Item VI


A Descoberta


Esse item é sobre como eu, Marlene McKinnon, sou a criatura mais lerda vivendo sob a face da terra.

Pois é, neste capitulo eu vou contar para vocês o quanto eu sou burra. E não, não foi isso o que eu descobri, foi outra coisa ainda pior. Mas vamos lá:

Manhã de Quinta feira – 22 de dezembro de 1977

Pulei um tempão, né?

É que eu andei levando umas broncas da Lily que disse que eu precisava ser mais concisa e objetiva nesses relatos e segundo ela contar em detalhes como eu passei um mês e meio me agarrando com o Black em todos os cantos possíveis do castelo não é assim tão relevante para este estudo.

E isso é um exagero da parte dela se você quer saber, afinal nós não nos agarramos em TODOS os cantos possíveis do castelo, só quisemos quebrar o carma ruim dos lugares onde fomos cruelmente interrompidos... Claro que depois acabamos nos aventurando em outros locais, mas estamos bem cientes de que há muito ainda a ser explorado, Hogwarts é uma escola bem grande!

E nós não passamos um mês e meio só fazendo isso, nós tivemos outras ocupações, como por exemplo juntar casais! Isso mesmo, se Lily e James estão finalmente namorando é porque nós tivemos uma boa contribuição nisso, já que aqueles dois são incrivelmente teimosos. Mas agora eles estão juntos - e me provocando náuseas, é claro.

Sim, eu torci muito para que eles ficassem juntos e comemorei muito quando finalmente aconteceu, mas depois de mais de um mês vendo esse dengo todo eu não consigo mais segurar as reviradas de olho quando eles estão lá sendo fofos um com o outro, por mais bonitinho que seja. E era por isso eu estava um tanto relutante em aceitar ir com a Lily para a casa do James para passar o natal.

— Você sabe que eu moro a dez minutos da casa dele de qualquer jeito, não? E isso se você for andando...

— Eu sei, mas é não é a mesma coisa! - Lily insistiu.

Na verdade ela estava um pouquinho apavorada em conhecer os sogros, mesmo que todos já tivéssemos dito que os pais de James eram dois velhinhos fofos, uns amores de pessoa e incapazes de odiarem alguém como ela. Eu achava que a Lily ainda estava um pouco traumatizada com o que tinha acontecido com o idiota do Fawley, que havia terminado com ela por causa da família purista. Eu ainda tenho muita vontade de acertar um balaço no meio da cara dele por isso, e não posso deixar de sorrir ao lembrar que o Sirius realmente havia acertado um balaço nele. Aliás, eu nunca havia agradecido devidamente por isso, mas não era nada que eu não pudesse resolver antes das férias de natal...

Mas voltando, a verdade era que não era só a falta de vontade de segurar vela durante os feriados que estava me impedindo de aceitar logo o convite da Lily e do James, afinal até onde eu sabia os outros marotos também iam e era exatamente esse o problema, eu não sabia se o Sirius me queria lá.

Quer dizer, estava sendo muito bom ficar com ele e eu estava realmente surpresa com o quanto aquilo estava durando considerando que se tratava de nós dois, duas pessoas que nunca tiveram muita paciência para relacionamentos. Não que fosse um relacionamento, claro.

Nós nunca tivemos uma DR ou alguma conversa sobre isso, e era exatamente isso que tornava tudo tão bom. Quer dizer, era fácil: nós ficávamos juntos, era legal, era divertido, mas nunca falávamos sobre o futuro ou mesmo marcávamos um encontro para o dia seguinte... No outro dia simplesmente estávamos juntos de novo, e era ótimo!

Mas talvez passar feriados juntos fosse um pouco demais. E ele sabia que a Lily e o James tinham me convidado para passar o natal lá e não tinha dito uma única palavra sobre o assunto, então eu não tinha a menor ideia se ele queria ou não que eu fosse. Mas a Lily tinha uma opinião diferente sobre isso:

— Vai Lene, por favor! Além disso, o Sirius quer que você vá...

— Ele disse isso? - eu perguntei franzindo o cenho para ela.

Eu não sabia exatamente quando Lily e James descobriram sobre nós dois, mas um dia eles simplesmente nos pegaram no flagra e apenas deram de ombros e começaram a rir da nossa cara. A reação da Lily tinha sido surpreendentemente tranquila e por mais que ela dissesse que era porque estava conhecendo o Sirius melhor e não o achava mais tão ruim, o jeito que ela agia ainda me provocava desconfiança, parecia que ela sabia de algo que eu não sabia.

— Ele não disse, mas eu sei que ele quer. - ela respondeu sorrindo marotamente, ela realmente estava andando demais com aqueles garotos. Desde quando minha melhor amiga sorria daquele jeito quase diabólico? - Tenho certeza de que ele vai te convidar hoje a noite quando vocês estiverem se agarrando em algum armário de vassouras por aí...

— Você sabe que nós paramos com os armários de vassouras, e além disso como você sabe que eu vou encontrar com ele hoje a noite?

Lily se absteve de responder e revirou os olhos para mim. Havíamos chegado à sala de poções e James estava parado na porta esperando por ela, foi a minha vez de revirar os olhos quando eles deram as mãos para entrar na sala. E antes que eu pudesse entrar também, alguém me puxou pela cintura, me abraçando por trás.

— Oi – ouvi a voz de Sirius próxima do meu ouvido, o que me provocou um arrepio. Sabia que ele devia estar sorrindo marotamente e acabei sorrindo também.

— Oi.

— Sala de história da magia, depois do toque de recolher? - ele perguntou me beijando de leve no pescoço, me provocando.

— De novo? - eu perguntei erguendo uma sobrancelha no que ele me soltou e eu me virei para encará-lo constatando que ele estava sorrindo exatamente do jeito que eu imaginei.

— O que eu posso dizer? - ele deu de ombros. - Aquela sala tem sofrido com aulas insuportavelmente chatas do Binns por séculos eu acho, é muito carma ruim acumulado...

— Você tem toda razão, nós precisamos dar um jeito nisso! - eu respondi rindo no que ele me puxou para um beijo rápido antes de entrar na sala para a aula de poções.

Eu ainda sorria quando entrei na sala e Sirius foi se sentar na frente com Lily e James, Lily se virou brevemente para olhar para mim como quem dizia " eu sabia" e acabei indo me sentar no fundo da sala com a Alice, ainda me sentindo um tanto avoada quando o Slughorn começou a falar, o que eu podia fazer se o Black tinha esse efeito em mim?

Alice acabou me dando um cutucão quando percebeu que o professor estava olhando na nossa direção e voltei minha atenção para a aula, felizmente Slughorn resolveu não me dar uma bronca e apenas continuou a aula.

— Provavelmente vão se lembrar dessa poção da nossa aula inicial no ano passado, embora o perfume possa ter mudado para alguns de vocês...

Ele disse e com isso destampou um caldeirão pequeno que estava na mesa ao seu lado. Eu soube o que era mesmo antes que o cheiro impregnasse a sala, graças ao brilho perolado da poção e o jeito característico das aspirais que subiam do caldeirão: Amortentia.

Lily e James se entreolharam logo que ele destampou o caldeirão, deixando bem claro que tinham sentido o cheiro um do outro. Já eu constatei que Slughorn estava certo, o cheiro realmente mudava, pelo menos tinha mudado para mim.

Eu me lembro de no sexto ano ter sentido cheiro de chuva, terra molhada, das flores que cresciam em uma arvore perto de casa e que só exalavam aquele perfume a noite, dos biscoitos da minha avó quando ela tinha acabado de assar, ou seja, cheiro de casa.

Só que mais de um ano depois o cheiro tinha mudado um pouco, alguns permaneceram, mas agora tinha um cheiro novo bem forte: de cachorro. O que era bem estranho considerando que em casa nós tivemos mais de uma duzia de gatos, mas nenhum cachorro. Minha mãe sempre os detestou e nunca cedeu aos meus pedidos e dos meus irmãos para ter um.

E a poção agora também tinha um leve perfume amadeirado que era muito familiar, mas eu simplesmente não conseguia me lembrar onde havia sentido. E antes que eu pudesse me concentrar em tentar lembrar, Slughorn voltou a tampar o caldeirão percebendo que a maioria de seus alunos estava disperso demais como efeito da poção.

— Acho que já foi o suficiente para refrescar a memória dos senhores, afinal não é nessa poção que vamos trabalhar hoje. - ele disse no que eu pude ouvir alguns resmungos de alunos sentados mais a frente. - Quero que abram na página 143, onde estão as instruções para preparar o antídoto para essa poção, isso certamente será muito útil para vocês e não apenas para os N.I.E.M.s!

Eu dei ombros decidindo que descobrir a origem daquele perfume não era algo nem urgente e nem tão importante e abri o livro para começar a fazer aquele bendito antídoto. Mas claro que muito em breve eu descobriria que estava errada. Muito errada.


Bom, talvez não tão em breve assim, afinal na manhã do dia seguinte eu ainda não tinha descoberto nada, mas em minha defesa eu tinha mais com o que me preocupar, como por exemplo planejar o assassinato de Sirius Black!

Quem aquele cretino filho da puta pensava que era para se sentir no direito de me deixar plantada na sala de história da magia, sem dar nenhuma satisfação? Tinha sido ele quem tinha marcado a porra do encontro! Eu queria acertar um balaço no meio da cara dele, com força suficiente para derrubá-lo da vassoura e fazê-lo comer grama quando caísse de cara no chão!

Eu não estou exagerando, eu estava muito puta da vida e queria encontrá-lo para perguntar que merda ele tinha na cabeça! Mas infelizmente não estava fácil nada achá-lo, eu não o tinha visto na sala comunal e nem no café da manhã. Lily também não tinha descido comigo, ela havia voltado bem tarde para o dormitório na noite anterior, provavelmente porque tinha ficado se agarrando com o James e quando eu finalmente tinha conseguido acordá-la naquela manhã, ela já estava atrasada e me pediu para ir descendo que ela me encontraria na aula.

Lily chegou em cima da hora na nossa primeira aula que era de transfiguração, sendo seguida por James e Sirius. Os três olharam brevemente na minha direção antes de irem se sentar mais a frente. Estranhamente quando o meu olhar encontrou o de Sirius por um instante eu perdi a vontade de esmurrá-lo e no lugar disso apenas virei a cara. Depois senti uma leve pontada de arrependimento, ele estava com uma cara péssima, como se tivesse dormido ainda menos do que Lily, será que tinha acontecido alguma coisa? Talvez eu devesse perguntar...

Eu voltei a olhar na direção onde os três foram se sentar, ele estava olhando para trás e meu olhar encontrou o dele outra vez, estranhamente eu senti meu coração pular uma batida. Mas antes que eu pudesse começar a me perguntar o que raios estava acontecendo comigo, a Dorcas veio se sentar do meu lado. E me passou um bilhete que explicava exatamente o que o Sirius tinha andado aprontando enquanto me deixava esperando.

— Está tudo bem com você? - Lily perguntou quando me alcançou depois de eu ter saído as pressas da nossa ultima aula aquela tarde.

— Estou. - eu respondi. Claro que era mentira, mas naquele momento eu não sentia vontade de conversar com ninguém. Afinal se nem eu estava conseguindo entender o que eu estava sentindo, como é que eu podia tentar explicar para alguém?

E era quase um milagre que eu não tivesse acertado nenhum objeto no meio da cara do Sirius, ou feito um barraco e o xingado até a décima quinta geração. Pelo menos não ainda. Mas era bom que o meu auto controle não fosse testado.

— Então por que você está me evitando o dia todo e está com cara de que vai fazer uma besteira? - Lily perguntou me encarando de cenho franzido.

— Eu estou com essa cara porque estou tentando não fazer uma besteira! E acho que é por isso que nesse momento eu preciso ficar longe de todo mundo, até de você. E ah, eu definitivamente não vou ir passar o natal na casa do James com você! - eu disse de uma vez no que Lily pareceu um pouco assustada.

— Para me evitar?

— Não, não é isso. - eu respondi em meio a um suspiro, me sentindo de repente um pouco culpada com o jeito que a Lily reagiu. - É só que eu não quero perder os biscoitos da minha avó para passar o natal olhando para a cara sem vergonha de alguém que me deixa plantada esperando enquanto está por ai se agarrando com a Daphne Macmillan ou sei lá o quê!

É, para quem não queria falar no assunto eu falei até demais. Não que tivesse ajudado, aliás agora parecia que tinha uma bola se formando na minha garganta e senti meus olhos começando a arder. Só podia ser raiva, eu queria chorar de raiva daquele idiota! Não que eu fosse fazer isso, aquele cretino já tinha ferido demais o meu orgulho, então de jeito nenhum eu ia chorar por causa dele! Eu respirei fundo tentando me acalmar e voltei a olhar para Lily, ela ainda parecia um pouco receosa comigo.

— Lene, o Sirius não estava com a Daphne ontem. Ele bem... a deixou esperando também. - Lily disse no que foi a minha vez de franzir o cenho para ela, estávamos quase chegando ás escadas que levavam ao salão principal e eu acebei parando no meio do corredor, me recostando na parede ao lado de uma janela. - Aliás, ela deu o maior tapa nele no final da aula de transfiguração, você teria visto se não tivesse saído da sala praticamente correndo...

Eu parei por um momento tentando absorver a informação, e ao mesmo tempo esperando que Daphne tivesse batido com bastante força. Afinal se a Lily achava que me contar isso faria com que a minha raiva do Sirius diminuísse ela estava redondamente enganada.

— No mínimo ele deve ter encontrado outra pelo caminho e deixou as outras duas idiotas esperando... - eu disse em meio a um suspiro de impaciência, mas Lily apenas negou com a cabeça. - O que não é da minha conta, é claro. Ele não é meu namorado e pode sair com quem ele quiser, ele só podia ter a decência de...

— Ele não estava com nenhuma garota ontem a noite, ele estava comigo e com o James. - Lily disse de uma vez no que meu queixo caiu.

— Como assim, com você e com o James? Vocês estavam fazendo algum ménage à trois por acaso?

— Não! Que nojo! - Lily me respondeu em meio a uma careta. - Nós estávamos só conversando!

— Conversando? - eu voltei a franzir o cenho, de repente voltando a ficar bem irritada. - Imagino que a conversa devia estar mesmo muito boa! Lily, você tem alguma coisa para me dizer?

Eu perguntei a encarando atentamente, mas Lily apenas deu de ombros em meio a uma careta que dizia claramente que ela não ia me explicar o que estava acontecendo.

— Ótimo! Não precisa me contar!

— Lene... - Lily começou a dizer, mas eu a interrompi.

— Deixa Lily, eu preciso ficar sozinha.

E com isso eu a deixei no corredor e sai apressada para o lado contrário.


Enquanto eu andava pelo castelo aquela tarde procurando algum lugar que não me lembrasse do Black e onde eu pudesse ficar um pouco sozinha eu comecei a dar a razão para a Lily, nós realmente havíamos usado uma quantidade impressionante de cômodos naquele castelo! Mas por fim eu acabei encontrando um que não havia sido maculado.

E então lá estava eu, pensando na vida, enquanto encarava a superfície do lago que tinha algumas camadas de gelo se formando em cima dele. Era provável que deviam ter algumas camadas de gelo se formando em cima de mim também, mas pelo menos eu tinha sossego.

Por que eu estava me sentindo daquele jeito? Era só orgulho ferido, raiva com a falta de consideração dele? Afinal nós eramos amigos antes, não havia sido ele quem tinha dito que nada atrapalharia a amizade? Se ele queria ficar com outra pessoa ele devia ter a consideração de não marcar um encontro comigo no mesmo dia! Afinal, era o que ele devia ter feito durante aquele mês e meio, não?

Eu não tinha ficado com mais ninguém porq... bom, porque não tinha sentido vontade, mas de jeito nenhum eu achava que ele tinha ficado só comigo aquele tempo todo! Não eu que tivesse ficado sabendo de alguma outra garota, o que parando para pensar era bem estranho, afinal bastou ele ter marcado um encontro com a Daphne para eu ficar sabendo no dia seguinte...

Deixei escapar um longo suspiro, que fez formar uma nuvem de fumaça na minha frente por causa do frio. Aquilo não estava ajudando, eu só estava conseguindo ficar ainda mais confusa do que já estava antes. E tinha uma outra possibilidade, e era a que mais me doía pensar, mesmo que eu não soubesse o porquê: a de que Sirius simplesmente não queria mais ficar comigo e esse era o jeito dele de "terminar comigo".

Claro que se fosse isso, ele definitivamente era mais idiota do que eu pensava ( e quem estava perdendo era ele de qualquer jeito), mas mesmo assim essa possibilidade me incomodava bastante. Devia ser o orgulho ferido, só podia...

Mas antes de pudesse pensar mais a respeito, meus devaneios foram interrompidos pelo Hagrid ( aparentemente nem quase congelando eu teria sossego) que veio perguntar o que eu estava fazendo ali fora com aquele tempo e quando já estava na hora do jantar. Ele tinha um embrulho de cobertores no colo e quando eu perguntei o que era mais para desviar do assunto, ele me mostrou um filhote de cachorro embrulhado. Ele era tão fofo! Olhando para aquele filhote eu comecei a entender porque Amortentia para mim tinha cheiro de cachorro, não tinha como não amar umas coisinhas lindas como aquela! E agora que eu estava quase me formando eu finalmente poderia sair da casa da minha mãe e ter um!

Esse pensamento me animou um pouco e eu resolvi voltar para o castelo. Hagrid me convidou para tomar chá com ele, mas eu e Lily já havíamos feito a besteira de aceitar uma vez no terceiro ano e por experiência eu sabia que meus dentes não sobreviveriam a um segundo encontro com aqueles biscoitos.

Eu voltei para o castelo e parei por um tempinho no salão principal para comer alguma coisa, estranhamente não vi Lily ou Alice e quase ninguém do minha turma. E quando eu entrei no salão comunal eu entendi o porquê: Alguém (provavelmente James e cia) tinha resolvido dar uma festa de despedida antes que fossemos para casa para o natal. Logo que eu entrei fui surpreendida pela música e alguém colocou um copo com quentão na minha mão.

Olhando em volta pela sala comunal percebi que alguém ( provavelmente os dois monitores chefes) deviam ter mandado os alunos mais novos irem dormir antes de começar a festa, embora por algum motivo Eloise Milligan e aquele garoto Nathan que vive me cobrando aulas de Quadribol tivessem conseguido ficar. Mas estavam sendo vigiados de perto por Lily para não beberem nada que fosse alcoólico. Logo que ela me viu, ela parou de vigiar os dois e veio falar comigo.

— Lene, eu...

— Tudo bem Lily, eu não estou com raiva de você. - eu disse prevendo que ela ia começar a tagarelar de forma incontrolável, que é o que ela sempre faz quando quer pedir desculpas, mesmo quando não tem culpa de nada.

— Não? - ele perguntou franzindo o cenho surpresa.

— Não, estou com raiva de mim. Mas você me conhece, eu sou maravilhosa, então não vou conseguir me odiar por muito tempo. - eu dei de ombros e acabei abrindo um sorriso para ela no que ela retribuiu.

— E você ainda está tentando se conter para não fazer uma besteira? - ela perguntou cautelosa enquanto desviava o olhar do meu rosto para o copo de bebida na minha mão.

— Estou, por isso eu vou ficar ali perto da Alice. Se eu não conseguir me segurar, ela segura. - eu disse e com um ultimo sorriso para a Lily fui me sentar ao lado de Alice em um sofá que tinha sido empurrado para o canto do salão comunal.

Alice estava conversando com um garoto do sexto ano que estava sentado no braço no sofá e até agora eu não consigo me lembrar do nome dele, mas acho que era primo dela. Talvez fosse August, ou Oliver, ah realmente não importa!

— Onde você estava? Eu mal te vi o dia todo. - Alice comentou quando eu me espremi no sofá entre ela e uma garota ruiva do quinto ano. O garoto que eu não sei o nome me olhou fixamente logo que eu me sentei. E os olhos verdes dele até que eram bonitos.

— Estava pensando na vida. - eu respondi tomando um novo gole de quentão.

— O dia todo? - Alice perguntou. Senti a garota ruiva se levantar ao meu lado, graças a Morgana! Ela era bem espaçosa e estava me espremendo!

— Bom, você sabe que eu não faço muito disso. - eu dei de ombros para a pergunta da Alice. - Então eu tinha muita coisa acumulada para pensar.

O garoto abriu um sorriso para mim e eu retribuí. O sorriso dele também era bonito. Foi quando eu senti que outra pessoa havia tomado o lugar da garota ruiva, alguém ainda mais espaçoso do que ela. E quando eu me virei para expressar a minha indignação, dei de cara com o Black. Eu quase não acreditava na cara de pau dele de vir se sentar no meu lado depois do que ele havia feito. A cara dele ainda não era das melhores e ele fez menção de abrir a boca para dizer algo, mas antes que ele falasse eu virei o rosto e voltei a olhar para Alice e o primo, ao mesmo tempo em que virava o resto do quentão na boca.

Alice agora estava olhando para James e Lily abraçados, meio que dançando uma música lenta no canto oposto do salão. Pela primeira vez em algum tempo eu não quis revirar os olhos para o dengo daqueles dois, eles estavam fofos daquele jeito. Alice aparentemente concordava comigo, mas tinha outra maneira de expressar:

— Eu estou com tanta saudade do Frank! - ela disse um tanto chorosa no que dessa vez eu não pude evitar de revirar os olhos.

— Você vai vê-lo amanhã!

— E eu vou ver você o encontrando amanhã, já estou enjoado! - o garoto resmungou no que Alice deu uma cotovelada nele. - Ai! Você sabe que vocês são melosos, sua amiga com certeza vai concordar comigo.

— Na verdade não. - eu respondi com sinceridade. - Alice e Frank são fofos.

— Você está mesmo falando sério? - Alice perguntou franzindo o cenho no que eu apenas concordei com a cabeça. - Bom, obrigada. É um grande elogio vindo de você...

— Por que "um grande elogio" vindo de mim? - eu perguntei com curiosidade. Estava fazendo o possível para ignorar o Black que continuava sentado do meu lado, mas eu tinha certeza de que ele estava com a perna encostada na minha de propósito. Se eu já não tivesse bebido todo o quentão teria jogado a bebida nele para ver se ele se tocava.

— Bom, você é um pouco cínica com relacionamentos, não é Lene? - Alice disse um tanto receosa e eu percebi Sirius expressar um ruído em concordância ao meu lado no que eu me segurei para não dar um soco na cara dele.

— Você pode ir pegar outra bebida para mim? - eu perguntei sorrindo para o primo da Alice, que prontamente se levantou. Se Sirius continuasse me provocando ele ia levar um banho de quentão! Logo que o garoto se levantou eu me voltei para a Alice - Bom, eu admito que sou um pouco cínica sim, mas é só quando o casal em questão é um saco. Como a Lily com o Fawley ou a Dorcas com aquele Sebastian, você lembra que eu nunca gostei dele.

— Isso é verdade. - Alice concordou. - Acho que você tem um bom termômetro para namoros.

— Cortesia dos meus pais. - eu dei de ombros no que Alice me olhou com curiosidade.

Acho que eu nunca tinha contado para ela a história de como meus pais se apaixonaram, o que não era surpresa já que eu não ando exatamente contando isso para todo mundo. Mas é uma história bem bonitinha: Minha é mãe é trouxa e era repórter de um jornal em Londres quando acabou descobrindo o que não devia sobre o nosso mundo, e meu pai trabalhava no ministério da magia. Ele devia ter apagado a memoria dela, mas não conseguiu. E ela acabou não escrevendo a matéria da sua vida expondo toda a sociedade bruxa depois que o conheceu. Uma história bonitinha, como eu disse. E hoje eles tem cinco filhos e vão completar 26 anos de casamento. Talvez a Alice estivesse certa, depois de ter passado a vida vendo como o relacionamento dos meus pais dava certo apesar das diferenças eu devia ter desenvolvido um bom termômetro para identificar o tipo de namoro que ia dar errado.

— Ah Lene, que lindos! - disse Alice quando terminei de contar a história. Sirius tinha ficado incrivelmente quieto do meu lado enquanto em contava, o que foi uma sorte para ele, não sei eu teria conseguido me conter se ele tivesse me atrapalhado. O primo da Alice tinha voltado com minha bebida e me entregou o copo, voltando a se sentar no braço do sofá. Alice ainda estava encantada com o que eu tinha contado sobre os meus pais. - E quando você começou a falar eu jurava que você ia vir com alguma história envolvendo um caminhão de bosta de dragão ou algo do tipo...

— Alice, você sabe que o caminhão de merda é só no sentido figurado, não sabe? - eu perguntei no que Alice fez cara de quem não estava entendendo nada. - Não é literalmente arrastar um caminhão de bosta de dragão, ou talvez uma frota. - eu acrescentei me lembrando do que Sirius disse uma vez e pude sentir que os olhos dele estavam fixos em mim. Dei um gole na bebida que o garoto havia me trazido, e em meio a um careta reparei que não era quentão e sim firewhisky. Como é que tinham conseguido contrabandear tanta bebida assim? - A droga do caminhão pode ser quase perder o emprego e ainda arriscar expor toda a sociedade bruxa por uma garota. Ou escrever uma carta por dia para o namorado, é Alice, não pense que eu não notei. Ou levar um fora por dia durante anos com um sorriso no rosto...

Eu dei outro gole na bebida ao mesmo tempo que indiquei James e Lily que continuavam abraçados enquanto sorriam de forma idiota um para o outro.

— Para quem olha de fora parece algo estúpido e exaustivo, como se você realmente estivesse arrastando um caminhão de merda. Mas para você não é nada, você mal nota...

— A comparação ainda não é muito animadora para mim. - o garoto disse no que Alice olhou de cara feia para ele. - Quer dizer, pode acabar dando tudo errado e o caminhão tombar em cima de você.

— Pode, não é sempre que dá certo. Mas ás vezes vale a pena. - eu voltei a olhar para James e Lily que agora se beijavam sem conseguir evitar de sorrir.

Não acredito que realmente estávamos tendo aquela conversa, acho que eu já devia ter bebido demais. Misturar quentão com firewhisky não devia prestar... Alice devia concordar comigo, já que tomou o copo da mão do primo e foi jogar fora sob os protestos do mesmo que a seguiu. Enquanto falava aquela baboseira toda eu quase tinha esquecido de Sirius sentado do meu lado.

Ok, mentira. Eu estava bem consciente de que ele estava ali o tempo todo, ainda mais sentindo que ele me olhava intensamente todo o tempo. Mas quando voltei a olhar para ele depois que Alice e o primo se afastaram, vi que ele não me encarava mais e parecia bem concentrado em alguma coisa no chão. Eu esbarrei meu joelho no dele de propósito.

— Aqui. - eu disse oferecendo o copo de bebida quando ele ergueu a cabeça para me olhar.

— Por que está me dando isso? - ele perguntou franzindo o cenho, mas mesmo assim aceitou o copo. - Está envenenado?

— É para ver se melhora essa sua cara de cachorro sem dono. - eu disse enquanto revirava os olhos me abstendo de responder à provocação dele. - Esse não é tão bom quanto aquele que você tem no malão, mas talvez te ajude a se sentir melhor, seja lá o que for que você tem...

— Eu estou bem. - ele respondeu bebendo um gole do firewhisky.

— Não, você não está. - eu retruquei sem encará-lo, mesmo assim podia sentir os olhos dele fixos em mim.

— Como voc...

— Também sei quando você mente para mim. - eu o interrompi em meio a um dar de ombros e depois o encarei. Além disso não era normal ele ficar tão quieto. Os olhos dele brilhavam de um jeito esquisito enquanto ele me olhava de um jeito que eu nunca tinha visto antes. Devia ser efeito da bebida, só podia. - Mas você nem de longe fica tão bonito quanto eu fico.

Ele riu, aquela risada estúpida que parecia um latido. O que me provocou um súbito aperto no coração, como eu podia ter sentido tanta falta daquela risada idiota em apenas um dia?

— Você também não está bem. - ele constatou quando eu desviei o olhar dele, eu não respondi. Nós dois sabíamos que era verdade. - Você está puta comigo.

— Estou mais para a dona do puteiro se você quer saber... - eu disse tomando o copo da mão dele e virando o resto do firewhisky. Quando voltei a encará-lo percebi que ele sorria. - E se você disser que eu fico linda irritada eu juro que vou enfiar a sua cabeça naquela lareira. E sem pó de flu!

— Eu não ousaria. - ele disse exibindo aquele sorriso torto no que eu acabei esboçando um meio sorriso contrariado. - Mas queria saber se você não quer subir para conversar. - ele indicou a escada no dormitório masculino no que eu franzi o cenho para ele.

— Não podemos conversar aqui?

— Eu me sinto mais seguro longe da lareira... - Sirius disse em meio a um suspiro e mesmo um pouco contrariada eu me levantei do sofá. Um pouco cambaleante, mas mesmo assim ainda estava em pé.

— Eu sou uma bruxa e posso tacar fogo em você em qualquer lugar, Black! - ele riu saímos discretamente da sala comunal para ir para o dormitório dele.

Eu ainda estava meio tonta enquanto subia as escadas, mas mesmo assim não aceitei ajuda para subir quando ele ofereceu. Eu entrei no quarto depois dele, e me recostei na porta, a fechando ao mesmo tempo em que cruzava os braços na frente do peito, esperando que ele começasse a falar. Sirius me encarou parecendo sem saber como começar, e então passou a mão pelos cabelos em um gesto de nervosismo.

— Olha, eu sei que você provavelmente quer me dar um tapa, ou vários, ou realmente tacar fogo em mim...

— Tapas. - eu concordei - Especialmente se eu puder bater no mesmo lado que a Daphne Macmillan bateu.

— Sobre isso eu...

— Não é da minha conta. - eu interrompi encarando o chão. - Eu só prefiro não ser feita de idiota esperando por v...

— Lene, é da sua conta sim. - foi a vez dele me interromper no que eu voltei a encará-lo. Os olhos cinzentos dele me encaravam intensamente, não muito diferente do jeito que ele estava lá em baixo no salão comunal. Só então reparei no quanto ele parecia vulnerável, e que eu nunca o havia visto daquele jeito. O choque foi tão grande que eu até esqueci de brigar com ele por me chamar de Lene. - Eu sei que eu me comportei como um babaca com você, mas não foi de propósito. Eu só não pensei...

— Você é muito bom nisso. - eu disse a contragosto.

— Você nem imagina o quanto. - Sirius deixou transparecer um meio sorriso. - Mas a ultima coisa que eu quis foi te fazer de idiota. Me desculpa.

Ele me encarou com expectativa, mas eu me abstive de responder e desviei o olhar para o chão outra vez. Percebi que ele se aproximou de mim, caminhou hesitante até que eu pude ver seus sapatos na frente dos meus.

— Suponho que tem algum motivo para o que você fez. - eu disse.

— Tem. - Sirius respondeu em meio a um suspiro.

— E suponho também que você não vai me contar que motivo foi esse. - eu ergui os olhos para ele, e pela expressão no rosto dele eu tive certeza de que minha afirmação estava correta. Foi minha vez de deixar escapar um suspiro. - Ok, eu já esperava por isso!

Eu me movi, decidida a abrir a porta do dormitório e ir embora dali, mas ele me impediu.

— Lene, espera. - Sirius disse segurando a porta. - Eu sei que desse jeito é difícil para você confiar em mim...

— Ainda bem que você reconhece! - eu retruquei com sarcasmo, mas Sirius não me deu atenção.

— Eu vou te contar a verdade, mas não agora. - ele disse em meio a um suspiro.

Eu voltei a encará-lo, ele estava com aquela mesma expressão outra vez. E eu percebi tarde demais que vê-lo daquele jeito me provocava sensações estranhas, como um aperto no peito e uma vontade insana de chegar mais perto dele, abracá-lo, beijá-lo, era quase como se as minhas mãos formigassem pedindo pelo contato. E eu também percebi outra coisa, eu não estava só brincando quando disse na sala comunal que sabia quando ele estava mentindo para mim. De algum jeito eu realmente sabia.

E ele não estava, eu realmente acreditava nele.

— Se você quiser eu até juro que vou te contar, eu quero contar! Eu só n...

Não estava pronto ainda. Eu quase podia ouvir a frase na minha cabeça e sabia o quanto estava sendo difícil para ele me dizer aquilo, então resolvi poupá-lo.

— Tudo bem. - eu disse em meio a um suspiro enquanto tocava levemente o braço dele que ainda segurava a porta. - Acho que eu posso esperar.

Eu disse com um meio sorriso no que Sirius me encarou quase sem acreditar.

— Sério?

— Sério. - eu disse no que ele abriu um sorriso enorme, parecendo muito aliviado. - Mas não ouse fazer algo idiota assim de novo, ou eu juro que eu v...

Eu não pude terminar a ameaça, já que ele me puxou pela cintura e me beijou. Eu gostaria de dizer que tentei interromper o beijo e afastá-lo, ou mesmo que o meu orgulho não permitiu que eu correspondesse, mas eu não estaria engando ninguém. Talvez fosse a bebida que estivesse comprometendo a minha determinação de afastá-lo, ou talvez eu só estivesse sentindo uma saudade desgraçada daquele idiota.

Era como se eu tivesse algo quebrado por dentro que só ele podia consertar. E além disso eu também percebi que aquele dormitório era só mais um ambiente que estava impregnado com lembranças dos momentos que passei com ele, então era bem difícil resistir. Então eu nem ao menos tentei e como tantas outras vezes me deixei levar.

E como tantas outras vezes, uma coisa levou a outra e algum tempo depois estávamos deitados na cama dele, eu de lado e ele me abraçando por trás. Havíamos fechado o cortinado da cama dele, mas mesmo assim eu torcia para que nenhum dos garotos resolvesse entrar. Eu estava um tanto sonolenta e com o corpo um tanto entorpecido, mas mesmo assim me movi preguiçosamente para sair da cama e ir embora dali. E teria ido, se ele não tivesse voltado a me puxar pela cintura ao mesmo tempo em que afundava o rosto no meu cabelo.

— Fique. - Sirius pediu.

Foi a única palavra que ele disse, mas fez meu coração perder uma batida e não pude evitar de sorrir. Voltei a me aconchegar nos braços dele, e senti Sirius me dar um leve beijo no ombro antes de puxar uma coberta para cima de nós.


Acharam que eu tinha esquecido da descoberta, não? Talvez depois dessa treta toda vocês tenham esquecido, mas não eu. E de qualquer jeito ela só aconteceu na manhã seguinte:

Quando eu acordei no outro dia, eu estava me sentindo surpreendentemente bem. Nada de dor de cabeça por causa da bebida e nem nada. Enquanto permanecia de olhos fechados naquela cama quentinha estava apenas constatando que o que diziam sobre sexo depois de uma briga era totalmente verdade. Era muito melhor.

E não, também não foi isso o que eu descobri.

Eu tateei pela cama constatando que Sirius não estava mais ali, mas eu não estava preocupada com isso naquele momento. Talvez eu apenas devesse voltar a dormir, aquela cama era tão gostosa, tinha aquele perfume amadeirado, era tão bom...

Foi nesse momento que eu praticamente pulei sentada na cama, por pouco não deixando escapar um grito. Meu coração parecia que ia explodir dentro do peito. Eu peguei o travesseiro e o cheirei, constatando que estava impregnado com aquele perfume, que é claro, era o mesmo do seu dono.

O perfume que eu tinha sentido na Amortentia.

É foi isso que eu descobri.

E "puta merda" foi a única coisa que eu consegui dizer naquele momento.


N/A: Olá pessoas, tudo bem?

Muito obrigada a todos que estão acompanhando e em especial a McKinnon love dogs, Ani Evans, LuaBloom e Mylle Malfoy P.W que deixaram comentários, fico muito feliz em saber que estão gostando!

Diferente da fic irmã dessa aqui( Teoria Geral de James Potter) essa fic não está concluída ainda, então o próximo capítulo vai demorar um pouco mais para ser postado, mas assim que der eu posto aqui.

Beijos e até o próximo!