VII.

Naquela manhã ela não teve forças para ir trabalhar. A cabeça doía, o corpo pedia para ficar na cama. Walter veio examiná-la: apresentava a já conhecida febre baixa. Recomendou repouso. Trocou também um olhar rápido com Peter. Os dois ficaram confabulando no corredor. Ela permaneceu encolhida, debaixo das cobertas. O frio e o sono disputavam a primazia sobre ela. Dormiu pesadamente, sem sonhos, sem aflições. Acordou com Astrid a seu lado. Ficou bastante surpresa. Favoravelmente surpresa. Sentou-se na cama.

-Onde está Peter?

-No laboratório, com Walter. Eu me ofereci para ficar aqui, com você.

-Obrigada, Astrid. Você é uma boa amiga.

Ela ficou calada, apenas com um sorriso nos lábios. Deixou Astrid iniciar a conversa, sabia que ela não estava ali por mero acaso.

-Seu sonho, Olivia. Aquele do tarô. Não sai da minha cabeça.

Sorriu e retrucou com um bom humor que beirava o sarcasmo:

-Nem da minha, pode acreditar. Foi algo muito estranho.Não sei de onde veio tudo aquilo.

-Acho que o jogo era de Peter, mas a chave de tudo é você.

-Eu? Ou ela? Às vezes sonho e não sei se sou eu ou ela quem está ali. É extremamente desconfortável.

-Acredito. Mas tenho certeza que no jogo que apareceu em seu sonho, a carta da Força está relacionada a você. Ela evoca coragem, energia, capacidade de realização. E entre nós, é você quem possui tais qualidades. Você faz as coisas acontecerem, porque tem a capacidade de resistência, de percepção e dons inigualáveis. A outra Olivia não é assim.

-E as outras cartas?

-Como já disse anteriormente, acho que o mago evoca Walter. O Mago tem o poder sobre os quatro elementos, está ligado ao número oito –símbolo do infinito- e, segundo a tradição evoca Hermes Trismegisto. Trata-se de um arcano intimamente relacionado ao caminho esotérico,o que pode encontrar uma correspondência com o tipo de abordagem científica utilizada por Walter, pouco convencional, mas brilhante.

Olivia achava aquela conversa um esquisita. Era estranho que alguém como Astrid se interessasse por tarô. Mais estranho ainda, era que ela que não se interessava e pouco conhecia, tivesse sonhado com tudo aquilo. Astrid prosseguiu:

-A carta dos Enamorados, ou dos Amantes, como alguns preferem, também apareceu no jogo. Ela parece revelar a sua opinião sobre os sentimentos de Peter neste exato momento.

Olivia enrijeceu os ombros. Temia o resto da explicação, não sabia ao certo o porquê. Mas a verdade era necessária, por mais desconcertante que fosse.

-Continue, por favor. –ela pediu com uma voz abafada.

-Trata-se de um arcano que evoca a dúvida, a hesitação diante de uma decisão. Tem muita relação com o que vocês estão vivendo. Não quero dizer que Peter está dividido, quero dizer que você o percebe assim. É o jogo dele em seu sonho, nunca se esqueça disso, Olivia. É a sua percepção dos fatos.

Ela permaneceu em silêncio. A divisão, a hesitação, a necessidade de escolher realmente eram, em sua mente, indissociáveis da figura de Peter. Duas versões da mesma mulher, dois universos, dois pais, tudo no caminho de Peter convergia para uma bifurcação. Ela temia o resultado dessas escolhas.

-A última carta, com o Enforcado. Um arcano muito complexo, não sei se consego dar conta dele. O tarô interpreta os arcanos e estabelece uma relação entre eles. Não possuo tal conhecimento. Mas acredito que ele esteja relacionado aos segredos desvendados, à necessidade de mudança e, consequentemente, de algum sacrifício.

-Não quero que Peter sofra nada. – o tom de sua voz mostrava pânico.

-Eu sei Olivia, estamos falando apenas de um sonho.

-Ninguém entende, Astrid. Eu o amo muito, há bastante tempo. Não consigo entender como chegamos a esse ponto. Estou ao lado dele, mas ao mesmo tempo não estou. Não sei o que ele pensa, se gosta mesmo de mim, ou se fica ao meu lado por uma espécie de obrigação. Eles têm um filho, Astrid. Não é algo fácil de se conviver. Dói muito olhar para os três juntos. Cada dia sofro a tentação de largar tudo, ir embora para outro lugar onde ninguém me conheça. Mas não sei por que razão, mas acabo ficando. Desprezo a mim mesma pela fraqueza de não confrontá-lo; de não dizer a ela tudo o que gostaria. Vivo engasgada. Algo está atravessado em minha garganta, oprimindo meu peito, perturbando o meu sono. Eu não sei o que é. Não sei se teria a coragem para encarar tudo de frente. A minha coragem parece esgotada.

-Calma, Olivia. Tudo vai ser solucionado.

Olivia respirou fundo. Levantou-se da cama. Parecia mais aliviada.

-Vou tomar um banho e me vestir. Preciso ir a um lugar.

-Quer que eu a acompanhe?

-Não, obrigada. É algo que eu preciso fazer sozinha. Mas nossa conversa foi de grande ajuda. Nunca vou me esquecer da grande amiga que você é, Astrid.


Vestiu um jeans, camiseta branca e uma jaqueta . Tomou um copo de leite. Não tinha apetite, mas seu estômago não podia ficar vazio. Procurou o número no celular.

-Frank?

-Sim. É você Olivia?- a voz dele era amável, mostrava uma certa expectativa.

-Preciso muito falar com você...

-Sem problemas. Podemos almoçar juntos. Você pode me pegar no hospital?

-Chego aí em meia hora, no máximo.

Frank Stanton não estava surpreso. Seu instinto lhe dizia que Olivia Dunham não daria continuidade ao tratamento com o doutor Garnett, mas que ele não a perderia de vista. Naquele caso de amnésia, havia algo de muito sério oculto; as pessoas que a rodeavam e talvez ela própria, temiam desenterrar alguma coisa dolorosa. Mas o médico sentia que fosse o que fosse, estava cada vez mais próximo da superfície. Cedo ou tarde, a verdade gritaria, e ele pressentia que os ouvidos de Peter Bishop seriam os mais afetados.