"Oh, meu deus, Santana!"
A estudante de arquitetura abriu um sorriso e deu um beijo molhado em Evie, que ainda estava sob o efeito de um intenso orgasmo. Era a quarta vez que se encontravam e Santana começava a gostar da idéia de ter novamente alguém regular em sua cama. Namorada? Talvez não. Era inegável que Evie e Santana tinham sintonia na cama e conseguiam manter um diálogo descente, mas daí a se envolver seriamente era outra história. Por enquanto, Santana estava feliz por ter uma nova amiga completamente ignorante sobre a dupla identidade que mantinha. Evie não lhe cobrava satisfações, não lhe telefonava todos os dias, quando se encontravam pelo campus: conversavam como boas amigas.
"Se você não parar..." – Evie estava ofegante.
"Garota, eu mal comecei" – desceu pelo corpo da amante e beijou-lhe no sexo.
Alguns orgasmos depois de ambas as partes, Santana estava deitada na cama de Evie olhando para o teto criando coragem para sair dali e tomar um copo de água bem gelada. Talvez uma latinha de cerveja, mas ainda não sabia se tinha ou não intimidade suficiente para abrir a geladeira do apartamento alheio.
"Água?" – Evie perguntou.
"Leu a minha mente."
"Ficaria surpresa se não estivesse com sede depois disso tudo" – levantou-se sem se preocupar com a nudez. Apanhou uma garrafa de água mineral, tomou alguns goles e depois a dividiu com Santana – "Tem planos para esse fim de semana?" – Evie voltou a deitar-se na cama e virou-se de lado de modo que pudesse conversar.
"Está me chamando para um encontro?" – Santana quase engasgou.
"Por que não? Seria problema se a gente saísse uma vez e nos divertíssemos? Sei lá, para dançar ou até mesmo pegar um cinema?"
"Não... não seria" – Santana tomou mais um gole da água – "É que eu tenho um..."
"Encontro?"
"É mais um compromisso. Uma amiga minha faz teatro na faculdade comunitária e vai estrear a última peça dela antes de se graduar nesse fim de semana. Não deve ser uma peça muito boa, imagino que não, mas se eu não estiver lá para prestigiá-la, você vai ler a notícia sobre o meu assassinato no noticiário local."
"Amiga sua?"
"Sim, minha amiga. Não ex-amante. Amiga, amiga. Eu tenho amigas, se não se importa."
"Ei" – Evie sorriu – "Por que a defensiva? Só estava mexendo contigo" – passou os dedos nos cabelos de Santana – "Essa deve ser uma boa amiga para te fazer ir ao teatro para ver uma peça que não deve ser grande coisa."
"Diria que sim" – não se furtou em sorrir – "Não é que Rachel seja a minha melhor amiga. Esse cargo é de Mercedes Jones, sabe? Mas ela tem um lugar especial."
"Mesmo? Como é que você não falou sobre ela até agora? Aliás, você não fala muito dos seus amigos ou sobre você mesma. Só conheço Mercedes e aquele da cadeira de rodas..."
"Artie."
"Isso. Vejo você falar com as pessoas no campus, mas não sinto que seja realmente próxima de alguém que não seja Mercedes e Artie. Não leve a mal, mas parece que tem mais ex-amantes do que amigos."
"Sexo não é intimidade. Quer dizer, é até certo ponto já que você expõe o seu corpo para outra pessoa, mas o meu conceito de intimidade é algo um pouco mais complexo. Sexo é apenas sexo na maior parte das vezes. Mas ter um relacionamento com alguém, de amizade ou de amor, é outra história. Isso exige convivência e, principalmente, confiança. Eu posso ter tido alguns casos passageiros, mas a minha amizade não é algo barato."
"Você é uma mulher intensa, Santana Lopez."
"Quer assistir a uma peça incrivelmente chata comigo?"
"Adoraria."
...
Rachel olhou fixamente para o pote de creme hidratante sobre a mesa. Aproximou o indicador do objeto e se concentrou para que a energia fosse liberta apenas na ponta do dedo. Fechou o olho, como se quisesse mirar melhor e disparou. O tiro de energia saiu mais forte que era a intenção. Não apenas deslocou o pote de creme como acertou o copo de vidro que infelizmente estava na linha do disparo. O pote saiu intacto, apesar da queda. O copo não teve a mesma sorte. Kurt olhou o vidro espalhado pelo chão do apartamento e suspirou.
"Não sei o que você está tentando fazer, Rach, só que faz meia hora que você olha para esse fascinante pote de creme apenas para enxotá-lo e quebrar coisas pela casa. Não tem graça."
"Só estou me concentrando. Fazer esse tipo de exercício me acalma."
"Mesmo?" – Kurt recolheu os cacos maiores – "Porque o resultado não condiz com o alcance do nirvana."
"É a estreia amanhã" – Rachel levantou-se do sofá e estalou os dedos. Esfregou os olhos e a íris avermelhada voltou aos poucos ao castanho médio – "Algo me diz que alguma coisa vai dar errada e eu não consigo controlar a ansiedade."
"Rachel, querida" – Kurt limpou as mãos antes de segurar a amiga pelos braços – "Tudo vai dar certo. Você vai arrasar nas linhas de solo, eu vou arrasar nas minhas duas linhas de solo e, apesar do pouco espaço, nós dois seremos convidados a fazer a audição para a Companhia de Teatro."
"Você é um otimista incorrigível."
"Não posso evitar" – Kurt sorriu, mas depois deu um tapa de leve no braço da melhor amiga – "Agora chega de quebrar coisas pela casa. Se quiser relaxar de verdade, sugiro uma garrafa de vinho e um bom filme."
Rachel ajudou Kurt a arrumar a bagunça que ela própria foi parte responsável. Não dava para atribuir a bagunça do apartamento apenas pelo impulso a vigilante em exercitar os poderes. Os dois moradores tiveram uma semana agitada. Kurt estava empenhado em reunir toda a papelada para abrir uma loja de camisetas e assessórios. Algo pequeno, mas que ele e Adam estavam dispostos em colocar o suor sem reservas. Adam era um bom administrador e Kurt era criativo suficiente para inventar estampas usando um bom software. Claro que o teatro era o sonho maior, mas Kurt sabia que tinha de dar alguns passos adiantes e o emprego atual não lhe daria um grande futuro. Burt Hummel comprou uma pequena loja em uma das galerias próximas a oficina mecânica e cederia o espaço ao filho, desde que ele conseguisse pagar todas as demais despesas, como as contas de água e luz, além de outros impostos.
Rachel estava feliz e, ao mesmo tempo, com ciúmes da correria do amigo e do namorado dele para viabilizar os negócios. Se tudo saísse como o planejado, em dois meses a loja seria inaugurada. Ela? Sentia-se perdida. Só tinha dois objetivos em vista no que diz respeito à carreira: terminar o curso na faculdade comunitária e entrar na companhia profissional de teatro. O primeiro era algo que naturalmente concluiria ao fim do semestre. O segundo objetivo se transformava mais e mais num pesadelo, numa angústia. Embora apreciasse o emprego na escola, olhar crianças e eventualmente ensiná-las canções não era algo que gostaria de fazer pelo resto da vida.
Ainda tinha o lado vigilante. O perigoso trabalho de heroísmo e alguma estupidez, ameaçado pela máfia e pela polícia, mas que ela não conseguia largar de forma alguma. Ser vigilante significava colocar a vida em risco, mas era também o mais sedutor, gratificante e viciante. Balancear todos os elementos entre estudos, trabalho para sobrevivência, sonhos e responsabilidades era algo digno para um equilibrista da mais alta competência. O que não estava em dia eram as responsabilidades com a casa. A roupa a ser lavada se acumulava, o mercado estava atrasado e não se aspirava o lugar há mais de uma semana. Os únicos lugares razoavelmente cuidados eram a cozinha (prato sujo acumulado era um horror), e o banheiro que era desinfetado com a freqüência que os dois julgavam adequada: a cada três dias.
"Ainda temos bolo de xícara" – Kurt pegou dois pacotes e os mostrou a Rachel.
"Não, obrigada" – resmungou só em pensar na massa industrializada de gosto único descendo pela goela. Era melhor ficar com o vinho, o pacote de biscoitos e o filme.
Pegou a garrafa e dois copos. Suspirou quando viu o amigo preparar um bolo para si. A noite seria devagar. Colocou a comida na mesa de centro e ligou a televisão enquanto esperava o amigo se arrumar para colocar o filme. Passava uma partida de futebol e Rachel não era fã de esportes. Verificou rapidamente o celular. Nenhuma mensagem que a fizesse correr porta afora com a máscara em mãos. Aliás, todos os vigilantes estavam mais acomodados depois da noite em que a máfia declarou guerra. Santana e Matt decidiram que seria melhor espaçar as patrulhas para as coisas esfriarem enquanto a equipe de investigação formada por Mercedes, Artie, Quinn e o oráculo trabalhavam. Tom precisou sair da cidade depois do quase seqüestro e ficou na cabana por alguns dias, que se transformaram em semanas. Ele e o cachorro. O lado bom é que aproveitou o tempo livre para fazer as instalações de segurança e ajustar o sistema de vigilância.
"Odeio quando você fica ansiosa demais por esse celular" – Kurt reparou na frustração da amiga.
"Desculpe."
"Você disse que ia dedicar toda energia para o teatro e que não pensaria em sair às ruas, Rachel Berry" – o tom de Kurt era de repreensão.
"Nós ensaiamos arduamente essa semana inteira, correto?" – serviu-se do vinho enquanto o amigo colocou o filme – "E eu estou focada nos meus objetivos profissionais. Minha prioridade neste momento é a nossa estreia amanhã..."
"Só que..." – Kurt sorriu para pressionar. Conhecia a amiga bem demais e sabia quando existiam três pontos depois de uma frase dita por ela, ou um advérbio.
"Nada não" – Rachel conhecia algumas táticas de Kurt para fazê-la contar certas coisas. No entanto, ela não resistia e sempre entregava alguma coisa – "Faz uma semana que não sou chamada para patrulhar... estou começando a sentir falta."
"Inacreditável!" – Kurt balançou a cabeça – "Não sei como pode sentir falta de sair pelas ruas com uma máscara quente na cabeça e correr o risco de se machucar... ou de morrer."
"Você só entenderia se fizesse o mesmo."
Kurt serviu-se do vinho e tomou um gole grande. Temia pela melhor amiga e desde que ela começou a ser uma vigilante que ele não consegue dormir enquanto Rachel não chega em casa sã e salva, e de preferência sem um arranhão. Será que era assim que Mary Jane se sentia sobre o Homem-Aranha? Kurt acreditava que sim, menos a parte de serem casados. Não havia atração sexual, mas o amor que ele sentia por Rachel era profundo. Tão grande que por vezes ele dava razão a Finn Hudson no que dizia respeito a relação de Rachel com Santana Lopez. Podia entender o ciúme que sentia sempre que Rachel recebia a maldita ligação no celular a chamando para patrulhar. No mundo ideal de Kurt, Rachel entraria para a Companhia de Teatro e seria descoberta pelos grandes grupos da metrópole, deixando para trás as conexões que tinha na cidade, mesmo os laços de amizade com ele. Egoísta sim, mas ele tinha a melhor das intenções e das razões.
...
Quinn fez as últimas recomendações à babá, uma senhora com cerca de 50 anos que morava na vizinhança e se arranjava sozinha numa quitinete. O trampo de babá era bem-vindo para a senhora e também para Quinn, que se sentia mais tranquila em deixar Beth com um adulto mais velho e responsável em vez de uma adolescente desmiolada que deixava o namorado entrar, como Beth reportou na última vez. Além disso, a mãe de Patrícia, a coleguinha de Beth, não teria como deixar a pequena ficar na casa dela por causa de um compromisso.
"Aqui estão os números de celular meu e do Matt, o meu namorado. Qualquer eventualidade, por favor, não hesite."
"Não se preocupe, senhorita Fabray" – a senhora colocou os telefones presos ao imã na geladeira – "Ficaremos bem."
"Mais uma vez, é Quinn" – ela se sentia terrivelmente estranha ao ver uma senhora a chamando pelo sobrenome de maneira tão formal – "Beth pode tentar te persuadir, mas eu não permito que ela coma doces à noite. Daqui a meia hora você, por favor, prepare um leite quente e pode dar algumas bolachas para acompanhar. Ela pode ver filme na TV até as dez e meia no máximo. Depois disso é cama."
"Eu devo voltar até meia noite. Se passar desse horário, pode me cobrar extra."
"Pode deixar, senhorita Fabray. Divirta-se."
Quinn estava elegante em um vestido preto até a altura dos joelhos , salto alto e uma bolsa de mão. Talvez estivesse bem vestida demais para a ocasião: a estreia da nova peça de Rachel Berry, em que a colega sequer seria a protagonista da vez. Por outro lado, sempre gostou de se vestir bem, do estilo clássico, mas raramente tinha a oportunidade de colocar roupas bonitas. Usava um terninho como uniforme para trabalhar e não cabia ser elegante nas classes da faculdade comunitária. Quando viu Matt de jeans, no entanto, suspirou. Os dois estavam totalmente fora de sintonia em se tratando de trajes.
Não comentaram a respeito durante todo o trajeto até ao teatro da faculdade. Encontraram com vários conhecidos no saguão. Tina, Finn e Puck estavam lá. O casal cumprimentou os ex-colegas rapidamente e logo foram em direção a Artie, Tom e Mercedes. Ao julgar pelas roupas do trio e da maioria das pessoas, Quinn percebeu que não estava tão fora, nem mesmo Matt. Havia uma mistura interessante de estilos. Mas era fato que os dois juntos não estavam visualmente em acordo.
"Vão para algum lugar depois daqui?" – Mercedes deu uma piscadela.
"Só a tal festa que Rachel disse que haveria" – Quinn respondeu ainda olhando para os lados – "Cadê Santana?"
"Diz que vem acompanhada" – Mercedes respondeu ainda achando aquilo muito estranho. Logo Santana que disse que traria companhia quando ela evitava misturar os mundos com Jenny, com quem teve um caso de dois anos entre idas e vindas.
Quinn acenou para alguns outros conhecidos e foi rapidamente cumprimentar um colega de classe. Um jovem bonito e sorridente que fez Matt ficar de olho na interação entre eles. Por alguma razão, era a primeira vez desde que começou o relacionamento com Quinn há quase um ano que se sentiu inseguro e estranho. O jovem colega era mesmo galante, estava bem vestido e definitivamente tinha magnetismo.
Santana chegou faltando dez minutos para o início da peça e encontrou com os amigos já dentro do teatro. Como sempre, Santana se vestia muito bem quando não estava com roupas de vigilante. Usava os cabelos num rabo de cavalo bem feito, vestido que valorizava sua boa forma física e botas de alto. Evie a acompanhava bem. Santana sequer apresentou a companhia. Logo sentou-se e esperou as cortinas se abrirem.
A peça era muito melhor do que a produção anterior, Filhos da Revolução, em que Rachel foi a protagonista. Desta vez, a amiga faz papel da melhor amiga da protagonista que se apaixona pelo principal ator, mas é rejeitada. A única canção solo em que Rachel canta é sobre a cena em que a personagem canta o conflito de tentar atrapalhar o namoro da melhor amiga ou em apoiá-la apesar de tudo. Ela escolhe nem uma coisa, nem outra, o que provoca uma situação difícil para o casal apaixonado. É mais ou menos por aí que Rachel se despede em cena e só retorna para cumprimentar o público. Kurt era ainda mais coadjuvante fazendo o papel de um dos colegas da fábrica em que o principal ator trabalha.
Era uma boa peça, com um elenco bem escalado. Rachel estava muito bem no papel que lhe foi designado e seus amigos fizeram questão de aplaudi-la com entusiasmo. Foi apenas no saguão do teatro que os amigos tiveram chance de falar com os atores e ali receberam os convites para a tal festa que aconteceria em um clube da cidade. Kurt entregou os convites que tinha direito ao namorado e aos três amigos que prestigiaram. Cedeu um convite para Rachel, que tinha na lista Quinn, Matt, Mercedes, Artie, Tom e Santana. Ela só não contava que a líder vigilante estivesse com companhia.
"Você foi espetacular, Rach" – a atriz ganhou um abraço apertado de Santana.
Rachel sorriu largo, mas a surpresa voltou ao rosto assim que percebeu que a garota junto de Santana era na verdade uma companhia. Uma namoradinha. Era algo que não esperava e a deixou completamente sem jeito.
"Eu tenho o seu convite aqui, mas eu não sei se consigo arrumar outro" – falou constrangida.
"Não faz mal" – Santana segurou a mão da atriz para lhe assegurar. Foi quando percebeu a burrada que havia feito e ficou mortificada consigo mesma – "Evie e eu temos outros planos. Desculpe por não ter te avisado..."
"Não tem problema" – Rachel forçou um sorriso e não conseguiu disfarçar tão bem assim o desgosto – "Fica para outra ocasião... tenho certeza que Kurt vai usar o convite que era da cota dele, afinal."
"Mais uma vez parabéns. Você foi incrível!" – Santana a abraçou mais uma vez antes de se despedir.
Quando uma virou as costas para outra, e Rachel não disfarçou o desgosto em ver Santana ao lado de outra garota, a atriz foi até Kurt com jeito de poucos amigos e empurrou o convite extra no peito do amigo.
"Não vou precisar mais."
Ao longe, Quinn e Mercedes observaram a cena. Recriminaram Santana e se solidarizaram com Rachel. E fizeram questão de lembrar que havia uma festa e que coisas mereciam ser comemoradas.
"Então você realmente tem amigos" – Evie provocou ao entrar no carro, Santana sentou-se no banco passageiro – "Gostaria de passar em algum lugar a mais? A gente poderia jantar num bom restaurante. Conheço um muito bom em que as garçonetes cantam com um trio de jazz. A música é boa e a comida melhor ainda."
"Não, obrigada. Sei que restaurante é esse. Já fui lá algumas vezes, mas não quero voltar. Não hoje."
"Más recordações? Alguma ex?"
"Não, não é nada disso. Só não estou a fim."
"Então, meu lugar?" – Evie sugeriu.
"Se não se importa, Evie, você poderia me deixar perto do meu dormitório?"
"Você teve um caso com Rachel? Não negue que tinha uma tensão ali. Qualquer um poderia perceber."
"Não, Rachel é só minha amiga..." – disse mais para si mesma.
Despediu-se de Evie com um beijo nos lábios e subiu ao dormitório. Sem sono algum, trocou de roupa, pegou a surrada mochila que guardava a velha máscara. Precisava patrulhar e parar de pensar em certas caraminholas.
Na festa, Rachel bebia mais do que devia. Apesar de todos os elogios que conquistara. Deveria sentir-se orgulhosa por ter ouvido comentários de que roubou todas as cenas. Mas não estava satisfeita. O humor foi todo embora quando descobriu que Santana teve a cara de pau de levar uma garota num encontro para a estreia dela. Deus sabe o que Rachel faria se as duas estivessem na festa. Algumas pessoas tentaram se aproveitar da frágil situação de Rachel, mas ela tinha mesmo bons amigos que impediram que lobos aproveitassem a presa fácil.
"Acho que está na hora de irmos" – Kurt abraçou a amiga, que protestou. No fim, os amigos convenceram a alegre embriagada a entrar no carro.
Adam e Kurt ajudaram Rachel a subir as escadas e o casal a colocou na cama. Kurt tirou os sapatos dela e a cobriu. Foi um longo dia, mas ao menos ela estava em segurança.
Não muito longe dali, Matt e Quinn também voltavam para casa. O clima também era tenso entre eles. Matt dirigia em silêncio, com os dentes cerrados. Não queria dar uma de namorado ciumento ou pegajoso, uma vez que os dois passavam muito tempo juntos. Mas era inevitável não se irritar com o fato de Quinn ter dedicado parte do tempo dela dançando e bebendo com colegas que sequer faziam parte do meio deles. Foi a primeira vez que Matt realmente se sentiu deixado de lado.
"São quase uma" – Matt disse assim que estacionou o carro.
"Uma hora de extra para a babá" – Quinn comentou casualmente – "O que você acha de arrumar o sofá para ela passar a noite? Acho perigoso uma senhora como ela voltar sozinha à essa hora."
"A não ser que alguém a acompanhe."
"Faria isso?"
"Claro" – Matt forçou um sorriso e beijou Quinn rapidamente nos lábios antes de descer do carro.
A babá agradeceu o pagamento, que incluiu o extra pela hora a mais, e também pela carona que receberia. Quinn suspirou aliviada assim que a porta se fechou. Tirou o salto alto, o broche no cabelo e foi ao banheiro. Estava louca para tomar um banho rápido e morno. Assim que se vestiu em um confortável pijama, verificou Beth pela última vez antes de deitar-se na cama. Pensou na noite maluca que tivera. Pensou em Matt. Não entendia porque o namorado estava tão estranho e sério na festa. Adormeceu pensando ser apenas uma bobagem. Todo casal tem uma noite em que se fica fora de sintonia.
Mercedes, Artie e Tom, por outro lado, aproveitaram a festa. Estavam cientes das tensões da noite, só que encararam tudo com perspectiva diferente. Em primeiro lugar, tinham plena consciência de que nada daquilo era problema deles. No entanto, Mercedes não deixou de fazer certas observações, como boa jornalista que era com faro para o detalhe. Percebeu, por exemplo, que Puck de alguma forma impedia que Finn se aproximasse de uma frágil e embriagada Rachel. Entendeu muito bem qual foi a origem de tal problema e quis matar Santana por levar uma garota ao evento mais inapropriado. Ela não poderia ter feito isso, não quando a relação entre ela e Rachel ainda estava mal-resolvida. Achou graça por Tom dar em cima de Tina e em um monte de outras menininhas. Percebeu que o mais recente vigilante era um baita Don Juan às avessas e achou graça. Começou a entender porque Artie se divertia tanto. Também notou o incômodo de Matt com Quinn. Só não soube dizer a razão. Isso ela não pegou no ar.
Na volta ao dormitório, suspirou ao ver que Santana não estava lá. Pensou que talvez tivesse ido dormir com a nova namoradinha, Evie, de quem não gostava. Teve a intuição de procurar a mochila no canto do armário e não a encontrou. Mas achou as roupas que usara na noite jogadas no chão no canto da cama. Verificou o relógio. Era quase uma hora da manhã. Presumiu que Santana deveria estar para chegar e que seria bobagem se preocupar. O vício lhe fez sentar em frente ao computador para dar uma última olhada nas mensagens e nas notícias. Arregalou os olhos ao ler uma matéria sobre a fuga que aconteceu no presídio em que Martinez cumpria pena.
...
Rachel abriu os olhos aos poucos. A visão ainda estava embaçada e a cabeça rodava por causa da ressaca, embora o mal-estar não estivesse tão intenso quando poderia em decorrência à generosa quantidade de álcool que ingeriu. De repente, sentiu uma mão passar pelo quadril e entrou em pânico. E se ela ficou com alguém e não se lembrava? Arregalou os olhos e entrou num debate interno se ela se virava ou não para encarar o rosto de quem a acariciava, mesmo que de leve, quase timidamente. Ela ainda estava com a roupa de ontem e não havia qualquer indicação de que fez algo mais, o que era um alívio. De qualquer forma, não se lembrava de ter, sequer, ficado com alguém na festa. O coração dela disparou. Ela ficou com ninguém na festa, apesar dos sorrisos, insinuações e do pileque. Não poderia ser Kurt, porque ele estava com Adam. Então?
Entrou em pânico. Quando sentiu o outro corpo se movimentar e balançar o colchão de mola, virou-se de uma vez como num reflexo e a energia saiu da palma de suas mãos contra o peito do indivíduo. Seja quem fosse, o corpo foi atirado para fora da cama e se chocou contra a parede, caindo no apertado espaço que tinha entre o móvel e um dos limites do quarto. O barulho foi expressivo e acordou o casal ao lado. Rachel fez um rolamento e ficou de joelhos no limite da cama para encarar o invasor. Palma da mão preparada para disparar e os olhos vermelhos característicos de quando estava ativa para usar os poderes.
"Ai" – foi tudo que disse o invasor.
"Santana?" – Rachel ficou confusa ao reconhecer a amiga em camiseta e calça jeans folgada.
Nesse meio tempo, Kurt invadiu o quarto da amiga com o namorado logo atrás.
"Rachel? O que foi?"
"Ai" – Santana começou a se mexer ainda sob efeito do susto e da pancada energética que levou.
"Santana?" – foi a vez de Kurt perguntar – "O que você está fazendo aqui?"
"Ai" – era tudo que conseguia dizer por hora.
"Kurt" – disse sem olhar para o amigo. Não queria que Adam visse seus olhos vermelhos – "Deixa que eu cuido disso."
"Ok... Vamos..." – empurrou o namorado para fora do quarto da amiga e fechou a ponta.
"O que você está fazendo aqui?" – Rachel perguntou irritada estendendo a mão para ajudar a vigilante a se levantar.
Santana primeiro se levantou para sentar-se na beira da cama. O corpo dela podia ser resistente, mas tinha de admitir que levar um "tiro" de energia de Rachel à queima roupa era muito doloroso e a fez perder o fôlego. Não foi à toa que Kurt parou no hospital com sangramento interno quando Rachel explodiu pela primeira vez. Só então voltava a respirar normalmente para conseguir voltar a falar. Rachel sentou-se ao lado dela num misto de preocupação e irritação. Esperava por uma resposta.
"Eu estava patrulhando..." – Santana respondeu ainda procurando puxar o ar – "Fiquei até tarde e decidi dormir aqui... ai, acho que vou deitar" – encostou-se à cama.
"Você estava patrulhando, ficou tarde e decidiu invadir a minha casa para dormir na minha cama? É isso?" – Rachel colocou as mãos na cintura.
"Eu avisaria que tinha chegado caso Kurt não estivesse copulando no quarto ao lado e você morta para o mundo. Não quis te acordar. Credo!"
"Não tinha companhia ontem? Por que não foi dormir com ela?" – o tom era ferido e amargo.
"Sobre isso... eu vim aqui também para te pedir desculpas."
"Por quê? Não é que você tenha alguma coisa comigo a ponto de me dever satisfações sobre a sua vida amorosa. Você é livre para sair com a vagabunda que quiser, Santana."
"Desculpe" – Santana não queria brigar – "Era uma noite especial e eu não tinha o direito de levar alguém estranho. Quer dizer, Evie é uma garota legal, mas ela não é... ela não é importante."
"E você foi pensar nisso só agora?"
"Não paro de pensar nisso há algumas horas, para dizer a verdade. Depois que saí do teatro, eu me despedi dela e fui patrulhar... para pensar ou deixar de pensar... não sei... olha Rachel, não tente puxar tanto, eu estou me sentindo péssima, culpada e estou pensando em mil e uma maneiras de admitir coisas."
"Que coisas?" – Rachel se aproximou a fim de pressionar mais.
"Que eu gosto de você e estou morrendo de medo."
Rachel piscou uma, duas, três vezes. Parecia não acreditar no ouviu. Santana Lopez admitindo de forma clara que gostava dela depois de tantos meses de tensão e enrolação. A verdade é que ela gostava de Santana. Muito. Tanto que não conseguiu voltar para Finn Hudson. Mas o orgulho era grande demais para ela simplesmente abrir os braços, abrigar Santana Lopez e enchê-la de beijos. As coisas não eram por aí. Sentou-se ao lado de Santana e permitiu-se levar a mão até ao quadril da vigilante, numa pequena carícia semelhante ao que recebera mais cedo.
"Eu sou uma mulher de relacionamento, Santana Lopez, e muito séria. Não pode simplesmente me descartar por completo por estar aborrecida e insegura para no mês seguinte dizer que me quer."
"Eu sei, e desculpe."
"Por que tem tanto medo assim?" – perguntou após um período de silêncio.
A conversa foi interrompida com o toque abafado do celular. Era o de Santana. Ela se levantou fazendo careta e pegou o aparelho dentro da mochila.
"O que foi Cedes?"
"Onde está?" – a voz dela era de preocupação.
"Estou bem, por quê?"
"Viu as notícias?"
"Que notícias?"
"Martinez e outros nove condenados estão foragidos."
Rachel ficou preocupada quando Santana ficou pálida de repente ao telefone. Prendeu a respiração antecipando uma notícia ruim.
"Passe aqui na casa de Rachel. Vamos nos reunir na cabana. Chame todos."
Desligou o celular e encarou a atriz, que estava ansiosa em saber o que aconteceu. Num impulso, Santana segurou Rachel, passou a mão atrás do pescoço e a puxou para um beijo passional.
"O que foi isso?" – Rachel disse meio tonta e procurando ar quando a carícia foi rompida – "San, o que aconteceu?"
"Martinez está solto e eu sei que ele virá atrás de mim."
O coração de Rachel disparou em temor. Ela se lembrava do único encontro que teve com Martinez e foi nada agradável. Não quando ela fez o papel de isca e terminou inconsciente amarrada numa árvore para depois ver Santana praticamente ser torturada na sua frente. Não, ela não gostaria de ver tal imagem mais uma vez. Foi quando o celular tocou. Desta vez era o de Rachel. Ficou em dúvida se atendia ou não, mas um sinal de Santana a fez pegar o aparelho. Talvez fosse importante.
"Rachel Berry falando" – disse ao ver o número desconhecido.
"Rachel, aqui quem fala é Shelby Corcoran. Sou diretora de elenco da Companhia de Teatro Musical. Eu assisti à peça dos formandos da faculdade e gostaria de saber se você está disponível hoje para uma conversa."
"Preciso responder agora? Não é um momento muito bom..." – o coração dela mal cabia no peito àquela altura.
"Pode ligar daqui a cinco minutos com sua resposta, querida. É o tempo que vou levar para convidar outra pessoa."
Shelby Corcoran não esperou Rachel responder e desligou o celular. As duas jovens mulheres se encararam.
...
Evie tirou os óculos escuros e entrou no restaurante que servia brunch àquele horário. Foi até a recepcionista e disse que tinha um encontro. A moça a conduziu até uma mesa vazia e a deixou à vontade para aproveitar o buffet. Tinha ali quatro tipos de bolos, pães, queijos, embutidos, biscoitos caseiros, waffles, geléias, tortas doces e salgadas, três tipos de suco, além de café e leite. Serviu-se de um prato com queijo branco, e um waffle com geléia de amora. O suco era de laranja.
Nesse meio tempo, a companhia que esperava chegou. Uma mulher relativamente alta, magra, loira e intimidadora. Recusou a comida. Estava ali para negócios.
"Desculpe, mas não consegui descobrir nada que não seja de conhecimento público sobre Santana Lopez. É uma boa amante, muito atraente" – disse sem sentir vergonha – "Boa aluna, gosta de verdade de arquitetura, é fechada no que diz respeito à intimidade e em falar de amigos ou do passado. Os melhores amigos dela são Mercedes Jones, que divide o dormitório com ela, e um cadeirante chamado Artie Abrams. Ela tem alguns outros que não me pareceram importantes."
"Deve ter alguma coisa a mais que você descobriu" – a mulher insistiu – "Algo estranho?"
"Vi nada de estranho com ela. Oh, mas se quer saber, reparei que ela tem uma séria queda por uma garota chamada Rachel Berry. Santana não admite, mas qualquer mulher sente a tensão."
"Não tem mais nada garota? Nenhuma fraqueza, algo suspeito, nada?"
"Mais nada. Agora que eu fiz o que pediu e me aproximei dela, será que poderia me dar aquela carta de recomendação que eu preciso?"
Holly abriu a bolsa e passou-lhe o papel. Então levantou-se e foi embora frustrada por aquela abordagem ter sido fracassada.
PRÓXIMO EPISÓDIO:
(SEM PERSONAGEM CENTRAL) Os vigilantes tentam se organizar e se antecipar ao mais temido dos inimigos.
