abaixá-la do seu rosto.
"Não!" ela disse e em um segundo ela estava parada na frente dele. Ela agarrou a mão dele tentando pará-lo mas era tarde, ela já estava abaixada. Ela sentiu lágrimas aparecendo em seus olhos e ela olhou pra longe, não queria que fosse assim.
As mãos dela agarraram a camisa dele enquanto ela se inclinava levemente deixando as lágrimas caírem. A cabeça dela pressionada no peito dele.
"Por que... por que você fez isso?" sua voz era quase um suspiro.
"Eu sinto muito, mas nosso jogo tem que acabar" Ele disse enquanto olhava pra ela. Ele também sentiu a tristeza dela e desejou que não tivesse sido assim, mas ele partiria pela manhã e não restava mais tempo entre eles. Ele enroscou os braços ao redor dos dela.
"Que droga, Kakashi. Por que!" ela gritou no peito dele.
Ele moveu as mãos até o rosto dela e fez ela erguer a cabeça pra olhá-lo. Seus vibrantes olhos verdes fechados com força, empurrando as lágrimas para fora.
"Olhe pra mim, Sakura." Ele disse delicadamente. Ela sacudiu a cabeça.
"Sakura... por favor, olhe pra mim."
Os olhos dela lentamente abriram e se focaram no rosto que ela tinha, por tanto tempo, esperado pra ver. O rosto dele era bonito, como ela esperava que fosse. Ele tinha a pele perfeita e ela ergueu os dedos para tocar a boca escondida que havia antes tocado a dela. Ela correu os dedos pelos seus lábios macios e ele fechou os olhos em reação por um momento sentindo o toque dela.
As mãos dela estavam tremendo e ela podia sentir a raiva e a confusão na sua cabeça, o sofrimento por causa do que ele tinha feito penetrando-a.
Ela o empurrou pra longe dela.
"Você arruinou tudo, Kakashi." Ela disse com raiva. "Não consigo entender. Eu não sabia que você queria tanto que tudo terminasse. Eras isso que você queria pra se ver livre de mim?" Ela parou e o observou por um momento esperando que ele dissesse que ela estava errada.
Eles se olharam, o ar condensado saindo das suas bocas através da chuva e da névoa pelas suas respirações. Os peitos arfantes, os lábios partidos.
"Você me pediu pra te dar o que você queria e eu fiz. Você não tem nada com o que ficar zangada. Não era disso que você estava atrás?" Ele estava sendo direto e gentil, tentando não entristecê-la mais.
"Talvez não fosse isso que eu quisesse mais; talvez fosse outra coisa. Você me daria se eu pedisse?" Ela olhou pra ele suplicante.
"Se eu puder. Me diga e eu vou tentar."
"Tempo. Você me daria tempo?"
Ele suspirou e sentiu a amarga ironia daquele pedido.
"Sakura, essa é a única coisa que não temos. Me desculpe." Ele avançou e a agarrou nos seus braços puxando-a com força pra perto. Ele não queria soltá-la, nunca. Ele sabia o que ela sentia por ele e queria dar isso em retorno, dar a ela o que ela queria.
A raiva começou a brotar de dentro dela, sendo negada um simples pedido. Isso estava no poder dele, ele só não queria atendê-lo. Se debatendo ela se livrou dos braços dele, e percebeu por um momento que ele resistiu, não querendo soltá-la. Ela parou e olhou pra ele.
"Suas ações não estão de acordo com suas palavras, Kakashi... malditos sejam esses jogos de consciência."
Ela olhou pra baixo. "Está mesmo tudo terminado, não é? Eu teria esperado por você pra sempre, mas você não pode me dar nem algumas semanas? Eu pensei que significava mais pra você. Eu sou mesmo uma idiota."
Ela se afastou dele e desapareceu.
"Sakura, espere.." Mas já era tarde; ela havia sumido.
Ela fugiu se sentindo impotente, a dor crescendo e tomando-a. Ela limpou as lágrimas enquanto sentava em baixo de uma cerejeira, as flores rosa se colando nas suas pernas. Ela permaneceu sentada por um longo tempo tentando se afastar de tudo isso. Ela tinha que ser mais forte que isso.
Estava ficando tarde e ela se sentiu solitária. Agora a chuva se tornara sua inimiga enquanto um sentimento de vazio de formava no seu estômago. Ela decidiu que provavelmente era hora de voltar para Sasuke. Ela pensou que, talvez, ele pudesse ajudá-la suportar a dor pela rejeição de Kakashi embora ele nunca tenha sido um conforto pra ela antes.
Normalmente era Kakashi pra quem ela correria, para o que ela precisasse, ele era sua ajuda. Agora ele era a causa.
O quanto ela havia estado lá por Sasuke, agora ele estaria lá por ela. Ela não ousaria dizer pra ele o que tinha acontecido, mas sabia que ele a seguraria bem próximo, pensando que seria algo para ele, quando na verdade era ela quem estava precisando.
Ela se aproximou da enorme casa e entrou silenciosamente pela porta dos fundos imaginando se ele ainda estaria acordado, mas percebeu que ele estava quando ouviu sua voz e mais uma outra na cozinha. Ela caminhou devagar até a porta tentando não ser ouvida. As vozes baixas e a conversa rápida fizeram ela se cansar do que estava acontecendo.
"Quando vocês vão embora, então?" Sasuke perguntou.
"De manhã, por volta das seis. Tudo vai acontecer de manhã cedo."
Era Neji, o que ele estava fazendo aqui? Ela não pensava que Sasuke e Neji fossem próximos, era inesperado vê-los conversando quase como se estivessem planejando algo.
"Quanto tempo até vocês terminarem, alguma estimativa?"
"Provavelmente teremos que ficar longe por alguns meses até mesmo um ano, depois de tudo acontecer amanhã, vamos ter que nos manter distantes. Os ninjas rastreadores virão atrás de nós a os outros países vão nos procurar também."
"Estou aliviado que você tenha me contado. Teria imaginado o que aconteceu se apenas escutasse sobre isso por aí. É melhor você tomar cuidado com os ninjas da Névoa, eles vão querer exterminar você e o Kakashi dos seus bingo books."
Kakashi?
"Não se preocupe; com nós dois juntos conseguiremos realizar uma ótima fuga. Não fique chocado quando ouvir e fique na sua."
Que diabos está acontecendo? Sakura pensou. Kakashi estava indo embora, era por isso que ele estava afastando-a, ela tinha certeza disso. Deveria ser algum tipo de missão.
Tempo.
"Sakura, essa é a única coisa que não temos."
E sobre os ninjas rastreadores? O que eles iriam fazer? O que ele estava planejando com Neji?
Ela nem imaginava que eles se conheciam. Ela continuou a escutar até que ouviu Neji se levantar pra ir embora.
Ela voltou rapidamente em silêncio, fingindo que estava acabando de chegar.
"Sasuke?"
"Sakura, você voltou agora? Onde você estava? Já é quase hora do jantar." ela ouviu a porta da frente se fechar enquanto a cabeça de Sasuke se voltava pra ela.
"Eu não moro aqui, você sabe. Eu fui pra casa, fui até o..." Ela quase falou, mas decidiu não revelar seu interesse na ANBU, ela sentiu vontade de manter isso em segredo.
"... mercado comprar comida, minha geladeira está vazia." Ela sorriu sem entusiasmo. A conversa que havia acabado de escutar ainda na sua cabeça. Eles estão fazendo algo... perigoso? Ilegal?
"Vamos sair pra jantar essa noite." Sasuke disse. "Vamos encontrar Naruto, Ino e Hinata, o que você diz?"
"Certo." Ela ficou satisfeita ao ouvir que Ino também iria. Ela percebeu o quanto sentia a falta dela na última noite que eles passaram algumas brincando e rindo. Foi uma ótima mudança das noites de tormento com Sasuke. Ela refletiu sobre o que estaria acontecendo e o que Sasuke e Kakashi tinham a ver com isso.
Depois de se lavar, Sakura encontrou com todos no pequeno restaurante perto da sua casa. Ela tinha colocado um feminino vestido rosa com botões na frente. As delicadas alças finas levemente tocando seus ombros. Eles riram e brincaram, mas Sakura não conseguia se concentrar nas histórias. Ela continuava a pensar no que Kakashi iria fazer. Bingo books e ninjas rastreadores consumiam seus pensamentos e depois do que pareceram horas ela não podia mais ficar ali.
"Hum... não estou me sentindo bem hoje à noite... acho que estou ficando doente." Ela olhou pra Ino. " Me desculpem, mas acho que vou pra casa."
"Você quer que eu te leve até lá?" Sasuke perguntou.
"Hum.. não, obrigada.. Ino, você poderia ir comigo?" Ela perguntou erguendo as sobrancelhas. Ino percebeu o sinal e concordou rapidamente colocando a mão na testa de Sakura e também fingindo. Elas não eram boas amigas em vão.
Elas saíram e caminharam até o apartamento de Sakura. "O que está havendo?" Ino perguntou de um jeito sombrio enquanto abria o guarda-chuva.
"Eu tenho que ir ver o Kakashi, agora. Ele está indo embora." Ela disse dolorosamente.
"O que há com ele, Sakura? Eu percebi que alguma coisa estava acontecendo naquela noite que você foi atrás dele no pub, mas e com o Sasuke?"
"Acho que eu o amo, Ino e não está acontecendo nada com o Sasuke. Tenho estado na casa dele toda noite apenas ajudando ele a dormir. Ele está passando por uma depressão; eu tive que ajudá-lo e acabei afastando o Kakashi. E agora eu soube que ele estava partindo por um longo período e eu preciso vê-lo antes que ele vá." Ela beirava o desespero. "Ino, você pode me ajudar?"
"Você o ama?"
"Eu sei que preciso dele."
"O que eu posso fazer?"
"Apenas se certifique de que o Sasuke não venha atrás de mim. Não importa o que você faça."
"Então eu poderia dormir com ele e você não ia ligar?" Ela perguntou com audácia.
"Honestamente Ino, eu não me importo. Pára de me provocar, eu tenho que ir." Ela sorriu.
"Não esquenta. Eu vou manter ele ocupado." Ino sorriu com atrevimento mais uma vez. Sakura sorriu de volta e partiu na direção do apartamento de Kakashi rezando pra que ele estivesse lá... sozinho.
Quando finalmente chegou ela começou a andar mais devagar e timidamente do que a maneira apressada de antes. Sua mente criando o ataque verbal que iria jogar contra ele. Ela subiu alguns degraus e chegou à porta dele, a mão erguida.
Mais um momento tenso se passou.
O impulso de bater na porta de repente se esvaiu e ela não conseguiu fazer isso. Continuou parada, fixando os detalhes da porta de madeira por alguns momentos, respirando com força. Sua mão começou a tremer e ela largou-a do seu lado.
A chuva continuava a cair sobre ela e Sakura deixou seus pensamentos se fixarem no rosto dele, tão bonito e de aparência tão jovem. A raiva substituiu a excitação mais uma vez, como ele havia estragado o jogo deles e levado embora a pequena diversão que eles ainda tinham. Agora ele partiria sem uma despedida adequada.
Ela deixou a cabeça cair pra frente e agora ela só tinha a visão dos seus sapatos molhados. O vestido rosa claro que ela havia colocado para o jantar mais cedo começava a se agarrar nas pernas dela com o aumento da chuva. O som a envolvia e agora a mantinha presa no mesmo lugar.
Ela fechou os olhos e percebeu a luz invadindo suas pálpebras. Ela podia sentir o suave movimento do vento quando a porta na frente dela se abriu. Ela abriu os olhos pra ver a forma familiar de pé na frente dela. Kakashi estava parado na porta, parecendo alguém que ela não conhecia.
Um homem de cabelo prateado com um olho vermelho e outro preto a observava de maneira curiosa. Um atraente rosto exposto e um peito nu bloqueavam a luz do espaço atrás dele. Nenhuma palavra saiu da boca dele, mas ele havia sentido a presença dela ali, permitindo que ela batesse, mas submetendo-a a um conflito interno que não deixariam que ela o fizesse.
Por que ele tinha aberto a porta, porque ele queria um final? Ou era algo que o consumia, uma tentação a que ele se renderia?
Ele se afastou para o lado sem falar nada e Sakura entrou em silêncio passando por ele. Ela não se virou quando ouviu a porta se fechar atrás dela e ela começou a tremer por antecipação.
Ele se voltou para a mesa cozinha onde havia uma grande bolsa, cheia pela metade com seus pertences e algumas pilhas de coisas ao lado. Ele estava se preparando para a viagem e continuava a empacotar enquanto ela permanecia em pé, pingando pelo chão.
"O que você está fazendo aqui?" ele perguntou com calma. "Pensei que estivesse com raiva de mim."
Ela se virou e não pôde tirar os olhos dele; ele parecia diferente. Sem máscara, sem bandana, sem camisa. Seu forte abdômen cheio de músculos, seu braço revelando a tatuagem da antiga ANBU.
"Eu sei que você está indo embora. Só não tenho certeza para o quê. Você vai me dizer?"
"Não."
Ele parou de empacotar e suspirou, "… Eu não posso, por mais que eu queira… não posso."
Ela sabia que ele não podia ser forçado a dizer pelo tom que usou e ele não era um de divulgar informações.
"Kakashi, antes de você ir, eu... tenho uma coisa pra te dar."
Ele olhou pra ela parada naquele vestido rosa. Se ele estava carregando alguma coisa certamente era invisível, mas seus olhos sugeriam algo a mais. Ele começou a compreender porque ela estava lá e seu estômago começou a dar voltas com o pensamento de mandá-la ir embora.
"Sakura você não devia ter vindo." Ele continuou a empacotar.
"Por que não?"
"Porque você não pode dar isso pra mim." Ele ainda olhava pra baixo, mas pausou seus movimentos. Ele estava se preparando mentalmente pra dispensá-la, mas era muito mais difícil do que ele imaginava.
"Isso é meu e eu posso dar pra quem eu quiser." Ela tirou o cabelo molhado do seu rosto.
"Sakura, espere... espere por alguém que não vai te deixar, por nada."
"Então você quer que eu vá embora. Você não me quer. Estou aqui me oferecendo pra você, desejando que você me toque, te sentir dentro de mim, e você me dispensa?"
Ela era boa nisso, ele estava tendo mais trabalho pra se concentrar depois do que ela havia falado e ele se sentia levemente extasiado. Quantas vezes ele quis arrancar as roupas dela, entrelaçar os dedos nos seus cabelos enquanto fazia ela gritar o nome dele de prazer. Ele abaixou a cabeça tentando afastar a imagem da sua cabeça.
"Você quer que eu volte pro Sasuke? Você quer que eu dê isso pra ele, estou certa de que ele aceitaria sem pensar duas vezes. Ele tentou a noite passada e eu o rejeitei, mas se você realmente acha que eu devia dar isso pra outra pessoa, tenho certeza que ele estaria mais do que disposto."
Ela sentia ainda mais raiva por ele resistir a ela. Ele nem a olhava. E ela não notou que os braços dele estavam ficando bastante tensos.
"Talvez Genma aceite a minha oferta? O quanto Naruto é ligado a Hinata... hum?"
"Sakura, pare."
"Isso não parece te incomodar, pensar em mim com outro homem. Por que você não me ajuda a escolher um, já que eu não posso escolher sozinha?"
"Sakura, você não acha que eu quero isso também? Deus, você está tornando isso tão difícil! Se fizermos amor o que vai acontecer amanhã quando eu for embora? O que vai acontecer durante os meses que eu estiver longe? Você vai estar sozinha e vai me odiar por ter te deixado. Isso não pode acontecer. Você significa muito pra mim." A voz dele estava aguda e firme, mas ela não ia ceder.
"Se eu significo tanto assim pra você então se despeça de mim apropriadamente. Não me deixe cometer um erro com outro homem quando eu quero tanto que seja com você. Eu sei que isso é certo. Imaginei a minha vida toda que estava me guardando pro Sasuke mas agora eu sei que era pra você Kakashi. Por favor, não me rejeite."
A voz dela foi ficando suave enquanto ela se movia em direção a cama no canto do apartamento de solteiro, chutando fora os sapatos molhados no processo.
"Quanto tempo temos jogado o nosso jogo, deixando ele progredir? Quanto tempo levou pra você perceber o jeito que eu te olhava e como você fazia eu me sentir? Não deixe esse momento passar."
Ele observou o vestido dela pendendo nas suas pernas enquanto seus dedos seguravam levemente a barra dele, deixando as coxas dela um tanto visíveis.
"Se entregue pra mim; você não precisa se sentir culpado ou obrigado. Não peço por mais nada a não ser essa noite. Será apenas pra nós dois, mesmo que seja só essa vez." Seus dedos trêmulos se moveram até os botões do vestido e ela desfez o primeiro.
"S... Sakura." Ele sussurrou enquanto observava ela remover o segundo botão, suas próprias mãos estremecendo levemente.
Os olhos dela pareciam chamas verdes, brilhando com intensidade. Ele deixou seu olhar viajar pelas suas curvas delicadas em baixo do vestido rosa e parou nos seus dedos que removiam o terceiro botão revelando a delicada forma entre os seios dela. Ela estava acabando com a força de vontade dele; ele podia sentir isso se despedaçando e se amontoando aos pés dela.
O conflito interior aumentava e o desejo começou a triunfar sobre a razão.
Por que ele deixaria isso passar entre eles? Ele a queria tanto. Ele dispensou tantas mulheres só pra não sentir que estava traindo-a mesmo que tudo fosse um jogo, uma amizade próxima, nada mais. Ele sentiu o injustificável desejo de tocar a sua pele e ouvir ela sussurrar o nome dele enquanto seus corpos se entrelaçavam. Quanto eles tinham esperado pra chegar a esse ponto? Ela estava na casa dele, perto da sua cama, pedindo que ele a tivesse, ele não podia deixar tal tarefa pra algum outro homem. Ele não podia deixar um garoto inexperiente tocá-la e acariciá-la, não quando ele podia dar a ela muito mais. Ela estava certa; ele não podia imaginá-la com outro homem. Ele odiava pensar nela com outro homem.
Deus, ela é tão bonita e inocente... Seu corpo começou a responder à sua pequena revelação de pele... isso certamente vai custar a minha alma.
Os dedos dela encontraram o quarto botão enquanto ela assistia o conflito dele.
"Sakura, espere..." ele disse.
"Por que Kakashi? Me dê uma razão." Seus dedos trêmulos seguravam o botão, prontos pra continuar.
Ele desligou a luz da cozinha enquanto caminhava na direção dela, a pele dela ainda visível na meia luz que vinha da sala de estar. Os dedos dele tocaram o seu rosto e então deslizaram pelo pescoço até o inspirador quarto botão, retirando os dedos dela de cima dele. Seus olhos fixos nele.
"... me deixe."
As coisas finalmente chegaram ao clímax!
Se o final ficou ambíguo, o Kakashi na verdade pediu pra ela deixá-lo retirar o botão, não pra ela deixá-lo e ir embora dali. Desculpem, mas essa foi a melhor tradução que encontrei pra essa frase. 'Deixe que eu...' teria ficado estranho para o nome do capítulo.
