- ...e foi isso que aconteceu – Terminei com a voz rouca.

Eu estava contando para Bridget o que tinha acabado de acontecer na Mansão Potter e sobre a bizarra profecia sobre minha gravidez de qualquer homem. Não sei o que mais me deixa pior: saber que isso é verdade ou contar para uma pessoa em voz alta.

Bridget, durante todo tempo que eu passei falando, foi oscilando entre surpresa, choque e horror. Suas caretas seriam engraçadas se o assunto fosse mais leve, mas não o era. Quando terminei de contar sobre o que tinha acontecido comigo, Bridget não conseguia se expressar verbalmente. Estava em completo estado de choque.

- Mas você tem que engravidar de qualquer homem ou de um específico? – Perguntou com os olhos arregalados enquanto segurava minhas mãos. Quase fiquei com vontade de chorar. Quase.

Eu dei de ombros, confusa.

- Acho que é de qualquer homem, a profecia foi interrompida no meio – Respondi com a voz baixa, minha garganta estava doendo – Mas se fosse com um homem específico, teria falado que o filho precisaria ser meu e de tal homem. Não falaria só de mim, entende?

Ela assentiu, pensativa.

- Se fosse um homem específico, seria a primeira coisa que falariam na transmissão da informação. Não seria só você, tipo que a única pessoa revelada na profecia – Comentou com a voz baixa, mas ainda pensativa.

Bridget me lançou aquele olhar de dó. Nunca gostei que as pessoas sentissem pena ou dó de mim. Gosto de minha auto-suficiência, minha segurança pessoal. Me sinto totalmente acabada quando fico sabendo ou vendo alguém que sente pena ou dó de mim. Fico realmente acabada.

Nisso, eu me levantei da cama de dossel em que nós duas estávamos sentadas e entrei no banheiro com minha toalha de tomar banho. Abri as torneiras da banheira, deixando a água levemente fria. Logo em seguida, tirei minha roupa e entrei na banheira.

Estávamos em Hogwarts. Já fazia algumas horas que Dumbledore havia me transportado para lá e, diante das circunstâncias, Dumbledore nos apresentou um cofre em Hogwarts. Ficava no último andar, bem longe das masmorras sonserinas (fiquei aliviada de saber que era bem, mas bem longe de Severo) e tinha uma armadura guardando sua porta discretamente. Se alguém que passasse por ali, o que eu duvido muito, mas se houvesse alguém que subiria todos os degraus do castelo e desse de cara com um corredor escuro cheio de armadura, não ficaria por lá. A porta só era visível para as pessoas que sabiam que ela existia, como se fosse um Fiel do Segredo, mas de forma leve.

Após localizarmos esse cofre de Dumbledore, que nos disse que ali guardava vários livros de magia negra que ele havia tirado da biblioteca há alguns anos atrás (ou décadas, vai saber). Não queria jogar fora os livros por medo de cair em mãos erradas (ele não nos explicou o porquê que ele os tirou da biblioteca, mas sei que tem algo a ver com Voldemort e seus seguidores. Percebi que venho chamando Voldemort de Voldemort desde que descobri sobre a profecia. Que evolução, sarcasticamente falando) e nem queria queimá-los, pois ele poderia precisar dos mesmos algum dia.

Então, Dumbledore nos explicou que os transferiu para outro cofre de Hogwarts (esse lugar me lembra o Gringotes, com esses cofres e senhas de salas comunais, sei lá) e que nós iríamos dormir naquele cofre. Participaríamos das aulas normalmente, embora o café-da-manhã, o almoço e o jantar, seriam colocados em nosso quarto (cofre) na hora em que as pessoas estariam no salão principal de Hogwarts.

Estávamos proibidas de entrar na biblioteca, de ir em Hogsmeade e de sair do castelo. Nem mesmo para ver as partidas de Quadribol das casas. Que pena, eu sempre gostei tanto de Quadribol. Sei a tabela de classificação do campeonato inglês de Quadribol, na ponta da língua. Fiquei sentida quando Dumbledore nos proibiu de ir lá.

Também não podemos ir nos jardins e muito menos sair dos territórios de Hogwarts. Passaríamos todos os feriados dentro do nosso quarto, a sete chaves. Não poderíamos fazer amizade com nenhum dos outros alunos, nem participar de festas, eventos ou reuniões amigáveis. E também tínhamos de ser extremamente discretas em tudo, nos estudos (não poderíamos nos destacar muito nos trabalhos de classe), nas amizades (que não mais existiriam) e nas informações que demos.

- Assim temos que ser invisíveis – Comentou Bridget, de mau humor por causa do nosso novo regulamento.

Dumbledore assentiu tranquilamente.

- Com certeza – Começou com a voz rouca. Estávamos no corredor enquanto ele nos explicava a conduta que tínhamos que ter em Hogwarts – Mas acima disso, vocês duas precisam ser espertas para captar qualquer sinal de ameaça. Temos cinco aurores disfarçados dentro do colégio. Duas deles ficarão com vocês no quarto e os outros três vão ficar fazendo a ronda pelo castelo durante os intervalos de classes e as refeições. Nos finais de semana, vocês permanecerão trancadas no quarto. Eu mesmo ficarei com a chave e abrirei quando vocês precisarem de alguma coisa, que é só me mandar uma coruja pela torre de onde vocês estão. Não se preocupem, eu sempre estou em Hogwarts, então é impossível de desviarem a coruja, fiquem tranquilas.

Meu olhar e o de Bridget se cruzaram. O que me deixava alarmada não é era que a minha coruja poderia ser desviada, mas sim de que viraríamos reféns de nós mesmas. Como se fôssemos presas de Hogwarts. Eu sempre amei Hogwarts, mas como que eu não posso ir a todos esses lugares? É Hogwarts!

Bridget me olhava de cara feia. Era palpável o que ela sentia naquele exato momento. É óbvio que ela estava me culpando por tudo que eu estava a fazendo passar. É claro que ela escutou a profecia junto comigo, mas eu sou que sou o alvo da profecia. Nada de festas, amigos e jogos de quadribol. Eu sentia a raiva dela em seus olhos. Sem poder fazer nada, eu desviei meu olhar. Minha garganta estava doendo muito , parecia que eu estava com aquele nó incômodo novamente.

Dumbledore nos observou por algum tempo, alguns minutos. Ele havia percebido o que estava acontecendo entre nós duas. Bridget com raiva e eu me sentindo a pior pessoa do mundo.

- Srta. Hamilton, eu poderia pedir a você, com toda gentileza existente, para tratar a nossa Lily com o carinho que ela merece nesses tempos turbulentos. Não queremos que nossa esperança se sinta triste – Falou com a voz baixa e com aquele sorriso gentil e agradável que só ele tinha. – Vamos discutir os aspectos da profecia mais tarde, Lily, enquanto isso eu espero que você deite um pouco.

Assim, ele se virou e abriu a porta com uma chave estranhíssima, enferrujada. Logo após, um espelho se formou enquanto a porta de dissolvia. O espelho, como eu descobri, era feito para verificar se era uma pessoa 'fiel do segredo' que estava ali. Nisso, após a verificação, surgia um espaço para se colocar a varinha da pessoa ali. Dumbledore colocou a velha varinha dele ali e alguns segundos depois, o espelho se dissolveu.

Eu imaginei que era apenas um quarto, que seria realmente uma prisão para mim. Mas levei um baita de um susto quando vi onde ficaríamos 'hospedadas' ( a palavra 'presas' soa muito difícil para mim nesse exato momento ). Era uma sala do tamanho da sala comunal, com uma lareira de pedra maravilhosa e algumas poltronas branca e verde-escuro. Não havia nenhum quadro no cômodo.

Tinha alguns tapetes no chão, todos eram brancos. Como será que Dumbledore adivinhou que minhas cores favoritas eram, apesar da minha casa, Grifinória, minhas cores eram verde e branco. Eu sei que é mais ou menos a cor da Sonserina, mas sempre gostei do tom de verde de meus olhos e do tom branco de minhas pele. Será que Dumbledore fez tudo isso para me agradar?

Deve ter sido, afinal, eu sou a 'esperança de todos'. Tem como existir mais pressão nisso? Pois eu não vejo. Estou totalmente pressionada.

Nessa sala, havia uma porta dando para uma cozinha pequena, mas muito bonita (também nas tonalidades branco e verde, com alguns detalhes em vermelho-sangue).

- Deixo-as aqui, senhoritas – Avisou Dumbledore, nos mostrando as duas aurores que ficariam com a gente. Uma negra de olhos verdes que, defitivamente, era intimdiante e uma morena de olhos azul-escuro. Eu conhecia de nome a morena de olhos azul-escuro, Alice Longbottom. A negra eu desconhecia – Espero que apreciem seus aposentos. As senhoritas Longbottom e Vaughan lhes explicarão tudo.

Ele me deu uma piscadela e saiu da sala-cofre, fechando a porta. Eu e Bridget olhamos uma para a outra, perdidas. Haviam quatro portas no final da sala, cada uma com uma placa.

Enquanto Alice Longbottom e Tiffany Vaughan se apresentavam para Bridget, de forma muito amigável, como me surpreendi, eu estava de frente as portas. As placas era simples, com as letras brancas e alguns detalhes em prata ao redor das mesmas.

'Querida Lily', 'Querida Bridget', 'Protetora Alice' e 'Protetora Tiffany'.

Achei legal que pensaram em por o nosso primeiro nome. Por mais que a situação não era legal, Dumbledore pensou em um jeito de fazer com que nos sentíssemos em casa. Acho que ele está facilitando tudo para que eu engravide do primeiro que se candidatar. Mas já que toquei nesse assunto, não estou ansiosa para conversar sobre minha sexualidade com Dumbledore. Isso é muito abstrato para minha personalidade, nunca me vi discutindo isso com meus pais, imagina com Dumbledore, afinal, é Dumbledore! Mas tenho quase certeza de que ele não colocaria qualquer um para transar comigo. As coisas não funcionam assim.

Eu acho.

Depois de nos apresentar para Alice e Tiffany, eu e Bridget fomos para o meu quarto, discutir a situação. Ela não sabia direito o que estava acontecendo e eu precisava colocá-la a par dos acontecimentos, principalmente quando se tem James Potter no meio da história. Meu quarto, como pude perceber, também era das minhas cores favoritas e todos os meus pertences já estavam ali, arrumados. Até meus perfumes estavam alinhados em cima de uma cômoda linda, clássica. A cama de dossel era clássica também. Não era um quarto muito grande, mas mesmo assim tinha uma escrivaninha para estudos, um banheiro pequeno, mas que tinha uma banheira e uma sacada pequena, mas no alto da torre que dava para ver o campo de Quadribol, para minha felicidade.

Vejo que Dumbledore quer fazer de tudo para que eu fique confortável. Vamos ser práticas, ele precisa que eu fique confortável, fazendo as coisas que eu quero, me deixando saudável e contente, para que eu gere um feto com muita naturalidade. Agradeço seus esforços, Dumbledore, mas mesmo assim me sinto aterrorizada com essa idéia (e profecia).

Assim, voltamos ao meu banho na linda banheira do meu banheiro. Eu brincava com a água de forma distraída enquanto escutava Bridget sair do meu quarto. Só o meu quarto que tinha uma sacada. Sei que minha situação deve ser digna de pena, mas Bridget não está encarando essa história de privilégios (eu não preciso estudar parar alcançar a média, ela precisa) com muita naturalidade. Dá pra perceber que ela se sente incomodada em me ver nessa situação.

Sei que ela está se sentindo culpada por sentir inveja no momento errado, realmente sei disso. Mas é uma coisa de sentimentos, não? Não conseguimos evitar certas coisas e acho que isso está acontecendo com ela. Bridget sempre foi um tanto quanto instável nessa parte de nossa amizade, mas acho que ela vai realmente ver minha situação e perceber que, nesse exato momento, quem tem sorte aqui é ela, pois está protegida de tudo e não tem que seguir o que caminho que eu tenho que seguir.

Com o tempo ela descobrirá que ela que é a sortuda e eu a condenada.

Enquanto eu estava deitada na banheira espaçosa, minha mente começou a divagar sobre alguns assuntos em que eu não gostaria de pensar, mas não houve jeito. Quando ficamos sozinhas, com aquela necessidades de estar em compania com nós mesmas, tendemos a pensar coisas que nos afetem ou nos desagradam.

Pensei na reação de James quando eu fui na biblioteca, antes de ir embora da Mansão Potter. Eu sei que ele não estava indiferente. Se estivesse, teria se despedido normalmente, como se não tivesse escutado nada da boca do pai dele. Tenho absoluta certeza que o pai dele contou a situação para o filho, é muito óbvio.

Se ele ficou com aquele reação que ficou, foi porque aquilo mexeu com ele. Ele poderia se despedir de mim normalmente, afinal, nem sequer nos beijamos. Como eu poderia cobrar dele coisas que nem eu sabia?

Pensando nisso agora, será que ele pensou que eu já sabia sobre a profecia? Quero dizer, será que, com a necessidade de que eu engravide, de que eu seduziria o primeiro homem que pulasse na minha frente?

Se eu fosse ele, pensaria isso. Pensaria que, como ele sai com todas as garotas de Hogwarts, transar e engravidar dele não sairia trabalhoso, entendeu? Seria prático, segundo os possíveis pensamentos dele, pois a família dele já era da resistência, já era da Ordem da Fênix, do círculo íntimo de Dumbledore. Minha nossa.

Eu não havia pensado nisso. Não havia mesmo. Agora sei o porquê que ele ficou todo travado lá na biblioteca, com aqueles lábios finos e sedutores se contorcendo. Ele estava pensando que eu havia dado em cima dele para isso, para engravidar. E ele deve estar pensando 'como que eu me deixei levar por essa vadia?' .

Eu mesma me chamei de vadia. Mas é segundo os pensamentos dele. Sei que ele deve chamar muitas garotas de vadias, até porquê isso é sedutor para algumas delas (?). Não pra mim, para elas. Mas deve ser o pensamento dele. Ele deve estar com uma raiva do caralho de mim.

Suspirei tristemente.

Uma coisa é pensar que James estava impossibilitado de ter uma reação melhor comigo, outra coisa é ele estar pensando que eu realmente posso ser uma vadia aproveitadora de situações. E que ele, definitivamente, está com uma puta raiva de mim. Uma coisa é ele estar forçado e outra coisa é ele estar SENTINDO raiva de mim.

Me afundei na banheira. Não sabia o porquê que isso havia me afetado tanto. Existem tantas pessoas que me odeiam, mas nunca me afetaram assim. Dessa forma, se você for pensar, eu realmente sou uma fortaleza. Mas não com James. Alguma coisa, que não consigo saber o que é, me afundou totalmente. E não só na banheira, mas no meu emocional.

Enquanto eu estava vestindo uma roupa qualquer, eu pensei em Severo. Por mais que ele só seja um Comensal da Morte em potencial, será que ele será informado dessa tal profecia? Quero dizer, logo descobrirão (ou ele contará) que já foi meu namorado. Isso é um puta de um problema, pois não sei se Dumbledore sabe que fui namorada dele. Mas deve saber, Dumbledore sempre sabe de tudo que acontece em Hogwarts, até as transas casuais que ele finge desconhecer.

Cocei os olhos com as mão esquerda. Mas que problemão foi esse que eu arranjei em relação à Severo. Mas ainda me atinge esse negócio dele ser Comensal da Morte, junto ele, um rapaz tão doce. Fico com medo do que me espera em relação à ele. Fico com medo dele elaborar algum plano com Voldemort e é o que provavelmente acontecerá. Quem não quer ser amigo íntimo de Voldemort naquele círculo de Comensais?

Um arrepio subiu minha espinha e eu balancei a cabeça, tentando espantar aqueles pensamentos que tanto me atingiam.

Logo os dias foram passando e eu fui descobrindo que aquele quarto-cofre era um lugar muito legal de se estar. Todo livro que eu queria ler, era só escrever o nome dele em um armário e esperar o livro aparecer alguns minutos depois. Assim, eu li praticamente uma biblioteca enquanto as férias iam passando. Bridget estava muito calada, mas eu não estava muito a fim de conversa. Preferia ficar lendo vários livros antigos da biblioteca.

Sem falar na compania super animada de Alice e Tiffany. Alice era uma figura e sabia ser engraçada como ninguém. Alice era expert em relacionamentos, mas ninguém sabia o porquê, ela, com um sorriso malicioso, se recusava a contar suas experiências sexuais. Alice namorava com um homem chamado Frank Attley já há quatro anos e planejavam noivar. De vez em quando, Alice, em seus dias de folga, ia encontrar Frank no salão principal (ela me falava, pois eu não tinha permissão de sair do quarto-cofre) e logo eles estavam em algum canto do castelo, transando. Ela sabia me animar e também sabia ser paciente quando eu tinha uma crise de mau humor, principalmente quando eu e Bridget discutíamos. Os temas das discussões era como que eu a 'arrastava' para todos os problemas que eu tinha. Ok. Não sou nenhuma santa, mas isso é muito abuso, quero dizer, olhar minha situação!

Eu tô mais ferrada que tudo. É muita ignorância dela falar assim comigo. Então, eu não discuto com ela, apenas escuto e quando ela termina, eu dou as costas e caminho para outro lugar para ficar longe dela. Depois disso, eu espero alguns minutos e ela vem atrás de mim, pedindo desculpas.

A compreendo, mas não significa que eu acho certo essa birra dela. Com o decorrer dos dias, trancadas no quarto-cofre com (com Tiffany ou Alice ausentes por causa de suas folgas, elas nunca ficam ausentes ao mesmo tempo. Sempre há uma trancada com a gente e quando elas querem sair, mandam uma coruja para Dumbledore) Bridget, pude perceber que ela estava um tanto quanto incomodada com meus privilégios. Sempre que Dumbledore aparecia, eu recebia vários presentes, de livros a artefatos mágicos interessantes. Segundo Dumbledore, ele queria que eu soubesse um pouco de tudo.

É óbvio que isso gerou uma Bridget irritada.

Quando estávamos eu, Tiffany e Bridget esperando os elfos domésticos com a comida na mesa da cozinha (que depois eu vi o quanto a comida era maravilhosa), a última começou a resmungar. No outro dia seria primeiro de setembro e os estudantes de Hogwarts chegariam à noite, era visível a animação minha e de Bridget para sair daquele lugar, por mais confortável que ele seja.

- Não sei o porquê que você ganha tantos presentes – Resmungou Bridget, olhando para o seu praro vazio e tomando suco de abóbora – Estão te mimando demais.

Revirei os olhos impacientemente. Já era a vigésima vez que ela começava com esse assunto, que sempre terminava com Bridget chorando e pedindo desculpas por ter sido tão grossa. Eu que deveria estar chorando. Que ironia.

- Não é que estão mimando a Lily, Bridget – Rebateu Tiffany, que com o tempo eu descobri ser uma ótima intermediadora de discussões, sempre muito calma ela sabia dizer coisas certas nas horas certas. Totalmente inteligente. Não era à toa que era da nata dos aurores – Estão querendo que ela fique confortável para aceitar a proposta da profecia. Devo confessar que, no lugar de Lily, é intimidante a situação. Você não tem essa obrigação tão pesada nas costas, ela tem.

Bridget fez uma careta, demonstrando aceitação.

- Ok, eu sei que estou sendo maçante – E soltou um longe suspiro cansado – É que eu estou cansada de ficar trancada aqui. Eu sei que é um lugar muito confortável, mas também quero ver coisas novas, lugares novos, se é que você me entende.

Eu assenti com um sorriso discreto no rosto.

- Acho que essa necessidade se chama Sirius Black – Comentei de forma natural, esperando ver a reação dela. Ok, eu cutuco a onça com cara curta, mas é que ela nunca me contou o que aconteceu quando desapareceu com ele.

Ela arqueou as sobrancelhas com os olhos um pouco saltados. Tiffany sorriu abertamente, deixando aparecer seus dentes brancos e alinhados que faziam contraste com sua pele.

- Sirius Black? – Repetiu Tiffany ainda sorrindo – É engraçado o quanto as garotas falam dele. Ele é lindo, é claro, mas não deixa de ser um total galinha.

- E como você o conhece? – Perguntou Bridget, confusa.

Eu estava com a mesma pergunta na minha mente.

- O Sr. Potter é o auror principal do Ministério da Magia, então, sempre há reuniões agradáveis em sua mansão. Não posso deixar de comentar que Black e o herdeiro dos Potter passam o rodo quando se diz mulheres. São novos, mas absurdamente experientes – Respondeu Tiffany, de forma indiferente.

Quando ela falou do herdeiro dos Potter posso jurar que surgiram borboletas em meu estômago. Como se eu caísse por um momento e depois aparasse meus órgãos. Sei lá, é aquela reação que demonstra que você sente algo pela pessoa. Odeio isso.

Bridget olhou para mim, desconfiada. Não sei se fiz uma careta quando ela mencionou o James, mas foi o bastante para gerar uma Bridget pé-no-saco. Sempre comentei do que aconteceu comigo e com James na Mansão Potter, mas nunca comentei o que eu sentia por ele.

Ok, não era paixão e muito menos amor. Era uma afeição inexplicável e mútua, para piorar minha situação. Eu nunca suportaria admitir isso em voz alta, eu ficaria muito mal. Uma coisa é pensar, em seu íntimo, outra coisa é compartilhar e observar sua própria voz admitindo isso.

Logo os elfos domésticos chegaram com a comida, me deixando com água na boca. Comemos em silêncio, mas de vez em quando Tiffany puxava conversa com Bridget, que respondia sem muita animação. Antes da duas terminarem eu murmurei que iria tomar um banho e dormir.

Saí da cozinha e fui direto para o meu banheiro. Não podia negar, eu estava agitada e ansiosa quanto ao aparecimento dos novos alunos no jantar de amanhã, sem contar que seria a primeira vez que eu e Bridget sairíamos dali. Eu estava muito agitada e nem um banho quente ajudou a abaixar isso.

Depois de horas tentando dormir, eu levantei da cama e fui observar os jardins de Hogwarts da sacada do meu quarto. Estava tão silencioso, na expectativa da agitação vinda por alunos inconsequentes, irresponsáveis e divertidíssimos. Fiquei observando o campo de Quadribol, o melhor esporte do mundo, por algumas horas.

Por mais que eu tentava pensar o quanto Quadribol era bom, só me via uma pessoa na cabeça que gostava mais de Quadribol que eu: James Potter. Ele era o apanhador e capitão do time da Grifinória, como não pensar nele quando se tem essa vista?

Balancei minha cabeça, tentando espantar esses fantasmas incômodos que ocupavam minha mente quando eu estava sozinha. Já passavam das duas horas da madrugada e eu ainda estava acordada. Meu uniforme já estava dependurado em uma das alças da porta do meu guarda-roupa, pronto para ser usado.

Me sentei em cima do muro de pedra da sacada. Batia um vento fraquinho de verão e eu comecei a notar que acontecia alguma coisa na Floresta Proibida. Não era nada que poderia se chamar de assustador, mas logo percebi que era uma reunião de centauros. Não os vi, mas ouvi várias vozes com um tom grave e cascos de cavalos.

Depois de alguns minutos ouvindo essas vozes em um idioma diferente, pude perceber que a reunião se desfez e Dumbledore, junto com Olho-Tonto Moody, saíam da floresta. Os dois mantinham as cabeças baixas, um tanto quanto pensativos. Abriam a boca de vez em quando, mas nada de dar bandeira. Era sombras e se movimentavam rapidamente, o que me surpreendeu pois Dumbledore era um pouco (generosa, eu, não?) idoso e Olho-Tonto Moody era nosso professor de DCAT. Um tanto quanto excêntrico (ou totalmente pirado) mas um professor digno. Ele desconfiava da própria sombra, o que não me surpreende. Aurores são assim, devem lidar com a vida que escolheram principalmente nesses tempos de Voldemort.

De relance, reparei que os dois olharam para mim rapidamente e logo voltaram ao foco da conversa. Sei que eu poderia estar no meio ali, não me surpreende. Fiquei olhando as estrelas enquanto pensava se os alunos que viessem no Expresso de Hogwarts sentiriam minha falta, principalmente as pessoas com que eu tinha que conviver todos os dias aqui em Hogwarts.

Dumbledore ainda não tinha conversado comigo sobre a profecia. Acho que ele está ocupado demais para isso, pois vejo Tiffany e Alice comentando que nunca o acham. Sempre quando ele dá notícia, está saindo de uma reunião ou entrando em outra. Será se muita gente sabe da profecia?

Acho que ele esperará o início das aulas para ver como eu fico em Hogwarts. Ou então ele realmente está ocupado. Tanto faz. Não quero conversar disso com Dumbledore. Não me vejo contando minha vida sexual para um idoso que é o melhor bruxo de nossa época. Chega ser hilário pensar nisso, se não fosse tão... irônico.

Deitei em minha cama e adormeci rapidamente.

Acordei com um elfo doméstico entrando em meu quarto e deixando o café-da-manhã em minha cama. Ele se chamava Abbey e era extremamente dedicado.

- A srta. Lily não acordou na hora do café-da-manhã na cozinha, então eu juntei tudo que a srta. Lily gosta e coloquei nessa bandeja – Eu sorri agradecida. Abbey era tudo de bom, sempre muito atencioso.

- Obrigada, eu estou com uma fome de leão – Agradeci gentilmente enquanto via aquele elfo doméstico sair do meu quarto, todo saltitante.

Eram quase três horas da tarde e eu havia acordado por aí. Não dei a mínima importância para isso, eu estava muito bem deitada em minha cama e comendo torradas com geléia de morango enquanto olhava para o teto do quarto.

Então era esse dia. Eu ia ver todo mundo no jantar de hoje, daqui poucas horas. Um arrepio de nervosismo subiu minha espinha. Eu veria James e Severo. Será que James me ignorará de novo?

Fico mais preocupada com Severo, o meu ex com potencial de Comensalismo. Se ele soltar as informações erradas para Voldemort, eu estarei perdida. Voldemort saberá como me atingir, nos meus pontos fracos e também saberá, com ajuda do seu espião, onde eu sempre estarei. Mas que merda.

Bridget entrou em meu quarto.

- Houve um ataque na Mansão Potter – Começou alarmada, com aquela ruga entre suas sobrancelhas bastante pronunciada. Eu prendi minha respiração, assustada. – Não houve mortos.

Eu respirei aliviada, mas ainda me mantinha em estado de choque. Bridget me mostrou o Profeta Diário e se sentou na minha cama, filando meu café-da-manhã.

- Onde você o conseguiu? – Perguntei curiosa. Estávamos totalmente isoladas.

Bridget deu de ombros.

- Alice o trouxe para cá, ela pensou que queríamos saber disso – Respondeu enquanto dava uma mordida em uma torrada com geléia de morango. Pude ver que suas mãos estavam tremendo. Bridget estava muito nervosa.

- Mas será se essa informação é verdadeira? – Perguntei desconfiada – Você sabe que há Comensais da Morte infiltrados no Profeta.

- Eu sei, mas Alice e Tiffany garantem que aconteceu mesmo – Respondeu rapidamente, parecendo esperar minha desconfiança – Alice estava lá. Estava tendo uma pequena reunião na Mansão Potter quando vários Comensais encapuzados destruíram a barreira de proteção dos Potter. Ninguém sabe como que eles conseguiram isso.

Eu mordi meu lábio inferior e, como se fosse um instinto, eu me senti culpada. Meu silêncio deixou Bridget com uma pista sobre o que eu estava sentindo.

- Não se preocupe, Lily, ninguém se machucou – Bridget tentava me consolar, mas era em vão – Todos conseguiram escapar. Alice me disse que eles mataram cinco Comensais enquanto fugiam dali. Fique tranquila.

Eu assenti.

- É, eu estou nervosa à toa – Admiti enquanto tomava o resto de suco de abóbora em meu copo – Fico me sentindo culpada pois sei que os Comensais estavam à minha procura. Voldemort estava lá?

E foi nessa hora que Bridget mordeu seu lábio inferior. Ela sempre fazia isso quando a situação fica de mau a pior. Bridget respirou profundamente antes de responder.

- Estava – Respondeu nervosa, olhando para os lençóis da cama – Mas não feriu ninguém. Alice disse que ele não queria saber de matar, que ele vasculhou a casa em busca de alguma coisa e saiu. Depois disso, os Comensais entraram.

'Ele vascullhou a casa em busca de alguma coisa e saiu'. Tem como alguém me dar uma notícia alegre, pelas calças de Merlin? Fico sentida com tudo isso. Se o próprio Voldemort está, e agora que caí na real que ele realmente está, me procurando, o que as pessoas podem fazer por mim?

Duvido muito que um homem enfrentaria Voldemort assim, cara-a-cara, para me engravidar. Me engravidar é assinar a sua sentença de morte. Sem contar com meu emocional.

Fico pensando sobre a Mansão Potter, imaginando se eu estivesse ali. Seria um estrago, totalmente. A, segundo Dumbledore, 'esperança de todos' se apagaria rapidinho. Que termo idiota, me sinto patética quando ele se refere à mim desse jeito.

Depois de Bridget e eu comentarmos dos detalhes da reportagem um tanto quanto sensacionalista, vimos o pôr-do-sol na sacada do meu quarto enquanto vários alunos chegavam por meio de carruagens. Os primeiros desciam e entravam em Hogwarts, cheios de animação.

- É hora de se vestir, colega – Falou uma Bridget animada, que saiu do meu quarto logo depois.

Dei um sorriso verdadeiro. Eu estava animada para sair daquele quarto-cofre, se interagir (se eu puder) com outras pessoas. Também estava um tanto quanto nervosa para ver se James estava bem. É óbvio que não comentei isso com Bridget. Já falei que odeio me ver admitindo esse tipo de coisa em voz alta?

Tomei meu banho e coloquei o uniforme. Fui para a sala do quarto-cofre e vi Dumbledore nos esperando com vestes extremamente engraçadas e descombinadas. Tive uma pequena vontade de rir que segurei com todas as minhas forças. Dumbledore sabia ser estranho todas as horas.

Bridget estava sentada em uma poltrona e Alice, juntamente com Tiffany, iriam fazer rondas pelo castelo, principalmente no salão principal. Obviamente, com toda discrição que puderem ter. A última coisa que Dumbledore queria era que ficasse escancarada a minha situação por aqui.

- Podemos...? – E Dumbledore, sem esperar nossa resposta, abriu a porta para que pudéssemos sair. Quando eu saí para o corredor, uma onda de felicidade passou por mim.

Liberdade...? Não. Eu nunca terei isso. Mas um indício já me fez ganhar o dia. Depois de andarmos por alguns corredores, descendo algumas escadas, Dumbledore desapareceu e ficamos com Alice e Tiffany, que nos seguiam discretamente. Quando chegamos na salão principal, estava uma confusão.

Melhor impossível. Sem sarcasmo.

Seria muito ruim se eu e Bridget chegássemos em um salão principal quieto. Todo mundo perceberia de onde estávamos vindo e que não estávamos no Expresso de Hogwarts. Pelo menos nisso, eu pude agradecer a sorte. Nos adentramos na confusão e logo pegamos nossos lugares na mesa da Grifinória.

Os alunos iam entrando lentamente, com toda aquela balbúrdia e confusão que sempre acompanha os adolescentes. Sentada do meu lado, Bridget se mexia incomodada.

- O que foi? – Perguntei com uma sobrancelha arqueada.

- Tem um grupo de sonserinos olhando para nós duas – Respondeu com a voz baixa, tentando ser discreta ao olhar para eles novamente.

- Onde eles estão? – Perguntei, tentando ser discreta, olhando para a mesa de professores, mas com a atenção no meu ouvido esquerdo.

- Ali, no final da mesa da Sonserina – Respondeu enquanto mexia no cabelo para aparentar distraída.

Enrolei um pouco antes de olhar para eles. Quando fingi que algo meu caiu no chão, eu pude espiar debaixo da mesa. Eram duas garotas e três homens. Eu senti um mal-estar repentino quando vi que Severo estava entre os garotos desse grupo. Estavam nos observando descaradamente, sem se preocupar em despistar.

Quando eu voltei para o meu lugar, eu cutuquei Bridget, que olhava para os primeiranistas que adentravam o salão para a seleção das casas. Aproveitando que os novos alunos passavam entre as mesas, nos escondendo, eu virei para Bridget.

- Será que eles sabem? – Perguntei em um sussurro, mas o desespero estava presente. A ruga de preocupação de Bridget se pronunciou.

- Tenho certeza – Respondeu enquanto observava a seleção da casas com a professora McGonagall – Você se lembra quando Severo deixava os Comensais em um pedestal? E também é seu ex-namorado e ex-melhor amigo. Voldemort o colocaria para te seguir aqui. Sem querer ofender, mas se eu fosse Voldemort, eu faria a mesma coisa.

Eu fiz uma careta impaciente.

- Ok, ok – Falei incomodada – Quem são os outros?

Bridget tentou olhar discretamente para a mesa sonserina novamente.

- Narcisa Black, sim, prima de Belatriz Lestrange. É aquela loira-platinada do lado de Severo – Respondeu com desprezo – Sei que o outro homem ali, também com cabelos cor de prata, é aquele Lucius Malfoy. Dizem que são namorados. O resto, exceto o Severo, eu desconheço.

Eu mordi meu lábio inferior. Acho que preferia estar no meu quarto-cofre agora, isolada de toda essa confusão interna e externa. Eu sentia alguns olhares em mim, mas eu estava (quase) concentrada na seleção de alunos. Após a seleção, veio o jantar.

Eu não estava exatamente com fome, eu tinha acabado de comer um lanche na cozinha do meu quarto-cofre. Os elfos domésticos de Hogwarts são adoráveis.

Enquanto Bridget conversava (e inventava mentiras que eu e ela concordamos em contar para todo mundo sobre nosso isolamento. Precisávamos de algumas mentiras para manter a convivência normal, não?) com nossas antigas colegas de quarto (todas ansiosas sobre o nosso último ano), eu olhava o salão com um certa distratibilidade.

Eu não queria encontrar o olhar de Severo. Eu teria que me segurar para não avançar em cima dele e cortar suas cabeças fora. Sim, suas cabeças. A de cima e a de baixo.

Justo quando eu estava tentando evitar pensamentos violentos contra Severo, um rapaz se sentou do meu lado. Assustei, de início, mas logo vi que era Remo Lupin.

- Olá, Lily – Cumprimentou gentilmente.

Será que ele sabia da minha situação? Fiquei em dúvida sobre como eu agiria.

- Boa-noite, Remo – Cumprimentei igualmente – Como foram suas férias?

Ele deu de ombros.

- Nada demais – Respondeu com um tom divertido – Tirando a parte de que o lugar que eu estava foi invadido por Comensais e o pelo próprio chefão da organização, foi normal.

Eu sorri alegremente. Ele sabia da situação, oras, ele era da nata da Ordem da Fênix, mesmo sendo tão novo. Mas só por Remo ser lobisomem, tinha suas vantagens de obter informações nesse meio tão cheio de escuridão. Pelo menos é uma suposição minha, nada do que eu tenha certeza. Se Remo sabia, Sirius também... e James também.

- Mas falando sério mesmo – Comecei com um tom mais sério – Como que foi isso? A Mansão Potter sempre teve a fama de um dos lugares mais protegidos da Inglaterra. Como que descobriram?

Ele deu de ombros.

- Não sabemos, mas parece que foi a mulher que fez a profecia... – Começou, esperando uma reação minha que não veio. Logo após, ele continuou – Dizem que ela é a melhor adivinhadora da Inglaterra. Ela deve ter colocado as pessoas que Voldemort deveria torturar para conseguir a localização da Mansão Potter. Mas é só uma idéia, embora realmente tenha sentido.

Eu assenti, mordendo meu lábio inferior. Depois de todas essas situações, meu lábio inferior já deveria estar todo roxo e ferido de tanto eu mordê-lo por puro nervosismo.

- Sei – Respondi com um nó na garganta – Você acha que essa adivinhadora sabe onde eu estou?

Ele assentiu seriamente.

- Acreditamos que sim – Respondeu com um tom de voz baixo – Mas também sabemos que Voldemort nunca agiria debaixo do nariz de Dumbledore. Voldemort não seria burro o bastante para adentrar Hogwarts. No máximo, ele colocaria espiões aqui.

Eu suspirei exausta.

- Já até sei quem são esses espiões – E fiz um movimento com a cabeça para o grupo sonserino que nos observava atentamente – E o pior: a prima de Belatriz Lestrange. Morro de horror dessa mulher.

Ele deu de ombros.

- Belatriz sabe ser assustadora – Comentou com um certo ar divertido, tentando me animar – Mas não se preocupe. Estaremos sempre de olho nesses sonserinos, acha que te deixaremos à mercê das cobras sonserinas? Jamais!

Eu e Remo começamos a rir involuntariamente. Fazia tantos dias que eu não ria assim, por pura diversão (ou humor trágico, como você preferir). Mas logo me veio uma pergunta na mente.

- 'Deixaremos'? – Repeti divertida – Você e mais quem me proterá das cobras?

Remo sorriu, já esperando aquela minha pergunta. Acho que ele fez de propósito mesmo, para que eu falasse sobre aquilo. Tenho certeza que sim. Só percebi isso logo depois quando eu pronunciei aquilo em voz alta. Odeio quando deixo as coisas em voz alta. Você sabe. Eu já falei isso.

Remo fez um gesto com a cabeça, me indicando onde eu deveria olhar.

Não sei se foi por pura curiosidade ou já sabendo o que me esperava, eu acompanhei o gesto da cabeça dele. Ele havia acenado para o meio da mesa da Grifinória, revelando um rapaz que ficou nos observando atentamente durante toda a conversa.

Seu cabelo bagunçado, com uma cor castanho-escuro, estava mais bagunçado do que o normal. Parecia estar agitado, não sei, um tanto quanto incomodado com algo. Ele estava com a respiração acelerada, parecia que havia corrido por muito tempo.

Um arrepio correu pela minha espinha.

Seus olhos estavam concentrados em mim, atentamente. Parecia analisar todos os meus movimentos. E ele não estava comendo, seu prato estava vazio. Apenas o seu copo que estava cheio de suco de abóbora.

Sirius Black estava ao seu lado, comendo normalmente. Ele conversava com uma garota (bastante oferecida, por sinal) e não estava no meio daquela agitação interna de James Potter. Muito pelo contrário, Sirius Black parecia totalmente alheio ao seu amigo.

Me virei para Remo, alarmada. Não sabia se estava ansiosa ou nervosa, mas alguma coisa mexeu comigo ali, naquele olhar dele. Fiquei toda arrepiada e quando dei as costas para James, eu ainda sentia seu olhar em minha nuca.

- Aconteceu algo com James? – Perguntei rapidamente, com meu raciocínio a mil por hora – Fizeram alguma coisa com ele na Mansão Potter?

Remo deu de ombros, tranquilo.

- Não, James sabe duelar sozinho. Não o machucaram – Respondeu com a voz baixa. Parecia que Remo não queria que Bridget escutasse a nossa conversa. Dito e feito – Não gostaria que sua amiga soubesse o que vou falar agora. Prometi que isso só sairia da minha boca para você.

Eu assenti sem contestar. Bridget é minha melhor amiga, mas prefiro saber nesse momento desesperador o que aconteceu e honrar minha mente. Ok, eu deveria compartilhar isso com ela, mas Remo pediu segredo, então, não o farei.

- Ok, mas porquê? – Perguntei confusa. O que Bridget tinha a ver com isso?

- James confiou somente a mim e a Sirius – Respondeu em um quase sussurro – Sua amiga não tem nada a ver com isso, por isso que ela não precisa saber de nada.

Meu estômago deu um pulo e quase vi as borboletas surgindo no meio dele quando Remo citou o nome 'James'. Ele tinha tudo a ver com isso. Pelo menos foi o que um lado da minha cabeça quis pensar.

Porque é que o nome 'James' causa tanto rebuliço assim em mim? Isso é tão patético. Me sinto uma retardada quando fico toda cheia de sintomas de menininhas que gostam de menininhos. Daqui a pouco eu vou vomitar açúcar por causa de minhas reações.

Eu assenti rapidamente e Remo continuou.

- Durante todos esses dias conturbados, principalmente depois que a profecia veio à tona e que você saiu de lá sem dar maiores explicações, eu e Sirius percebemos o que quanto James ficou abalado.

Eu revirei os olhos, desconfiada.

- Ah, tenha dó... – Comecei indignada - ... ele me conheceu aquele dia, como ele poderia ficar 'abalado'?

- Taí, Lily – Respondeu pacientemente – Eu e o Sirius começamos a achar James um tanto quieto, o que é algo que ele não é.

- Ele mandou falar que está quieto? – Perguntei confusa.

Remo arqueou suas sobrancelhas.

- Não, isso é meu comentário com o de Sirius – Respondeu com um pequeno sorriso – Mas voltando, pensamos que fosse alguma coisa que os pais dele tinham falado, mas o senhor e a senhora Potter começaram a nos perguntar o que estava acontecendo. James ficava na biblioteca durante todo o tempo, mas é natural, James sempre foi apaixonado por Literatura. Mas dessa vez ninguém o via, ele só ficava na biblioteca. Sirius e eu pesquisamos quais os livros que ele estava lendo e descobrimos que eram sobre profecias e adivinhações. Não pudemos deixar de pensar que você estava no meio disso.

Meus olhos estava arregalados. Eu não esperava esse tipo de atitude de James. Pensava que ele iria olhar para mim com um certo desprezo e continuar a seduzir meio colégio. Pelo menos foi o que eu pensei.

Remo percebeu que eu não estava planejando falar e continuou.

- Ele também não está comendo direito – Começou com uma careta e eu percebi que isso realmente era preocupante para Remo – Ele pesquisou muito sobre profecias durante esse verão, depois que você saiu da mansão. No dia que entraram na mansão, Voldemort deixou claro que te acharia a qualquer custo. James entrou em desespero.

Eu estava boquiaberta. Minha mão esquerda (já te falei que sou canhota?) estava cobrindo minha boca. Eu estava chocada, surpresa... não sei, em estado de choque aterrorizador. Voldemort havia deixado claro que me acharia...?

E James...?

- E o que James fez? – Perguntei rapidamente, novamente com meu raciocínio a mil por hora. Meu coração estava acelerado e eu estava completamente arrepiada.

Remo deu de ombros.

- Não sei ao certo, mas ele mandou vários Comensais conversarem com Deus – Respondeu incerto, com outra careta – Os pais dele se surpreenderam com a determinação de James de matar os Comensais. Confesso que foi assustador a reação dele. Estamos preocupados.

Morbi meu lábio inferior, que já estava se curando das feridas de minhas mordidas. Novamente, eu fiz outro roxo nele. Eu tinha essa mania de que, quando as coisas estão muito feias para o meu lado, eu mordo meu lábio inferior. E nesse momento, as coisas não estão feias. Estão absurdamente aos trancos e barrancos.

- Pronto – Falei, tentando raciocinar o que Remo havia dito – E o que James mandou falar?

Remo deu uma olhada em volta, de forma discreta. Alguns sonserinos olhavam para nós, mas Remo não deu confiança para eles. Quero dizer, já estávamos na mira mesmo, qual é a diferença?

Pude perceber que Remo também deu uma olhada para James. Não quis me virar por puro medo de ter meu coração saltitando.

- Ele quer conversar com você – Eu o olhei apreensiva – Depois do jantar, ele já sabe onde é que você está dormindo. Ele estará na porta.

Então, Remo se levantou suavemente e saiu. Não era um pedido, era um fato, uma certeza de que James estaria lá querendo ou não. Assim, Remo não viu que uma ruiva de olhos verdes estava completamente horrorizada e com medo, juntando suas mãos e pedindo para que não complicassem mais a vida dela.

Se eu ficar cara a cara com James, não conseguirei me segurar. Meu coração não se controla perto dele. E agora? Depois de todas essas informações que Remo me deu, como posso encarar James com o desprezo que eu planejava encará-lo?