Kurt abriu os olhos lentamente, suspirando ao encontrar nada além da escuridão. O castanho sabia que nunca mais iria enxergar algo, porém as esperanças continuavam.
– Eu te acordei? - Perguntou uma voz doce, que Kurt sorriu ao escutar logo de manhã cedo.
– Não, não... - Kurt se sentou na cama. Sua perna não era mais um incômodo. Apalpando, conseguiu capturar seu relógio falante. Fazia alguns dias desde a visita de Quinn e da esperança que cada vez mais crescia dentro de Kurt.
– Você dormiu bem? - Blaine se sentou na cama e capturou a mão de Kurt para si, como sempre fazia. Kurt assentiu com a cabeça e sentiu a doce pele de Blaine se tocar com a sua, enquanto o médico massageava aos mãos do cego. - Tenho boas notícias pra você...
– Me conte. - Sentiu suas mãos serem abandonadas.
– Adivinha que paciente favorito meu ganhou alta?
– Não faço a mínima idéia.
– Você.
Kurt corou involuntariamente. Ele era o paciente favorito de Blaine? De tantos, logo ele? Ele queria levar os pensamentos longe, queria esquecer aquela história. Maldita Quinn Fabray que havia colocado minhocas em sua cabeça.
– Os papéis foram assinados hoje de manhã, e você já pode ligar pro seu pai... Quer que eu disque o número? - Kurt assentiu com a cabeça, entregando seu celular para o médico.
Kurt pegou o telefone, aonde já chamava Burt. Blaine, enquanto isso, terminava de arrumar a papelada de alta de seu paciente.
– Oi, pai? Levei alta. Sim, agora. Ah, não, tudo bem, eu ligo pra ele... Beijo, também te amo. - Os olhos de Blaine rolaram até Kurt, que desligava o telefone com um olhar triste.
– Aconteceu algo? - Disse preocupado, sentando-se na cama de Kurt novamente.
– Meu pai disse que não vai poder me buscar agora. Você pode discar o número de Finn pra mim? Está na agenda.
Blaine deu um pequeno sorriso enquanto segurava a mão de seu paciente. Kurt esboçou um sorriso também, sem mostrar os dentes, e Blaine achava isso adorável.
– Eu posso te levar. Se você quiser, claro. - Kurt sorriu mais ainda, se lembrando do que Quinn havia o aconselhado.
– Tudo bem então. - Não pode ver, mas imaginava Blaine sorrindo também.
Depois de arrumar algumas roupas do castanho, Blaine já havia feito suas malas. O médico também já havia cancelado todos seus planos e cirurgias para hoje, apenas para acompanhar Kurt em sua casa. Uma vez que Kurt estava em pé, com a ajuda das muletas, ele tentou dar um passo, esbarrando na cama.
– Droga. - Resmungou.
– Eu aconselharia uma bengala. - Sorriu Blaine, passando seu braço livre pelas costas do castanho, guiando-o. Kurt apenas sorriu. Andou pelos corredores do hospital e começou a criar imagens em sua mente. Ele não poderia ver, porém nada o proibia de imaginar.
– Até mais, Dr. Anderson. - Falou a enfermeira que ficava na recepção. O doutor respondeu com um olhar e voltou a guiar Kurt até seu carro, que estava parado em sua vaga no estacionamentos.
– Eu... eu esqueci do seu livro. - Falou Kurt enquanto Blaine abria a porta do passageiro.
– Eu coloquei na bolsa já.
Blaine sorriu ao ver Kurt sorrir e entrar no carro, com dificuldade. Ele sentia como se fosse um irmão mais velho do paciente. Deu a volta no pequeno veículo e começou a dirigir.
– Pronto para encarar o mundo lá fora? - Perguntou Blaine, sem tirar os olhos da estrada.
– Sem a sua ajuda fica difícil. - O jovem falou sem pensar, e nesse momento, Blaine o encarou. - Quero dizer... Sem ajuda.
Sorrindo, Blaine voltou seus olhos à estrada. - Talvez não seja necessário. Não sei se seu pai lhe falou, mas eu sou voluntário em uma associação para cegos... Você poderia aparecer lá.
– Eu vou. - Sorriu Kurt.
Alguns minutos em silêncio, o carro parou em uma rua pacata aonde algumas crianças brincavam. Blaine seguiu o endereço que havia sido informado no prontuário de seu paciente. Antes de pegar as malas, Blaine deu a volta no carro e ajudou Kurt a descer.
– Obrigado. - Disse ele sentindo a proximidade do doutor.
– Sempre.
Ficaram quase abraçados por um momento, até Blaine se afastar, fechando a porta por trás dos dois. Com ajuda, os dois foram porta adentro. Burt havia avisado que apenas Carole estaria em casa. A porta foi aberta pela mulher, com um sorriso enorme no rosto.
– Bem vindos. - Ela disse, com o mesmo sorriso. Era uma maravilha que Kurt e Burt haviam sobrevivido ao acidente e estavam em casa.
– Boa tarde, Sra. Hummel. - Disse Blaine acompanhando Kurt em alguns passos e ouvindo a porta se fechar atrás dele.
– Pode me chamar de Carole.
– Carole... Como faremos com essa escada? - O doutor então encarou os enormes degraus em sua frente, e depois a perna engessada de Kurt. - Eu posso levá-lo agora, mas mais tarde...
– Finn o ajuda. - Blaine assentiu.
– Como assim você pode me levar? - Kurt perguntou, e na hora sentiu suas muletas serem tiradas de si. Também sentiu uma mão na parte de trás de seus joelhos, e logo estava sendo carrega. - EI! - Gritou.
Blaine apenas sorriu e começou a subir os degraus, com Kurt em seu colo. Carole seguiu atrás. Alguns segundos depois estavam no andar de cima. O médico seguiu a mulher, que entrou em um quarto. Entrou e descansou Kurt na cama de casal que havia ali.
– Eu não gostei de nada disso, para ficar claro. - Disse Kurt, cruzando seus braços enquanto sentava na cama.
– Se acostume, porque com essa perna, só sendo carregado para descer e subir as escadas... - Blaine sorriu. - Vou pegar sua mala no carro. - E saiu do quarto.
– Ele é um gato. - Carole disse, fazendo Kurt sorrir. Alguns minutos de conversa, Blaine entrou novamente no recinto segurando a mala e as muletas de Kurt.
– Vou fazer o almoço. Dr. Anderson. Faço questão de o senhor almoçar aqui.
– Me chame de Blaine. E eu aceito.
A mulher assentiu e saiu do quarto. Enquanto isso, Blaine arrumava o local para Kurt. Colocou o despertador do lado da cama, junto com o livro contendo as letras em braille e deixou as muletas perto da cama.
– Você está confortável? – Blaine sentou-se do lado da cama de Kurt e pegou sua mão. A partir de hoje, seus dias no hospital não seriam tão divertidos.
– Como nunca.
Ambos sorriram e continuar conversando, não ignorando o fato de estarem um com o outro.
