Capítulo 7 – Joy

Seu lugar não era ali. Ela sempre soubera isso desde que chegara. Isso já havia ocorrido há tantos anos e tanto já havia sido falado que não havia mais como ignorar o inevitável: ela estava vivendo sim uma vida dupla. Não era como se ela não estivesse gostando – pois estava. Contudo ela sabia que o lugar predestinado a ela era junto de suas irmãs, cuidando de Pokémon e fazendo-os ficar saudáveis e alegres. Estaria ela tão errada ao se casar e tornar-se uma líder de ginásio?

O poder lhe agradava. Isso não podia negar. Desde a primeira batalha – que só ocorreu ao substituir seu marido, Brock, que estava em uma expedição com alguns criadores Pokémon para auxiliá-los em suas pesquisas – ela sentira o poder. Na época com o Onix emprestado do marido e com Chansey, sua fiel escudeira que negou-se a ficar no Centro Pokémon sem a presença dela.

- Hey, você não pode usar uma Chansey! Isso aqui é um ginásio de pedra!

Fora o grito de desespero de seu primeiro competidor. Ele enviara um Squirtle que foi rapidamente derrubado com um tapa duplo de Chansey seguido do ataque investida. Ela sorriu, não aquele doce sorriso que espalhava pelo Centro, mas sim um riso de êxtase. Emoção.

- A vida não é justa, pequeno treinador. Se você não está preparado para vencer na vida, não deve passar por Pewter. Aqui somente os campeões levarão a insígnia de pedra.

O menino recolheu seu Squirtle machucado e saiu aos prantos do ginásio. Parte de Joy estava triste por aquilo, mas sua outra metade sorria graciosamente.

Joy sabia que o ginásio possuía regras claras: os líderes não podiam usar os seis Pokémon contra os competidores. O máximo permitido era 3 (ou 4, caso a batalha fosse em dupla). Não deveriam ser usados Pokémon extremamente violentos ou de longo treinamento. O ginásio deveria ser um desafio, mas não algo impossível para os treinadores iniciantes passarem.

Por muito tempo Pewter foi comandado pelo pai de Brock e depois por um de seus irmãos. A mãe dele certa vez dominara o ginásio e o tornara um Ginásio de Água, o que causou um grande problema com o ginásio de Cerulean, centenariamente específico neste tipo de Pokémon. Logo o irmão de Brock reassumiu o controle do ginásio e, posteriormente, solicitou que Brock largasse a vida de criador Pokémon para retornar ao que era de seu direito e obrigação como filho mais velho: cuidar do ginásio.

Como um bom filho, Brock retornara a casa, não sem antes pedir a mão de Joy da cidade de Cerulean, que prontamente aceitou. Misty, amiga de Joy e Brock de longa data, fora a madrinha do casamento. Ash não compareceu.

E então dia após dia Brock demonstrava que não estava mais feliz no cargo de líder. Cada vez menos batalhava. Pedia aos secretários para lutar em seu lugar. Insígnias de Pedra eram praticamente doadas a quem quer que aparecesse. Até que Joy, um dia, munida de apenas Onix (que ficara com ela por segurança) e Chansey, resolveu assumir as rédeas do ginásio.

De um dos mais fáceis, Pewter entrou na lista dos 3 ginásios mais difíceis de Kanto. Muitos treinadores evitavam passar por lá e buscavam em ginásios de outras cidades menos conhecidas o complemento para poder participar da Liga de Kanto. Cada vez mais o patamar do ginásio subia. Mas, ao mesmo tempo, Joy se perguntava se estava fazendo o certo desviando do caminho que fora pré-destinada: a enfermagem.

Seus devaneios e duvidas foram varridas para baixo do pano quando a porta do Ginásio se abriu e uma pequena garota de 11 anos passou por ela. Andava devagar, com passos pesados e barulhentos. Como toda criança birrenta gritou para chamar a atenção.

- Onde está o líder desse ginásio? Brock, eu o desafio!

Joy levantou e calmamente andou pelo ginásio, parando na outra ponta do gramado de pedra. Deixou que a luz do sol atingisse seu rosto e sorriu.

- Seja bem vinda ao ginásio de Pewter. Eu sou Joy e...

- Não tenho tempo para falar com a enfermeira desse lugar, onde está o líder?

O sorriso sumiu de sua face. Toda sua duvida de outrora dera espaço para uma raiva sem tamanho. Sabia que era errado descontar tudo aquilo em uma criança mimada de 11 anos, mas não estava no clima para má educação. Há tempos o uniforme de enfermeira dera espaço para roupas mais provocantes e de cores sombrias. Seus cachos foram desfeitos e o cabelo escorria pela sua costa até atingir a cintura. Tudo havia mudado.

- Se você tivesse se preparado um pouco mais para estar aqui, saberia que este ginásio possui um novo líder. Há anos, aliás. E essa líder sou eu, Joy. Você está aqui para batalhar comigo, criança insolente?

O último comentário saíra sem que tivesse travas na língua. Outrora se culparia, mas agora estava feliz por ter sido ríspida com a criança.

A menina maneou a cabeça e sorriu. Jogou o cabelo loiro para as costas e pegou uma Pokébola em seu bolso. O juiz já estava a postos. Joy foi a primeira a reagir.

- Staryu, eu escolho você!

A Pokébola fora jogada acima de sua cabeça. Staryu liberou-se com um giro no ar e suavemente pousou entre as pedras. A pedra no centro de seu corpo reluzia. Aquele Pokémon era especial – um presente de Misty no dia de seu casamento.

Outra Pokébola fora arremessada, dessa vez a menina jogara uma Pokébola azul com detalhes em vermelho, tal conhecida para facilitar a captura de Pokémon aquáticos.

- Fofinho, faça o seu melhor!

Da Pokébola um Buizel saltou.

- Três contra três pela insígnia de Pedra! Que comece a batalha!

Buizel fizera o primeiro movimento. Após o comando de sua treinadora, o Pokémon correu entre as pedras para o ataque investida. A velocidade do Pokémon era impressionante tratando-se de um Pokémon jovem e quase sem treinamento. Joy nada fizera, aguardara até o último minuto e estalou os dedos. Como em um passe de mágica, Staryu movimentara-se tão rápido que o ataque facilmente poderia ser confundido com um teletransporte. Em uma piscada, Staryu estava atrás de Buizel.

A menina gritou para seu Pokémon, que fez um salto em cima da hora para tentar pegar Staryu, que desviou. Buizel atingira a testa com força no chão de pedras e ficou tonto.

- Fofinho, não!

Joy sorriu.

- Isso é tudo que você tem? Me dê alguma coisa antes de eu acabar com isso.

Buizel levantara-se. Pulara de ponto ao outro no clássico ataque de time, tentando confundir Staryu. Mais uma vez tentou a investida em vão. A estrela desviou segundos antes do Pokémon se lançar contra o chão. Buizel já estava nitidamente atordoado.

- Fofinho, distancie de Staryu e lance as estrelas cadentes!

- Staryu, evasiva e derrube Buizel com seu jato d'água!

Buizel afastara-se e antes de poder soltar seu ataque de estrelas, Staryu pulou e soltou um poderoso Jato de água mirando nos pés do Pokémon. Ele fora tomado desprevenido e caiu com a cara no chão de pedra, ficando imóvel.

- Buizel está fora! Staryu é a vencedora.

A menina bufou, mas não se moveu. Retornou Buizel para a Pokébola e lançou seu próximo Pokémon.

- Floquinho, acabe com ela!

Marril fora liberado. Mais uma vez a pokébola utilizada era a azul facilitadora na captura de Pokémon aquático.

- Staryu, vamos acabar com essa palhaçada logo. Você sabe o que fazer.

Staryu girou em seu lugar e parou a poucos metros de distância de Joy. Estava parada, encarando Marril esperando seu ataque.

- Floquinho, investida e ataque de bolhas!

Marril correu contra Staryu ao mesmo tempo que lançava uma rajada de bolhas que espalhou-se por todo o ginásio. Staryu fora atingida, mas não se moveu. Estava fixa em seu lugar esperando pelo momento certo de agir.

O Pokémon parou de soltar bolhas e tomou mais velocidade. Saltou e já virava para usar seu peso para aumentar a força do ataque investida. Nesse momento Staryu girou no ar e soltou um poderoso e inesperado choque do trovão.

- Marril está fora! Staryu vence!

- Um choque do trovão... mas como isso é possível?

- Eu tenho alguns truques na manga – Informou Joy.

A menina não esperou. Lançara mais uma Pokébola no chão. O juiz levantara a bandeira e já ia se pronunciar contra o início da batalha quando Joy levantou a mão, pedindo para ele deixar. Era óbvio que ela já havia ganho, mas batalharia mesmo assim.

- Du, dê um socos nessa estrela idiota.

Joy sorriu quando Geodude moveu-se para atingir Staryu.

- Preciso te falar sobre os tipos de Pokémon, garota? Água tem vantagem sobre pedra.

Geodude investiu contra Staryu, só que ela fora rápida mais uma vez e desviara do ataque. Ainda no meio da euforia do ataque desviado, a menina gritou:

- Du, explosão!

A Staryu estava parada aguardando instruções. Joy estava parada olhando para o seu Pokémon. Havia tempo hábil para mandá-la se esconder ou abater Geodude com um jato de água antes dele fazer o ataque, mas o nome daquele ataque a tirou do ginásio por alguns segundos.

Enquanto o forte estrondo ecoou pelo ginásio, Joy lembrava do que vira há poucos dias: um Electrode ser massacrado em rede nacional pela ganância de um jovem. Ganancia igual a daquela menina. Seria possível?

Staryu fora arremessada para a parede do ginásio. Não fora necessário anúncio. Joy recolheu-a com sua Pokébola, retornando a realidade.

- Nunca mais use esse ataque, você me ouviu?

Joy gritava. Geodude estava abatido, mas ainda em pé.

- Mais uma vez que eu ficar sabendo que você desrespeitou seu Pokémon dessa forma, eu juro por Deus que caço você com os meus melhores Pokémon e não serão eles que estarão na batalha, mas sim você levando todos os tipos de ataque para saber o quanto isso é horrível, entendeu bem? Me entendeu?

Joy gritava. Havia perdido a noção do tempo e espaço. Estava cara a cara com a menina. Não sentira-se andando pelo ginásio, apenas estava lá. O juiz a segurava pedindo calma e a menina chorava.

- Agora suma daqui.

Joy desvinculou-se dos braços do Juiz enquanto a garota com seu Geodude saíram correndo do ginásio.

Por alguns segundos tudo ficou em silêncio, até o juiz falar:

- Senhora, acho melhor cancelar as batalhas do resto do dia. A senhora está nitidamente abalada pelos acontecimentos recentes.

- Um assassinato, Bob. Pode falar. Assassinato. É isso que nós, treinadores, fazemos. Assassinamos nossos Pokémon. É isso?

Joy sentou no chão do ginásio e concordou em cancelar todas as batalhas. Antes de pedir que Bob, o juiz, se retirasse, lembrou de algo que precisava de sua atenção e urgência no momento.

- Ligue para Misty, em Cerulean. Diga a ela que nós cometemos um erro terrível.