DIA 06

- REUNIÃO -

O mesmo e velho teto branco.

A minha mesma e velha cama. Mas

algo mudou. Mas não tenho certeza do

que foi. Esse é o meu quarto. Eu sou

um membro da Organização. Nº XIII...

Lexci. Mas — algo está diferente.

Lexci se sentou naquela cama dura, e balançou lentamente sua cabeça. Ele se sentia incrivelmente confuso.

Afinal, como foi que eu caí

no sono ontem? Eu não consigo me

lembrar... não consigo entender.

Assim que se levantou da cama, Lexci notou que havia conchas ao lado de seu travesseiro.

O que diabos é isso? Eu não entendo.

Eu já não entendo mais nada.

Lexci deixou seu quarto e começou a andar, sentindo como se seu corpo se lembrasse sozinho de como era o caminho para o salão.

É verdade, eu tenho que ir para lá

e cumprir com uma missão.

Mas estou me sentindo tão confuso.

Ele passou pelo corredor e chegou ao salão, mas não havia ninguém lá. De forma inconsciente, Lexci murmurou.

Lexci: — Alex...?

O nome de seu amigo. Lexci tocou seus lábios, perdido em pensamentos.

Disseram que o Alex podia

ter sido aniquilado. Eu me lembro

disso. Aniquilação significa não restar

nada. Foi isso o que Braxig me disse.

Aquele mundo... aquele mundo pintado

com um penoso pôr-do-sol. Aonde era

mesmo? Não consigo me lembrar.

Eu não entendo. O que está

Acontecendo comigo?

Do outro lado do vidro que servia como paredes para o salão, havia apenas neon e trevas, como sempre. Neste mundo, nunca se sabia se era dia ou noite.

Lexci abriu um Corredor das Trevas diante de si, e partiu para aquele mundo.

Se eu for para aquele

mundo... talvez o Alex, ou a

Onix, possam estar lá.

{ . . . }

Sentando-se ao topo da torre do relógio, Lexci olhou ao seu redor, sem se ligar muito ao resto. Não havia ninguém lá.

Ninguém.

Um trem corria para o longe. Mesmo estando muito mais adiante, o pôr-do-sol continuava a brilhar, como se afundasse na cidade.

?: Lexci...?

Lexci se voltou ao ouvir a voz.

Lexci: Onix...

Parada lá, estava a garota de cabelos negros e lustrosos.

Lexci: O que aconteceu comigo?

Onix: Você estava dormindo — desde muito, muito tempo atrás.

Lexci: Muito tempo atrás...?

Lexci encolheu os olhos com a resposta de Onix, que se sentou ao seu lado.

Se faz tanto tempo... então

não aconteceu ontem.

Onix: Asïx disse para não termos muita esperança... que você podia não — bem, agora você tá acordado! É isso que conta.

Onix sorriu com muita alegria, inclinando sua cabeça e olhando para Lexci.

Lexci: Ugh, me sinto como um zumbi. Acho que tem certas coisas que um cochilo não cura.

Lexci balançou a cabeça vagarosamente, e Onix começou a rir, levando-o a fazer o mesmo. Os sorrisos então se encerraram, e Onix levou a mão até o bolso do casaco, tirando algo de dentro. Era uma pequena concha.

Onix: Aqui, eu te trouxe isso. É uma concha do mar.

Essa concha... é igual àquelas

que estavam junto ao meu travesseiro.

Onix: Eu pegava uma toda vez que saía numa missão.

A concha que ela havia deixado na palma de sua mão era clara, árida, e sem a menor utilidade.

Mas por que será que... eu estou tendo

essa sensação tão estranha?

Onix: Segure ela no seu ouvido.

Do fundo da concha, ele podia ouvir um som — era como o vento... era como o som das ondas. Onix pareceu pensativa.

Se você aproximar seu ouvido, tudo

o que se pode ouvir é o som das

ondas. Não sei por que, mas isso me

parece, talvez... familiar. Eu queria

saber por que o som das ondas faz

com que eu me sinta assim. Será que

eu sonhei com isso? Ou terá sido

outra coisa? Sinto como se eu

já tivesse ouvido o som das ondas

e assistido ao pôr-do-sol com mais

alguém antes, só eu e essa pessoa.

Sim, é como ouvir o som do mar

nessa concha, com o Lexci, aqui

no topo da torre do relógio.

{ . . . }

E assim, a vida cotidiana de Lexci se seguiu. Depois disso, ele soube, graças a Onix, que havia dormido por vinte dias.

Ontem foi o quinquagésimo dia

desde que eu entrei na Organização.

Sendo assim, hoje é o 51º. Eu acordo,

vou para o salão. Isso já é regra.

Lexci chegou ao salão para encontrar Braxig, Asïx e Edmyx. Onix não estava lá, provavelmente já havia saído em uma missão.

Foi bom eu ter conseguido

me encontrar com ela ontem. Aquela

concha... o som das ondas. Primeiro,

vou repor meu estoque na loja.

Moogle: Que bom revê-lo, ouvi dizer que você teve um colapso, kupo. Você tem que ir com calma, kupo. Quem mais viria perder uma grana — digo, bater um papo comigo, kupo?

Lexci: Mas — eu estou indo com calma...

Moogle: Mesmo, kupo? Bem, eu tenho algumas novidades por aqui, kupo!

Durante o negócio, Lexci comprou alguns itens, e assim que partiu na direção de Asïx, Braxig o chamou.

Braxig: Ora, bom dia, flor do dia. Durante o seu sono da beleza, descobrimos que todo o time lá do Castelo do Esquecimento já era.

Lexci: Oh —

Não saíram palavras de sua boca.

Todos eles... não. Eu só ouvi dizer que

um deles tinha sido aniquilado.

O que terá acontecido com o Alex...?

Asïx se aproximou, o que fez Lexci desviar seu olhar para ele.

Asïx: Você acordou.

Lexci: Vocês já descobriram o que aconteceu no Castelo do Esquecimento —?

Asïx: Estamos investigando o que aconteceu com eles.

Lexci: "Eles"? Quantos? Você ainda não sabe?

Asïx: O que eu sei é que não te devo explicações. Agora, vá para o trabalho. Você vai estar sozinho por um tempo. Seja lá aonde estão os outros membros, eles com certeza não estão aqui para ajudar.

Se eles estão investigando, quer dizer

que há uma possibilidade de que

nem todos tenham sido aniquilados?

Asïx: Vamos, parta logo.

Das missões que Asïx havia preparado, Lexci escolheu seguir para Agrabah, e entrou em um Corredor das Trevas.

{ . . . }

A missão de hoje era algo num mundo no qual ela nunca havia estado antes, o Castelo da Fera. O Corredor das Trevas a havia deixado num lugar que parecia com um grande salão de entrada. Para Onix, a atmosfera naquele castelo obscuro era meio semelhante a do castelo da Organização. A missão consistia em derrotar Sem-Corações em forma de cachorros, e coletar seus corações.

Quando eu terminar a missão,

vou comprar um picolé e seguirei

pra torre do relógio da Cidade

Crepuscular. Eu quero tomar picolé

com o Lexci. Quando estou com

o Lexci, tenho uma estranha

sensação. Notei isso ontem. Sinto

como se alguma coisa no jeito

do Lexci tivesse mudado

depois que ele caiu no sono.

Subindo as escadas que haviam diante da entrada, ela se deparou com uma grande porta, que dava acesso a uma sala bastante ampla e iluminada. Parecia um tipo de salão de dança. E bem no meio do mesmo, estavam seus alvos.

Onix: Muito bem... vou acabar logo com essas coisas.

Agora, Chave-Espada em mãos...

Porém, nesse instante, ela sentiu algo errado.

Onix: — Huh?

A Chave-Espada não apareceu. A Chave-Espada que, desde o dia em que lutara ao lado de Lexci, ela esperava ser capaz de usar, não apareceu.

Soltando um sinistro rugido, um dos tais Sem-Corações se lançou na direção dela. Retirando-se com toda a sua velocidade, Onix desviou da investida, enquanto tentava imaginar a Chave-Espada em suas mãos novamente.

Onix: Por favor... gyah!

Mas, no mesmo momento, o Sem-Coração a atirou pelos ares.

Onix: Por quê...?

Desse jeito, eu vou perder...!

Em pânico, Onix começou a conjurar magias para atacar. Ela não conhecia nenhuma magia que fosse muito poderosa, mas acreditava que ficaria bem.

Onix: Chamas!

Um pequena bola de fogo foi disparada contra o Sem-Coração, que, para sua sorte, entrou em chamas.

Agora não há outra forma de

derrotá-los, exceto pelo uso de magia.

Onix disparou uma infinita corrente de magia contra os inimigos.

{ . . . }

Devemos finalizar a

missão dando um relatório

para o Asïx. Mas eu não

consigo nem sequer encarar

o Lexci desse jeito.

Retornando ao castelo, Onix reportou sua missão.

Eu devo reportar quantos

Sem-Corações derrotei, e também

quantos corações coletei para

completar Kingdom Hearts.

Asïx: Você não conseguiu obter nenhum coração?

Onix: — Eu os derrotei com magia, no último minuto.

Acho que não tem problema

reportar o fato de eu não

ter conseguido usar a Chave-

Espada... não é mesmo?

Asïx: O que você acha que é uma Chave-Espada?

Onix: O quê...? Uma chave que coleta corações...

É claro que eu sei que a

Chave-Espada é uma chave

especial. Sem ela, nós não

poderíamos coletar corações.

Asïx: Exatamente. É bom que você grave bem isso — se você não pudesse usar a sua Chave-Espada, não teria nem sequer o direito de possuir uma posição dentre os níveis mais baixos da Organização. É bom ter certeza de que passará a destruir os Sem-Corações com o uso da Chave-Espada a partir de agora.

Onix: Compreendo... serei mais cuidadosa de agora em diante.

Eu só devo ter me sentido

mal hoje... amanhã, vou conseguir

usar a Chave-Espada normalmente,

tenho certeza absoluta disso.

Onix deixou o salão para trás.

{ . . . }

Aos olhos de Lexci, parecia que todo dia que se passava era o mesmo, que continuava a se repetir.

Por que será que estou pensando assim?

As missões de cada dia são sempre diferentes.

Mesmo que ele fosse para a torre do relógio, ninguém apareceria por lá. Nem mesmo Onix.

Não sei como esse sentimento se chama.

Acho que eu nunca verei o Alex.

Havia uma forte tensão no fundo de seu peito, como se ele estivesse sendo comprimido, apertado. Era doloroso.

Ele perguntava para Asïx sobre os membros que haviam sido mandados ao Castelo do Esquecimento quase todo dia, mas a única resposta que recebia era de que eles estavam "investigando".

Se eu pelo menos pudesse ver

a Onix... se pudéssemos conversar na

torre do relógio, talvez algo pudesse

mudar. Mas, por alguma razão, eu nunca

mais a encontrei no salão de manhã,

e nem na torre do relógio, depois das

missões. Talvez ela tenha partido numa

longa missão, como o Alex. Mas... o

Asïx pareceu bem mal-humorado depois

que eu perguntei sobre o Alex. Acho que

é melhor eu não perguntar o que

aconteceu com a Onix.

Ele voltou à torre do relógio todos os dias, com uma débil esperança em seu peito, mas ninguém apareceu.

{ . . . }

Eu definitivamente não consigo

usar a Chave-Espada.

Onix derrotou o último Sem-Coração utilizando-se de magia, e caiu sentada no mesmo lugar em que estava.

Se o Asïx brigar comigo por

não ter conseguido recolher os

corações, eu não tenho mais

nenhuma boa desculpa. O

que será que eu devo fazer?

{ . . . }

Ainda mais adiante de onde ficava a Távola Redonda, estava o laboratório de Milnuxos. Havia salas que pareciam laboratórios por todo o castelo, mas apenas alguns membros restritos tinham a permissão de entrar nesta.

Agora, apenas Milnuxos e Braxig estavam lá. O último, num tom desleixado, sentou-se num sofá ao lado da sala.

Braxig: Não gosto nada disso.

Milnuxos: Do que está falando?

Braxig: Estou falando de como todos os caras que foram mandados ao Castelo do Esquecimento foram aniquilados pelo herói.

Milnuxos, que estava escrevendo alguma coisa, pausou sua mão.

Braxig: Fazer o herói se livrar do Luxarmia foi planejado desde o início. Me fala... você deu a ordem?

Milnuxos: Sim, está correto... era isso o que você queria saber?

Braxig: É que o fato de todo mundo ter sido aniquilado não cola, como dizem. Não se pode dizer então que o projeto teste tenha sido um sucesso, afinal, a aniquilação de metade dos membros fundadores não foi planejada, né não, Vourath?

A boca de Milnuxos se voltou em um sorriso, e ele deu uma breve risada.

Milnuxos: — Mas que nome velho.

Um nome de muito tempo atrás — de quando ele ainda era um humano, de quando era pupilo daquele sujeito... e, de quando ele lutou contra eles.

Braxig: Mas se a aniquilação não foi algo planejado... então mataram uma porção de coelhos numa cajadada só, como dizem, não é?

Milnuxos: Seja como for, pelo menos nós temos duas Chaves-Espadas conosco. Por aqui, o projeto continua bem. Ainda que nossos números tenham sido cortados pela metade, nosso plano não mudou.

Por um instante, Braxig encarou Milnuxos, que simplesmente desviou o olhar de volta aos papeis sob suas mãos, e sua caneta novamente correu pela página. Dando de ombros, Braxig desapareceu da sala.

{ . . . }

Lexci acordou e seguiu para o salão, como sempre. Aquele já era o 71º dia desde que ele havia entrado para a Organização. Ele já não via Alex ou Onix há um bom tempo.

Quando entrou no salão, Braxig foi até ele.

Braxig: He, he... lá vem o rabugento. Por que essa cara?

Lexci: Não é nada, beleza?

Não aconteceu nada — eu só não tenho

me encontrado com ninguém, nem na

torre do relógio. É muito difícil respondê-lo.

Braxig: Tem que admitir, o castelo tá bem mais quieto. Seis membros mais quieto, pode-se dizer. Mas bem que eu poderia me acostumar com um grupinho menor e mais chegado, cê não concorda?

No mesmo momento, alguém saiu entrando com tudo no salão. Era Edmyx, e ele parecia exaltado com alguma coisa.

Braxig: Mas que barulheira...

Ignorando-o, Edmyx se voltou para Lexci, segurando-o nos ombros.

Edmyx: Ei, Lexci, véi, ficou sabendo? Sem sobreviventes! Todo mundo no Castelo do Esquecimento já era! Papo reto.

Lexci não achava que ouviria tal notícia de Edmyx, assim, tão de repente.

Lexci: — Então eles se foram mesmo...

Edmyx: Pois é, se foram com o vento — né não, Braxy? Whew, não ter ido pra lá foi como escapar de uma bala perdida!

Edmyx não parava de tagarelar, pensando rápido em suas palavras. Porém, Lexci não sabia o que dizer. Ele apenas abaixou a cabeça, e Braxig riu.

Braxig: Sorte a sua. Heh, heh...

Edmyx: Q-Qual é o problema, velhote?

Braxig: Agora temos que dobrar os horários pra poder preencher a lacuna.

E Braxig encarou Edmyx nos olhos. Edmyx encolheu os ombros.

Edmyx: Blegh... já entendi. Me lembra de me sair mal duas vezes mais de agora em diante.

Edmyx deixou o salão.

Braxig: E dê o melhor de si também, ouviu, garotão?

Lexci: — Aham...

Mesmo depois de ter respondido, Lexci continuou paralisado com o choque. No mesmo momento, Asïx entrou no salão.

Asïx: Quando estiver pronto, vá logo para a sua missão. Hoje você estará indo para a Cidade Crepuscular.

Lexci não conseguiu nem mesmo juntar força de vontade para perguntar se todos haviam realmente sido aniquilados.

Sempre que eu pergunto, o

Asïx me responde exatamente

a mesma coisa. "Estamos

investigando". Hoje, eu queria

que ele me dissesse a mesma coisa

de novo. Mas estou com medo

de perguntar. Eu nunca mais verei

o Alex outra vez. Eu não sei

como se chama essa sensação.

Eu odeio ter que estar aqui.

Pensando que sair daquele lugar lhe seria um milhão de vezes melhor, Lexci seguiu seu caminho.

{ . . . }

Chorando em fúria enquanto corria pela Cidade Crepuscular, Lexci destruía os Sem-Corações. Ele não entendia bem o porquê, mas tinha que fazer isso.

Todos eles... foram aniquilados.

Eu não vou poder vê-lo novamente...

Pensar nisso lhe fez querer correr ainda mais.

O que diabos é isso?

Lançando-se em um beco dos fundos, Lexci acabou com o último dos Sem-Corações com sua Chave-Espada. Um coração saiu flutuando de dentro do Sem-Coração que se desfazia, e então desapareceu. Foi quando Lexci se deu conta de que havia alguém batendo palmas em algum lugar.

?: Lexci! É isso aí! Luta — luta — luta~!

Lexci se virou, e parado atrás de si — estava Alex, que andou naturalmente em sua direção.

Alex: Como é que cê tá? Qual é o problema? Parece que viu um fantasma.

Alex deu uma boa risada, parecendo feliz, como sempre.

Eu não sei o que fazer.

Lexci: Alex — eu... pensei que você já era! No Castelo do Esquecimento — todo o time foi aniquilado...

Alex bateu em seu próprio peito.

Alex: Correção — os fracotes foram aniquilados.

De alguma forma, eu me sinto estranho.

Mas eu sei. O Alex provavelmente...

não é assim tão forte quanto ele diz ser.

Lexci: ...você me deixou preocupado.

Alex: Preocupado? Heh, é uma bela pegadinha, considerando que você não tem um coração pra sentir alguma coisa.

E com as palavras do ruivo, Lexci enfim foi capaz de abrir um sorriso.

Estou tão feliz de não ter que nunca

mais vê-lo. Então, é claro, nós

temos que ir... pro lugar de sempre...

Lexci: E-espera aqui. Eu vou comprar uns picolés pra gente!

E Lexci saiu correndo.

{ . . . }

Ele deve estar querendo ir

pro lugar de sempre.

Com um sorriso, Alex seguiu na frente para a torre do relógio. No final, ele foi o único que voltou do Castelo do Esquecimento.

Eu não me importo muito com isso,

mas... eu também perdi o rastro do Sora,

do Yami, da Maiko e dos outros intrusos.

Há muitas salas que eu não consigo

entender dentro daquele castelo. E eu

ainda não consegui encontrar aquela sala.

Lexci: Alex!

O ruivo se virou ao som da voz de Lexci, que lá estava parado, de respiração ofegante, picolé em mãos e um sorriso no rosto. Alex o observou. Pegando um dos picolés com um sorriso estampado no rosto, ele parou para observar novamente as similaridades entre Lexci e Sora.

Alex: Hoje é por sua conta?

Lexci: Bem, hoje é um dia especial!

E Lexci sentou-se ao lado dele.

Lexci fica ainda mais parecido

com o Sora quando sorri. Bem, na

verdade eu nunca cheguei a ver

o Sora sorrindo no castelo. De

qualquer forma, nós, Incorpóreos,

nascemos quando nossos "Outros" se

tornam um Sem-Coração. Então,

fundamentalmente, nós, Incorpóreos,

não sabemos de exatamente tudo

sobre os nossos Outros.

Havia apenas uma pessoa que Alex conhecera como um Outro, e ainda tinha contato com ele. Seria ainda muito mais estranho, e realmente impossível, que seu Incorpóreo e seu Outro se encontrassem ao mesmo tempo.

Porque, essencialmente, Incorpóreos e seus Outros — em outras palavras, o humano que se tornou um Sem-Coração — não existem ao mesmo tempo.

Mas o Lexci, bem aqui, é um Incorpóreo

especial. Ele não apenas possui a

Chave-Espada — ele também existe ao

mesmo tempo que o seu Outro. É como se

eles desafiassem as regras do universo.

Mas eu já ouvi dizer que a Chave-

Espada reflete a vontade do universo.

Será que as regras do universo e

a sua vontade são coisas diferentes?

Ele olhava o perfil de Lexci de forma indiscreta. Lexci notou o olhar, e logo se voltou para Alex, ainda tomando seu picolé.

Lexci: O quê? Tem alguma coisa na minha cara?

Alex: Oh, não — é que eu tenho que me apresentar pro chefe, ou então vou ouvir um monte.

Sabendo que tinha mentido, Alex mordeu um pedaço do seu picolé.

Lexci: Então você ainda não RAC?

Alex: Uhm? Nah...

Consentindo com a cabeça, Alex lançou um olhar ao pôr-do-sol.

Não estive fora por tanto tempo...

mas sinto que foi tempo o suficiente.

Lexci: Ora, então por que veio aqui?

Porque antes de retornar ao castelo,

antes de ver todos os outros, eu

queria tomar um picolé aqui com o

Lexci. Além disso, eu queria ter certeza

de que o Lexci era mesmo o Incorpóreo

do Sora. Eu não sei qual dessas ações

foi mais consciente da minha parte.

Mas eu tenho medo de confessar o que

estou sentindo neste exato momento.

Alex: Acho que eu precisava de um tempo pra organizar meus sentimentos.

Alex encolheu os ombros, apenas para sentir Lexci dando um tapa em suas costas, um sorriso estampado em seu rosto.

Lexci: Ué, senhor "eu-não-tenho-um-coração"?

Essa sensação é tão

estranha. Esse sentimento... o

que é...? Parece tanto com

aquilo que eu sentia quando era

humano... tem algo dentro do

meu corpo, em algum lugar, que

parece estar zunindo.

Alex: Ei, seu picolé tá derretendo. Toma logo.

Lexci: Ow, valeu.

As palavras de Alex claramente tentavam ocultar seus pensamentos. Ele não queria que Lexci notasse. E Lexci simplesmente mordeu um pedaço de seu picolé.

Lexci: Sabe, eu convidei a Onix pra vir aqui em cima enquanto você estava fora.

Alex: A Onix? Mesmo?

Onix... Número XIV. Não me lembro

muito sobre essa. Além do mais,

eu nunca a vi com o capuz abaixado.

Lexci: É. Eu prometi pra ela que nós três viríamos tomar picolé juntos — quer dizer, quando você voltasse.

Por que essas palavras parecem

terrivelmente inesperadas?

Quietamente, Lexci continuou a dizer.

Lexci: Eu e ela somos amigos, agora.

{ . . . }

Alex tombou em sua cama, observando o teto.

?: Por que não deu seu relatório?

Era a voz de Asïx — ele havia aparecido por lá. Alex se sentou para poder encará-lo.

Alex: Oh, é bom ver você, também. Não há de quê, obrigado pela gentileza.

Sem demonstrar qualquer sinal de que havia prestado atenção nas palavras provocantes de Alex, Asïx se aproximou.

Asïx: Eu soube que a Maiko desapareceu.

Alex: Num minuto, lá estava ela. No seguinte, já não estava mais. Eu não sei pra onde ela pode ter ido.

Sua resposta não continha mentiras.

Bem... fui eu que a persuadi a fazer isto.

Mas acabei perdendo o rastro dela.

Asïx: Procurou em todos as salas, suponho?

Alex: Tá brincando, né? Seria como contar os grãos de poeira de um prédio cheio de gente espirrando.

No Castelo do Esquecimento,

tem uma sala na qual ninguém jamais

pôs o pé. Essa é a verdadeira razão

pela qual o castelo existe.

Asïx: E quanto àquela sala? A encontrou?

Alex: Qual foi, isso eu teria dito.

Asïx deu um longo suspiro.

De uma certa forma, o Asïx é

quem mais finge ter um

coração, mesmo não tendo um.

Como se para mudar de assunto, Alex se levantou da cama, indo até Asïx.

Alex: Mas tenho que admitir... você tava certo.

Ele se aproximou de seu ouvido, sussurrando.

Alex: Sobre o Luxarmia, e os traidores... você já sabia o que tava rolando.

Asïx: Hmph... tudo o que eu fiz foi encontrar um lugar para mandar todos aqueles que estavam ficando no caminho.

O Asïx provavelmente está falando

a verdade. Aqueles membros da

Organização estavam no caminho do

Asïx — não, no nosso caminho. Mas não

sei por quê, eu não consigo evitar... eu

tenho que ser sarcástico sobre isso.

Alex: Ora, bom saber aonde eu me enquadro. Aff —

Alex deu uma breve risada, e a cicatriz no rosto de Asïx pareceu acompanhar brevemente sua expressão.

Parece que ele não gostou

muito da piada.

Asïx: Você voltou inteiro ou não?

Alex pensou em perguntar se Asïx estivera preocupado com sua segurança, mas não queria arriscar deixa-lo com um humor ainda pior.

Talvez as memórias que

ele tenha sobre raiva e desgosto

sejam realmente muito fortes.

Dando de ombros, Alex relatou uma última coisa.

Alex: Eu me livrei do Ixenzo.

Erguendo o rosto, Asïx o encarou. Olhando nos olhos dele, Alex continuou.

Alex: Era bem o que você queria, né? Eu vou jogar do seu jeito... por enquanto.