Capítulo 6

Era noite, e Clark Luthor fazia o que mais apreciava à altura dos arranha-céus de Metropolis: sua ronda noturna. Porém, ao contrário dos chamados "heróis vigilantes" que o povo tanto amava, sua atividade era outra. Ele observava as infames criaturas que constituíam aquela civilização que tanto desprezava e, ao menor sinal de um crime acontecendo nas ruas, descia velozmente para dizimar seus algozes, sem qualquer piedade.

Foi então que ele visualizou um meliante forçando a entrada de uma janela do quinto andar de um edifício residencial nos arredores do Parque Centenário. Clark Luthor mergulhou dos céus da Cidade do Amanhã, e surpreendeu o pequeno ladrão próximo às escadas de incêndio. Pegou-o pela gola e o jogou ao chão do beco, fazendo os ossos de suas pernas se partirem.

Clark aterrissou ao seu lado, pronto para desferir-lhe o golpe final que acabaria com sua vida.

"Não! Por favor, não!" implorou o ladrão, escondendo o rosto a fim de não vê-lo à luz fraca do poste, ciente de que todos os que o viram acabaram mortos.

Foi então que um disparo veio do alto do prédio, tão rápido que Clark mal pode entender do que se tratava. Um gancho pegou o meliante pelo casaco e o puxou velozmente para cima.

Clark enrugou a testa, confuso, e alçando voo para o terraço a fim de descobrir e destruir quem quer que fosse que estivesse estragando sua diversão, foi surpreendido por algo totalmente inusitado: uma flecha com kryptonita verde o atingiu no peito, fazendo-o cair, completamente fraco. Contorcendo-se de dor, Clark arrastou-se pela rua úmida do beco, tentando remover a flecha, porém, sem êxito, ao que viu um vulto se aproximar.

"Não faz ideia do quanto foi difícil descobrirmos sua fraqueza" disse a voz grave.

Clark riu, apesar da dor.

"Arqueiro Verde" disse, sentindo o sangue molhar sua roupa sob o casaco.

O vigilante em malha de couro esmeralda sorriu, e se aproximou, apontando nova flecha engatada no arco.

"Clark Luthor: o assassino noturno que anda sujando o bom nome dos vigilantes"

Apesar de enfraquecido pela kryptonita, Clark conseguiu forçar sua visão apurada:

"Oliver Queen... quem diria?" sorriu ao identificar o rosto por trás da máscara, arrastando-se cada vez mais fraco em direção à parede do beco, onde se encostou. "Nunca dei nada por você no colégio... não passava de um grande otário filhinho de papai!"

"Olha só quem fala" devolveu o arqueiro mantendo firme a flecha apontada contra Clark. "Com todos esses poderes, e preferiu tornar-se um assassino! Se tivéssemos alguém como você do nosso lado... quantas vidas poderiam ser salvas!"

De repente, uma sombra envolta numa capa negra caiu dos céus. O volume abaixado no chão do beco se ergueu ao lado do Arqueiro Verde, revelando sua sombria máscara de morcego.

Clark sorriu, sentindo o sangue na boca.

"Não está meio longe de casa... Batman?" perguntou, cada vez mais fraco, e forçando novamente a visão apurada, completou: "Ou devo dizer, Bruce Wayne?"

"Estranho ouvir isso de alguém que veio de outro planeta, Kal-El" devolveu o Morcego.

Clark ficou sério, perplexo com a descoberta, embora planejasse não fazer daquilo mais um segredo dentro de algumas horas.

"Não esperava por essa, não é mesmo?" perguntou Arqueiro Verde, mirando o rosto de Clark. "Esperei muito por esse momento para ver sua cara de espanto ao descobrir que já sabemos seu segredo"

Clark nada disse, e tentou novamente, em vão, remover a flecha do peito.

"Virgil Swann" disse, finalmente, imaginando a fonte de informação dos dois vigilantes que o mantinham paralisado.

"Antes do crápula do seu pai matá-lo assim como todos os demais membros da sociedade secreta da qual faziam parte, o cientista deixou anotações sobre sua existência com Patricia, que por sua vez contatou um amigo nosso também de outro planeta que nos procurou há algum tempo" respondeu Arqueiro.

"Chega de conversa" interrompeu Batman, de súbito, com sua voz rouca e grave.

"Vocês não vão me matar" disse Clark, desconfiado de que os dois teriam outros planos para ele, ou então já o teriam matado.

"O que o faz pensar isso?" perguntou Arqueiro.

"Sou eu que faço o serviço sujo nessa cidade, limpando-a de cima a baixo enquanto vocês apenas entregam os bandidos às autoridades corruptas de Metropolis para que no dia seguinte eles saiam livres para cometer novos delitos" respondeu Clark.

"Autoridades corrompidas pelos Luthor, você quer dizer" corrigiu o Arqueiro. "E desde quando você se importa em limpar a cidade da criminalidade quando a própria Luthorcorp financia a bandidagem? Você é um assassino, e não importa quem seja sua vítima: sempre sentirá prazer no que faz"

"Se acham mesmo que sou o vilão dessa história deviam então me matar, porque é exatamente o que eu faria com vocês" continuou Clark.

O Arqueiro sorriu, e mirou a flecha de kryptonita verde bem no meio dos olhos de Clark:

"Não seja por isso" disse, preparando-se para disparar.

"Espere!" exclamou Batman, segurando-o pelo braço.

O Arqueiro desvencilhou-se do Morcego, sem tirar Clark de sua mira.

"Olhe bem pra ele! É um maldito Luthor!" revidou. "Não é, e jamais será um dos nossos!"

Clark começou a rir.

"Esperavam mesmo que eu me tornasse um de vocês?" debochou. "E usar uma dessas fantasias ridículas?"

O Arqueiro tentou partir para cima de Clark, e Batman o segurou.

"Maldição! Antes eu estivesse sozinho! Você tirou de mim a pessoa que eu mais amei na vida" disse.

Clark riu.

"Então me mate... talvez isso alivie a sua dor" disse.

Batman se colocou entre os dois, e o Arqueiro abaixou a arma, aos que os dois começaram a discutir:

"Prometeu que não levaria isso para o lado pessoal!" exclamou o Morcego.

"Como não levaria?" devolveu o Arqueiro Esmeralda.

"Eu devia imaginar... foi um erro tê-lo trazido comigo nessa emboscada"

"Olhe para ele... um lunático; um assassino sem remorso indestrutível! Como acha que isso vai acabar bem?"

Clark ria a cada ofensa desferida, quando então o Batman empurrou o Arqueiro contra a parede:

"Lembre-se do que o Dr Destino nos disse antes de morrer; lembre-se dos legionários: ele ainda será um dos nossos!" sussurrou, não baixo o bastante para que Clark pudesse ouvi-los, enquanto, com uma dor quase insuportável, removia a flecha do peito, desejando emitir um grito para canalizar o sofrimento que o consumia a cada rasgo que avantajava sua ferida.

Sem que Batman e Arqueiro Verde pudessem perceber, Clark removeu toda a flecha do peito e a atirou para longe, ao que seu ferimento começou a curar. Quando os vigilantes mascarados finalmente se deram conta do que se passava, viraram-se para vê-lo, mas era tarde demais. O jovem Luthor se ergueu, com as forças quase todas estabelecidas, e antes que o Arqueiro levantasse sua arma para atirar uma nova flecha de kryptonita verde contra seu oponente, eis que Clark disparou raios de calor contra suas mãos, fazendo a arma cair e incendiar ao chão. Mais do que depressa, Batman levantou uma arma tirada do interior de sua capa, e Clark notou que os projéteis era revestidos de kryptonita verde, de modo que também disparou feixes de calor contra ele, fazendoa arma voar longe. O jovem Luthor correu velozmente na direção de ambos, esmurrando Batman para longe e depois se voltando para o Arqueiro, segurando-o pelo pescoço contra a parede. O Homem Morcego se recompôs e procurou sua arma, porém em vão, de modo que correu em direção a Clark. Tentou impedi-lo de esmagar o Arqueiro Verde, mas ele novamente o empurrou para o lado, fazendo-o colidir contra uma parede. Com sua força descomunal e mais nenhum sinal de kryptonita, o embate se tornava patético.

"Teve sua chance, Oliver Queen" disse, encarando-o nos olhos, esmagando seu pescoço até quebrá-lo.

Luthor o atirou para longe como se fosse um boneco, e disparou raios de fogo pelos olhos, fazendo o corpo do Arqueiro arder em chamas até restar apenas uma massa de carne disforme e carbonizada. Quando finalmente se virou para o até então desacordado Batman a fim de também acabar com ele, descobriu que o Morcego não estava mais lá. Olhou para todos os lados, mas não havia qualquer sinal dele.


Lois estava sozinha no Planeta Diário. Como de costume, gostava de terminar seus prazos até tarde. Mas naquela noite estava apenas pesquisando sobre Dinah Lance nos arquivos da polícia e do governo federal, e qual não foi sua surpresa ao descobrir que a garota era filha de Dinah Drake, ex-membro de uma extinta sociedade de vigilantes mascarados. Lois mal podia acreditar, e cada vez mais consumida pelo desejo de descobrir tudo o que podia a respeito da misteriosa vigilante encontrada morta, mais a admirava e lamentava seu fim. Ao não encontrar arquivos que pudessem conectá-la a algum novo grupo de vigilantes, Lois tentou apenas fazer uma busca simples, e surpreendeu-se ao encontrar uma foto da loira ao lado de Oliver Queen num evento beneficente bastante recente.

"Oliver Queen?" repetiu Lois ao ler o nome do bilionário na legenda da foto, como se não pudesse acreditar.

E seus pensamentos formavam turbilhões na tentativa de imaginar a ligação do playboy de Star City com a filha de vigilante que seguiu os passos de sua genitora. Lois começou então a investigar Oliver Queen, e considerando que muito pouco sabia a seu respeito, exceto os escândalos sobre suas noitadas e bebedeiras, surpreendeu-se com o histórico de que ele sobreviveu sozinho numa ilha deserta, tornando-se mais recluso. Notou, então, que sua primeira aparição pública após a temporada na ilha deserta foi num baile de máscaras, vestido de Robin Hood. De repente, a morena cogitou uma possibilidade inusitada. Vasculhou a rede em busca de informações paralelas sobre o Arqueiro Verde, e não deu outra.

Lois sorriu, satisfeita com sua própria perspicácia.

"Quem diria..." disse, ao descobrir que o surgimento do Arqueiro Verde se deu em Star City pouco depois da volta de Oliver Queen, e em Metropolis, tão logo o bilionário se instalou na Cidade do Amanhã.

Ela se encostou na cadeira, olhando maravilhada para a primeira manchete de página do Arqueiro Verde em Metropolis publicada no Planeta Diário, e de sua autoria.

De repente, a morena se deu conta de algo. Procurou novamente a fotografia de Dinah Lance com Oliver Queen. Notou, então, que definitivamente eram um casal ao perceber as alianças de noivado. Preocupada, buscou reportagens recentes do Arqueiro Verde, e nada encontrou. Imaginou então que o vigilante poderia estar em perigo, e que muito provavelmente seria ele uma vítima em potencial de Clark Luthor, assim como Dinah, numa possível tentativa de vingança.

Mais do que depressa, Lois tentou localizar o número de telefone de Oliver Queen que tinha anotado há alguns meses para uma entrevista que jamais aconteceu. Ao encontrá-lo, ligou, porém, sem êxito. Repetiu a ligação mais uma vez, e novamente caiu na caixa de mensagens, ao que ela finalmente deixou um recado para que elelhe retornasse o quanto antes.

Pensativa, a morena reviveu uma lembrança que a incomodava há anos. Com o olhar parado, Lois lembrou de como nada no mundo a fazia pensar o contrário de que a morte de Chloe tinha algum envolvimento com os Luthor, a julgar pelas inúmeras conversas que manteve com ela ao final dos seus últimos meses. Suspirou, ao considerar o quão podre poderiam ser os Luthor para se livrar de uma colegial que apenas publicava artigos num jornal de escola criticando as mazelas da cidade em que vivia desde que a Luthorcorp instalou uma das suas fábricas na região.

E, finalmente, lembrou-se da primeira vez em que viu Clark Luthor...


FLASHBACK

Lois era apenas uma colegial, e não se passaram mais do que poucos dias da morte de Chloe, em Smallville. Após encontrar e-mails trocados entre a prima e Lex Luthor marcando encontros no computador do jornal da escola, os quais misteriosamente foram apagados após uma formatação sem qualquer justificativa plausivel, sabendo que nada poderia obter de Lex, eis que o mesmo se encontrava em coma no hospital de Metropolis, e morreria dentro de poucos meses, a jovem Lane entrou disfarçada na mansão Luthor, na capital do creme de milho.

Vestida como empregada, tendo, no entanto, apenas encontrado a ridícula roupa no pior estilo "French maid", Lois vasculhava os armários do escritório, porém, sem qualquer sucesso, quando, subitamente, ao fechar as portas e olhar por tudo até notar algum lugar secreto, percebeu que estava sendo observada da porta.

Nervosa, virou-se, e viu Clark Luthor. Estremeceu ao perceber que ele já podia estar ali a um par de minutos, tendo presenciado sua xeretice.

"Bonjour, Monsieur Luthor!" exclamou ela com o sotaque forçado, abrindo um enorme sorriso. "J'ai... eu estava... bien, limpando" continuou, fingindo usar o espanador.

Clark continuava imóvel, com os braços cruzados, e o ombro recostado na beirada da porta, com um sorriso nos lábios, olhando-a de cima a baixo, deixando a jovem Lane completamente sem graça, como se ele pudesse vê-la nua.

"Bon, J'ai déjà fini ici..." disse Lois, abaixando o espanador e saindo da sala, como se tivesse terminado o serviço, ao que Clark se prostou à sua frente, impedindo-a de sair.

Seus rostos estava bastante próximos, e ele a encarava com um sorriso e ar superior, como se pudesse devorá-la ali mesmo se quisesse, ao passo que a morena limitava-se apenas a ficar com os olhos abaixados, sem jamais olhá-lo nos olhos, apenas espiando-o vez e outra. Mesmo sem jamais tê-lo conhecido até então, sabia quem e como ele era. Odiava-o por tudo o que ele e sua família fizeram em Smallville e Metropolis. Odiava-o por ter a certeza de que ele ou seu pai tinham alguma coisa a ver com a morte de Chloe. Odiava-o por ele achar que era o rei do mundo e que podia fazer o que bem quisesse. Contudo, não conseguia deixar de notar como suas pernas estavam cambaleantes, e como seu coração batia mais forte à sua presença. Ele então tocou seu queixo e Lois sentiu os pêlos de suas costas ouriçarem àquele toque. Lois relutou, porém, não o suficiente, e seus olhos finalmente se cruzaram, e ela notou, finalmente acreditando que o enxergava, que, afinal, ele podia apenas ser Luthor no nome.

"De todas as prostitutas que meu pai já me mandou evitando que eu saísse à noite, devo admitir que você é a melhor de todas... ainda mais nessa roupa" disse, olhando-a novamente de cima a baixo.

Enfurecida, mal acreditando que havia pensando que ele podia ser diferente, Lois repeliu bruscamente o rosto dos dedos de Clark, que ainda seguravam seu queixo, e afastou-se dele.

"Não sou prostituta!" gritou.

Clark riu.

"Uau!" exclamou, surpreendido. "Você tem estilo"

Lois enrugou a testa, como se não acreditasse no que ouvia. Estava ali para descobrir alguma pista que pudesse incriminar os Luthor na morte de sua prima, e ouvia besteiras de um playboy metido a besta que achava que podia ter a mulher que quisesse.

"Fique longe de mim, seu asno!" avisou ela, enquanto Clark se aproximava, fascinado por finalmente encontrar uma mulher difícil, tão acostumado que estava com as biscates que encontrava em suas saídas e que se entregavam ao menor estalar de dedos.

"Asno?" repetiu ele, rindo, com as sobrancelhas arqueadas, como se não acreditasse que seria capaz de algum dia ouvir tal ofensa, enquanto andava em circulos pela sala, acompanhando Lois, que o evitava, apontando o espanador como se fosse uma arma. "Pois saiba que esse asno tem muito a oferecer... e entre quatro paredes vou fazer você subir ao teto" prometeu ele, encarando-a novamente, de cima a baixo, devorando-a com os olhos.

Lois enrugou a testa, enojada, e tentou correr pela porta dos fundos, atrás do bar, mas a porta estava trancada. Ela então se virou, e ele veio em sua direção.

"Então é isso... além de assassinos, os Luthor são estupradores" disse ela, com o espanador em punho.

"Quem aqui disse que vou tomá-la a força?" devolveu ele. "Assim que eu a tiver nos meus braços, não vai mais querer se livrar de mim"

Lois riu, nervosa.

"Você é sempre assim... tão presunçoso?"

Notou, então, que havia um jogo de espadas decorativo na parede ao lado. Mais do que depressa, ela puxou uma espada com pedras azuis cravejadas em parte de sua lâmina e cabo.

Clark riu, atiçado.

"Ótimo" disse ele. "Quer tornar as coisas mais difíceis?"

Frustrada com inesgotável petulância, sabendo que não sairia dali com a integridade intacta, Lois balançou a pesada e enorme espada ao ar, ao que desferiu um golpe no rosto do jovem Luthor, que se virou para o lado, em reação.

Aterrorizada por tê-lo acertado, a morena largou a arma, e cobriu o rosto.

"Não foi minha intenção!" gritou ela, ao que Clark se virou, revelando apenas um pequeno corte feito em sua face esquerda.

O jovem Luthor, no entanto, tocou a ferida, e ao ver o sangue nas pontas de seus dedos, sorriu.

Lois balançou a cabeça, incrédula, e correu pela porta principal, esbarrando em outro empregado.

FIM DO FLASHBACK


Lois suspirou ao lembrar dos eventos daquele dia, e estranhou o fato dele nunca ter ido ao seu encalço. Olhou, então, novamente para as fotos de Oliver Queen no monitor à sua frente. Desligou o computador, vestiu seu casaco, e decidida, resolveu ir atrás do bilionário para dizer que sabia de tudo, que estava disposta a ajudar, bem como preveni-lo acerca de Clark Luthor.

Foi então que a morena sentiu uma presença a poucos passos de distância dela, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, sentiu alguém segurá-la por trás e uma cápsula com algum gás atordoante estourar diante de seu rosto, fazendo-a cair desacordada.

Batman a segurou, e a tomou nos braços, levando-a para longe dali.