Capítulo Seis

Westfield ficava em um dos três promontórios situados ao noroeste de Londres. Quando fazia bom tempo, do alto da colina era possível avistar quase uma dúzia de condados. Westfield era uma das escolas públicas mais famosa; tinham saído dela grandes políticos, artistas, poetas e militares. Edward tinha estudado ali. Recordava a disciplina estrita dos professores e a tirania dos meninos mais velhos, e recordava também os dias divertidos, os amigos íntimos e as travessuras. Tinha esperado que Seth encaixasse bem ali, mas evidentemente não tinha sido assim.

Um menino taciturno acompanhou Edward até ao escritório do diretor. O doutor Thornwait estava de pé frente a um escritório cheio de gavetas e saudou Edward sem esboçar um sorriso. Era um homem magro, de cabelo grisalho, rosto largo e enrugado e povoadas sobrancelhas escuras. Falou com voz tênue e tom de desaprovação.

— Lorde Cullen, eu gostaria de expressar o alívio que sinto pelo fato de que deva recolher ao pequeno delinqüente. É um jovem com um caráter perigosamente inconstante, algo que não encaixa nem Westfield de maneira nenhuma.

Edward ouviu a voz de seu irmão a suas costas.

— Edward! — Seth, que tinha permanecido sentado em um banco de madeira encostado à parede, precipitou-se para ele a grandes passadas, e tentou mostrar um semblante arrependido. Incapaz de reprimir um sorriso, Edward o agarrou pelo cangote para se aproximar dele. Agarrou seguidamente pelo ombro e o olhou bem.

— Por que dizem que é perigoso, menino?

— Uma travessura — confessou Seth.

Edward sorriu com tristeza com uma resposta como aquela. Seth tinha um conceito muito amplo do que era divertir-se, mas era um bom menino, alguém do qual qualquer podia sentir-se orgulhoso. Embora um pouco baixinho para os doze anos que tinha, era forte e robusto. Sobressaía-me em esportes e matemática e escondia uma paixão pela poesia.

O habitual era que seus olhos de cor azul intensa brilhassem com uma alegria contagiosa, e devia pentear com freqüência seu cabelo loiro, quase branco, para domar seus cachos. Era enérgico e atrevido, algo que supria sua falta de estatura, e se tinha convertido no cabeça de seu grupo de amigos. Se fazia algo mal, em seguida pedia perdão. Edward não se imaginava o que tinha provocado sua expulsão. Rasgar as páginas de uns livros, ou pôr um cubo de água sobre uma porta entreaberta. Bem, tentaria aplacar a ira de Thornwait, pedir desculpas e convencer de que permitisse Seth a ficar.

— Que travessura foi? — perguntou Edward, olhando ora ao doutor Thornwait, ora para Seth.

A resposta veio de Thornwait.

— Voar a porta principal de minha casa — afirmou. Edward olhou fixamente a seu irmão.

— O que fez?

— Pólvora — confessou Seth.

— A explosão poderia haver causado graves feridas — disse Thornwait, fazendo que suas sobrancelhas, parecessem aranhas, juntassem-se quase com seus olhos, — ou a minha secretária.

— por quê? — perguntou Edward sem poder acreditar em Seth, isso não é normal em você.

— Ao contrário — assinalou o doutor Thornwait. — É típico dele. Seth é um menino de espírito rebelde... Ignorante da autoridade, incapaz de aceitar disciplina alguma...

— A merda se eu for! — replicou Seth, com o olhar cravado no diretor. — Fiz o que devia!

Thornwait olhou para Edward como que dizendo: «Vê?»

Edward agarrou amavelmente a seu irmão pelos ombros.

— Me olhe. Por que fez voar a porta?

Seth permaneceu um momento em silêncio. Thornwait interveio.

— Seth é um menino que não...

— Já escutei sua opinião — interrompeu Edward,lançando um olhar tão frio que o fez calar imediatamente. Voltou a olhar a seu irmão, de forma mais cálida.

— Seth, conta-me

— Não importa — murmurou Seth.

— Me conte por que o fez — disse Edward carinhosamente. — Agora.

Seth olhou de esguelha.

— Foi pela surra.

— Te bateram? — Edward franziu a testa. — Por qual motivo?

— O que você fez! — Seth estava soando. — Com um pau, com uma vara... Fazem-no sempre, Edward! — Olhou para Thornwait desafiante. — Uma vez por que cheguei um minuto tarde para tomar o café da manhã, outra porque atirei os livros diante do professor de inglês, outra por que não estava com o pescoço bastante limpo... Levam um mês me dando uma surra três vezes por semana, e estou até os cansado!

— impus os mesmos castigos a outros meninos rebeldes — disse Thornwait secamente.

Edward seguia sem alterar-se exteriormente, mas por dentro jorrava faíscas.

— Sinal disse a Seth, cortante.

Seth sacudiu a cabeça, ruborizado.

— Edward...

— Sinal insistiu Edward.

Seth suspirou, olhando para seu irmão e ao diretor.

— Por que não? Thornwait está farto de vê-lo. — voltou-se, despojou-se da jaqueta, colocou as mãos na cintura e baixou as calças uns centímetros.

Edward cortou a respiração ao ver o que tinham feito a seu irmão. Tanto a parte inferior das costas de Seth como suas nádegas eram uma massa de roxo, crostas e arranhões. Era impossível que alguém considerasse aquilo um trato normal ou necessário, nem inclusive atendo à disciplina mais estrita. Não era a disciplina a causa dessas surras, a não ser um homem que desfrutava com o prazer perverso de infligir dor. Edward, tentando dominar a ira, levantou sua mão tremula e acariciou a nuca de Seth. Não se atrevia a olhar para Thornwait, porque desejava matar esse bastardo. Seth subiu as calças e se voltou. Ao ver a frieza do olhar de Edward e a cor que subia por suas bochechas, abriu muito os olhos.

— Foi totalmente justificado — declarou o doutor Thornwait. — As chicotadas formam parte da tradição de Westfield...

— Seth — disse Edward, titubeando. — Seth, têm feito algo mais além de te pegar? Têm feito mal de algum outro modo?

Seth o olhou perplexo.

— Não. O que quer dizer?

— Nada — Edward se dirigiu para a porta. — Sai-disse tranqüilamente. — Vou em seguida.

Seth o obedeceu sem dar-se pressa, o olhando com curiosidade. Assim que a porta se fechou, Edward se dirigiu para o doutor Thornwait, que instintivamente retrocedeu.

— Lorde Cullen, é um método aceito na educação dos meninos...

— Eu não aceito! — Edward agarrou sem nenhum olhar e o lançou contra a parede.

— Farei com que te prendam — gritou o diretor sufocado.

— Não pode...

— Não posso o que? Te matar, como desejo? Possivelmente não. Embora possa me aproximar bastante. — Edward agarrou pelo pescoço da camisa e levantou Thornwait até que as pontas de seus pés logo que roçavam o chão. Saboreou o ofego que provinha da apertada garganta do diretor. Thornwait não via mais que o olhar de aço do Edward e seus branquíssimos dente — Sei perfeitamente que classe de perverso bastardo é você. Apazigua suas frustrações com os meninos. Desfruta açoitando a qualquer pobre moço até o fazer sangrar. Não merece nem que o chamem de homem.

— D... Disciplina... — conseguiu resmungar Thornwait.

— Se ficarem seqüelas em meu irmão do qual você chama disciplina, ou se Seth me confessar que abusou dele de outra maneira, advirto que será melhor que se ponha a correr antes que ponha a mão em cima. — Então Edward pressionou a garganta de Thornwait como se fosse grades para modelar.

O homem se retorcia aterrorizado. Edward esperou que o diretor ficasse com o rosto roxo.

— Estamparei seu rosto na parede do quarto de Seth –grunhiu. — Em memória de seus dias em Westfield. Acredito que vá gostar. — Soltou Thornwait de repente e este caiu de bruços no chão. O diretor respirava com dificuldade. Edward afundou as mãos nos bolsos de seu casaco depois de abrir a porta da secretaria com tanta força que golpeou contra a parede saltando uma das dobradiças.

Encontrou ao Seth na entrada, agarrou pelo braço e partiram apressados.

— Por que não me disse nada? — perguntou. Para Seth custava seguir.

— Não sei.

De repente ressonaram nos ouvidos de Edward as acusações de Bella, que ele era distante e não tinha sentimentos. Seriam atinadas essas palavras? Franziu a testa, pesaroso.

— Pensava que não seria amável com você? Que não o entenderia? Teria que haver me contado isso!

— Demônios! — disse Seth entre dentes. — Pensei que as coisas melhorariam... Ou que poderia me arrumar sozinho...

— Com explosivos?

O menino não respondeu. Edward lançou um suspiro.

— Seth, não quero que faça as coisa sozinho. Ainda não tem idade para isso, e está sob minha responsabilidade.

— Sei:-disse Seth, ofendido. — Mas sabia que estava ocupado com outras coisas, como o casamento...

— Ao diabo com o casamento! Não a utilize como desculpa.

— O que quer de mim? — perguntou o menino.

Edward apertou os dentes e se obrigou a manter a calma.

— Quero que entenda que se tiver problemas tem que contar para mim. Problemas de qualquer classe. Nunca estarei ocupado se for pra te ajudar.

Seth assentiu com a cabeça.

— E agora o que vamos fazer?

— Vamos para casa, em Cullen Park.

— De verdade? — A idéia fez com que no rosto do menino quase se desenhasse um sorriso. — Ainda tenho fazer coisas na casa...

— Algo importante?

— Não, acredito que não...

— Bem. Deixaremos tudo aqui.

— Terei que voltar? — perguntou Seth, temeroso.

— Não — respondeu Edward com resolução — Contratarei um tutor. Pode estudar com os meninos do povoado.

Seth lançou um grito de alegria e atirou ao ar o chapéu da escola. Caiu no chão atrás deles e aí ficou.

— Shhh. Acredito que chega. — Bella, vendo que a carruagem de Edward entrava no atalho, fez sair Emmet da sala de música. Ele, Bella, Renné e Rosalie levavam ali um bom momento cantando e tocando o piano.

— Bella, me explique o que está planejando — disse Emmet quando entraram na biblioteca.

— Imagino que Edward, depois de um dia de viagem, virá à biblioteca a tomar uma taça. E quero que nos veja juntos. — Bella empurrou Emmet sobre um sofá de pele com todas suas forças. Sentou-se em seu colo, e como ele protestava, tampou a boca com as mãos. — Fica quieto, Em... Não ouço nada. — Bella inclinou a cabeça para escutar melhor os passos que se aproximavam. Pisadas fortes e compassadas... Tinha que ser Masen. Retirou a mão da boca de Emmet e rodeou seu pescoço com os braços. — Beije-me. E faz o de forma convincente.

— Mas Bella, devemos fazer? Meus sentimentos para Rose...

— Não me importam — disse ela, impaciente.

— Mas é necesa...

— Faz, maldito seja!

Emmet obedeceu.

O beijo resultou igual aos que Bella tinha provado com antecedência, quer dizer, do mais normal. Sabia Deus por que motivo os poetas se empenhavam em descrever algo tão desagradável como se fosse a experiência mais arrebatadora.

Ela opinava como Swift, o escritor, que se perguntava: «Quem seria o louco que inventou o beijo?» Mas já que os apaixonados pareciam desfrutar desse costume, a Masen não ficaria outro remédio que pensar que ela e Emmet estavam realmente apaixonados.

A porta da biblioteca se abriu. Bella acariciava o fino cabelo castanho de Emmet como se estivesse absorta naquele beijo apaixonado. Logo levantou bruscamente a cabeça e olhou para a porta. Ali estava Masen, com a roupa poeirenta e enrugada. Seu rosto era todo um poema. Bella sorriu com insolência.

— Vá, se for lorde Cullen, sempre com tão boa cara. Como vê, Milord, acaba de interromper um momento muito íntimo entre... — Calou ao precaver-se da presença do menino junto a Masen. Um menino baixinho, loiro, de inquisidores olhos azuis que esboçava um sorriso. Não contava com a possibilidade de que alguém mais fosse testemunha de seu beijo com o Emmet . Bella se precaveu de que estava ficando vermelha como um tomate.

— Senhorita Swan — disse Edward com expressão de tempestade, — este é meu irmão mais novo, Seth.

— Olá, Seth — conseguiu dizer Bella.

O menino contemplou com interesse seu triste sorriso:

— Por que estava beijando o visconde Stamford se pensa te casar com Edward?

— OH, eu sou outra senhorita Swan — replicou Bella com inapetência. — Você se refere a minha pobre... Quero dizer a minha irmã mais nova.

— Deu-se conta então de que seguia sentada sobre o colo de Emmet. Levantou-se de um salto e quase caiu ao chão. — Rose e mamãe estão na sala de música — disse dirigindo-se a Edward. — Estão cantando hinos.

Edward assentiu com a cabeça.

— Vêem, Seth — disse sem alterar-se. — Apresentarei Rosalie.

Seth seguia com o olhar cravado em Bella, que estava arrumando o vestido.

— Por que leva o cabelo curto dessa forma? — Perguntou.

Bella não pôde menos que rir com a pergunta sobre o corte de cabelo da moda.

— Assim não fica nos meus olhos quando caço.

— Caças? — Seth a olhava fascinado. — Isso é perigoso para as mulheres, sabia?

Bella advertiu que Masen não tirava a vista de cima. Não pôde evitar um sorriso zombador.

— Por que, Seth? Seu irmão me disse o mesmo o dia que me conheceu. — Houve um intercâmbio de olhares. De repente se formou, uma comissura da boca de Edward, como se tentasse reprimir um sorriso irônico. — Milord — prosseguiu Bella maliciosamente, não se preocupe, não penso ser uma má companhia para Seth. Estou acostumado a ser muito mais perigosa para os homens mais velho.

Edward pôs os olhos em branco.

— Acredito, senhorita Swan. — levou-se Seth sem voltar a cabeça.

Bella ficou imóvel. Sentia-se confusa e o coração pulsava de forma irregular. Ao ver tão cansado e despenteado, com aquela mão protetora sobre o ombro de seu irmão... Tudo aquilo a fazia sentir-se estranha. Ela não era uma dessas mulheres que fazem festas aos homens; entretanto sentia de repente o desejo de acariciar o cabelo, e preparar um jantar ligeiro e conseguir que confessasse o motivo da preocupação que se refletia em seu olhar.

— Bella — disse Emmet, pensa que acreditou que nosso beijo era de verdade?

— com certeza que sim. Por que não?

— Não escapa nenhuma.

— Está começando a encher o saco por que todo mundo o sobrevaloriza — disse Bella, e imediatamente foi mal ter respondido assim. Mas a imagem que acabava de passar por sua cabeça a tinha deixado assombrada e turvada. Sua imaginação tinha um mal que passava pela sua cabeça: abraçava Masen, sentindo sua boca na sua, seu acobreado cabelo sob suas mãos. Só de pensar encolhia o estômago. Levantou a mão para acalmar o comichão que sentia na nuca. Só uma vez tinha estado entre seus braços: quando na caçada de Middleton caiu do cavalo e Masen a recolheu, quase estrangulando-a. Naquela ocasião assustaram a força de suas mãos e a violência de sua expressão.

Duvidava de que alguma vez tivesse mostrado aquela parte de si a Caroline Whitmore.

Bella sentia uma curiosidade imensa pela tão misteriosa Caroline. Amaria Masen de verdade, ou teria acessado a casar-se com ele por sua extraordinária riqueza?

Ou possivelmente por sua linhagem aristocrática? Bella tinha ouvido dizer que os americanos impressionava muitíssimo todo o relacionado com títulos e sangue azul.

E como se comportaria Masen com Caroline? Seria possível que tivesse chegado a mostrar-se carinhoso e sorridente? Fazia feliz Caroline?

Essas perguntas intrigavam Bella. Mas se disse que não devia se importar absolutamente como fora ou deixasse de ser o amor perdido de Masen. O único importante era resgatar Rosalie de suas mãos.

Edward despediu do tutor e suspirou. Aquele homem, um tal Hotchkins, era o quarto que entrevistava, e nenhum deles tinha sido de seu agrado. Pelo visto encontrar um tutor com um equilíbrio de autoridade e compreensão adequada para as necessidades de Seth levaria tempo. Edward estava muito ocupado com isso e com as reuniões que aqueles últimos dias vinha mantendo com os arrendatários. Os agricultores estavam furiosos porque uma irrupção de lebres e coelhos destroçava seus cultivos. E para cúmulo seu guarda-florestal acabava de informar de que o número de caçadores furtivos tinha aumentado grandemente.

— Que cacem coelhos não é mau, senhor — disse o guarda-florestal, mas põem armadilhas e caçam de noite. Assim acabarão com os faisões. Este ano não poderemos caçar faisões!

Edward resolveu o problema oferecendo aos arrendatários uma compensação pelas colheitas perdidas em troca de que restringissem a caça furtiva, que de entrada se negaram a admitir que praticavam. Edward celebrava também reuniões com agentes do distrito onde estava situada sua propriedade em Buckinghamshire, discutindo o pagamento dos arrendamentos e outros aspectos relacionados com o governo do imóvel.

— Deveria contratar um administrador a tempo completo — aconselhou — Bella depois de ter escutado às escondidas algumas das discussões.

— Como fazem outros em sua situação.

— Sei como dirigir meus assuntos — respondeu Edward.

— Naturalmente. — Bella obsequiou com uma de seus sorrisos. — Prefere fazê-lo todo a seu modo. Seguro que te economizará tempo para isso até gostaria de cobrar pessoalmente os aluguéis a seus arrendatários. Assombra-me que não gradeia e pule os chãos de sua mansão ou amasse o pão na cozinha... Por que ter um criado sendo você tão capaz de fazê-lo?

Edward a teria esbofeteado por intrometer e de chamá-lo de tirano.

No fundo, entretanto, considerou seu ponto de vista. Grande parte do trabalho que fazia podia delegá-lo. Mas o que fazer com mais tempo livre? Passá-lo com Rosalie? Apesar de que a relação entre ambos era amável, nem ele nem Rosalie desfrutavam juntos.

Existiam outras opções, como jogar, caçar, festas e discussões políticas em Londres. Edward pensou que poderia recuperar antigas amizades. No transcurso dos dois últimos anos tinha evitado a companhia de seus amigos mais e muito em particular daqueles que tinham conhecido Caroline tinham expressado seu pesar por sua morte. Havia sido incapaz de suportar seus olhares compassivos.

De mau humor, Edward decidiu ver Rosalie, que seguia sua mãe como se fosse sua sombra. Tentou conversar com elas tomando o chá morno que ofereceram. Rosalie estava bordando com um bastidor de madeira. Fazia um desenho com fios de seda de cores utilizando uma pequena agulha, e de vez em quando olhava timidamente. Seu aspecto, com aquelas mãos deslizando-se delicadamente sobre a musselina branca, era virginal e refinada. Transcorrido um momento naquele ambiente tão comedido escapou, murmurando que tinha trabalho pendente.

Da galeria provinham risadas. Foi investigar, curioso. Pensou que Seth estava com algum amigo que tinha ido visitá-lo. Sentados com as pernas cruzadas vislumbravam duas miúdas figuras jogando cartas. Uma, evidentemente, pela forma das costas, era Seth. Mas a outra... A outra... Edward franziu a testa ao reconhecer Bella; embelezada com sua calça cor framboesa! Além disso, Seth tinha emprestado uma camisa e um colete. Edward se dirigiu com passo resolvido para eles com a intenção de repreender Bella por sua traje tão pouco apropriada. Ao chegar a seu lado, ficou olhando Bella com olhos acesos, e engoliu saliva. Estava sentada de tal maneira que as calças se ajustavam a suas pernas pondo em evidência os esbeltos contornos.

Deus, era a mulher mais turbadora que tinha visto em sua vida. Em seus tempos tinha conhecido mulheres muito sedutoras, tanto vestidas como nuas, embelezadas com suntuosos trajes de noite e com camisolas transparentes, nuas no banheiro, em roupa francesa de seda com laços... Mas jamais tinha visto algo mais tentador que Bella Swan com calças.

Edward se precaveu de que acendia o rosto e estava tremendamente excitado. Lutou desesperadamente para convocar a imagem de Rosalie. E não conseguiu, escavou mais longe tratando de recordar Caroline. Era incapaz de ver o rosto de Caroline... Demônios, apenas recordava... Não via mais que os joelhos de Bella, sua cabeça escura e frisada, os peritos movimentos de seus dedos com o baralho. Conseguir que sua respiração mantivesse um ritmo regular se converteu em uma batalha. Pela primeira vez era impossível recordar a voz de Caroline ou a forma de seu rosto... Era nebuloso. Seus sentidos o traíam e arrastavam para Bella, cuja vibrante beleza era o foco de toda a luz reinando na galeria.

Com um breve olhar, Bella sentiu o sabor de Edward que se precaveu de sua presença. Esticou os ombros à espera de qualquer comentário negativo. Vendo que não passava nada, seguiu com sua demonstração. Cortou e baralhou as cartas como um professor.

— Agora olhe, Seth –disse. — Metem estas cartas entre as outras... E saem nele mesma ordem que antes. Vê? O ás segue estando em último lugar.

Seth pôs-se a rir e agarrou o baralho para praticar.

Edward observou que o menino assinalava as cartas.

— Sabe fazer armadilhas com as cartas? — perguntou. — Só conheço as torpes — disse Bella antes que o menino falasse. — As boas nunca se pescam. — Indicou um lugar no chão junto a eles, e com graça, igual a uma dama oferecendo um assento no salão mais elegante, disse: Importaria unir-se a nós, Milord? Ensinando a seu irmão meus melhores truques, estou quebrantando uma de minhas regras mais estritas.

Edward se inclinou e se sentou junto a ela.

— Deveria estar agradecido? –perguntou. — Converter meu irmão em um trapaceiro... Bella sorriu.

— Não. A única coisa que pretendo é que este menino se inteire dos métodos que podem utilizar para aproveitar dele.

Seth mostrou seu desgosto por sua falta de habilidade deslizando os dedos pelas cartas e as pulverizando no chão.

— Está bem — disse Bella. — Pratica, Seth. Guardou rapidamente.

Bella se inclinou e recolheu as cartas e Edward não pôde deixar de observar as voluptuosas e arredondadas formas de seu traseiro. Sobreveio uma nova onda de excitação, sentia o calor na flor da pele. Atirou das pontas de sua jaqueta para cobrir o colo. Pensava ficar em pé e partir, mas o que fez, em troca, foi ficar na galeria iluminada pelo sol sentado no chão junto à mulher mais exasperem que tinha conhecido ao longo de sua vida.

Seth baralhou as cartas.

— O que tem meu tutor, Edward?

Edward apartou sua atenção de Bella.

— Ainda não encontrei ninguém que encaixe.

— Bem — disse o menino. — Parecia um porco asqueroso.

Edward franziu o sobrecenho.

— Um quê?

Bella se inclinou para Seth, como se fosse contar um segredo.

— Seth, não utilize as palavras que te ensinou tia Bella até que Edward parta.

Edward, sem pensar duas vezes, agarrou o ligeiro antebraço de Bella.

— Senhorita Swan, você está demonstrando que tenho razão ao pensar em mantê-la afastada dele. — Bella, sobressaltada com o contato, olhou esperando topar-se com uma gelada expressão. Mas encontrou um sorriso de menino arrependido que fez pulsar outra vez seu coração de forma irregular. Era estranho que fazer sorrir proporcionasse a sensação de que tinha realizado uma façanha. Sorriu e logo disse a Seth:

— Sabe por que seu irmão não te conseguiu ainda um tutor? Porque não ficará satisfeito até que tenha encontrado Galileu, Shakespeare e Platón reunidos na mesma pessoa. Sinto por você, menino. Seth fez uma careta para expressar quão horrível aquilo podia chegar a ser.

— Edward, diga que isso não é certo!

— Tenho meus princípios — admitiu Edward, retirando a mão do braço de Bella. — Encontrar um tutor qualificado leva mais tempo de que supunha.

— Por que não deixa que seja Seth quem escolha? — sugeriu Bella. — Enquanto ele faz as entrevistas, você teria tempo de ocupar-se de seus outros assuntos. E uma vez eleito o apresentaria para que você outorgasse sua aprovação.

Edward bufou com ironia.

— Eu gostaria de ver o tutor que escolhe Seth.

— Penso que é uma pessoa responsável por suas decisões. Além disso será seu tutor. Portanto também ele tem algo que opinar sobre o tema.

Parecia que Seth levava o assunto a sério.

Seu olhar azul topou com a de Edward.

— Escolheria um estupendo.

A idéia era pouco convencional. Mas Seth poderia beneficiar assumir aquela responsabilidade. Não faria nenhum dano tentar.

— Considerarei — declarou Edward a contra gosto. — Mas serei eu quem dá o visto final.

— Bem — disse Bella satisfeita. — Pelo visto, às vezes pode você chegar a ser razoável. — Agarrou as cartas das mãos de Seth para as baralhar consciência, e logo as depositou no chão. — Importaria cortar, Milord?

Edward a olhou fixamente, perguntando se atuaria assim em Black's, com aqueles olhos castanhos brilhantes convidando a jogar e sua fina mão apartando os cachos que penduravam sobre a testa. Jamais poderia converter-se em uma esposa recatada e convencional. Seria sempre um atrativo companheiro de jogos com ardis cortesã, uma combinação de jogador perito ... Cem coisas distintas ao mesmo tempo, mas nenhuma das quais ele necessitava.

— O que joga? — Perguntou.

— Estou ensinando Seth os segredos de vinte-e-um. — No rosto de Bella se desenhou um sorriso desafiante.

— Considera-se bom neste jogo, Masen?

Ele, muito devagar, colocou a mão sobre o baralho e cortou.


Olá minhas queridas !

Gente, tenho que desabafar, eu to muito triste com o numero de reviews dessa história. Considero-a tão boa, mas tão tão boa, eu simplesmente nao entendo.

À minha querida Pri Cullen Malfoy, obrigada pelo seu comentário.

Até quinta-feita !