Décimo Quarto Dia


Capítulo dedicado à SweetBek, pela paciência e compania que me faz no twitter.


– Só um pedacinho, por favor? – Implorou a detetive. Os olhos de Beckett brilhavam em desejo, ela tinha um sorriso que mal cabia em seus lábios e uma expressão que lembrava a de uma criança dentro de uma loja de brinquedos. Quase se podia ver a animação quando ela balançava a mão na tentativa de alcançar o potinho que Josh tinha em mãos.

– Na-não. Você ouviu Seth, ele não te quer comendo doces assim tão cedo. – Respondeu ele, rindo e segurando o que sobrara do mouse de chocolate, o favorito de Kate, o mais longe possível de seu alcance.

– Mas, mas...

– Mas nada, meu amor. – Ele enfiou uma colher cheia do doce na boca e engoliu, se surpreendendo com o gosto bom que tinha, visto que vinha da lanchonete do hospital. Comida de hospital não costuma ser tão boa... Quanto ela está pagando no plano de saúde? – Ordens médicas.

Beckett suspirou, irritada. Odiava ficar doente. Odiava ter pessoas controlando sua vida. Odiava ficar deitada naquela cama sem fazer nada. A detetive fez bico e pegou a mão de Josh quando ele voltou a ficar perto da cama.

– Obrigada por ficar aqui comigo por tanto tempo. – Disse, apertando seus dedos nos dele.

– Não foi nada. – Josh se debruçou sobre a cama e beijou os lábios de Beckett demoradamente. Sentia tanta saudade dela... Tinha ficado tão assustado. Até agora ainda evitava pensar em quando ela chegara ali, embebida no próprio sangue. Ela era detetive de policia, ele sabia que ela corria riscos, mas... Aquilo tinha sido simplesmente demais. – Eu te amo, Kate.

Beckett sorriu e levou as mãos ao cabelo dele.

– E eu amo o gosto de chocolate que tem a sua boca.

– Ah, você me seduziu por isso?

– É, eu sou muito má.

Ele beijou a namorada mais uma vez e afagou seu cabelo.

– Mas... Você realmente não devia estar aqui. – Disse ela. – Eu posso muito bem ficar sozinha. Devia estar salvando a vida de alguém, não acha? Eu estou bem viva, como pode ver.

– Não tem chance de eu te deixar aqui sozinha, Kate. Além do mais, prometi a Richard que não ia a lugar algum.

– Como é? – Beckett pareceu despertar do conforto mental das palavras de Josh assim que o nome do parceiro foi citado. E o contexto fazia a frase ainda mais estranha.

– Castle. Ele me pediu que eu não saísse do seu lado.

Beckett arqueou as sobrancelhas. Não era possível que ele tivesse feito aquilo. Era exagero pedir a seu namorado que ele cuidasse dela, quase um pleonasmo. Todos sabiam o quanto Richard Castle odiava pleonasmos. A detetive não sabia exatamente o que aquilo significava, se é que significava alguma coisa. Ultimamente ela pensava que estava vendo as situações de forma muito profunda. Ele mesmo dissera. Ele seu parceiro, e se preocuparia com ela. Ela também se preocupava com ele, não é? Sim, e muito. Teria feito a mesma coisa. Teria ela mesma ficado ali, a seu lado. Se Castle tivesse levado um tiro... Kate tremia em calafrios somente de pensar. A imagem do escritor, deitado numa cama como a dela, sem o sorriso malicioso de sempre... Como naquele pesadelo. Um rosto sereno, pálido e gélido como a neve, envolto em flores. Flowers for your grave, flores para a sua cova.

Beckett inalou profundamente, enchendo os pulmões com o ar que subitamente tinha perdido.

– Você está bem? – Perguntou Josh, curioso pela expressão da namorada.

– Sim... Sim, estou. – Ela forçou um o sorriso e tirou os pensamentos da cabeça. Abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompida pela porta do quarto se abrindo. Estava pronta para dar fazer um comentário esperto sobre o senso de oportunidade de Seth quando viu quem havia entrado.

– Você. – Lanie Parish apontou para Josh e indicou a porta. – Afim de dar uma volta?

Kate não conseguiu segurar o riso pela cara surpresa de Josh, que logo riu junto.

– Ela é toda sua... – Disse, tem ter muita opção.

O médico estalou um beijo na boca de Beckett e saiu do quarto. Os amigos da detetive eram as pessoas mais estranhamente divertidas que ele já vira.

– Mas o que diabos você está fazendo aqui, Lanie? – Perguntou Beckett.

– Minha amiga foi liberada para visitas, eu tinha que ser a primeira a vir te ver! – Respondeu ela, tomando o lugar de Josh na poltrona.

– Pois você está atrasada. Castle veio me ver ontem. – Resmungou Beckett, mais para si mesma do que para Lanie.

A legista lançou um olhar maroto para a amiga e abriu a boca, fingindo surpresa.

– Quem diria! Richard Castle, huh? Estou dizendo, garota, aquele homem te adora.

– Não seja tola. Ele é meu parceiro. – Disse Beckett, revirando os olhos. – Você tem que parar com isso...

– Você sabe que eu adoro ver você com Josh, é só... Você e Castle fazem uma dupla interessante.

– Interessante?

– É. Interessante.

Beckett reprimiu o riso. Lanie era mais do que uma boa visita. Ela era a pessoa que vinha para animar seu dia. Sempre, não importava o quão desanimadora a situação fosse, Lanie sempre fazia com que ela visse que podia ser pior. Talvez fosse a convivência com os mortos.

– Lanie, quer me ajudar aqui um minutinho? – Perguntou ela, já se levantando sobre um cotovelo e sentindo o ferimento reclamar.

A legista assumiu uma expressão que lembrava a de Seth, com um sorriso adicional de quem conhecia a detetive muito bem.

– Acho que você não está entendendo a coisa muito bem, Kate. – Respondeu ela, enquanto Beckett tentava se colocar sentada. – Nenhum dos garotos quis te dizer para não te assustar, mas... As coisas não foram bonitas para o seu lado, querida.

Beckett parou, olhando de forma quase assustada para Lanie, se equilibrando sobre os braços.

– A bala atravessou seus ossinhos, – Ela apontou para o peito enfaixado da detetive. – indo diretamente em direção à sua artéria Aorta, o que, basicamente, quer dizer que é um milagre você estar viva. Quem deu aquele tiro sabia muito bem o que estava fazendo. Eu culpo o fato de você estar respirando às mãos firmes de Seth, mas ainda duvido que estivéssemos tendo essa conversa se Castle não tivesse te empurrado na última hora.

Beckett engoliu em seco. Por que diabos ninguém tinha avisado aquilo a ela? É claro que se ela estava se mexendo era porque não haviam mais perigos sérios, mas ouvir aquilo a deixou cautelosa. Melhor começar a seguir as ordens, pensou.

– Castle me empurrou? – Perguntou ela, voltando para a cama. Já era a terceira ou quarta vez que ela tentava aquilo. E a terceira ou quarta vez que não tinha sucesso. Mas a conversa estava deixando-a interessada. A cada segundo naquele hospital ela parecia descobrir coisas inéditas sobre Castle.

– Vai me dizer que não se lembra...?

– Não me lembro muito... Eu só... – Realmente, Kate não tinha muitas lembranças do acontecido. Quando acordara elas estavam muito mais embaçadas. Agora, desenterrava as recordações do funeral de Montgomery, de seu curto discurso. As palavras de Lanie contribuíam com mais aquela parte da cena: o sangue, Castle caindo sobre ela no chão... E... Mais alguma coisa. Ela não sabia o que. Ainda faltava alguma coisa. – Está me dizendo que Castle salvou a minha vida?

– Deixo as conclusões para você. – O sorriso da legista voltou à malicia anterior.

Castle estava cada vez mais frequente naquela história toda. Beckett entendia a importância óbvia de ele ter salvado sua vida, mas para cada resposta haviam duas perguntas.

– Ryan e Esposito. Como andam os dois? – Ela resolveu mudar de assunto e perguntou dos dois detetives e, mais que isso, amigos. Estava com saudades. Queria ver a cada de bobo e ambos, fazer alguma piada idiota apenas para ver a dupla rir.

– Estão preocupados. E cheios de papelada pra preencher. Você faz falta, Kate.

É claro... Beckett já havia perguntado dos dois, mas realmente precisava vê-los.

– Estão ai fora, tentando não invadir a sala enquanto eu converso com você. Os dois aparecem por aqui todos os dias querendo arrancar alguma novidade do seu médico.

Ela podia imaginar a cena: Seth, com sua habitual impaciência para tolice, sendo questionado quase como se estivesse sendo indiciado por homicídio.

– Castle também está ai? – Ela não se conteve em perguntar.

– Você faz perguntas demais. Pare com isso. – Brincou a legista.

– Só me responda, ok?

– Sim, está. – Disse Lanie, sempre de bom humor. Para a tristeza de Kate, não se demorou em acrescentar: – E eu não posso ficar muito tempo. Me desculpe. Passei pra ver como estava, e te dar um oi.

– Está tudo bem Lanie, fico feliz que tenha vindo. Muito obrigada. Agora ande logo, não é só porque estou aqui que as pessoas param de morrer.

A parte boa era saber que ela não demoraria muito a estar de volta. E que Richard estava lá. Ele havia cumprido sua promessa.

– Mas antes que você possa falar com Richard, acho que precisa falar com alguém que ficou bem bravo por eu ter sido a primeira a entrar.

E com um timing que parecia ter sido ensaiado, Jim Beckett entrou pela porta. Lanie não precisou de uma deixa melhor para sair por onde ele tinha entrado.

A detetive não conseguia esconder o sorriso, e talvez aquele homem fosse uma das únicas pessoas para as quais ela nunca o teria feito. Assim como Castle, ele parecia abatido e cansado. Era provável que já tivesse estado ali alguma vez, enquanto ela dormia. Ela estava feliz em vê-lo, mas sabia que levaria uma bronca por causa daquilo. Por ter quase morrido. Beckett se sentiu uma criança novamente, aflita, quase com medo do pai lhe diria.

– Se lembra de quanto era pequena, Kate? De quando quebrou o braço? – Perguntou ele à filha, chegando mais perto.

Beckett se lembrava da cena – e da dor. Sempre havia sido uma garota inquieta, e sempre inventara novas formas de deixar os pais malucos. O ápice das estripulias fora aos nove anos, quando subiu em uma bicicleta e desceu a ladeira da rua de trás, sem nem mesmo dar falta dos freios. Acabara com o osso fraturado e alguns arranhões, mas ver a mãe desesperada e o pai duas vezes mais tinha sido muito pior.

– Sim, pai, acho que eu me lembro...

– Então não preciso dizer que você me assustou. Já deve ter ouvido muito isso... Não que faça algum efeito, não é mesmo Katherine Beckett? Está sempre arranjando confusão. – Ele tocou o nariz da filha carinhosamente, fazendo-a rir.

– Me desculpe...

– Eu entendo, meu amor, não é como se você pudesse ter evitado. Mas trate de tomar cuidado. Por favor Kate, você...

Ele não precisava terminar. Beckett conhecia o final daquela frase. Nunca tinha ouvido-a completa, mas sempre conhecera seu conteúdo. Ela era tudo o que restara.

– Eu não posso te prometer que vou ficar bem, sabe disso... E você não pode mais correr atrás de mim como se eu fosse uma garotinha. – Reclamou ela, se afastando da postura um tanto quanto infantil que assumira.

– Então me prometa que vai tentar. Que vai deixar alguém cuidar de você.

Ela suspirou. Não precisava daquilo, sabia se virar.

– Prometo, pai. – Disse, por fim, sem ter outra escolha.

Jim Beckett beijou a testa da filha e afastou a mecha de cabelo que caia em seu olho, Ela podia lhe dizer e provar o contrário o quanto quisesse, mas sempre seria uma garotinha. A menina que mais parecia um moleque, que saltitava pelas ruas e vivia se acidentando nos parquinhos crescera, mas a menina que precisava de alguém a seu lado ainda estava lá. Ele esperava que ela reconhecesse isso.

– E como anda lidando com o lugar? – Disse, se sentando onde Lanie e Josh estiveram.

Kate fez uma careta e bufou.

– Eu odeio hospitais. Eu sempre odiei hospitais.

– Você não está namorando um médico?

– Isso não muda o fato. Eu não posso nem mesmo me sentar, nem comer chocolate! – Ela fez uma careta, prestando atenção no que dissera. – Qual exatamente é o problema com chocolate?

– Não tiro a razão de ninguém por aqui. Você vai ficar quietinha aí até que alguém diga o contrário.

– Você que manda...

– Sabia que há uma fila de espera lá fora pra vir te ver? – Disse ele. – Passei horas escutando barbaridades dos seus amigos.

– Você não está falando sério...

Beckett riu e ouviu atentamente enquanto o pai lhe contava sobre o que tinha ouvido de seus amigos. Depois, ela explicou com cautela o que tinha acontecido, mesmo que provavelmente seu pai já tivesse ouvido de Ryan ou Esposito.

Conversas como aquela não eram raras, mas não aconteciam diariamente. Ela tinha saudades da presença constante dele, sentia falta de tantas coisas em relação a sua infância que aprendera a ignorar muitas delas. Aproveitar a presença dele ali não era difícil. Era ruim, entretanto, saber que ele ia embora, mesmo sabendo que ele iria voltar uma hora ou outra.

Kate praguejou a própria fragilidade novamente. E quando os assuntos chegaram ao fim e a conversa se encerrou, tudo o que ela queria era a presença dos três homens que lhe faziam companhia diariamente, que estavam sempre lá cuidando dela.

Quando os três parceiros entraram pela porta, ela quase ignorou a dor para pular da cama e lhes dar um abraço.

Ryan e Esposito não sabiam o que fazer. Tinham passado dias esperando para vê-la, e agora que conseguiram não tinham noção de como expressar o alivio que sentiam. Ficaram lá, parados na frente da detetive. Castle assistiu a falta de ação dos dois com divertimento.

– Não me façam ir ai... – Resmungou Beckett.

– Me desculpe, eu só... Você está bem melhor do a que a gente esperava. – Disse Esposito, com deboche. – Achei que ia ficar com o seu cargo por mais algum tempo. Fui enganado.

– Se você tivesse ficado dormindo por mais algum tempo um de nós poderia ter sido nomeado capitão... – Completou Ryan.

– É, sonhem vocês dois. Como andam as coisas?

– Você precisa voltar logo. – Disse Ryan. – Ninguém mais aguenta aquela papelada. Você era quem cuidava da burocracia, fazia tudo mais rápido... Eu já assinei tantos relatórios que acho que se colocarem qualquer papel na minha frente, o impulso vai ser de escrever meu nome.

– É, as pessoas não deixam de morrer só porque você ganhou umas férias, sabia?

Beckett apreciou o senso de humor. Todo mundo ali a tratava como se ela estivesse pronta para se desfazer ao menor toque, era doce, uma preocupação legitima, mas irritava. Ela preferia o estilo policial: se você leva um tiro dizem que foi sorte, e que poderiam ter levado dois ou três e ainda sair andando da cena. Era a mesma preocupação, embora fosse uma forma diferente de lidar. Uma forma agradavelmente menos sentimental.

– Esposito, eu disse isso para a sua namorada há pouco tempo atrás. Você é o autor, Castle. Me diga, isso é plágio, não é? – Brincou ela. – Castle?

Richard chacoalhou a cabeça, voltando de algum mundo interno, e olhou curioso para Beckett.

– Sim?

– Esposito está me plagiando e você nem para prestar atenção?

– Plágios... Não me fale em plágio. – Disse ele, com aquele olhar de quem tinha uma história para contar.

– Ah, vai começar. – Resmungou Esposito.

– Juro que essa é boa. Experiência pessoal.

Castle abriu a boca para começar o relato, mas foi interrompido pela porta se abrindo. Josh deu um passo a frente, mas parou. Era estranho estar em meio aos amigos de Kate. Ele quase se sentia deslocado.

– Erm... Me desculpe, achei que-

– Nah, que isso. Senta ai, estava para contar a história de como fui plagiado por uma garota de dezesseis anos. – Cortou Castle, abanando a mão num gesto que indicava a poltrona ao lado da cama de Beckett. – Ou de como eu plagiei uma garota de dezesseis anos, depende do ponto de vista...

Josh olhou sem graça para cada um dos presentes, mas encontrando olhares tão amigáveis não conseguiu recusar o convite para uma história que parecia boa demais. Esboçou um sorriso tímido e foi se sentar ao lado da namorada, recostando-se na cama e deixando que Kate brincasse com seus cabelos, distraída. O gesto diminuiu um pouco o sorriso de Richard, mas não o suficiente para que ele desistisse de contar aquela experiência.

– Esse é um dos meus contos inéditos, caso queiram saber. – Admitiu ele, jogando-se contra a parede. – Considerem-se mais do que dignos da minha confiança, é embaraçoso demais.

Os olhares se voltaram a ele. Castle sentiu a ótima sensação de ter a curiosidade do pequeno, mas atento, público a sua volta. Ryan e Esposito tinham uma expressão desacreditada no rosto. Não importava o quanto o escritor os surpreendesse, eles nunca ficavam realmente surpresos o suficiente para acreditar que a próxima história seria boa. Beckett tinha os olhos brilhando em diversão e o mais puro prazer, e só aquilo já valia todo o esforço, mas... Josh era o que mais o intrigava.

O homem não era nem um pouco boco, provavelmente já tinha percebido que o carinho de Castle por sua namorada era incomum para uma simples amizade. Talvez não soubesse a extensão daquilo, mas devia ao menos fazer alguma ideia. E mesmo assim, parecia não se importar. Era estranho, não era? Um cara tão perto assim, vendo-a todo santo dia... Castle tinha certeza que, estivessem os dois em posições trocadas, a coisa não seria tão amigável.

Josh Davidson não só não se importava com a amizade colorida dos dois como parecia encorajá-la. Castle nunca tinha exatamente odiado o médico, mas aquilo o obrigava a repensar seus conceitos sobre aquela não-declarada rivalidade.

Era possível que ele estivesse de fato gostando do namorado da mulher que amava? Ou, ainda mais bizarro: era possível que o namorado da mulher que ele amava estivesse gostando dele?