Capítulo 7 – Relatos de infância

Não tardou muito para chegarem a casa, a volta fora sem dúvidas, mais rápida. Mello se perguntou se era porque Near estava ali com ele que o tempo tinha passado como um relâmpago, ou se era porque, andar num ônibus escolar demora muito mais que um carro normal.

Mello foi direto para o quarto de Near, onde tinha um banheiro. Suas coisas ainda estavam no quarto dele, logo teria de mudar-se para o quarto de hóspedes. Pegou uma toalha e foi tomar uma ducha.

Estava um pouco cansado pelo dia cansativo que tivera. O bom seria que agora era só jantar e assistir um pouco de tevê com a família.

"Nada cansativo... Ufa.".

Near entrou em seu quarto. Ouviu o barulho do chuveiro e decidiu arrumar a roupa de Mello. Apesar de seu dia não ter sido tão exaustivo quanto o de Mello, Near ficara preocupado com o loiro, e isso o deixara cansado.

"Ele que gostaria de ter pensando em táticas para futebol... Ele adora essas coisas." Pensou se lembrando das noites em que ele dormia no colo loiro enquanto este assistia ao jogo. E também dos gritos que o acordavam quando o time marcava um gol. Ta, esta não era uma parte muito boa.

- Ah, valeu baixinho – Disse Mello saindo do banheiro ao ver a muda de roupas nas mãos de Near. O pequeno sorriu meigo e estendeu-lhe a roupa. Quase que involuntariamente, deu uma olhada para o baixo de Mello, que estava só de toalha. Mello, notou esse pequeno desvio de olhar do albino, sorrindo malicioso.

- Near, você...

- Mamãe e eu fomos ao mercado. Comprei chocolates para você. – Disse brincando com uma mecha de cabelo e olhando para o lado, com um sorriso safado. Mello entendeu a mudança drástica de assunto e deixou as roupas caírem, propositalmente.

- Near, você sabe que não podemos fazer isso aqui. Mas talvez... – murmurou as últimas palavras sentando o pequeno na cama e sentando-se encima deste com as pernas entre cada lado dele. – Podemos...

O albino abriu mais ainda o sorriu. Falar em chocolates com Mello era como pedir algo em troca. Near pôs uma mão no ombro do loiro e a deslizou até a toalha. Mello desabotoava a blusa de Near olhando o peito que começava a aparecer, com certo desejo. Near segurou a toalha do loiro para tirá-la e...

- Eita, não deixem o papai ver o que vocês ao fazendo hein? Tranquem a porta na próxima vez, hahahaha! – Disse Michael fechando a porta depois de dar um sorriso cínico.

Mello por uns segundos, paralizou-se. Quando saiu de seu transe, correu para trancar a porta ainda assustado. Near estava totalmente vermelho.

- Acho que não vamos poder continuar não é? – Disse Near abraçando suas pernas. Mello voltou a se sentar na cama e abraçou o menor sem nada dizer. Near viu o volume sobre a toalha do loiro e ficou com pena de deixá-lo naquele estado.

- Mello... Que tal fazermos algo diferente dessa vez?

E não precisou dizer duas vezes para o loiro entender o que ele queria dizer.

Chegaram um pouco atrasados para o jantar, mas tinha valido a pena afinal. Sentaram-se e começaram a comer. A família conversava sobre a escola das crianças e como andava a novela, nada que interessasse a Mello. O loiro de vez em quando falava quando o assunto era seu time preferido do esporte, e Near teve uma leve impressão de que seu pai talvez estivesse começando a tentar considerar o namoro dos dois.

- Mello... – Começou Mauro, chamando logo a atenção do loiro que parou de comer na hora. O seu sogro não costumava falar com ele, muito menos para conversar. – O que você acha da tática de defesa dos Tigers?

Mello surpreendeu-se com a pergunta. Finalmente seu sogro estava tentando aceitá-lo como parte da família? Talvez. Mas ainda haveria muita água para rolar.

E a conversa estendeu-se até tarde da noite. Mauro, apesar de não parecer, estava impressionado com o raciocínio de Mello para técnicas esportivas. Talvez fosse até melhor que Near. Mas mesmo assim não facilitou para o loiro que encarava as perguntas até um tanto desafiadoras sem medo.

A família já se reunia na sala. A conversa tinha sido tão duradoura que já falavam da infância de Near.

- Bem, Near sempre foi muito quietinho. – Começou Negisa abraçando o filho – Lembro da festinha de quatro anos dele, só sorriu quando lhe demos seu primeiro quebra-cabeças. E depois daquilo foi um sufoco, ele montava cada vez mais rápido e com cada vez mais peças, só sei que aos oito anos já montava alguns imensos de mil peças em menos de um dia! Uma vez pegamos um de quinhentas peças dele e demoramos uma semana!

Todos menos Near riram. Ele não gostava dos comentários da mãe. Ser um menino gênio não o ajudara em muita coisa, apenas no fato de ter ido para a mesma escola de Mello. Já o loiro prestava atenção em cada mínimo detalhe das histórias, fazendo alguns comentários até. Gostava de saber um pouco mais da vida de Near, era algo quase impossível de se saber pela boca do próprio albino.

- É ele sempre foi um prodígio, todos já sabemos, agora da para falar dos outros filhos? – Michael falou invejoso. Mesmo tendo nascido depois de Near, nunca fora o bebê da família. Talvez fosse por isso que adorava literatura trágica.

- Ah, mas eu nem cheguei no dia em que tentamos tirar a chupeta dele... – Lamentou-se a mãe. Mello não conseguiu deixar de escapar um riso só de imaginar a história. "Eu percebi hoje o quanto o Near gosta de chupar, hehe..." Mello sorriu pervertido, deixando Near vermelho.

- Mamãe! Mostra os álbuns de fotos para o Mello! – Mary puxou a borda da saia da mãe, sorrindo feliz. Near pareceu empalidecer de um jeito inédito. Mello viu a expressão horrorizada no namorado. Só podia ter coisas muito hilárias ali.

Michael foi pegar os álbuns enquanto o resto da família tratava de se sentarem próximos para todos conseguirem ver as fotos. Logo o menino já trouxera e se acomodara naquele montinho.

- Esta foto aqui é quando fomos à praia. Near ficou o tempo todo na areia brincando com seu conjunto de castelinho. Bem... No final do dia ele não conseguia se deitar por causa das queimaduras. Filtro solar cinqüenta não resolve no caso dele...

Agora Mello sabia o porquê de o pequeno evitar andar na rua. Trauma. Viu a foto do garotinho branco de óculos escuros ao lado de um castelinho de areia. Parecia concentrado no trabalho. E do lado uma foto da família toda, mas não se via mais um garotinho branquinho, e sim uma criancinha totalmente vermelha e segurando o choro.

- Esta é de um pouco depois que a Mary nasceu. Toda a família queria segurar o bebê, mas no instante em que ela viu o Nerito, já estava balançando as mãos em sua direção. Mary sempre o adorou, Near.

A garotinha que estava no colo da mãe deu um beijinho na bochecha de seu irmão, manhosa.

A mãe virou algumas páginas e achou uma foto aleatória de um bebê todo enlambuzado, que Mello logo reconheceu ser Near pelos cabelos brancos. Havia papa de bebê por toda a sua roupa e em seu rosto, e segurava uma colher de aviãozinho. Pelo visto o babador não servia para muitas coisas naquelas horas.

Mello deu um sorriso e apertou as bochechas de Near. Eram realmente fofas. O pequeno deu um sorrisinho torto e agarrou o braço do loiro. Estava um pouco feliz que Mello estivesse se adaptando a família, mas não queria que ele tivesse visto este álbum. Era muito... Humilhante.

- Michael, passe para mim aquele álbum de quando o Near era criancinha. Este aqui tem muitas fotos só minhas e de seu pai.

O garoto pegou o outro álbum. Tinham fotos desde o nascimento até a formatura do primeiro ano na Wammy's. Mas algumas fotos foram devidamente apreciadas. Uma por exemplo de Near tomando banho numa piscininha. Mello adorou ver a foto de seu namorado "desprotegido" quando criança. Near é que parecera não gostar muito. Mary adorara o patinho de borracha que Near brincava na foto e Michael apenas ficava brincando com o tamanho da "coisinha" do irmão. Mauro apenas olhava as fotos, calado. Era um homem sério demais para comentários melosos sobre o filho, mas emotivo o suficiente para encher-se de orgulho, deixando seus olhos marejados.

Outra foto era de Near com a blusa social do pai. Era desde pequeno que gostava dessas roupas. Near alegou que eram largas e confortáveis, mas todos continuaram com a hipótese de que era mania mesmo.

"Ainda acho que é um fetiche" o loiro pensou, porém, preferiu se manter calado.

Também havia fotos de seu primeiro dia de aula. Usava uma bermuda azul com uma blusa branca com a insígnia do colégio. Devia ter seus cinco anos. Entrara na sala do maternal e saíra no mesmo dia na da segunda série. Em outra foto exatamente do lado, estavam seus pais orgulhosos pelo maravilhoso desempenho escolar. Havia também uma menina que aparentava ser mais velha que Near, mas como usava o uniforme da escola, Mello achou devia ser uma aluna qualquer.

E depois também teve uma foto em que Mello se surpreendeu ao se ver. Era a turma de formandos do primeiro ano de Near na Wammy's. Lá estava toda a turma sorrindo. Mello não parecia muito feliz, talvez por não ter sido o orador da turma ou talvez por não ter pais ali para tirarem fotos suas. Era pequeno, ainda tinha esses problemas quanto aos seus pais.

Terminaram aquele álbum e pegaram outro. Todos pareciam adorar fotos em família. O outro álbum era um pouco mais recente e na grande maioria Near nem estava. Já estava ficando tarde, Mauro bocejou e olhou para seu relógio. Assustou-se ao ver a hora.

- Bem, amanhã eu tenho treino então é melhor eu dormir. Boa noite – Disse Mauro levantando-se, dando um beijo da esposa e indo se deitar.

- Acho que vou também. Boa noite. – Near limitou-se a dar um beijo na bochecha de Mello. Evitavam ao máximo se beijarem na frente de Mary, não sabiam quando ela podia puxar uma câmera. Ela conseguia ser mais imprevisível que Mello.

Quando deu meia-noite, a mãe mandou a menina ir para a cama e não tardou muito para Michael ir para a sua.

Sobraram apenas Mello e Negisa. Já estavam no quarto álbum, quando Mello viu uma foto de Near sendo abraçado por uma menina. Era bastante bonita, tinha cabelos lisos e castanhos, um sorriso malandro que fazia jus ao seu boné do Ursoz.

- Negisa. Quem é essa garota? – Mello lembrava-se dela em mais algumas fotos que vira. Estava um tanto curioso quanto a ela. Será que Near já tinha...? Não, Near fora para a Wammy's com dez anos, não tinha idade para namorar e nem era a dele ficar saindo com garotas enquanto podia estudar ou montar castelos. Mello tentara ao máximo esquecê-la, mas agora a curiosidade lhe vencera.

- Ah, ela é a irmã mais velha de Near. Nossa primeira filha. O nome dela é Catherine. Bem... Ela teve uma briga com o Mauro com seus dezesseis anos por um motivo fútil, depois disso recebi poucas notícias dela. Ultimamente nem sei por onde essa garota está... – A mãe pareceu entristecer-se. Devia se sentir culpada, pois pareceu que carregava a culpa toda.

- Ah... Sinto muito.

- Mas... Mellito, - Negisa respirou fundo e lhe encarou - o Near nunca tinha nos mencionado antes de nós os chamarmos para vir para cá, não é?

Mello não sabia o que dizer. Não esperava por aquela pergunta, não queria magoá-la mais e também não queria mentir. Deu uma última olhada na foto de Catherine e Near e olhou para cima. Enfim suspirou e tomou coragem para dizer algo.

- Ele nunca fala nada sobre ele para mim. No muito eu tenho de aprender convivendo com ele. – Mello confessou. Era verdade, Near nunca lhe contara nada, tudo que sabia sobre ele era de anos de observação. O loiro se sentiu triste, nunca tinha parado para pensar nisso.

Negisa o olhou com aquele sorriso bondoso de sempre.

- Você já experimentou falar do seu passado também? Talvez ele apenas ache que a relação de vocês está boa do jeito que está e não tem o que melhorar. Mostre que você quer saber tudo sobre ele. Talvez dê certo.

Mello sorriu de leve. A mãe de Near era muito sábia e bondosa, uma ótima mãe e muito bonita. Queria ter tido uma mãe como ela.

- Obrigado... Pelo conselho.

- Não foi nada Mellito. Bem, está ficando tarde, vou dormir. – Negisa fechou os álbuns e os pôs encima da mesinha de centro

- Ah sim, boa noite.

- Ah, Mellito... – Hesitou um pouco e por fim resolveu não dizer. – Espero que saiba que já tem a minha bênção. Boa noite.

Mello parou por um segundo para entender o que ouvira. Um tempo depois, sorriu largamente. Sim, tudo daria certo.

Subiu as escadas alegre e entrou em seu quarto. Assustou-se ao ver Near parado em frente a sua cama.

- Ah, Mello. Estava deixando um cobertor para você.

Mello foi até Near em passos lentos e decididos. Abraçou o pescoço de Near e disse em um tom baixo:

- Quero saber mais de você.

Nem perceberam quando já estavam deitados debaixo das cobertas com as mãos entrelaçadas. Era algo espontâneo entre eles.

- Meus pais eram alemães. Me abandonaram num orfanato por alguma razão desconhecida. Aos meus nove anos fui transferido para a Wammy's House e me tornei o primeiro de lá até um garotinho albino aparecer. Me apaixonei mais e mais por este garoto e agora estou aqui, deitado com ele na casa de seus pais. Sua vez.

Near deu-lhe um selinho e fechou os olhos com um sorriso doce. Começaria a contar tudo que esqueceu, ou apenas ocultou, durante todo aquele tempo de namoro. Esqueceram-se de tudo. Apenas conversaram sobre suas vidas e dormiram ao lado um do outro como se não houvesse motivos para fazer outra coisa se não ficarem juntos.


N/a

Cacete, como demorou pra sair o.o

Desculpa pessoal, na verdade essa capítulo já estava pronto há séculos, mas esquecia de pedir pra betarem e blás xP

E estou em uma dúvida séria se termino daqui há uns 3 capítulos ou se continuo com as idéias que eu estou tendo xD

Ah, e um aviso: este capítulo não foi betado, por isso desculpem-me pelos erros n.n''

Bem, até o próximo capítulo e espero reviews n.n