Ensina-me a Amar
By Palas Lis
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Música – "The Voice Within", Christina Aguilera.
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Parte VII
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– Maldito dia! – Rin praguejou pelo que devia ser a milésima vez desde que entrara naquele carro, dedilhando as unhas pintadas com esmalte preto no painel do veículo, olhando para o céu azul e límpido naquela manhã de sábado. – Por que não amanheceu chovendo?
– Por favor, pare de reclamar, menina! – Kikyou falou, cansada de ouvir a mesma coisa da irmã, dirigindo em direção da casa de Kagome para deixar Rin antes de ir trabalhar. – Por que não ficou em casa?
– Não seria porque a Kagome me ligou umas dez vezes para certificar que eu iria a casa dela?
– Era só dizer que não queria ir.
– E ter de agüentá-la me ligando mais algumas dez vezes? – Rin perguntou.
– Você não quer agüentar a menina Higurashi e eu não estou querendo agüentá-la!
– Tudo bem – Rin falou parando de dedilhar e cruzando os braços. – Sesshoumaru vai estar lá, depois não venha brigar comigo se eu o xingar!
– Você não vai ser mal-educada com ninguém naquela casa e não vai xingar Sesshoumaru – Kikyou falou, séria; os olhos estreitos em sinal de aviso. – Você me entendeu?
– Entendi, só não sei se vou obedecer.
– Rin! – Kikyou falou, brava. – Você me entendeu?
– Hai – ela falou a contragosto. – Vou fazer o possível...
– Quero que faça o impossível.
– Quero que faça o impossível – Rin remedou a irmã, fazendo diversas caretas.
– Não faça isso, Rin – Kikyou falou, rodando os olhos com a falta de maturidade da irmã. – Não fique me remedando.
– Não faça isso, Rin – ela a remedou de novo. – Não fique me remedando.
– Pára!
– Pára!
– Você é cansativa, menina!
– Você é cansativa, menina!
– Rin é uma garotinha infantil e boba.
– Rin é uma garotinha infan... – Rin começou a remedar, mas fez uma careta ao reparar na frase que estava dizendo.
– Te peguei! – Kikyou riu, ouvindo a irmã bufar.
– Feh!
– Onde é a casa dessa menina, Rin? – Kikyou perguntou, olhando para os lados à procura do lugar onde ia deixar a irmã.
– É nessa rua – Rin falou, olhando na placa com o nome. – Siga direto que Kagome falou que estaria na frente da casa para me esperar.
– Então deve ser aquela que está ali – Kikyou falou, apontando para uma garota que acenava de maneira extravagante para a direção do carro das irmãs Nakayama.
– Só pode ser ela – Rin falou, revirando os olhos, quase batendo a mão na testa ao ver a maneira exagerada da garota.
– Ohayo, Rin-chan! – Kagome cumprimentou, aproximando-se do carro com um sorriso.
– Então você é a amiga...?
– Colega – Rin cortou a irmã para corrigi-la. – Não tenho amigos.
– Você que é a colega de Rin? – Kikyou rodou os olhos e depois perguntou, sorrindo para a simpática menina.
– Hai. Eu sou Higurashi Kagome. – ela sorriu.
– Nakayama Kikyou – a mais velha se apresentou também.
– Nakayama-sama, não gostaria de entrar e tomar um chá? – Kagome falou, fazendo uma reverência.
– Que menina gentil – Kikyou deu uma cotovela na irmã. – Seria tão bom se certas pessoas se comportassem assim.
– É bom você não estar se referindo a mim – Rin falou, abrindo a porta do carro. Depois que a fechou, abaixou-se para falar à irmã. – Não gosto que fique me comparando as outras pessoas.
– Arigatou, menina Higurashi – Kikyou sorriu para Kagome. – Agradeço o convite, mas não poderia aceitar. Estou indo trabalhar.
– Entendo. – ela falou, aproximando-se de Rin e passando o braço pelo dela, puxando-a para a calçada.
– Já vou para meu trabalho, Rin-chan – Kikyou olhou para a irmã com um estreitar de aviso. – Comporte-se e lembre-se do que lhe disse.
– Claro. Você sempre repete tantas vezes que seria impossível eu esquecer. – Rin falou ranzinza.
– Mais tarde eu passo para buscá-la. – Kikyou falou.
– Como quiser. – Rin falou.
Segundos depois, elas viram Kikyou sumir de vista na rua e se viraram para ir à casa de Kagome. Murmurando todas as ofensas que conhecia, Rin subiu os muitos degraus da casa da família Higurashi. Além de não querer estar ali, ainda tinha que subir aquela escadaria.
– Rin-chan, vai ser muito legal! – Kagome falou, ainda segurando no braço de Rin, subindo as escadas a passos rápidos. – Agora só faltam Inu-kun e Sesshoumaru-sama.
– Ele vem mesmo? – Rin fez uma cara de desgosto.
– Hai. Já liguei para eles e confirmei.
– É... Que pena.
– Ah! Você vai conhecer o meu primo – Kagome falou, alegre.
– Eu nem sabia que você tinha um.
– Pois é, tenho sim.
– Bom pra você – Rin falou, séria.
– Ele chama Higurashi Miroku, mas... – ela ficou apreensiva. – Ele é meio...
– O quê, Kagome? – Rin falou, esperando o pior.
– Ele é meio... – Kagome bateu o dedo indicador nos lábios, pensativa. – Como eu posso dizer?
– Diga de uma vez, ora!
– Ele é meio hentai...
– Hentai? – Rin repetiu. – Não entendi.
– É, ele não consegue se controlar muito bem quando vê uma garota bonita...
– E por que está me falando isso? – Rin falou, olhando para frente e percebendo que faltava apenas mais um lance de degraus.
– Você é uma garota bonita. – Kagome falou.
– Não diga bobagens, Kagome – Rin falou. – Se ele querer algo comigo, vai se arrepender do dia que nasceu.
– Oh! – Kagome piscou. – Então está bem.
Acabaram de subir os últimos degraus e saíram na parte plana da casa. O quintal era enorme, onde Rin pôde ver uma casa ao fundo e um templo mais no canto. Piscou ao sentir algo emanar do quintal, mas ignorou tal sensação.
– Vamos! – Kagome falou, arrastando a menina pelo braço. – Vou te apresentar para minha família.
– Eu não gosto que me apresentem, Kagome. – Rin falou, nem sendo ouvida pela amiga.
– Kaa-san! – Kagome gritou, abrindo a porta principal da casa. – Minha amiga chegou!
– Colega! – Rin falou em tom baixo, entre os dentes. – Eu já disse que sou apenas sua colega!
– O que foi, minha filha? – uma jovem senhora apareceu na sala, secando a mão no avental que vestia, com Sango ao lado dela.
– Que bom que veio, Rin-chan. – Sango sorriu para ela.
– Essa é minha amiga Nakayama Rin. Estudamos na mesma sala e veio há pouco tempo de Chiba.
– Prazer. – ela fez uma reverência e Rin retribuiu outra (ainda que a contra gosto). – Entre e sinta-se em casa, menina Rin.
– Vou trazer alguma coisa para você comer – Kagome conduziu Rin até o sofá para ela sentar-se. – Você fica aqui sozinha só um pouquinho?
– Não se preocupe, pode demorar – Rin sorriu.
– Já volto! – a garota disse, saindo da sala sua mãe e Sango.
Rin cruzou a perna direita sobre a esquerda, balançando o pé e olhando ao seu redor com receio. Todos ali pareciam serem tão felizes. E isso era muito estranho. Viver sempre em uma casa onde essa palavra não existe, parecesse tão comum que Rin até achou esquisito o ambiente da casa Higurashi.
– Que garota linda... – ela ouviu a voz masculina ao seu lado e virou o rosto, arqueando uma sobrancelha ao ver o rapaz com um enorme sorriso. – Você deve ser a amiga de Kagome, Nakayama Rin, não é?
Rin voltou a olhar para frente, rodando os olhos. O que aquele imbecil queria com ela?
– Sou Higurashi Miroku. – ele sorriu, segurando uma das mãos dela.
– Não olhe para mim. Não fale comigo. E, de preferência, finja que eu não existo – Rin falou, muito séria, tirando a mãos de junto das de Miroku.
Miroku piscou sem reação.
– Você me entendeu?
– H-hai... – ele falou, tocando no ombro dela e deslizando a mão para o pescoço. – Demo...
– Tira. Mão. Agora! – ela quase gritou; os olhos castanhos assustadoramente estreitos.
– Rin-sama, eu... – ele tentou falar, mas foi interrompido por um tapa no rosto, que estalou alto e deixou a marca vermelha da pequena mão de Rin. Ele esfregou o lado atingido. – Como alguém tão lindinha pode ter a mão tão pesada?
– Se quiser, eu dou do outro lado para você descobrir – ela falou, levantando a mão. – Quer?
– Non, non! – ele pulou do lugar que estava, sentando-se depressa do outro sofá, não querendo mais se sentar ao lado da morena enfezada. – Posso ficar aqui? – ele perguntou com medo.
– Desde que finja que eu não estou aqui, sim.
– O-ok... – ele falou, sorrindo.
Um minuto depois, Miroku voltara para o sofá que Rin estava sentada – apesar de não sentar ao lado dela.
– O que você quer agora? – ela perguntou, virando-se para ele.
– Conversar. – ele sorriu.
– Eu não quero conversar com você.
– Demo...
– Deixe-me em paz! – ela levantou-se do lugar e caminhou ágil em direção a porta, sob o olhar espantado do primo de Kagome.
– Rin-chan? – Kagome perguntou, aparecendo antes que ela abrisse a porta e saísse. – Aonde vai?
– Estava querendo me livrar do seu primo.
– Miroku! – Kagome repreendeu-o, segurando Rin pelo braço e a levando para a cozinha. – Gomen ne, Rin-chan. Ele é meio estranho, mas é boa pessoa.
– Se quer que ele continue vivo, é melhor deixá-lo longe de mim.
– Er... Tudo bem. – Kagome sorriu sem graça.
Entraram na cozinha e Kagome empurrou suavemente Rin pelos ombros para que ela se sentasse.
Sango e Kagome estavam preparando alguma coisa para comer que Rin não se importou em querer ajudar, nem em perguntar o que seria. Não queria estar ali, então de pirraça não iria fazer nada.
Rin, depois de Miroku ter tentado ser amigo dela, estava sentada à mesa, com os braços cruzados e uma cara de tédio direcionada à janela aberta da cozinha; os olhos castanhos dela observando o céu sem nuvens.
Que vontade que tinha de poder ir para casa e ficar sozinha no quarto... É, seria muito bom ir para casa e ouvir música ou assistir a um filme, mas não seria possível tão cedo...
– Rin.
A garota estrangulou um grito quando ouviu seu nome ser falado ao pé do ouvido e levantou-se de uma vez da cadeira, derrubando-a no processo. Estava distraída e se assustou, estreitando os olhos ao virar-se.
– Sesshoumaru, você me assustou, imbecil! – ela falou entre dentes, vendo-o levantar a cadeira que derrubada.
– Fico impressionado com seu humor matinal – os lábios nele se curvaram em um pequeno sorriso. – Acho que é até mais 'agradável' que o de Inuyasha.
– O que está falando de mim, hein? – Inuyasha falou, entrando na cozinha junto com Miroku, que se escondia atrás dele para não ficar perto de Rin.
– Ohayo, Sesshoumaru-sama! – Kagome e Sango fizeram uma reverência ao rapaz.
O rapaz desviou os olhos de Rin e olhou para as meninas com um sorriso e depois para a mãe de Kagome que preparava algo em uma panela no fogão.
– Que bom que todos chegaram. – Kagome sorriu, virando-se para acabar de preparar o doce. – Vou acabar aqui e podemos nos divertir um pouco.
– Você ainda não me disse o quê vamos fazer, Kagome. – Rin falou.
– Vamos passar o dia juntos – ele sorriu, virando um pouco o rosto para ela. – Nos divertindo.
– Isso eu sei – ela revirou os olhos. – Quero saber o que seria exatamente essa diversão.
– Filmes.
– Filmes? – ela arqueou uma sobrancelha.
– Hai. Alugamos alguns filmes.
Rin quase sorriu. Pelo menos ia fazer algo que gostava: ver filmes. Só esperava que não fossem filmes melosos, cheio de tolo sentimentalismo, que deixava as pessoas com as emoções à flor da pele, e no final sempre termina com um beijo apaixonado do casal protagonista.
– Não sabia que estaria aqui, Rin – Sesshoumaru falou, chamando a atenção da garota para si.
– E eu não queria que você estivesse aqui.
– Bom saber que aprecia tanto assim minha companhia – ele sorriu, virando-se para ir à sala. – Kagome, vou me sentar na sala, ok?
– Sinta-se à vontade, Sesshoumaru-sama.
Ele assentiu e sumiu da vista de Rin.
– Acho que agora pode ficar lá na sala também, Rin-chan – Sango empurrou-a pelos ombros. – Sesshoumaru e Inuyasha chegaram e não vai ficar sozinha com o hentai do Miroku-sama.
– Ei! Eu... – o rapaz tentou se defender.
– Calado! – Sango e Rin gritaram juntas.
Miroku obedeceu, encolhendo-se com o grito delas.
– Pode ir, Rin. – Kagome falou.
– Ou prefere nos ajudar? – Sango sorriu.
– Prefiro ficar na sala – ele resmungou.
Pisando duro, retrucando e xingando, Rin caminhou em direção a sala. Entrou no ambiente e olhou os dois sofás que tinham lá. Um estava sentado Sesshoumaru e no outro Inuyasha.
"Maravilha... Agora onde vou sentar?". Sem opção de um lugar só para ela, preferiu sentar-se ao lado de Sesshoumaru a ficar ao lado de Inuyasha, mas somente por falta de alternativa.
– O que aconteceu aquele dia no cinema, Rin? – Sesshoumaru falou, fazendo a garota rodar os olhos. – Nem acabou de ver o filme.
– Não seria porque você virou um saco de pipoca na minha cabeça? – ela falou, brava. Ele tinha que lembrar isso agora? Já tinha até se esquecido daquele fato lastimável.
– Você perdeu o final. Nem viu que o serial killer era aquela velhinha aparentemente indefesa.
– Grrrr... – ela fechou a mão em punho, irritada. – Eu ainda ia ver o filme, seu imbecil!
– Ah, agora já sabe o final – ele deu de ombros. – E daí?
– E que graça tem ver um filme já sabendo o final?
– Você arruma confusão por tão pouco – ele suspirou, desanimado.
– Esquece de mim, Sesshoumaru! – ela vociferou, virando-se para frente e cruzando os braços, exatamente do mesmo jeito que Inuyasha estava no outro sofá.
– Que filme trouxe, Sesshoumaru-sama? – Kagome perguntou, entrando com uma bandeja em mão, na qual tinha as coisas que preparara para assistirem ao filme.
– Se não se importa, eu trouxe um de terror – ele olhou Rin pelo canto dos olhos. – Rin não gosta de outro tipo de filme.
Sem palavras, a morena virou-se para Sesshoumaru, surpresa. Ele se preocupava com o gosto dela a ponto de alugar um filme só porque ela gostava? Mesmo depois de tratá-lo tão mal, com grosserias e xingamentos?
Voltando à expressão impassível, Rin deu de ombros. Provavelmente Sesshoumaru queria apenas irritá-la, como era o habitual dele.
– Eu não pedi que você alugasse nada para mim.
– Eu sei. Aluguei porque quis.
– Pois não devia ter alugado.
– Você preferia ver o romance que a Kagome quis trazer?
– Não.
– Então não reclame.
– Eu nem queria estar aqui.
– Aposto que ninguém a arrastou até aqui. Então está porque quis.
– Não, mas eu fui pressionada e enganada!
– Acho melhor tentar outra desculpa que essa não me convenceu. – ele sorriu, debochado.
– Não é uma desculpa! – Rin enfezou-se, o que fez aumentar o sorriso de Sesshoumaru. – Acha mesmo que se tivesse opção estaria aqui com você?
– Acho.
– Você é muito idiota para acreditar nisso, então!
– Idiota ou não, você está aqui e não está amarrada, o que pressupõe que quer ficar.
– Eu detesto você, Sesshoumaru! – ela ficou emburrada, virando-se para frente. – Odeio mesmo!
Ficou ele olhando o rosto contraído dela, deixando um sorriso formar-se em seus lábios. Como era divertido implicar com ela, ainda mais que ela sempre caía nas provocações dele.
– Sangozinha... – Miroku se encolheu ao lado dela. – Eu posso ficar sentado ao seu lado?
– Por quê? – ela quis saber.
– Sabe como é, eu não gosto muito de filmes de terror... – ele coçou a lateral do rosto, sem graça. – Posso?
– Se manter essas mãos atrevidas longe de mim, sim – ela falou, percebendo um sorriso agradecido iluminar o rosto dele.
Fechando a janelas para o lugar ficar escuro, todos se sentaram em semicírculo na frente da televisão, esperando Kagome colocar o DVD e o filme começar.
Logo depois que colocou o filme, apareceu um garotinho – que Kagome chamou de Souta –, sentando-se no sofá junto com Sesshoumaru e Rin, fazendo-a ter que ficar muito próxima ao rapaz de olhos dourados.
"Que bom... Colocaram um filme de ação", ela pensou com um sorriso nos lábios ao ver a primeira cena.
Não queria nem pensar na possibilidade de colocarem uma comédia e acabar gargalhando, ou simplesmente rindo. Além de destruir a casa de Kagome, ainda poderia machucar todos que estavam ali. E isso não seria nada bom.
O sorriso dela foi murchando até ficar tristonho.
Souta moveu-se no assento, fazendo Sesshoumaru chegar ainda mais perto de Rin. Ela desviou a atenção da tela para o jovem sentado ao seu lado, que estava bem próximo a ela.
Nunca tinha reparado, mas sob a pouca luz da televisão, percebeu que Sesshoumaru era muito bonito...
"Bah! Ele é irritante!", ela fez uma careta e voltou a olhar a televisão, afastando-se o máximo que pôde dele. Toda aquela proximidade estava deixando-a brava.
Terminado o filme, Rin estava zonza e não havia prestado atenção alguma. O interesse dela voltado à pessoa que estava ao lado. Sesshoumaru estava perto demais dela... E isso não era nada bom, apesar de estar sendo agradável ficar perto dele e...
Meneou a cabeça para os lados quase de maneira frenética, não gostando dos próprios pensamentos. Onde já se viu: pensar nele, Sesshoumaru, a quem odiava com todas suas forças, daquela maneira? Só podia estar enlouquecendo de vez!
Levantou-se de um salto, querendo ficar longe. Passara tempo demais perto de Sesshoumaru. Caminhou a passos obstinados à porta, decidida a deixar a casa.
– Rin?
– O que quer, Sesshoumaru? – a voz dela saiu cansada. – O que você quer agora?
– Aonde vai?
– Não interessa. – ela murmurou, levando mão à fechadura.
– Se não interessasse, eu não estaria perguntando, não acha?
– Sesshoumaru, vai...! – virou-se para ele, mordendo a língua para não deferir contra ele algum palavrão. – Você tem sorte que estamos na casa da Kagome.
Sem esperar por uma resposta dele, ela abriu a porta e saiu. Parou um instante e pôde ouvir o som das vozes dos colegas se perguntando o que tinha acontecido a ela...
"Nem mesmo eu sei...", ele suspirou. "Só não quero ficar perto dele...".
Uma brisa suave de primavera soprou, levantando seu cabelo negro e curto, junto com a saia e a blusa igualmente pretas que usava. Estava um dia muito agradável e arrependeu-se de ter colocado aquelas botas escuras, seria melhor colocar uma sandália.
Fitou o céu quando deu um passo em direção à escadaria levava à saída da casa Higurashi.
No meio do caminho parou subitamente, e virou o rosto, notando no quintal uma imensa árvore, percebendo que a estranha emanação que sentia vinha dela.
Misteriosamente – de maneira quase mística –, sem conseguir controlar as pernas, moveu-se em direção da árvore, com os olhos colados nela.
Era quase como se pudesse senti-la...
Parou frente à majestosa árvore, sentindo a esquisita força que emanava dela ficar mais forte.
Tocou a ponta dos dedos no tronco da árvore, que, por estar na primavera, estava florida. Não gostava e não ligava para flores, mas deu um pequeno sorriso ao inalar o perfume suave delas. O cheiro era muito parecido ao de sua irmã Kikyou, que gostava muito de flores.
Seus dedos deslizaram até a palma de sua mão tocar na superfície escura e rústica da árvore.
Era quase como se pudesse senti-la pulsar também...
Fechou os olhos, contemplando a paz interior que aquele contado com a árvore lhe proporcionará. Estava neutra e isso era confortante, pois sabia que assim seus poderes telecinéticos não se manifestariam.
Era estranho e não conseguia entender como uma simples árvore pudesse deixá-la tão calma. A menos que fosse uma árvore diferente... Uma árvore sagrada.
Silêncio. No quintal estava um silêncio absoluto. A mente só conseguia ouvir o som da brisa em contato com os galhos mais finos da árvore, provocando um som maravilhoso. Uma sinfonia aos ouvidos, ajudando a completar o estado de calmaria que estava presenciando.
Estava sozinha...
Espremeu os olhos firmemente, sem tirar a mão do tronco. Estava calma quando não estava pensando, mas quando mentalizou a solidão, voltou a sentir-se agoniada. Tentou novamente a concentrar-se na satisfação que o contato com a madeira lhe proporcionava...
Impossível. Não conseguiu mais.
Tirou a mão da árvore e abriu os olhos, levantando-os para olhar as flores rosadas no topo sendo balançadas pelo vento, que ficou mais forte.
Há poucos dias – depois de presenciar Kikyou com Suikotsu – ficou angustiada de uma maneira que nunca antes havia ficado. Que terrível destino teria, e uma única palavra poderia descrevê-lo: solidão.
Solidão...
Seria sempre a pessoa inacessível. Que nunca fora tocada, abraçada ou beijada. Como poderia amar se não podia sentir? Como poderia ser amada se a pessoa nunca poderia fazê-la ter sentimentos? Era impossível amar e ser amado sem ter emoções.
"Eu não consigo entender, droga!". A menina fechou a mão em punho, ignorando a dor aguda que foi provocada pela unha ferindo a pele a ponto de quase sangrar. "Nunca me importei de ficar sozinha... Por que agora?".
Socou a árvore como se estivesse socando a pessoa que a havia dado aquele maldito dom da telecinesia. Era como se estivesse tentando descontar todo sentimento e toda emoção que tinham que ficar trancados e lacrados dentro de si.
Baixou os olhos, apertando as mãos fechadas junto ao corpo. Sentiu a dor do soco na mão direita e um filete de sangue escorreu pelos dedos até pingar no chão.
– Por que você está fugindo, Rin?
Ela nem se espantou com Sesshoumaru, parado ao lado dela. Novamente esteve distraída.
– Eu não estou fugindo de nada, Sesshoumaru – respondeu, parada no mesmo lugar, sem sequer mover um músculo, fingindo que ele não estava ali.
– Kagome vai colocar o filme de terror que eu trouxe – ele deu um passo na direção dela, com as mãos nos bolsos da calça.
– Quero apenas ficar sozinha. É pedir muito?
– Desde que te conheço, você me pede isso.
– Qual é a sua, hein, Sesshoumaru? – Rin virou-se para ele; os olhos castanhos estreitos, mas não em sinal de aviso, e sim em sinal de desespero. – Por que não percebe que eu não quero, não posso ficar perto de outras pessoas?
– Eu percebo – ele sorriu e ela pôde jurar que era um sorriso zombeteiro. – Apenas acho divertido incomodá-la.
– Pois não está sendo nada divertido para mim!
Encarou a morena e percebeu que a mão que a viu socar a árvore sangrava. Deu mais um passo e segurou a pequena mão de Rin para trazê-la para perto do rosto e olhá-la.
– O... O q-que você pensa que está fazendo? – ele titubeou, puxando a mão que ele segurava.
– Está sangrando – ele falou, parado a poucos centímetros dela, fazendo Rin levantar a cabeça para olhá-lo nos olhos. – Não devia ficar socando árvores indefesas.
– Por que você tem que ser tão implicante?
– E por que você tem que ser tão complicada?
– Eu vou embora. – ela falou, cansada, virando-se para descer os muitos degraus que a levaria à rua. – Não vou gastar meu tempo discutindo com você. – falou em tom de desprezo.
– Vai fugir novamente? – ele perguntou. Sorriu ao notar que a perguntar fez efeito: Rin parou, virando apenas o rosto para olhá-lo.
– Já lhe disse que não estou fugindo de nada!
– Não parece.
– Olha, Sesshoumaru, eu não me importo com você, com suas imbecilidade e quero que você fique longe de mim! – ela quase gritou. – Eu...
Tentou falar de novo, mas foi interrompida quando Sesshoumaru segurou novamente a mão machucada e subiu lentamente os dedos pelo braço, até alcançar seu ombro.
Os castanhos olhos fitaram os dourados dele, quase se perdendo na intensidade dos orbes. Sesshoumaru pousou a mão no ombro dela, deslizando a ponta dos dedos no pescoço delicado de Rin.
Rin sentiu o toque inocente dele e estremeceu. Abriu a boca e a fechou novamente algumas vezes, sem conseguir falar nada. Queria gritar para que ele parasse, mas não conseguia nem pensar direito. Inerte, estava inerte.
Algo estranho estava acontecendo. Nunca sentira antes e agora aquilo... As mãos estavam suadas e trêmulas, as pernas bambas, o estômago dava muitas voltas e a face queimava, fazendo-a ter certeza que estava corada.
– Maldição! – a voz dela não passou de um murmúrio ao tentar se afastar dele e suas pernas travarem.
– Não entendo porque está fugindo de mim... Eu só quero ajudá-la.
– Não... – o único movimento que conseguiu fazer foi balançar a cabeça para os lados. – Você não pode...
– Eu poderia tentar.
– Eu não quero que tente.
Sesshoumaru sorriu, abaixando o rosto lentamente para ficar com os olhos na mesma linha que os dela. Estavam extremamente próximos, podendo sentir o hálito fresco e ouvir a respiração ofegante dela. Ela estava nervosa.
Rin estava aturdida. Tudo parecia fora de foco e só conseguia ver Sesshoumaru. Ele estava em frente a ela, os lábios quase tocando os dela... A tremura do corpo dobrou com o toque das mãos quentes dele nos ombros nus pela regata e no pescoço.
"Ele não pode me fazer ficar tão confusa com apenas um toque...", ela pensou, entrando em desespero pelo que estava acontecendo.
O coração estava descompassado, batendo sem ritmo certo no peito, parecendo que a qualquer segundo fosse sair pela boca. Os lábios secos ficaram entreabertos, sem conseguir emitir um único ruído.
"Eu estou sentindo!". A mente reagiu no momento que ele aproximou mais os lábios, e antes que se tocassem, Sesshoumaru percebeu o olhar dela ficar frio e o brilho avermelhado surgir.
Rin levou a mão ao rosto, virando-se de costas. Fechou os olhos, não querendo ver o que vinha a seguir. Não queria olhar o estrago que a mente produziria com a telecinesia. Não queria ter de olhar Sesshoumaru e vê-lo com medo dela.
Ouviu o trincado de galhos e logo depois alguns caíram pesadamente no chão. Os olhos fechados encheram-se de lágrimas e agachou no chão, sem saber o que fazer.
– Rin-chan! Sesshoumaru-sama! Onde vocês estão?– ouviram de longe.
– É Kagome – Rin levantou-se de uma vez e olhou na direção em que a garota vinha, juntamente com todos os outros colegas que estavam na casa. – Eu não quero que eles se machuquem e nem que descubram... – falou tão baixo que nem Sesshoumaru pôde ouvir.
– Fique calma. – Sesshoumaru ficou atrás dela, colocando as mãos na cintura de Rin e puxando-a para encostar as costas dela no peito dele.
– O quê...? – ela piscou, tremendo.
– Feche os olhos – ele praticamente ordenou. Sem saída de como parar os poderes e não querendo que ninguém descobrisse, ela o obedeceu. – Inspire e respire lentamente. Concentre-se no seu batimento cardíaco. Precisa apenas ficar calma.
Fez o que ele mandou, por alguns segundos. Para a surpresa dela, os estalos pararam. Notou que os poderes não estavam mais se manifestando e que os olhos provavelmente não estavam mais vermelhos.
Abriu os olhos lentamente, num misto de surpresa e confusão, sem que ele tirasse as mãos de sua cintura. Encarou os olhos dourados por alguns segundo, antes de tirar as mãos dele de si e afastar-se alguns passos.
Era a primeira vez que conseguia controlar seus poderes... Em toda sua vida e foi com a ajuda dele...
– C-como sabia o que eu precisava fazer? – a surpresa ainda estava presente na face que empalideceu.
– Dedução – ele respondeu, simplesmente.
– Então você sabe o que eu...
– Hai. – ele foi simples novamente.
O chão desapareceu aos pés e as mãos gelaram. Aproximou-se da árvore e recostou-se nela. Sentia que a qualquer momento pudesse desmaiar. A respiração quase parou. Não queria que ele descobrisse. Não queria! Novamente teria que se mudar de cidade e ficar longe dele... "Ora, o que eu estou pensando?".
– Você não é a primeira que passa mal por estar perto de mim. – ele disse de modo divertido.
Rin ouviu o que ele dissera, voltando à razão, e olhou para ele. Ele quis dizer que conhece outras pessoas que têm telecinesia?
– Como?
– Eu estou dizendo que você não é a primeira garota que quase desmaia quando vou beijá-la.
Os olhos dela quase saltaram para fora ao ouvir o que ele dissera.
– Beijar-me? – ela repetiu.
– Por qual outro motivo você ficaria tão nervosa? – ele continuou com o mesmo tom divertido, ocultando o pequeno fato de que sabia sobre os poderes dela.
Rin soltou o ar, como se estivesse prendendo-o desde que viu Sesshoumaru ali, e deu um suspiro aliviado. Então ele não vira e não sabia da telecinesia, sua maldição ainda era um segredo e pretendia que continuasse assim... Para sempre...
– Se não quer ver o filme, eu quero – Sesshoumaru falou, como se não tivesse acontecido nada perto da árvore da família Higurashi.
– Ei! – Rin gritou brava, o que fez Sesshoumaru virar-se para ela. – Que história é essa de tentar me beijar?
– Ora...
– Quem você pensa que é para tentar me beijar, hein? – ela aproximou-se dele e colocou o dedo indicador no tórax dele.
– Eu não ia te beijar. – ele falou, sério.
– Ah, ainda bem – ela falou, um pouco sem graça. – Nunca mais ouse se aproximar tanto assim de mim, ouviu?
– Como queria, Rin – ele sorriu, voltando a andar.
– Rin-chan – Kagome chegou até eles. – O que faz aqui?
– Estava vendo essa árvore – ela falou, sem tirar os olhos das costas de Sesshoumaru que parou para falar com o irmão. – Senti algo estranho emanando dela.
– Ah, essa é uma árvore sagrada, por isso deve ter sentido algo dela – Kagome falou, fazendo todos olharem para o topo da árvore. Sorriu ao completar – Você dever ter um dom muito especial para senti-la.
– Dom especial? – Rin piscou, desviando os olhos para Kagome.
– Hai – ela sorriu, começando a andar. – Meu avô disse que esta árvore é muito especial e que apenas pessoas que têm algum tipo de dom podem senti-la – Kagome deu uma piscadela para Rin. – Você é uma garota muito especial.
Rin ouviu as últimas palavras de Kagome e lembrou-se das palavras da irmã. Kikyou sempre lhe falava que era uma garota especial.
– K-chan e Rin-chan... Vamos logo! – Sango acenou para elas, se afastando com Miroku, Inuyasha e Sesshoumaru.
– Você não vai embora, né, Rin-chan?
A garota maneou a cabeça para os lados.
– Mas só com uma condição.
– Qual?
– Mantenha Sesshoumaru longe de mim.
– Bem... – Kagome coçou a cabeça, passando o braço pelo de Rin, enquanto caminhavam em direção a casa. – Não posso prometer nada.
– Então pelo menos coloque uma cadeira longe dele, o mais longe possível.
– Hai! – Kagome falou, soltando o braço dela e correndo na frente. – Vem, Rin-chan!
A morena com poderes telecinéticos sorriu e depois olhou as próprias mãos. Um dom especial... Será mesmo?
Ficou muito confusa com a atitude de Sesshoumaru e em como o corpo reagiu a ele. E também nunca pensou que poderia parar os poderes. Eles só paravam quando ela não tinha mais energia para manifestá-los ou quando desmaiava. Tudo era muito obscuro e não conseguia entender nada.
Rin viu Kagome abrir a porta e acenar para ela. Correu na direção da colega, não querendo pensar mais pensar naquilo.
Estava muito confusa e precisava distrair-se com alguma coisa, e nada melhor que um bom filme de terror para isso.
Sorriu ao entrar na casa e Kagome fechar a porta.
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Notas da autora – Minna-san... Aqui está mais um capítulo da fanfic /o/. Dessa vez, não vou nem comentar a demora com o capítulo, vai que ninguém nem reparou nesse pequeno detalhe, né? ¬¬".
Agradecimento especial a Shampoo-chan, que revisou o capítulo para mim.
Algumas
pessoas falaram que o Sesshy não apareceu no capítulo
passado, mas aqui está ele, para a felicidade geral XD. Miroku
também deu o ar da graça na fanfic /o/.
Espero, sinceramente, que gostem desse capítulo, pois eu gostei muito de escrevê-lo. Ficarei imensamente feliz se me deixassem um review do que acharam, ok?
Muito obrigada aos comentários. Agradeço a Hika Cheshire, Jaque-chan, Layla Hamilton, Raissinha, Rafinha Himura, Garota Anônima, Lan Ayath, MitZrael Girl, Jenny-Ci, Kk-chan, Shampoo-chan, Haki-chan, Blug, Kikyou Priestess, Kagome Shinomori, Gabriela e Soi-chan. Beijos especiais a vocês!
Kisus
no Lis-sama
Ja ne
