Legendas:
- Fala
Pensamento
/Dupla personalidade/ - Aka Cyber
Hope is a sad thing.
Quimera(grego Khímaira) s. f. Ser mitológico geralmente representado por um corpo híbrido. Ser oriundo da imaginação. Esperança inalcançável, utopia.
Projeto Quimera
- Capítulo 6 -
O vento cortava sua pele, a neve tampava seus olhos. A paisagem, não, o mundo todo se resumia a branco, cruel, ilusório e mortal branco. Ainda assim ele continuava a correr, deixando que o desespero escolhesse a direção. Tinha mais coisas com que se preocupar do que simplesmente se perder.
As últimas imagens continuavam a lhe atormentar a mente, verdadeiro curta-metragem a ser repetido de novo e de novo. Lembrava do laboratório, dos tubos, das asas. Lembrava de Boris e suas palavras de velada ameaça, de como ele e Spencer enfrentaram os temidos olhos vermelhos. Lembrava do vento que surgira do canto mais escuro, o urro que o seguiu...
Como se o filme acelerasse, os próximos momentos eram um borrão, acontecimentos velozes demais para serem totalmente registrados. Spencer lhe agarrando pelo pulso, corrida, coisas quebrando. Alarmes, tremores, gritos...
Ruínas. Cerca. Tiro.
Cerrou os punhos, as unhas curtas rasgando seu caminho nas palmas, misturando sangue fresco com o já seco a manchar suas mãos. Tinha que conseguir!
- Onde raios você está? – rosnou com raiva, fingindo não notar os tremores de seu pequeno corpo. Ultrapassara seu próprio limite há muito tempo, agora mesmo tentando ao máximo adiar, só haveria uma direção a seguir. Tropeçou, rolando pela neve e afundando um pouco. Gelo e frio lhe arranharam a pele, o impacto lhe arrancando um gemido de dor. Grunhiu, irritado com sua própria incapacidade.
Dedos trêmulos agarraram a beyblade, com custo lhe tirando do bolso da calça. Segundos depois o peão girava, instável, sobre a neve. Um par de olhos ofídicos lhe encarava preocupado. Sorriu fraco.
- Vá chamar o capitão.
A cobra gastou um segundo, como para ter certeza que seu mestre não mudaria de idéia, e se pôs a serpentear por sobre a neve, deixando apenas um pequeno rastro que logo era encoberto pela nevasca, tal qual o pequeno e exausto garoto.
-x-
A neve caía incessante, numa das piores tempestades já vista pela Rússia. Ainda assim o ruivo não a via, sua mente antes tão afiada agora entorpecida, anestesiada demais com os últimos acontecimentos para fazer algo que não manter-se a frente da janela, na esperança que, em algum momento, algo finalmente fizesse sentido.
Mas os minutos se passaram e tudo continuava surreal demais.
"Quando vocês perderam a final, Dickenson procurou um informante. Ele achava que as provas contra Boris e Voltaire poderiam não ser suficientes, e que seria melhor ter alguém dentro da Abadia para garantir que nenhuma informação importante se perdesse."
Respirou fundo. Argumento válido. Prosseguir.
"Boris e Voltaire foram presos mas, como Dickenson previra, acabaram livres por falta de provas. O informante então começou a passar informações através de um dos guardas da Abadia. Os dados eram então encaminhados para Judy, dos All Stars, para análise."
Plausível. Disfarces compatíveis. Prosseguir.
"No último contato, Judy descobriu um novo projeto em andamento. Era o bastante para expor Boris e Voltaire de uma vez, mas, com Dickenson no hospital, o processo parou. Também perdemos contato com o informante e o guarda."
Não há novos projetos em andamento. Falha na transmissão de dados? Armadilha?
"Porque veio?"
"Era parte do acordo. O informante te queria fora da Abadia, caso Boris desconfiasse. Era para o guarda te levar para a sede da BBA, mas ele te levou para o lugar errado. Se tudo houvesse ocorrido como planejado, você estaria no centro dos All Stars, ajudando a decifrar os dados."
Neste momento a lógica fria se foi, trincando e rachando sob seus pés como gelo fino, atirando-o num profundo lago de emoções. Porque só havia uma pessoa que se importava...mas ela fora condenada há muito tempo. Não havia como continuar o mesmo depois de passar dias no laboratório, aos cuidados de ninguém que não o próprio Boris. Havia?
Tala mordeu o lábio, usando da dor para se manter focado. Não era hora para esperanças absurdas. Conhecia o sistema, e Cyber não lhe deixava errar as possibilidades. Não havia dúvidas de que o falcão seria um substituto perfeito. Um lutador com garras afiadas e uma mente mais afiada ainda, alguém que não fingia toscamente não ter emoções, mas era de fato capaz de ignorá-las, tão fácil quanto respirar. E, como se tudo isso não fosse o bastante, ainda havia o ar, força invisível mais sempre presente, e muito mais letal que qualquer beyblade.
O ruivo sorriu amargo. Que teria acontecido se Bryan houvesse lutado a sério com Kon? Teriam vencido o mundial...Voltaire e Boris teriam um pequeno momento de glória antes de se verem traídos por seus próprios fantoches...
E Bryan seria um assassino.
Suspirou, abandonando aquela linha de raciocínio. Se a imprensa já crucificara o falcão apenas por meia dúzia de golpes imaginar o que fariam com um Kon caindo morto nos primeiros segundos não era nem um pouco agradável. Não, definitivamente era melhor mudar o rumo de seus pensamentos. No entanto, isso o trazia de volta a dúvida, gerada pela tola, mas extremamente necessária esperança. Por mais que não houvesse visto nada além de vazio naqueles olhos...será que fora empurrado de propósito?
Alguém havia lhe carregado, lhe tirando da Abadia enquanto inconsciente. Mesmo o levando para o lugar errado, ainda assim o levara para algum lugar em vez de simplesmente lhe abandonar num canto qualquer. Porém, nada disso seria possível que não no penhasco, longe dos guardas e das câmeras. Será?
Bryan...você realmente tentou? – tocou o vidro, sentindo-o frio mesmo sobre a luva. Lá fora, a fúria dos céus continuava a desabar sobre as luzes de Moscou, as tornando pequenas e frágeis velas ante as confusas safiras. Seria esse seu destino? Lutar inutilmente até que suas forças acabassem e a neve o apagasse da memória?
Bry... – deixou a vista de lado, focando no reflexo da porta atrás de si. Sabia que Kai estava atrás dela, encostado na parede, braços cruzados e olhos fechados. Também sabia que ele esperava uma resposta.
Deveria deixar a Rússia para ajudar a prender Boris e Voltaire? Cyber gritava que sim. Que, já que não poderia matá-los, o melhor a fazer era prendê-los e jogar a chave fora. Entretanto, mesmo com isso em mente o lobo hesitava, o coração implorando para que esperasse um pouco mais. Sabia que Cyber estava certo, que, não importava o quanto quisesse, jamais poderia invadir a Abadia e salvar o falcão. Porém, o coração insistia que, se fosse paciente, não seria necessário.
Posso confiar de novo?Não! Posso confiar pela primeira vez? – corrigiu-se, tentando considerar as novas possibilidades. Porém, bastava uma pequena brecha em seu escudo de gelo e lá vinha a esperança mais uma vez a lhe aquecer o peito com idéias tolas. Mas era um calor tão gostoso...tão próximo do garoto de afiados olhos lavanda...
A porta foi aberta e fechada, tudo no mais perfeito silêncio. Pelo reflexo no vidro, Tala acompanhou os movimentos do antigo colega, fazendo os orbes azuis e cinzentos se encontrarem. Uma resposta precisava ser dada.
Tala fechou os olhos, mentalmente revendo sua decisão antes de se agarrar a ela. Virou-se para a fênix e tomou fôlego, partindo os lábios.
- Kai, eu...
- Wyborg.
O ruivo ergueu uma sobrancelha, incapaz de entender. Porém, assim que viu o espanto na face sempre tão inexpressiva sentiu como se algo em si parasse, aguardando em dolorosa expectativa enquanto se virava, seguindo para onde o japonês apontava.
Lá fora, banhada pela luz que fugia da casa e quase totalmente coberta de neve, jazia o sinal que o ruivo tanto esperava.
-x-
Ninguém sabia o que estava acontecendo.
Os alarmes pareciam enlouquecidos, seus brados estridentes ferindo a todos sem piedade. Ordens ridículas eram gritadas aqui e ali, tentando sobrepujar o caos, na vã esperança de restaurar a calma. Ventos surgiam do nada, varrendo os corredores antes tão isolados do mundo exterior, balançando as sólidas paredes de pedra como se fossem papel e fazendo o chão tremer, gerando tropeços e passos em falso.
Foi quando os verdadeiros gritos começaram a ecoar.
Porém, eles jamais seriam tão assustadores do que para um certo guarda de cabelos azulados.
Corria, esperança e desespero lhe fazendo desviar de entulho e corpos com habilidade, medo lhe guiando por círculos cada vez menores. Sabia quem estava atrás de si. Sentia aqueles olhos lhe encarando a cada sombra que passava, queimando sua nuca de novo e de novo, com uma precisão agonizante e cirúrgica. Pior, sabia exatamente porque tal demônio estava atrás de si.
E não havia ninguém a quem culpar, que não a si próprio.
Um pedaço do teto de pedra caiu, forçando o guarda a se jogar para o lado, num movimento tão eficiente que juraria ter sido empurrado por mãos invisíveis, caso fosse realmente capaz de analisar a situação. Mas isso não era possível agora, então o guarda apenas levantou do chão poeirento e oscilante, continuando a correr, virando apenas quando algo ameaçava atingi-lo.
Foi quando encontrou a mais completa escuridão, e todo vestígio de orientação que ainda pudesse ter se perdeu. Assustado, tentou dar meia volta e retomar por onde viera, mas o ambiente não lhe deixava ver qualquer luz! Não sabia como voltar!
Fique calmo! É só mentir!Ele nunca vai saber.
Mas o demônio que tanto temia já sabia. E isso frustrava qualquer esperança. Porque o medo é uma faca de dois gumes, talvez até mais que todas as outras emoções humanas. É o medo que diz para seu corpo fugir ou lutar para sobreviver, porém, é esse mesmo medo que bloqueia todo e qualquer raciocínio lógico, levando, invariavelmente, aos erros mais estúpidos possíveis. O guarda não seria exceção.
Um assobio fino cortou o ar com velocidade, seguido por um pequeno brilho. Assustado, o guarda virou, pronto para implorar por sua vidinha inútil. No entanto, quando viu que era apenas um objeto – uma beyblade – riu.
Tolo. Somente percebera a cova que cavara quando mãos lhe agarraram pelas costas, o puxando para as profundezas com brutalidade.
O resto se resumiu a gritos e olhos brilhando na escuridão.
