7. Tudo o que dominava seus pensamentos

As nuvens escuras continuavam envolvendo todo o céu naquela nova manhã, porém do alto da janela de seu quarto, Bulma podia ver os teimosos e relutantes raios de Sol tocando o jardim principal.

Ainda estava pensando no que houve no dia anterior; um corredor vazio, uma discussão vazia, um beijo. Um beijo doce que parecia trazer sentimentos aprisionados na parte mais oculta de seus corações.

Naquele momento, o tempo parecia ter parado até ouvir a voz de sua mãe a chamando para ver os novos catálogos de decoração que tinham acabado de chegar. No fundo, ela não queria deixá-lo, queria ficar ali, mas sabia que uma hora ou outra ele iria deixá-la sozinha, cheia de dúvidas e sem nenhuma palavra, então o mais sensato a ser feito era entrar sem dizer uma palavra, mesmo não sendo o que ela realmente queria fazer.

Não queria ver nenhum catálogo, nem sequer se importava com a decoração nova que sua mãe estava pensando em fazer, mas precisava se afastar de Vegeta, antes que fosse tarde demais. Ela não tinha dúvidas do que sentia por ele, mas não gostava da possibilidade de estar sendo usada, de ser apenas um objeto nas mãos do saiyajin.

Agora estava sentada no parapeito da janela, olhando os raios de Sol que teimavam em atravessar a espessa neblina matinal. Ainda podia sentir o calor dos braços do guerreiro, mas lutaria até o fim para esquecer toda essa bobagem, afinal, só por que ele a havia beijado uma ou duas vezes não significava que algo fosse mudar.

- Bulminha querida, o café da manhã está pronto! – Sua mãe parecia feliz, ainda mais que o normal, e Bulma não sabia o por que.

- Já estou indo mamãe!

Desceu as escadas calmamente e pôde observar melhor o sorriso estampado no rosto da senhora Briefs. Seu pai já estava sentado à mesa, tomando café e dando biscoitos para seu gato de estimação.

- Bulma querida, hoje eu trouxe bolinhos e biscoitos da confeitaria que abriu na rua de cima.

- Estou com muita fome mesmo! – Bulma sorria enquanto apertava a grande jaqueta marrom contra o corpo, para se proteger do frio que, há alguns dias, se tornara intenso.

- O rapaz não vem comer com a gente?

- Não papai, se ele não apareceu até agora, acho que não, mas de qualquer forma, o deixem lá, treinando como um louco.

- Filha querida, há quanto tempo eu não vejo o Yamcha – O sorriso da loira parecia se intensificar – Ele não vem mais aqui?

- Acho que ele viajou pra treinar.

- Mas por que ele não vem mais ver você?

- Bem... – Bulma se sentia constrangida em falar sobre o Yamcha – Nós brigamos, e falei para que ele não viesse mais aqui em casa.

- Mas Bulminha, ele era um rapaz tão bonito e gentil, por que brigou com ele?

- Mamãe eu... – Ela realmente não sabia o que dizer, mas em meio ao seu embaraço, ele teve uma estranha idéia – Eu não o vejo há algum tempo, nem sei se ele está bem...

- Por que não o chama para vir aqui jantar conosco, já faz um tempo que não faço um jantar caprichado para visitas, e eu ficaria muito feliz em ter o Yamcha conosco essa noite!

- É mamãe...– Ela estava sorrindo, talvez sua mãe tivesse dado uma boa idéia sugerindo trazer o Yamcha para o jantar – Acho que é uma ótima idéia!

- Mas que ótimo filha, vou providenciar tudo agora mesmo!

- Mas ainda é cedo mamãe, e eu nem sei se ele vai poder vir...

- Aquele rapaz adora você minha filhinha, é claro que ele vai vir! – Tal comentário fez com que a mulher de cabelos azuis ficasse pensativa por uns segundos.

"É, acho que ele não me adorava tanto assim quando me traiu, mas tudo bem, vou fingir que nada aconteceu, apenas essa noite."

- Vamos fazer o seguinte então, assim que terminar meu café da manhã vou ligar para o Yamcha e chamo ele pra vir aqui esta noite. Se ele confirmar a senhora já pode começar a pensar no jantar! – Bulma se alegrava ao ver sua mãe agitada com coisas que ela tanto gostava.

- Isso mesmo, é perfeito! Então se apresse Bulma, quero começar logo com isso para que tudo saia perfeito. Vou ligar agora mesmo para aquele restaurante maravilhoso e... – A loira estava empolgada, saiu da cozinha fazendo planos e mais planos para aquele jantar.

- Às vezes eu invejo essa alegria da mamãe... – Estava com um olhar sereno enquanto colocava o leite e cereal em um pote, sem nem notar a presença de seu pai.

- É minha filha, às vezes eu também – Senhor Briefs ria enquanto brincava com seu pequeno gatinho. Ele não entendeu a verdadeira razão para chamar Yamcha, já que sabia que ele e Bulma haviam brigado, mas achou uma boa idéia já que ela poderia estar tentando fazer as pazes. – Espero que ele venha ao jantar, sua mãe ficará ainda mais feliz.

- É, e eu também.

Após comer seu cereal e ter certeza de que Vegeta não apareceria na cozinha tão cedo, Bulma se dirigiu até a sala para pegar seu caderno de telefones.

Não sabia se o ex-namorado ainda estava no mesmo hotel que dissera que iria ficar, mas não podia deixar de tentar, afinal, era importante que ele comparecesse em sua casa.

Depois de duas tentativas em ocupado, o telefone finalmente deu sinal de que alguém iria atendê-lo.

- Alô, eu gostaria de falar com o hóspede do quarto 72, obrigada – Ela nem sabia se ele realmente estaria lá, mas precisava arriscar.

- Alô – Sua voz estava abafada, parecia um pouco cansado.

- Yamcha, é você?

- Bulma! Não esperava que você me ligasse nunca mais, está tudo bem com você, já está melhor desde o acidente?

- Eu estou bem, liguei para fazer um convite! – Ela estava ansiosa, precisava que ele aceitasse.

- U-um convite? – Se uma ligação da ex-namorada já era algo surpreendente, um convite era ainda mais inacreditável.

- Você não está muito longe daqui, está?

- N-não, eu iria sair do hotel semana que vem, ainda estou na cidade.

- Então eu faço questão da sua presença aqui em casa, essa noite, no jantar da minha mãe!

- J-jantar? Mas é claro, eu ir, eu poder, digo, eu posso ir – Ele estava se sentindo um adolescente desastrado tropeçando nas palavras, pois apesar de tudo, ainda gostava muito de Bulma.

- Minha mãe vai ficar feliz em saber que você virá!

- S-sua mãe? E como ela está?

- Está bem e ansiosa para o jantar. Você vem mesmo não é?

- Claro Bulma, jamais deixaria de ir, principalmente quando você tem o trabalho de me ligar para pedir. Sem contar que eu queria mesmo ver você, quero saber como está depois do acidente...

- Eu estou bem melhor, só meu braço direito ainda está enfaixado. Não pense que eu sou uma dama indefesa.

- Pode não ser indefesa, mas ainda é uma linda dama.

Bulma sorria por dentro. Não gostava de brincar com os sentimentos alheios, mas desconfiava que o que ele dizia era só papo furado para reconquistá-la, mas de qualquer forma, estava feliz com a rapidez com que ele aceitara o pedido.

- Muito obrigada Yamcha! Então nos vemos no jantar.

- Que horas eu posso aparecer na sua casa Bulma?

- Bem, minha mãe pretende começar o jantar oito horas, mas eu gostaria que você viesse mais cedo, acho que precisamos conversar.

- Posso chegar aí às cinco horas? Quero muito ver você! –Ele estava cheio de esperanças, talvez, depois de tantos dias, ela tenha voltado atrás na decisão do fim do namoro.

- Ah, claro, cinco está perfeito. Traga o Pual, estou com saudades dele!

- C-claro, o Pual, eu levo ele sim.

- Então está bem, vejo você às cinco. Até lá.

Yamcha ainda estava confuso, podia esperar qualquer coisa, menos uma ligação repentina de Bulma o chamando para um jantar. Gostava tanto da ex-namorada, mesmo sabendo que foi ele quem estragou tudo. No fundo, acreditava também que ela só estava esperando um pequeno motivo para terminar, e que ele dera exatamente o que ela queria.

- É Pual, acho que vamos nos dar bem essa noite!

- Yamcha, eu não sei não, talvez ela só tenha chamado você por educação, ou por que os pais dela pediram e...

- Nada disso Pual – Ele estava muito otimista, talvez naquela noite ele tivesse sua garota de volta, e isso o deixava agitado e apreensivo – Mas me diga, como eu devo usar o cabelo essa noite?

Pual fez uma expressão de reprovação, mas diante da felicidade incontrolável do amigo não conseguiu dizer nada que pudesse desanimá-lo.

- Bem, vamos nos arrumar então Yamcha!


O relógio já mostrava quatorze horas e meia e Vegeta ainda estava trancado em sua Câmara, treinando como não treinava há muito tempo.

Estava com fome, mas nada o faria sair da câmara tão cedo, ainda estava perturbado com o beijo que dera na humana, e algo dentro dele o reprovava por isso.

"Uma humana patética, o que você tinha na cabeça? O que ela faz com você? Por que está sempre pensando nela? Maldição!"

Socava o ar intensamente, como se assim pudesse se livrar de seus pensamentos, mas era inútil. Estava pensando na mulher, e não sabia como fazer isso mudar.

Meia hora depois ele já não agüentava mais, precisava sair dali, precisava comer alguma coisa, precisava respirar fundo, precisava vê-la.

Caminhando pelo jardim até a cozinha, viu a senhora Briefs cantarolando alguma coisa, muito animada. Sentiu seu suor escorrendo pelo seu rosto e pingando, estava realmente cansado.

- Vegeta querido! – A voz da mulher estava muito feliz e animada – Você vai jantar com a gente também não vai?

- Do que está falando?

- Do jantar especial dessa noite, quero todos vocês presentes! – Ele nada disse, e a loira ficava cada vez mais animada – Vou caprichar essa noite para o Yamchinha, estou com saudades dele!

- Como é que é? – Estava incrédulo, a mulher estava o chamando para um jantar especial para o verme do Yamcha.

- Teremos um jantar especial esta noite e queremos que você participe, agora preciso ir arrumar tudo, vejo você no jantar.

A mulher saiu cantarolando, e Vegeta sentia seu sangue correndo mais rápido em suas veias. Como poderiam estar chamando aquele fracassado para jantar com ele? Ele não aceitaria isso facilmente, e iria tirar satisfações.

Bulma acabara de sair do banho quando ouviu batidas fortes na porta de seu quarto. Teve tempo apenas de vestir seu roupão e retirar uma espécie de proteção plástica que tinha envolvendo seu braço engessado.

Abriu a porta e levou um susto com o saiyajin entrando, com uma expressão enraivecida, como um trem bala.

- Vegeta!? – Apertou o roupão contra o corpo como se quisesse se esconder do olhar assustador do homem.

- O que foi? Eu não estou olhando pra você! – Era mentira, é claro.

- Vegeta, isso são modos de entrar no quarto de uma dama? Quase me matou de susto!

- Como é que você chama aquele fracassado inútil do Yamcha pra vir jantar aqui? – Ele estava possesso, ainda mais do que seu normal.

- Bem, apesar de tudo, ele ainda é meu amigo de longa data. E que eu saiba essa casa é minha e convido quem eu quiser.

- Sua insolente, sua...

- Sua o quê? – Ele não era o único que estava nervoso, porém no fundo, ela tinha um sentimento de satisfação, ele estava reagindo de uma forma que nem ela poderia imaginar – Nem começa Vegeta, se não quiser jantar conosco, eu não me importo, mas não tente vir aqui e fingir que manda em alguma coisa! Eu convidei o Yamcha e ele vai vir aqui, sim!

Ele nada mais disse, apenas a olhava daquela forma ameaçadora, como se quisesse mandá-la pro espaço, como muitas vezes já quisera. Ela simplesmente lhe deu as costas e começou a remexer a gaveta a procura de um vestido para usar à noite.

- Humm, acho que este está bom... – Fala para si mesma, sem se importar com o homem ao seu lado. Escolhera um vestido vermelho, sem alças para facilitar o movimento do braço engessado.

- Você não devia parecer ser tão vulgar mulher! Olhe só, vai jantar em família e escolhe o vestido mais chamativo que tem! – Enquanto ele falava, ela ria, incrédula.

- Vegeta, tem horas em que eu não acredito em você! Por que não cuida da sua vida! Se pretende jantar conosco, devia ir tomar um banho, você está suado e seu cheiro está insuportável – Ela tampou o nariz com a mão, apenas para provocá-lo, ele rosnava de raiva.

Enquanto ela ria da situação, ele lhe virava as costas, enraivecido. Como uma humana podia lhe tirar a paciência em tão pouco tempo.

- Ah, você me paga Bulma! – Se o gato do senhor Briefs lhe cruzasse o caminho, como muitas vezes já havia acontecido, ele sabia que só teria uma reação, chutar o animal para o espaço.

Seu suor pingava por onde ele andava, e sua raiva parecia ser tão concreta quanto a lixeira amassada que ele encontrou antes do gato.

O que mais mexia com ele, entretanto, não era a raiva, e sim o fato dela o desafiar, tirá-lo do sério, e ele continuar, em seu íntimo, pensando nela a todo instante, desejando tê-la por perto.

Depois de passar na cozinha e comer alguns salgadinhos, ele sabia que só havia uma coisa a fazer.

Debaixo do chuveiro, com a água gelada para tentar acalmar os nervos, ele pensava sobre como se comportar diante daquela situação. Pensava em como iria reagir na presença de Yamcha, que sem dúvidas tentaria reconquistar a ex-namorada.

"Bulma, Bulma, se achou que me provocando iria deixar o caminho livre pra esse verme, estava muito enganada. Espero que esteja preparada, por que essa noite será realmente perfeita!"