Capítulo 6 - Vesta

Os sentidos começaram a voltar lentamente, ainda entorpecidos com a sensação de sonolência. Abriu os olhos com facilidade, devido à luz fraca; já estava anoitecendo, o sol estava baixo no horizonte.

Estava deitada com a barriga contra o chão, e a primeira coisa que viu foi o piso de mármore branco. Estava numa espécie de santuário, todo feito de mármore branco, no topo de um morro. Não possuía paredes, apenas pilares sustentavam o teto abobadado, com desenhos e escrituras que ela nunca vira antes.

Apesar de a pedra estar desgastada, ainda brilhava, resistindo ao tempo. No centro, um altar de pedra também branco. Mas o que assustou Gina foi a mulher deitada sobre o altar, acorrentada. Estava acordada, e os olhos arregalados e assustados, voltados para si.

Levantou-se apressada, aliviada por não estar também acorrentada. Correu até a ruiva, e em vão tentou livrá-la das correntes. Tirou a mordaça da boca dela.

"Você está bem? Quem a prendeu aqui? Minha Deusa, a última coisa que eu lembro é..."

"Você tem que fugir daqui." A ruiva a interrompeu. Havia desespero no tom da mulher. "Agora! Vá logo!" Ela mandou, debatendo-se inutilmente.

"Mas... você. Deve ter um jeito de soltá-la." Gina olhou em volta, e então congelou. O mesmo homem da praia estava apoiado em um dos pilares, apenas a observando.

Gina deu alguns passos para trás, assombrada. Riddle apenas sorria de lado, divertindo-se com o medo estampado no olhar da ruiva.

"Fuja agora! Ele vai matar nós duas!" Isabella gritou, com os olhos marejados.

Riddle começou a caminhar lentamente na direção de Gina. A ruiva deu mais alguns passos para trás, cambaleantes, virou-se e tentou correr, porém antes, Riddle ergueu a varinha e apontou para Gina.

Gina caiu de joelhos e gritou. Era como e alguém invadisse sua mente; e milhares de imagens começaram a aparecer.

Ela viu Luna. E a loira estava...

'Oh, Deusa.' Pensou.


Depois de alguns minutos dentro da gruta – toda feita de uma pedra lisa, úmida e salpicada de estalactites -, Luna começou a sentir-se tonta, e a visão momentaneamente ficou turva.

Apoiou-se na parede mais próxima e fechou os olhos, esperando que a tontura passasse. O local todo era meio sombrio, com apenas uma luz amarelada e tremulante escapando por entre as frestas e guiando o caminho.

Quando abriu os olhos... estava sozinha. O coração da garota acelerou e um frio imenso apoderou-se de todo seu corpo.

"Derfel?" Chamou, hesitante. Olhou em volta, e não viu mais a entrada para a gruta. Era como se o lugar houvesse se transformado em um labirinto úmido e aterrorizante. "Grindelwald?"

Nenhuma resposta. Apenas o som de eco da própria voz retumbando nas pedras escorregadias. Podia ouvir o som de água corrente em algum lugar.

Com um sentimento de extrema vulnerabilidade, Luna avançou alguns passos, sempre atenta aos barulhos em volta.

Conforme caminhava – os pés batendo contra a pedra com estalos altos demais -, cuidando para não escorregar, o som de água começou a ser substituído por sussurros ásperos, como pedra raspando contra vidro.

Luna gelou – os sussurros tornando-se cada vez mais altos – e olhou em volta. Soltou um choramingo de pânico ao ver olhos vermelhos e malignos brilhando na escuridão perto dela.

Só restava correr, e foi isso que a loira fez. Pela visão periférica via as formas de sombras estranhas, misturadas com aqueles olhos, perseguindo-a e sussurrando, cada vez mais alto. Suas piores lembranças vinham-lhe à mente, e era como se ela estivesse descendo para o inferno gelado da Rainha Hell.

Lágrimas começaram a despontar, enquanto Luna corria ainda mais rápido. Em certo momento, tropeçou numa pedra saliente e caiu para frente. Jurou que naquele momento seria seu fim, cairia e as criaturas abomináveis a alcançariam, mas braços fortes e quentes a ampararam.

Olhou para cima e soltou um gritinho de alívio.

"Derfel!" Exclamou, jogando-se nos braços dele. "Nós temos que correr, há criaturas..."

"Criaturas?" Ele perguntou.

Luna olhou em volta. Não havia mais sussurros, nem sombras suspeitas por perto. Era como se tudo tivesse sido apenas uma ilusão.

"Mas elas estavam... eu juro..." Disse Luna, incerta.

Derfel abraçou-a.

"Eu sei. Vai ficar tudo bem agora." Ele prendeu Luna em seus braços fortes, encostando os lábios no pescoço alvo.

Luna, primeiramente, sentiu-se protegida com o contato. Mas então as mãos dele começaram a explorar seu corpo, de uma forma que a repugnou. Debateu-se um pouco, o que só serviu para que ele a apertasse com mais força.

"Derfel...?" Chamou, tentando se soltar, mas ele deu alguns passos e a prensou contra a pedra fria da gruta. "Derfel, pára."

Ele subiu as mãos pelas coxas de Luna, erguendo o vestido, enquanto a beijava e mordia no pescoço de maneira quase rude.

"Derfel, pára. Por favor!" Tentou segurar os pulsos dele, impedir que as mãos continuassem subindo, mas ele a prensou com ainda mais força contra a parede.

"Você vai gostar, fica quietinha." Ele sussurrou.

A voz dele era diferente. Não era doce e reconfortante como ela estava acostumada. Era maliciosa e arrepiante. Debateu-se com mais força.

Ele levantou uma das coxas de Luna, livrando-se da própria calça. O coração de Luna disparou, e lágrimas despontaram de seus olhos. Ele arrancou o resto do vestido do caminho, rasgando o decote, e sussurrando para que ela ficasse calada.

"Não. Não! Pára, por favor! PÁRA!"

Ela gostaria daqueles toques, se eles fossem feitos de forma carinhosa, pelo Derfel que ela conhecia e suspirava. Mas agora ela só conseguia chorar e se debater.


Enquanto isso, longe dali, em um chalé em meio a um bosque, um velho feiticeiro explicava a um jovem príncipe o que estava para acontecer em Midgard. Era difícil para Dumbledore explicar tudo em tão pouco tempo, por mais que seu objetivo não fosse impedir Vesta de voltar, mas sim trazer aquele que poderia acabar com os planos da deusa para todo o sempre.

Claro, o jovem estava ansioso por ir resgatar a donzela indefesa, mas nem mesmo Dumbledore sabia onde Riddle estava. Poderia estar em qualquer, dos inúmeros, santuários do continente. Mesmo que fossem procurá-la, não chegariam a tempo. O melhor, então, era seguir com o previsto pela profecia.

"Espera, isso é ridículo! Você está querendo me dizer que Gina é descendente de uma deusa, que se tornou maligna há séculos atrás, foi aprisionada, e que agora esse tal de Riddle deseja libertá-la para trazer o caos sobre a humanidade?" Resumiu Draco, atordoado, achando aquilo tudo uma grande piada de um velho caduco.

Não daria voz a seus pensamentos, contudo. O homem era um feiticeiro poderoso, e todo mundo sabia que com feiticeiros não se brinca. Toda aquela história sobre ser transformado em sapo se se irritasse algum; bem, não era uma completa mentira.

"Infelizmente, é verdade. Vesta usará o corpo de Ginevra para voltar, pois sua forma divina está aprisionada. Tomará o corpo da menina e o controlará como desejar. A alma de Ginevra será mandada para Asgard, eu suspeito, dada como morta." Completou Dumbledore, observando os olhos azuis cinzentos do rapaz se arregalarem de preocupação.

"Então o que nós estamos esperando aqui? Nós temos que ir atrás desse tal de Riddle!" Exclamou Draco, levantando-se de supetão, e batendo as mãos contra a mesa de madeira do pequeno chalé.

Dumbledore suspirou e entrelaçou os dedos sobre a mesa.

"Você não pode sentir, mas o fluxo de energia das trevas que já paira sobre Midgard é assombroso. Criaturas malignas já estão saindo das sombras, revitalizadas. Restam minutos agora. Não há mais tempo." Disse o feiticeiro, em um ar pesaroso, pois sabia o que viria com o Crepúsculo dos Deuses.

Caos. Morte. Destruição. Dor. Perda. Escuridão.

"MAS ENTÃO ELA VAI MORRER! GINA VAI MORRER!" Gritou Draco, dando alguns passos a esmo pelo chalé, desnorteado, puxando os cabelos; tentando encontrar alguma alternativa. "Isso não pode acontecer! Tem que haver algum meio de impedir..." Murmurou para si mesmo.

"Há um meio." Dumbledore falou serenamente, fazendo com que Draco se virasse para fitá-lo. "Mas requer um grande sacrifício."

"Um grande sacrifício..." Repetiu Draco, num tom baixo e arrastado, como se processasse as palavras. "Que tipo de sacrifício?"

Dumbledore realmente esperava que Draco e Gina tivessem tido tempo suficiente para se apaixonarem. Para que o amor que interligava os corações fosse suficientemente forte para impelir Draco a fazer aquilo que poderia ser o fim do caos sobre os homens.

"Assim como Gina é descendente de uma deusa. Você, Draco, é descendente de um semi-deus." Draco deixou o queixo cair. "Um semi-deus que foi o motivo de Vesta ter deixado o ódio tomar conta de seu ser."

"Ótimo. Era tudo que eu precisava... ser o desafeto da deusa louca." Resmungou o loiro, amedrontado por dentro.

"Deixe-me terminar." Repreendeu Dumbledore. "Segunda a profecia, quando Vesta voltasse, apenas aquele que foi o causador de seu ódio poderia desafiá-la e derrotá-la – Belerofonte."

"Está bem... E como o trazemos de volta?" Perguntou Draco, já com suspeitas do que Dumbledore iria propor, mas querendo uma confirmação para seus receios.

Dumbledore inspirou fundo.

"Faremos com você, o mesmo que Riddle fará com Gina, apesar de no seu caso, o ritual ser muito mais fácil. Você será sacrificado, para que Belerofonte volte. Você é um vessel também, ele usará seu corpo para voltar, e você será mandado para Asgard. Lá, poderá encontrar Gina e, se tudo der certo, trazê-la de volta." Dumbledore terminou.

Draco estava lívido. Teria que se sacrificar. Morrer. Morrer para dar seu corpo à alma de um semi-deus idiota que causara toda aquela confusão. Todo seu bom senso gritava para que ele recusasse e fosse viver sua vida, voltasse para Slytherin e ajudasse o pai na guerra que provavelmente já começara.

Mas, por algum motivo, seu coração batia com força, fazendo-o lembrar-se de que era de Gina que eles estavam falando. Ela precisava dele. Seria mandada para Asgard, e ficaria sozinha lá, sem saber o que fazer, e como voltar.

E se tudo desse errado... se eles não conseguissem retornar, ele ao menos passaria a eternidade ao lado dela.

Os olhos castanhos úmidos, brilhantes, belos e... apaixonados, voltaram-lhe a mente, como se pudesse vê-la a sua frente naquele exato momento. Como se ainda pudesse senti-la em seus braços.

"Eu te amo, Draco." A voz dela ainda estava na mente de Draco, cristalina como água.

Respirou fundo.

"Vamos logo, antes que eu me arrependa. Faça o que tem que fazer."

Dumbledore respirou, aliviado. O amor triunfara entre eles, afinal.

Levantou-se da cadeira e colocou uma mão sobre os ombros do rapaz, guiando-o para a saída. Sob suas vestes, a Adaga quase pulsava, aflita por ter seu poder liberado.


"Não! Luna! Luna! Não!" Gina segurava os cabelos com força e os puxava. Podia ver e sentir a agonia da amiga, e o quanto ela estava sofrendo. Queria ajudá-la de alguma força.

Queria matar o homem que estava fazendo aquilo com sua melhor amiga. Nunca sentira tanto ódio na vida. O corpo pulsava, e alguma força desconhecida saía de dentro dela, impelindo-a a querer destruir qualquer coisa que visse a sua frente. Precisava extravasar o ódio latente de alguma forma.

Riddle sorria enquanto observava a forma pequena de Gina de joelhos, gritando desesperada, como se sua amiguinha pudesse ouvi-la. Uma energia luminosa vermelha engolfava o corpo da ruiva, tornando-se a cada segundo mais intensa, vibrante. Aquele poder... era Vesta que já começava a tentar se apossar o corpo da pequena. Subjugando sua mente, para depois expulsá-la.

Porém, faltavam dois passos para que o ritual se completasse: a morte de Isabella, e a morte de um inocente pelas mãos de Gina.

Ele tinha os dois.

"NÃO! RESISTA! NÃO DEIXE O ÓDIO TOMAR CONTA! ME ESCUTE, SEJA FORTE!" Gritava Isabella.

De alguma forma, a ruiva mais velha sabia sobre a profecia de Vesta. O conhecimento passara ao longo dos séculos de descendente para descendente da vestal que traíra sua deusa. Isabella sabia que aquilo poderia acontecer com ela, apenas rezava para que não. Para que ninguém descobrisse e desejasse despertar a deusa, pois ela seria o sacrifício.

Lágrimas despontavam de seus olhos, conforme observava a pequena ruiva fraquejar, permitindo que o ritual se cumprisse. Pensou em Sirius. Como desejaria vê-lo uma última vez antes de sua morte. Jamais amara alguém com tamanha intensidade. Não se importava que não pudessem se casar, desde que ele sempre estivesse ao seu lado. Queria beijá-lo uma última vez. Sentir os lábios adorados, enquanto dizia que o amava mais do que qualquer outra coisa.

"Calada!" Riddle mirou a varinha em Isabella. "Quietus!"

Isabella tentou gritar mais, mas nenhum som saiu de sua boca. Resignada, restou-lhe apenas chorar, enquanto esperava que o pobre inocente que Riddle arranjara para o ritual aparecesse.

As imagens pararam, e Gina abriu os olhos, cheios de lágrimas, respirando com dificuldade, como se houvesse corrido por horas. Ainda de joelhos, com as mãos espalmadas no chão, e com os cabelos servindo como uma cortina vermelha em torno de seu rosto, não percebeu Riddle se aproximando.

O homem se agachou perto da ruiva.

"Esse homem merece morrer, Gina." Sussurrou no ouvido dela.

Gina estremeceu e, ela não veria, mas seus olhos estavam completamente vermelhos. O vermelho vivo, brilhante e maligno, que ela já presenciara em seus sonhos.

"Sim..." Murmurou baixinho, com uma voz que não era dela.


Ao pé do morro, Derfel saiu da gruta, com o coração batendo com força. Estava desesperado. Perdera-se de Luna dentro da gruta e não a achara mais. Por mais que gritasse, tudo que enxergava a sua frente eram imagens de quando sua família fora assassinada por um grupo de mercenários quando ele tinha apenas três anos. Imagens de sua amada Gryffindor sendo incendiada. Imagens de Luna... imagens de Luna – sua Luna! – sofrendo e gritando e chorando, pedindo por ajuda.

Era incrível que houvesse conseguido sair daquele lugar horrível ainda são. Arfava quando alcançou os últimos raios de sol do dia, respirando aliviado por um momento. Mas Luna não estava ali.

Olhou de volta para a entrada da gruta. Precisava voltar. Ela poderia estar em perigo lá dentro. Ele vira formas sombrias, frias, fantasmagóricas e cruéis movendo-se por entre as pedras úmidas daquele lugar tenebroso.

Foi quando viu Grindelwald.

"Grindelwald!" Exclamou mitigado, sem nem ao menos pensar como o feiticeiro acabara ali fora, parecendo muito calmo. "Luna! Ela ainda está lá dentro! Precisamos..." Começou.

"Ela já saiu, Derfel. Está lá em cima, naquele santuário. Ela disse que o esperaria lá." Grindelwald apontou para o topo do morro.

Derfel olhou e viu uma construção em estilo grego, como já vira em livros, toda branca. Luna estava lá, esperando por ele, pensou com nítido alívio.

"Você não vem?" Perguntou para o feiticeiro, depois de dar alguns passos. O semblante dele estava triste.

"Não... a garota que procuravam, está lá em cima também. Vocês não precisam mais de mim." Disse Grindelwald.

Derfel se aproximou e colocou a mão sobre o ombro do feiticeiro, apertando-o suavemente.

"Obrigado por tudo. Não sei como agradecer." Falou, e correu para cima.

Grindelwald sentiu um terrível aperto no peito. Mandara o jovem para a morte certa. Culpado de um crime que não cometera.

Esperou no mesmo lugar por mais alguns segundos. Logo Luna sairia da gruta.


Draco jamais admitiria, e continuaria com a sua pose impassível enquanto avançavam mais para dentro do bosque, mas estava segurando-se para não tremer e vacilar. Toda a história sobre Vesta ainda era muito confusa e complexa, e totalmente inacreditável, em sua mente. Ele sentia como se um vulcão de sentimentos desconexos estivesse explodindo dentro dele.

Dumbledore não falara mais nada desde que haviam saído do pequeno chalé. Estava sério, com a testa vincada, o que apenas deixava Draco mais nervoso.

"Você precisará chamar o seu dragão." Disse Dumbledore, subitamente.

"Por quê?" Perguntou Draco, só então raciocinando que, se ele morresse, Erebus também morreria, ou será que seu corpo ainda estando vivo manteria Erebus também vivo?

"É por isso mesmo." Falou Dumbledore, olhando-o nos olhos, como se lesse seus pensamentos. E de fato lia.

Só então Draco percebeu que estavam parados em meio a uma clareira, onde havia um altar de pedra, escura e desgastada, no centro.

O sol provavelmente já sumira no horizonte, e o céu estava acinzentado, refletindo os olhos do jovem. Ele chamou por Erebus. Não sabia se o dragão estava em condições de voar.

"Ele está. Quando lancei um feitiço de cura nele, lancei também um revigorante." Respondeu Dumbledore.

Draco irritou-se com a mania do outro em ler mentes.

"Terei que transfigurar seu dragão em Pégasus, cavalo voador de Belerofonte, é a única maneira dele não morrer." Explicou o feiticeiro, indo até o centro da clareira e parando ao lado do altar.

Era como um altar de sacrifício. Havia sangue seco e velho da superfície.

"Ele não vai ficar muito feliz em virar um cavalo voador bonitinho." Resmungou Draco, conhecendo bem o temperamento de Erebus.

Erebus estava perto quando Draco o chamou, e logo chegou à clareira, pousando e derrubando algumas árvores no processo. Draco explicou a situação, e Erebus soltou um jato de fogo pelas narinas, bufando. Dumbledore teve que usar um feitiço para apagar o fogo no topo das árvores.

"É estranho. Ele disse que já estava esperando por isso, algum dia..." Disse Draco, confuso.

"Sim. Seu dragão tem a alma de Pégasus nele. Ele protege os descendentes de Belerofonte há gerações. Ele pode nascer como um dragão, ou cavalo, ou até mesmo um cão. Mas está sempre cuidando de seu dono."

Erebus fez uma careta.

"Ah, ele não gosta da palavra dono." Explicou Draco.

Dumbledore olhou de esguelha para o dragão, mas nada falou.

"Suba no altar, Draco. Está na hora de invocar a alma de Belerofonte."

Draco engoliu em seco, mas fez o que foi pedido. Dumbledore segurou o cajado na frente do corpo e começou a murmurar encantamentos. Uma adaga saiu de baixo das vestes dele e flutuou no ar.

O material da lâmina brilhava de uma forma sobrenatural. Aquele tom platinado, fluido, não poderia ser de um metal comum. Era como se a adaga tivesse vida própria.

Ela voou para o rosto de Draco e fez um corte superficial em sua bochecha. Draco soltou uma exclamação baixa de dor, e gotas de sangue caíram no altar.

A noite finalmente chegou, ao mesmo tempo em que sombras esbranquiçadas, com formatos estranhos – mãos, braços, pernas, rostos desconexos – começaram a surgir em volta do altar, sussurrando lamentos e gemidos de agonia e curiosidade.

Draco arregalou os olhos; o sangue fugindo-lhe do rosto.

"Esteja preparado, Draco. Belerofonte logo aparecerá. Chame-o!"


Luna conseguiu sair da gruta. Abraçava o próprio corpo e soltava soluços altos – o rosto marcado pelas lágrimas. Tudo estava muito confuso em sua mente. O que Derfel fizera com ela, misturado com outras imagens terríveis. Já mal sabia direito o que acontecera naquela gruta. Aquele não poderia ter sido Derfel. Ele não a machucaria e a forçaria daquele modo.

Estava ainda um pouco claro. Mas dali a minutos a noite chegaria, fria e arrebatadora. Luna sentia-se sozinha e perdida, e soltou um grito quando um par de mãos a segurou pelos ombros.

"Você tem que impedir a sua amiga!"

"Grindelwald?" Perguntou Luna, confusa.

Impedir a sua amiga? Do que ele estava falando?

Grindelwald estava desesperado. Depois que vira Derfel subindo o morro, experimentara uma crise de consciência terrível. Não deveria ter se apegado tanto aos dois jovens. Mas agora era tarde demais, tudo que ele poderia fazer, era alertar Luna. Talvez ela conseguisse evitar a menina ruiva de agir.

Se ele subisse até o santuário e tentasse impedir, Riddle o mataria. Mas não poderia matar Luna, pois Gina a amava demais, e o ódio da garota se voltaria contra ele.

Era a única chance.

"Derfel não fez nada daquilo que você viu na gruta com você. Eram apenas ilusões. Mas sua amiga o matará se você não falar isso para ela! Agora corra! Eles estão lá em cima, no santuário!" A voz do feiticeiro estava cheia de urgência.

Luna piscou por alguns segundos, até que suas pernas corressem morro acima. Ela não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas não poderia deixar que Derfel morresse! Ainda mais pelas mãos de sua melhor amiga.

E fora um alívio tão grande saber que aquilo fora apenas uma ilusão. Ela sempre tivera uma paixonite por Derfel. Ele era alto, forte, gentil, carinhoso. Ajudava ela e Gina a escapulirem do castelo, e nunca as repreendia, mesmo que ao fazer isso seu emprego estivesse em jogo.

Porém, ele sabia ser apenas um guardador de cavalos, e ela uma garota da corte, então nunca fora nada além de cavalheiresco com ela, evitando algum tipo mais íntimo de aproximação. Mas com a viagem em busca de Gina, ela pôde ver o quanto ele se importava e gostava dela. E ela dele.

Quando chegou ao santuário, porém, seu coração desfaleceu ao ver o que acontecia.

"GINA! NÃO!"


Draco só conseguia olhar pasmado para as... almas que o cercavam, rodeando-o. Tentava chamar por Belerofonte, mas como ele saberia qual daqueles vultos brancos era seu ancestral?

"Você saberá, Draco. Apenas mantenha-se receptivo!" Disse Dumbledore, a voz do feiticeiro parecendo abafada e distante.

'Mantenha-se receptivo? O que isso quer dizer? Merda. Belerofonte, apareça de uma vez, desgraçado!' Pensou Draco, irritado com todas aquelas lamúrias fúnebres dos vultos.

E então, ele apareceu. E Draco simplesmente sabia que era ele. Podia sentir. A energia era diferente. Um vulto branco, mas corpóreo – Draco conseguia ver o rosto do semi-deus com facilidade – era muito nítido, e ele estava parado bem a sua frente, olhando-o fixamente, esperando...

"E agora?" Gritou Draco, com os olhos como dois pires, mirando Belerofonte.

"E agora você morre." Disse Dumbledore. Draco se assustou, e no segundo seguinte, sentiu a adaga, que flutuava antes em algum lugar perto, cravar-se em seu abdômen e sair, deixando o sangue jorrar.

A visão começou a ficar turva, e as últimas imagens que se lembraria seriam da alma de Belerofonte se embaçando, liquefazendo, aproximando-se e entrando por sua ferida, e de Erebus diminuindo de tamanho, enquanto soltava um rugido alto.

Dumbledore observou as outras almas se dissiparem, voltando para de onde quer que houvessem saído. Ele fez um feitiço de luz com o cajado, e viu o jovem caído sobre o altar. A ferida em seu abdômen já fechada. A Adaga da Morte, arma capaz de trazer uma alma de volta à vida, desde que houvesse um corpo – um vessel – à disposição, caída perto do corpo do garoto.

Erebus, ou Pégasus, estava há alguns metros, já transfigurado no cavalo alado e branco, e relinchava, preocupado com o dono.

O jovem loiro abriu os olhos – as orbes platinadas brilhando na escuridão – e sentou-se.

"Belerofonte?" Perguntou Dumbledore.

Ele fitou o feiticeiro por longos instantes.

"É como costumavam me chamar... em outra vida."

E então Dumbledore soube que a guerra por Midgard começara. A profecia estava se cumprindo.

Olhou para o céu, no exato instante em que um grosso feixe de luz vermelha descia para a terra, ao longe.


Em Hufflepluff, as espadas começaram a se chocar. O canto de guerra retumbou perto dos bosques floridos do reino. Um reino que sempre se orgulhara pela paz naquelas terras. Usando o exército apenas para lutar contra os Vikings.

Sirius forçou a espada contra a de James.

"Sirius, escute, eu não mandei ninguém matar Isabella, você precisa acreditar em mim! Somos melhores amigos!" Gritou James, segurando a espada com força.

"Eu sabia que você nunca perdoara Isabella pela morte de Lily no parto! Ela apenas fez o parto, James! Não foi culpa dela que Lily não resistiu!" Sirius deu outra estocada com a espada.

"Eu sei, Sirius! Eu nunca duvidei disso! Eu nunca desejaria para você o mesmo que eu senti quando perdi Lily!" Rebateu James, que apenas se defendia dos ataques furiosos de Sirius, enquanto tentava trazê-lo de volta à razão.

Estava escurecendo, e logo seria ainda mais complicado continuar com aquela loucura.

"Não minta para mim, James! Você me tirou... eu a amava tanto." Lágrimas despontaram dos olhos de Sirius.

"Sirius. Você foi enganado, eu não mandei matá-la. Acredite na nossa amizade, homem! Você foi enganado! Alguém queria que guerreássemos, por algum motivo!" Replicou James.

Seria possível?

Sirius pensou em Riddle. Isabella morrera dias depois da chegada do feiticeiro. Feiticeiro! Ele tinha poderes para enganá-lo. Poderia ter manipulado aquele bandido desdentado. E ainda fugira quando alcançaram Hufflepluff.

Olhou para James. Os olhos do amigo transbordavam sinceridade. E mágoa.

Fraquejou no aperto da espada.

"James..." Soltou baixinho, num tom arrependido, percebendo seu erro.

Como pudera ser tão estúpido?

James abaixou a espada também.

Antes que eles pudessem se abraçar, em meio ao campo de batalha, a terra tremeu, e uma luz vermelha chamou a atenção de todos os guerreiros, que pararam de lutar, observando o céu.


"Esse homem merece morrer, Gina."

"Sim..." Murmurou baixinho, com uma voz que não era dela.

Segundos depois, um jovem ofegante, que Gina imediatamente reconheceu, alcançou o santuário. Ele olhou em volta, confuso. Luna não estava ali, uma mulher estava acorrentada em um altar, e Gina estava envolta por uma luz vermelha intensa, que quase o cegava.

"Princesa...? Perguntou incerto, aproximando-se da moça. "Está tudo bem? Onde está Luna? O que é essa luz?"

Gina levantou-se lentamente, mirando os olhos vermelhos na direção de Derfel. Riddle foi se afastando até Isabella, murmurando alguns encantamentos. A alma de Isabella precisava ser aprisionada no Tártaro, um lugar de sofrimento eterno, para que o ritual se completasse. Com magia negra antiga, o chão começou a se abrir, esperando por sua vítima.

"Como ousa perguntar por ela depois do que fez?" Perguntou Gina, e sua voz era fria e irreconhecível.

Derfel deu um passo para trás, mas não conseguiu se mover. Era como se forças invisíveis o segurassem. E essas forças vinham de Gina.

"Princesa, não... depois do... o que eu fiz?" Ele perguntou, caindo de joelhos, enquanto Gina se aproximava.

"Canalha! EU VI! EU VI O QUE VOCÊ FEZ A ELA!" Gina gritou o mais alto que pôde, e a luz em torno do corpo dela vibrou com violência.

"O que... eu fiz? Princesa, eu não queria tê-la deixado sozinha! Nós nos perdemos, eu preciso saber se ela está bem. Grindelwald, ele..." Derfel tentava se levantar, mas era inútil. As palavras escapavam-lhe desconexas da boca.

"Calado!" Gina gritou, e fez um movimento de um tapa no ar. Mesmo assim, Derfel o sentiu, estalando em seu rosto.

Isabella se debatia ainda mais, arregalando os olhos ao ver o buraco negro se formado no chão perto dela.

"Eles estão lá!"

Riddle interrompeu o feitiço ao ouvir as vozes. Elfos chegavam ao santuário. Aquilo não estava nos planos.

Idril Elendil alcançou o lugar, junto com outros quatro elfos. Estava tudo armado, prestes a acontecer. Os elfos ergueram as flechas contra Gina e contra Riddle.

A menina não tinha culpa de estar sendo possuída, mas era melhor sacrificar um inocente, do que deixar o caos chegar a Midgard, e acabar com toda a raça humana.

Eles largaram as flechas, no exato momento em que Luna alcançava também o santuário. Ela viu Gina perto de Derfel, ajoelhado no chão. Flechas estavam prestes a atingir sua melhor amiga.

"GINA! NÃO!" Gritou.

Gina se virou no último instante e com um novo movimento de mão, desviou as flechas para Derfel, ao mesmo tempo em que Riddle, com um movimento de varinha, desacorrentava Isabella e puxava-a como escudo.

Os elfos ficaram atônitos. Suas flechas eram encantadas para que nunca pudessem ser desviadas. Não era à toa que Riddle usara Isabella como escudo. Era incrível que Gina houvesse conseguido desviá-las.

Dois corpos caíram, sangrando, ao mesmo tempo. Isabella e Derfel.

Riddle riu alto e chutou o corpo da ruiva para dentro da fenda negra.

"DERFEL!" Luna gritou e correu até o homem caído, com três flechas cravadas em seu coração. Abraçou-o ajoelhada. "Não morra, seja forte, vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem."

Ele sorriu fracamente, e acariciou o rosto de Luna.

"O importante é que... você está bem agora." Ele disse com a voz fraca, rouca, apagada. Luna soluçou mais alto, observando a vida se esvair mais rápido – muito mais rápido – do que ela desejaria do corpo dele.

Gina estava paralisada, com os olhos arregalados. Ela acabara de matar um homem, e só então ela percebia que fora enganada. Derfel era inocente. Lágrimas despontaram dos olhos da ruiva. Aquela não era ela. Fora controlada pelo ódio, e por uma força desconhecida.

"Luna, me desculpe." Pediu fracamente.

Olhou para Riddle, no exato instante em que a fenda se fechava, e Derfel dava seu último suspiro.

Depois disso, apenas sentiu como se alguém a arrancasse do próprio corpo, e gritou.

Um grosso feixe de luz vermelha desceu do céu, caindo justamente sobre Gina. Os Elfos tentaram atirar mais flechas, mas elas chicoteavam na densa luz vermelha.

Luna segurou Derfel com força e fechou os olhos. O mundo tremia. O vento aumentou e rugiu, como se uma tempestade devastadora se aproximasse.

Houve uma explosão de luz que cegou todos por um momento. Para depois sumir por completo.

Luna abriu os olhos, receosa. Gina estava parada em pé, perto dela, como se nada tivesse acontecido.

"Gina...?" Chamou, com uma voz fraca e chorosa.

Gina virou-se e olhou-a com um misto de superioridade e complacência. Luna sentiu um arrepio e tremeu.

"Gina não está mais aqui, criança. Mas você pode me chamar de Vesta."

E então, Vesta sorriu.


Nota da autora: Tive uma crise criativa com esse capítulo, fiquei escrevendo até as duas da manhã! Foi bem mais parecido com a versão antiga. :D

Mas eu não fiz aquela cena horrível com a Luna, apesar de que o Derfel morreu *Cry

E agora o bicho pega!

Obrigada pelas reviews no último cap.: fermalaquias , Kimberly Anne Evans Potter (Oie, flor. Sabe, adoro que você me acompanhe aqui desde o começo, achei o máximo você perceber que ela estava para voltar logo no início do cap. 6, e agora ela apareceu! Agora a fanfic vira uma loucura mesmo, haha! XD Bjs!), Lika Slytherin, SamaraKiss, Tati Black, pokenat (Querida! Que delícia ver você lendo as minhas fics todas *abraça* Você lia a versão antiga? Bah, essa está ficando bem melhor mesmo, gosto bem mais de escrevê-la. Bem, não fiz a cena com a Luna, foi mais light, e na real não aconteceu ;) E o Grindelwald, tb gosto dele, no fim ele tentou ajudar, vamos ver o que ele faz daqui para frente. xD Beijão, obrigada!)

Eu quero muito terminar essa fanfic, obrigada pelo apoio. *+*

Ah, e fazendo uma propagandinha básica, leiam a fanfic Ordo Ab Chao, da Vira-tempo. É AU, e se passa no entre-guerras, é maravilhosa, o prólogo foi postado faz pouquinho tempo.

Beijão amores!