Capítulo 7
A cada passo que ele dava, se aproximando do círculo, este brilhava mais e mais forte, passando do azul para o roxo enquanto as ervas espalhadas queimavam. Quando enfim chegou ao centro, luz envolveu completamente seu corpo e ele desmaiou...
Quando acordou, estava em cima de uma grande plataforma branca e dourada, no meio do céu. O chão era muito frio, quase congelante, se isso era possível; ele levantou rapidamente. Os feixes de luz ofuscavam sua vista. Um cheiro leve de canela passava por todo o lugar; sua mente clareava a cada vez que respirava. Avançando pelo caminho sinuoso, ele não encontrava nenhuma mudança na paisagem.
Tempo parecia não significar nada ali... e após o que pareceu ser uma eternidade, ele chegou no fim. Uma estátua de pedra estava no topo de um pedestal esplendoroso. Correntes pendiam das colunas que a cercavam, envolvendo o corpo da linda mulher alada e imóvel. Ele sentia que estava cometendo um sacrilégio, aparecendo na frente de algo tão majestoso com seus olhos assassinos e o cabelo negro como a noite...
"Qual é o desejo do seu coração?"
Kazfiel não se sentiu assustado com a voz melodiosa que ecoava em sua cabeça. Ele era atraído pelo poder irradiado pela estátua, sua mão esticando lentamente para tocá-la, os olhos perdendo o brilho.
"Qual é o desejo do seu coração?"
Ele piscou duas vezes. "Quero o poder para esmagar meus inimigos."
"Que assim seja...".
Seu corpo perdeu todo o controle, e avançou em direção à mulher. Ele tinha se tornado tão patético... Aproveitando cada chance para esquecer tudo e se afogar no âmago da tristeza.
Porém, quando ele a tocou, seu corpo queimou como se estivesse envolvido em fogo, como se tivesse tocado o próprio sol. Tentando puxar a mão de volta, sua vista embaralhou e ele ouviu a gargalhada familiar de Remiel ressoando repetidamente em sua cabeça. A mão não saiu do lugar.
"Esse não é o desejo do seu coração. A falta de sinceridade lhe custará caro."
Não era o desejo do coração...? Ele tentava organizar os pensamentos enquanto seu corpo queimava numa lentidão excruciante. O pedido era para esmagar os inimigos...mas não era isso que ele queria; ele queria que tudo voltasse como era antes. Aquele amor não tinha sumido de verdade.
"Eu quero... o poder para salvar a quem eu amo."
A atração cedeu e ele conseguiu puxar a mão, caindo para trás aliviado. Sua pele continuava perfeitamente pálida. Um ser etéreo apareceu na frente da estátua. Era a própria mulher representada em pedra, aparecendo na sua frente com vestes de seda branca e uma tiara de esmeraldas.
"Ajoelhe-se diante de mim, humano corrompido pelas trevas."
Novamente, seu corpo obedeçeu sem questionamento.
"Ofereça sua alma em sacrifício para mim, a Valquíria Silmeria, e o desejo do seu coração se tornará realidade."
Um humano corrompido...sem querer ele riu um pouco, liberando ar pelas narinas. Após tudo aquilo, ele não tinha muito a perder; ele precisava concluir o trabalho, não importando os meios.
"O que tenho que fazer?"
A Valquíria, como sempre despojada de qualquer emoção, proferiu longos encantos lentamente, para que Kazfiel os repetisse. Quando terminou, uma adaga prateada se materializou em sua mão nua. Com agilidade, ela avançou e cravou-a no coração do
bruxo.
"Você saberá o que fazer na hora." Quando se deu por conta, ele estava numa sala diferente e escura. Aqueles teletransportes involuntários ja estavam se tornando frequentes demais...
Tateando pelas paredes e colunas, ele alcançou um corredor diferente e bem trabalhado. Havia um vazio diferente dentro dele; ele imaginava como seria viver sem alma. Ele também não conseguia distinguir se a Valquíria era boa ou má.
Ele deixou esses pensamentos de lado quando percebeu um brilho estranho que irradiava da mão direita. Quando levantou-a para verificar a fonte de luz, encontrou um anel preso no dedo anular, com uma inscrição simbolizando o sol gravada na frente. Com a ajuda da luz, ele alcançou lugares bem mais distantes. O único caminho era para cima. Ele reconhecia as estátuas e colunas naquele salão.
Foi ali que tudo começou.
