Era sábado de manha e eu estava arrumando minhas coisas para ir para a casa de Lissa. Minha mãe tinha ido a uma cidade vizinha resolver um problema do trabalho e provavelmente só voltaria de noite.

Eu não havia contado a ninguém sobre a minha pequena aventura do dia anterior, e Lissa muito menos. Ela insistia que deveríamos contar para a polícia mas eu não via motivo. Qualquer que fosse o motivo daqueles túneis estarem lá embaixo, as autoridades já deveriam saber disso. Afinal, alguém teve que construí-los.

Lissa morava em uma enorme mansão colonial nos limites da cidade de Nova Moscou. Quando eu falo que Lissa é uma princesa eu não estou brincando. Toda a sua casa gritava "riqueza, riqueza, riqueza" e Lissa tinha literalmente tudo o que queria. Ela podia ter crescido como qualquer outra menininha mimada da realeza, mas ela não ligava para essas coisas. Lissa se importava muito com o bem estar de outros.

Eu parei meu carro na vaga de visitantes da garagem, que continha não menos do que cinco carros, além do meu, e entrei na casa pela entrada da garagem.

- Senhorita Rose! É um prazer vê-la aqui novamente. – Celeste, a governanta da família, falou me cumprimentando. Eu e Lissa já havíamos dado muito trabalho para essa mulher, então eu duvidava que fosse um prazer me ver. Mas pensando bem, fazia um bom tempo que ela não tinha que limpar a nossa bagunça ou me levar para o hospital correndo porque eu sofri um acidente.

- Hey, Celi. – Eu falei dando um beijo em sua bochecha. – Lissa está lá em cima?

- Sim, pode subir. – Ela respondeu voltando aos seus afazeres.

Eu subi as enormes escadas e segui para o quarto de Lissa sem me incomodar de bater eu entrei.

- Hey, finalmente. Tudo bem? – Lissa me cumprimentou. Seu quarto era um dos quarto mais lindos que eu já vi. Não, não era todo rosa cheio de flores e borboletas. Bem, quando éramos pequenas era. Hoje ele era todo decorado num estilo que misturava clássico e moderno, com uma cama king size de dossel branco transparente, uma enorme escrivaninha combinando com a cama e vários sofás e poltronas espalhados pelo quarto ou em volta da televisão. O quarto era super legal, mas o mais impressionante era seu enorme closet, três vezes maior que o meu, contendo todo tipo de roupa ou acessórios da moda que você possa imaginar.

- Yeah, eu tô legal. E você? - Eu falei, jogando minhas coisas em uma poltrona e me sentando no sofá.

- Bem. Ainda um pouco neurótica sobre ontem. Quero dizer... Nós deveríamos contar pra alguém, Rose!

- Pela última vez Lissa. Não! Não tem motivo para gente fazer isso.

- Mas e se alguma outra pessoa ficar presa lá? Não vão saber onde procurar! – Ela falou enquanto passava nervosamente os canais.

- Olha Liss. Se alguém desaparecer eu prometo que pessoalmente... Eu faço uma ligação anônima falando pra procurarem na biblioteca, ok? Só... Não fica cismada com isso. Sabe o que nós vamos fazer? Nós vamos nos divertir muito esse fim de semana e na segunda feira o que aconteceu ontem vai ser passado!

- O que vai ser passado, na segunda feira? – André perguntou ao entrar no quarto. – Ah, Rosemarie! Uma das minhas pessoas favoritas no mundo. - André era o irmão mais velho de Lissa. No momento ele estava cursando a faculdade Dartmouth mas de vez em quando ele vinha passar uns dias com sua família. André e Lissa eram muito próximos apesar dos quatro anos de diferença. André fez o ensino médio na Crazy Vlad como nós e na época foi um ilustre membro do time de futebol, super popular e muito bonito.

- André. Você é uma das minhas pessoas favoritas também. Mas se você me chamar assim de novo eu vou ter que te socar. – Eu falei, sorrindo docemente e o abraçando. André era extremamente bonito. Ele era alto, com cabelo loiro escuro e olhos cor de jade, como todos na família de Lissa.

- Yeah, você ficaria ainda mais charmosa me socando. – André disse se jogando ao lado de Lissa no sofá. – E então, quais as novidades? Algo de interessante aconteceu nesse fim de mundo?

Lissa e eu trocamos um olhar confidente mas antes que ela pudesse contar sobre nossa aventura do dia anterior eu a impedi.

- Nope. Nada de novo. Esta cidade continua sendo quieta e entediante do jeito que você a deixou quando foi embora. – Eu falei e Lissa pareceu se recuperar rápido.

Nós passamos algum tempo conversando sobre as poucas novidades da cidade e falando mal dos outros, do jeito que fazíamos antes de André se formar. Lissa, André e eu sempre fomos próximos pois eu passei boa parte da minha infância na casa dos Dragomir. Nós não andávamos juntos na escola já que eu e Lissa éramos calouras e André era um veterano, mas fora da escola nós saíamos, viajávamos e passávamos bastante tempo juntos.

Quando eu era pequena tive uma quedinha pelo irmão de Lissa. Durou pouco. Só até ele pintar o cabelo da minha Barbie favorita de verde. Foi no ginásio que eu realmente tive minha primeira paixão platônica. André era mais velho, lindo e sarado e eu passei quase duas semanas interas pensando em como seria ficar com ele. É claro que Lissa nunca ficou sabendo. Durou pouco. No mês seguinte eu beijei um cara chamado Todd, ele foi minha primeira paixão não platônica.

Hoje eu vejo André como o irmão que eu nunca tive, e estamos bem assim.

- Há algo de novo. – Lissa se virou para o irmão. – Camille Conta está planejando uma festa beneficente. Acho que vai ser um pouco antes do Natal.

- Isso não é algo novo. – André respondeu. – Os anos passam e essas pessoas continuam as mesmas. – Ele adicionou recostando no sofá. – Sempre tem uma maluca organizando eventos pirados, só pra criar uma oportunidade da gente se embebedar e pegar geral.

- Mas que sutil – Eu disse jogando-lhe uma almofada.

- É verdade. – Ele a jogou de volta.

- Yeah, mas conta você! Como estão as coisas na faculdade? – Lissa perguntou em sincera animação.

Eu sei que uma das coisas que Lissa mais quer é ir para faculdade para se livrar de todas as pessoas esnobes e da hierarquia social que existe de Nova Moscou.

- Ah, eu não sei se vou poder contar sobre toda a minha experiência universitária, algumas partes são para adultos. – Ele brincou bagunçando o cabelo de Lissa. André sempre foi um festeiro notório, sempre rodeado de amigos e namoradas e sempre aprontando. Eu não duvidava que ele estivesse tendo uma experiência universitária bem 'intensa'. Ele nos contou como estava sendo a vida em Dartmouth, sobre as aulas (para interesse de Lissa), sobre as festas (para meu interesse) e sobre o pessoal de Nova Moscou que também escolheu ir para a mesma universidade de André.

- Enfim, o que as meninas farão essa noite?

- Hum... Eu não sei. – Eu falei passando os canais na televisão. – O que o pessoal vai fazer hoje à noite, Lissa?

- Hoje é a festa de Greg Dashkov, não é? Acho que Camille e alguns outros membros da realeza irão para essa festa, nós podemos ir com eles. – Lissa disse pensativa. - Não sei o que Mason e a galera vai fazer, mas eu posso ligar para eles...

- Hey, pode parar. – André falou – Vocês não vão à festa de Greg.

- Yeah, porque não? – Eu o desafiei.

- Por que não é uma festa pra crianças. – Ele falou apontando para nós. – Vai ter bebidas, talvez drogas, talvez sexo e eu tenho quase certeza de que vão tentar fazer churrasco com uma lata de aerosol e fósforos.

- É, e o que você acha que tem nas festas que nós vamos normalmente? – Eu perguntei fazendo André me analisar por alguns instantes.

- Além do mais, nós não somos crianças. – Dessa vez foi Lissa quem protestou.

- Vocês pelo menos foram convidadas? – André perguntou, tocando na ferida.

- Não, mas você foi, não foi? – Alguém como André, com certeza teria sido convidado para o que prometia ser a melhor festa do ano. – É só você nos dizer aonde é.

- Nem pensar. – Ele falou resolutamente.

- Por que não? Não vai ser muito difícil de descobrir aonde é, e só seguir a direção para onde todos os carros de adolescentes estão indo.

- Não. Se eu bem conheço o Greg, a festa vai sair do controle e eu não quero ter que me preocupar com minha irmã e sua amiguinha perdidas no meio de caras de faculdade. – André nos olhou seriamente, uma coisa rara para ele.

- Você não vai precisar se preocupar, a gente sabe se cuidar. – Eu reclamei.

- Nope.

- André, por favor. – Lissa implorou ao agachar-se em frente a seu irmão no sofá. André pareceu refletir por poucos segundos e como sempre concordou com a vontade de Lissa. Eu não sei como ela fazia para convencer as pessoas, mas dessa vez seu 'encanto' foi extremamente útil.

- Ok...

- Ótimo. – Eu o abracei comemorando.

- Mas com uma condição... – André falou, virando-me para encará-lo. – Você vai ficar de olho nela – ele apontou para Lissa - e não vai deixar que nada aconteça.

- Sim, eu prometo! – Eu o abracei novamente.

- Hey! Eu não preciso de babá. – Lissa protestou.

- Só concorda. – Eu sussurrei para Lissa.

Depois de jantarmos com os pais de Lissa nós subimos para nos arrumarmos para a festa. Levamos cerca de duas horas mais ou mais, mas no final o resultado ficou perfeito.

- Então... Esse, ou esse. – Lissa me perguntou segurando dois pares de sapatos de salto. Ela usava um vestido preto simples porém muito elegante que ia até seus joelhos e tinha mangas cumpridas de musselina preta. Por cima ela vestia um bolero vinho e seu cabelo estava preso em um arrumado rabo de cavalo. Ela estava simplesmente linda, como a princesa que era.

- O peep toe preto. – Eu apontei para o sapato e me virei para continuar a me maquiar. Eu havia escurecido meus olhos com sombra e delineador e usava brilho labial um pouco escuro, diferente da maquiagem básica de Lissa. Meu cabelo estava solto e caía com poucas e longas ondas ao meu redor.

- Vamos? – Lissa perguntou ao pegar sua bolsa e dar mais uma olhada no espelho.

- Yeah. – Eu fiquei ao lado dela no espelho.

Eu havia escolhido uma abordagem diferente de Lissa. Meu visual era sexy chique. Eu estava usando uma saia preta colada de cintura alta que ia até o final da minha coxa e uma blusa um pouco decotada branca. Por baixo eu vesti uma meia calça escura e calcei botas oxford pretas cominando.

- Nós vamos arrasar. – Eu comentei pegando nossos casacos.

No andar de baixo André nos recebeu com um assovio.

- Uau. Se não são a 'Barbie me leva pra festa' e a 'Barbie professora safada' que acabaram de chegar. – André brincou.

- Eu vou tomar isso como um elogio. – Eu falei. – Nós vamos no seu carro?

- Sim, acho que vocês não vão saber chegar lá. – Fomos para a garagem mas não antes do irmão de Lissa me checar 'discretamente'.

A casa de Greg Dashkov era longe do centro da cidade perto de um lago, cerca de meia hora de carro. A vantagem era que a região tinha poucas casas por isso não havia muitas pessoas para reclamarem do barulho ou da confusão da festa.

A festa já tinha começado, havia vários carros estacionados ao longo da rua e uma música super alta chegava até nós. Como toda casa de fim de semana de gente rica a casa de Greg era enorme com um monte de cômodos e de quartos. Dentro dela, uma massa de pessoas ocupava o andar de baixo, bebendo, conversando e dançando. Nós guardamos nossos casacos enquanto André foi pegar algo para bebermos.

Ele nos entregou dois copos.

- Isso é refrigerante. – Ele falou. – É a única coisa que eu quero ver vocês bebendo, entenderam? – André adicionou sério.

- Então feche os olhos. – Eu falei roubando a cerveja que ele segurava e tomando um gole.

- Haha. Muito engraçado. – Ele pegou a cerveja de volta.

- Dragomir! – Gritou um cara do outro lado da sala. – E aí cara. – André foi cumprimentar seus amigos deixando Lissa e eu sozinhas.

- Você tá vendo alguém conhecido? – Eu gritei para que Lissa pudesse me ouvir.

- Não, ainda não! – Ela gritou de volta

Nós passamos alguns minutos só observando a multidão e bebendo nossas bebidas. A cada minuto que passavam mais pessoas pareciam chegar.

- Meninas! – Alguém gritou atrás de nós e logo fomos abraçadas por quatro braços fortes.

- Hey Eddie, oi Mason. O que vocês estão fazendo aqui? – Eu perguntei. – Vocês foram convidados? – Mason e Eddie não eram da realeza.

- Nah. Mas eu duvido que metade dessas pessoas foram convidadas. Afinal, não se pode dar uma boa festa se não houver penetras! – Mason falou feliz. – E aí Hathaway, quer dançar comigo?

Eu troquei um olhar com Lissa e ela deu de ombros então fomos para a pista de dança, acompanhadas por Mason e Eddie. Nós dançamos várias músicas, desde 'Get The Party Started' da Pink a 'Just Dance' da Lady Gaga. Quando já não agüentávamos mais eu puxei Lissa para fora do bolo de pessoas.

Nós paramos ao encontrar Jesse Zelkos cercado por um grupo de meninas de diferentes idades. O olhar de Jesse me percorreu de cima a baixo e quando ele reconheceu quem era passou os braços em volta da minha cintura.

- Oi, Rose. Não imaginava te ver aqui. Que sorte. – Ele meio falou, meio gritou em meu ouvido para ser ouvido por cima da música.

- Eu vou achar meu irmão. – Lissa me avisou sorrindo e me dando mais privacidade com Jesse.

- E então, você veio com quem? – Ele perguntou, focando sua atenção em mim e fazendo o grupo de garotas se dissipar.

- Com o irmão de Lissa, André.

- Hum, não sabia que ele tava na cidade. É tipo... um encontro? – Jesse perguntou interessado.

- Se fosse um encontro e ele me deixasse sozinha as mãos dele estariam quebradas no final da noite. – Eu falei sarcasticamente fazendo Jesse rir.

Nós continuamos a conversar e flertar por alguns minutos até sermos interrompidos por Camile.

- Jesse, querido. Posso falar com você? – Camille perguntou em uma tentativa de parecer doce. Antes mesmo que pudessem me incluir na conversa eu me desculpei e saí de perto deles indo de encontro com André que conversava com um outro cara.

- Hey, você viu a Lissa? – Eu perguntei.

- Não, ela não tá com você? – Imediatamente eu me repreendi por ter perguntado. Eu tinha prometido que ia tomar conta dela, droga!

- É, ela deve ter ido tomar um ar lá fora, acho que eu vou lá ver...

- Rose? – Eu me virei para o cara com quem André estava conversando e meu coração parou. Dimitri Belikov estava parado em minha frente conversando com o irmão da minha melhor amiga.

- Ah... Oi... – Eu o cumprimentei ainda sem entender como uma pessoa séria como Dimitri estava em uma festa cheia de universitários e coisas ilegais.

- Vocês se conhecem? – André perguntou.

- É... Dimitri é meu treinador. Eu faço aula de luta. – Eu respondi e percebi que Dimitri estava extremamente desconfortável.

- Sério? Eu nem sabia, Rose! E cara, nem sabia que você era treinador. Caramba, tanta coisa aconteceu desde o Ensino Médio! – André comentou feliz.

- E de onde vocês se conhecem? – Eu perguntei quase acusadoramente para Dimitri.

- Nós nos formamos juntos! Como o mundo é pequeno, não é? – André respondeu antes de Dimitri passando o braço por cima do meu ombro, o que não passou despercebido por Dimitri. – Nossa os anos passam tão depressa. – André falou sorrindo e eu comecei a desconfiar que ele já estava meio bêbado.

- Ok, foi legal falar com vocês, mas eu vou achar Lissa. – Eu falei ansiosa para sair daquela situação desconfortável.

Nos poucos minutos que eu fiquei conversando com Dimitri e André, mais com André porque Dimitri não falou NADA, a quantidade de pessoas na festa pareceu ter dobrado. Agora estava ainda mais difícil se mexer dentro da casa e ainda pior procurar alguém.

A música explodia dos alto falantes, pessoas dançavam e cima de mesas e alguns caras se preparavam para jogar hockey usando muffins como disco em algum tipo de "acerte o muffin na boca".

Mas o mais importante, eu não via Lissa em lugar nenhum.

Um arrepio de medo percorreu minha coluna.