"Me desculpa."
"Não é nada demais."
"Você está bem?"
"Sim."
Wilson e Kate começaram a namorar no ano novo, eles viajaram juntos pra Califórnia e só voltaram na segunda semana de Janeiro, quando Kate voltou à trabalhar e Wilson foi para a Europa em uma conferência.
Cuddy evitou as ligações de Wilson durante todo o final de ano, mandou apenas uma mensagem de feliz ano novo e depois uma desejando boa sorte na viagem, ela manteve o noivado em segredo até ele voltar, quase um mês depois.
Era dia dos namorados quando ela decidiu que todos deveriam saber de seu casamento e colocou, pela primeira vez, a aliança de noivado no trabalho, atraindo olhares curiosos, principalmente de Kate.
"Você não acha que está cedo pra casar? Digo, vocês nem se conhecem direito…"
"Conhecer muito uma pessoa é pior, acredite em mim."
Cuddy tratava o casamento como uma comodidade, eles seriam legalmente marido e mulher, morariam juntos, Rachel teria um pai e ela teria alguém pra cuidar dela quando estivesse magoada ou precisando de carinho. A ideia de casamento por amor já tinha desaparecido de seus sonhos faz tempo.
Quando Wilson soube de seu noivado, sentiu uma mistura de sentimentos, como se fosse ele quem estava perdendo a noiva. Ele só conseguia pensar em como House reagiria a isso e achou que deveria telefonar para avisá-lo, por mais doloroso que fosse.
"Eu não acredito que você está me ligando no dia dos namorados. Você não deveria estar com a Kate? Ou talvez vocês queiram fazer um ménage.."
"House, eu preciso falar com você, é um assunto sério."
"Relaxa Wilson, sei que você está cheio de coisas pra me contar sobre a viagem, mas podemos fazer isso amanhã."
"A Cuddy vai se casar."
Ele apenas disse, sem esperar ou se preparar, ele não iria conseguir de qualquer maneira, achou que dizer de uma vez seria mais fácil. Não foi, muito pelo contrário, a respiração agitada e o silêncio do outro lado da linha o deixaram completamente assustado.
"House?"
Era como se o mundo desabasse diante dele, acompanhado daquela terrível sensação de perda. Sua perna doía, mais do que nunca, de um jeito quase insuportável. Ele estava sem reação, sem saber explicar o que estava sentindo. Wilson pediu desculpas e ele disse que estava bem, mas assim que desligou saiu vagando sem rumo pela praia.
Quando ele andava, dissipava sua dor, mas dessa vez era muito maior que enganar sua perna, a dor em seu coração estava ligada a seu consciente, ele não conseguia simplesmente não pensar que ela iria se casar.
A água gelada do mar batia em seus pés, ele andava contra o vento, deixando as marcas da bengala na areia.
Sua respiração lenta tentava acalmar seu coração e todas as emoções que ele estava segurando. Tentava se distrair repirando fundo e olhando as ondas, essa paz vinda do mar era tão característica de seus dias com Cuddy, ele sentia uma segurança tão gostosa quando estava ao lado dela.
Felicidade de repente fazia sentido, sem esforço ou nenhuma tentativa frustrada, simplesmente acontecia. Era fácil perceber que ela era sua felicidade.
Durante todos esses meses ele esteve cercado de gente e continuou sozinho, como se faltasse algo dentro dele, que doía o suficiente pra ele poder diagnosticar. A peça que faltava pra completar seu coração talvez nunca mais fosse encaixar.
Nesse momento existia apenas ele e sua escuridão.
Enquanto caminhava pensou em tudo que deveria ter feito, em tudo que deveria ter dito, estava arrependido por não ter lutado e com raiva de si mesmo por seu medo de sofrer.
Nenhuma dor seria maior que essa, era humanamente impossível. Da última vez ela foi corajosa o suficiente pra ir atrás dele, ela simplesmente mudou o curso de sua vida pra tentar ser feliz com ele. E agora? O que ele faria por ela? Por eles?
House se perguntava se em algum lugar do coração dela ainda existiam eles.
E se ela tivesse chance de ser feliz com outra pessoa? Seria egoísmo dele deixá-la ir?
Ela poderia ter uma família, um pai pra Rachel, poderia sorrir ao invés de sofrer, ter alguém em sua vida constantemente, sem medo, sem dor. Isso não seria uma coisa difícil, qualquer homem apaixonado faria qualquer coisa para vê-la sorrir. Ninguém, além dele, desperdiçaria uma chance única assim.
Ele estragou o relacionamento e jogou tudo pro alto porque foi ridiculamente estúpido em pensar que ela sempre perdoaria qualquer coisa que ele fizesse, mas essa forma de pensar foi cultivada pelo jeito em que ela sempre o tratou, era culpa dela também.
Sua cabeça estava a mil com seus pensamentos quando ele finalmente decidiu que já era hora de tomar uma atitude corajosa.
Cuddy estava de plantão com uma paciente aquela noite e passaria o dia dos namorados sozinha, no meio de flores e cartões. Ela recebeu nove buquês de flores, que representavam os nove meses de namoro.
Wilson e Kate passaram por lá antes de saírem para comemorar, ele precisava entregar alguns papéis para ela assinar e não poderia se atrasar com isso.
Ela estava um pouco ocupada naquele momento mas prometeu deixar tudo pronto na mesa do Wilson assim que conseguisse assinar, não queria fazê-los esperar e atrasar a noite.
Eles agradeceram e Wilson roubou um buquê para Kate, trazendo a imagem de House imediatamente para todos os pensamentos.
Fazer uma coisa dessas era tão House que os três riram juntos.
Durante aquela noite fria, Cuddy trabalhou exaustivamente, até ter um tempo de acertar os documentos que Wilson havia pedido para ela assinar. Como ela iria embora cedo na manhã seguinte, decidiu deixar os documentos em sua sala. As luzes daquele corredor já estavam escuras quando ela abriu a porta e foi em direção à sua mesa, deixando os documentos silenciosamente, até levar um susto com a altura do toque do telefone.
Tocou uma, duas, três vezes e ela preferiu deixar na caixa postal, poderia ser algum telefonema pessoal para Wilson e era não queria se intrometer.
Quando já estava quase saindo..
Seu coração disparou e seu corpo inteiro reagiu àquela voz, mesmo depois de nove meses sem falar com ele, sua voz continuava controlando cada reação dela.
Hey Wilson, eu preciso falar com você, liguei no celular e em casa… Bom, você deve ter saído com a Kate hoje, assim que chegar no hospital, me liga…
Ela se aproximou da mesa para ouvir melhor, mais alto, ela poderia voltar e ouvir de novo várias e várias vezes, só pra se sentir mais perto dele, mas ele ainda não tinha desligado.
..Eu… Eu decidi que vou voltar.
Cuddy sentiu um arrepio percorrer seu corpo ao mesmo tempo em que suas pernas ficaram bambas, ela se sentou e respirou fundo.
"Ele vai voltar."
Hoje o mar faz onda feito criança.
No balanço calmo a gente descansa.
Nessas horas dorme longe a lembrança de ser feliz.
Quando a tarde toma a gente nos braços, sopra um vento que dissolve o cansaço.
É o avesso do esforço que eu faço pra ser feliz.
Quando as sombras vão ficando compridas, enchendo a casa de silêncio e preguiça, nessas horas é que Deus deixa pistas pra eu ser feliz.
E quando o dia não passar de um retrato colorindo de saudade o meu quarto, só aí vou ter certeza de fato que eu fui feliz.
