Capítulo 6
Peguem o pomo!
Lily não dormiu naquela noite. E nem nas três que se seguiram. Toda vez que deitava para dormir, James povoava seus pensamentos e não deixava. Agora Lily tinha certeza de que deveria devolver o diário, já tinha ficado tempo demais com ele e descoberto mais do que deveria. Resolveu não ler aquelas páginas em branco, simplesmente fez um Finite Incantatem no diário e fez com que as palavras sumissem delas novamente. Continuava a escondê-lo, se alguma garota pegasse aquilo seria um escândalo. Mas estava disposta a devolvê-lo para o dono, e não havia dia melhor para isso do que a final do Campeonato Intercasas.
Naquele domingo o Campo de Quadribol começou a lotar bem cedo. Os primeiros a chegar foram os jogadores da Sonserina, que ficaram no vestiário, e seus amigos, que ficaram nas arquibancadas. Logo depois vieram os jogadores da Grifinória e seus amigos. Lily estava entre eles, claro. Era amiga de James e Sirius, e nunca faltava a um jogo. Alice também tinha sido convidada, e Dorothy também, apesar de esta última dizer que ia torcer para a Sonserina por causa de Sirius. Mas Lily duvidava muito. Mesmo com todas as traições, Dorothy ainda gostava de Sirius e não ia deixar de torcer para sua casa no dia da final.
As três ficaram conversando no camarote por mais um menos meia hora, até Remus chegar. Apesar de não ter sido convidado para o camarote da Grifinória, ele era Maroto e conseguiu entrar para fazer companhia às garotas. Lily percebeu que ele estava bem machucado e tinha arranhões na face e nos braços, mas não comentou nada. Havia muita gente ali perto, e Remus podia ficar constrangido. Alice olhava para os vestiários a todo minuto esperando que Frank aparecesse, mas como ele não aparecia, ela resolveu desviar suas atenções dele por uns instantes.
Mais ou menos uma hora e meia depois, as arquibancadas do Campo estavam cheias. De um lado, o imponente leão da Grifinória, e do outro, a ardilosa cobra da Sonserina adornavam as arquibancadas. A única sem os brasões das casas era o camarote dos professores e convidados, onde o brasão de Hogwarts reinava absoluto. De longe, Lily viu os pais de James no camarote de convidados e sorriu. Eles sempre foram muito interessados pelo filho, mas ela nunca os tinha visto numa final do Campeonato Intercasas. E olha que a Grifinória já tinha participado muitas e muitas vezes da final.
Não demorou muito para o narrador tomar seu lugar na frente do microfone. Ele começou a falar sobre o campeonato, os jogos anteriores, contou um pouco da história de cada casa no Campeonato Intercasas, falou das condições do tempo, sobre os jogadores e animou a torcida. Não havia animadoras de torcida em Hogwarts, então o próprio narrador fazia o trabalho. Quando Madame Hooch, a treinadora dos times e professora de Vôo, entrou em campo com as bolas, o narrador se empolgou.
— E lá vem Madame Hooch, com os dois times a seguindo! Pela Grifinória vão jogar Gallagher, Black, York, Potter, Kyle, Stewart e Longbottom! E o time da Sonserina vem com Beard, Omen, Kirst, Polkiss, Firestaylor, Coldmelts e Hallet! Os capitães se cumprimentam, os jogadores se preparam, Madame Hooch solta os balaços, o pomo, a goles... E COMEÇA O JOGO!
As duas torcidas foram à loucura. Todos gritavam feito doidos, cada um empurrando seu time. Suas vozes concorriam com a do locutor, mas ele não parecia se importar. Os olhos de Lily, porém, estavam bem fixos em James, enquanto ela gritava frases de apoio à Grifinória.
— E olha a goles com a Grifinória: Stewart, Potter e A SONSERINA ROUBA!
Lily desviou os olhos de James quando viu Sirius se preparar para rebater um balaço, que foi certeiro em Janie Polkiss, artilheira da Sonserina que tinha acabado se roubar a goles de James. A garota foi para o chão em queda livre, e caiu desacordada. Essa era uma das razões pela qual Lily não jogava quadribol...
— Uh, parece que Black está com a corda toda hoje! E novamente a posse da goles é da Grifinória! Kyle, passa pra Stewart que avança contra o gol de Coldmelts e É GOL DA GRIFINÓRIA! 10 a 0 pra casa dos leões.
O locutor apertou o botão abaixo do nome "Grifinória" e mudou o placar da casa de 0 para 10, levando a torcida vermelha à loucura. Eles gritaram muito mais do que antes, agitaram bandeiras, sopraram apitos. Foi uma verdadeira festa. Os pais de James também festejaram, Lily pôde ver, mas ela não teve muito tempo de observar porque logo um grito veio da arquibancada dos verdinhos:
— Uau, o capitão da Sonserina Beard também está com tudo hoje! Ele faz uma jogada incrível e rouba a goles de Kyle, avança pro gol de Gallagher e olhem a briga entre capitães! GOL DA SONSERINA! Os verdinhos empatam com os leões com 10 a 10!
Nova mudança do placar: desta vez no placar sonserino. O 0 foi substituído por um 10 e o jogo ficou empatado, mas não por muito tempo. A Grifinória logo fez um gol, e a Sonserina logo voltou a empatar. A cada gol as arquibancadas faziam mais barulho. Lily não cansava de fazer sua bandeira da Grifinória tremular e de gritar o nome de James. Queria que ele fizesse um gol logo... E ele fez. Um, dois, três, quatro. Mas com a chuva de gols, tanto do lado grifinório quanto do sonserino, ninguém se lembrou do pomo de ouro. O placar já estava 150 a 160 para a Sonserina quando o locutor anunciou:
— HALLET ENCONTROU O POMO!
As duas arquibancadas prenderam a respiração por alguns segundos, mas logo depois começaram a gritar novamente. Frank, o apanhador da Grifinória, já correu para perto de Hallet e os dois começaram a brigar pelo pomo, que estava bem baixo, perto do solo. Lily e todos à sua volta se focaram naquela briga silenciosa pelo pomo de ouro, e não perceberam que um dos balaços estava voando exatamente para o taco de Camilly Coldmelts, a batedora da Sonserina. Ela mirou em Frank e rebateu...
— LONGBOTTOM PEGA O POMO! O CAMPEONATO INTERCASAS 1977 É DA GRIFINÓRIA!
Enquanto todos festejavam perto de Lily, ela percebeu uma coisa: a vassoura de James não estava mais no ar. O número 4 do time da Grifinória não voava mais, e ele deveria estar no ar, porque todos os jogadores estavam festejando a taça no ar. Gallagher e o resto da equipe agora faziam uma volta olímpica exibindo-a. Lily apertou os olhos e viu algo parecido com um amontoado de roupas vermelhas caído no chão ao lado de uma vassoura e reconheceu como sendo James. Correndo, ela deixou o camarote e foi até ele, sem para nem pra cumprimentar seus pais, que também corriam em direção ao filho.
— James...? — Ela chamou, assim que ajoelhou ao lado dele. James não respondia. Estava caído de bruços com um dos braços ao lado da vassoura. Reunindo coragem, Lily virou-o de frente e desejou não ter feito aquilo, porque agora podia ouvir a sra. Potter chorando perto dela. A face esquerda de James, antes escondida pela grama, estava toda ensangüentada. Lily levou as duas mãos à boca e sentiu os olhos encherem de lágrimas, também. Sabia. Sabia que James ia levar um balaço na cabeça. No mesmo momento, Sirius apareceu ali e olhou do amigo para Lily, de Lily para os Potter. — James, fala comigo... — Ela tentou mais uma vez, e como não obteve resposta, começou a chorar. Não, ele não podia ter morrido. Não James. Ele era tão forte, tão lindo, tão romântico, sabia dançar tango tão bem... Não podia morrer agora! ELE SÓ TEM 17 ANOS!
Lily ainda podia ouvir a sra. Potter chorar ali perto dela, mas não ouvia o pai de James. Mulheres deviam ser mais dramáticas, mesmo, porque Sirius também não chorava, apenas fitava o amigo, boquiaberto. Quando conseguiu controlar o choro, Lily mordeu o lábio inferior e viu a medibruxa chegar, conduzindo alguns dos jogadores da Grifinória, que seguravam uma maca. Frank estava entre eles. Para não atrapalhar o trabalho deles, ela se levantou e se afastou um pouco, ficando ao lado do casal Potter.
— Não se preocupe — ela ouviu o pai de James dizer. — Ele é um rapaz forte, vai agüentar.
Lily sorriu para o sr. Potter. A preocupação dela era visível, ela chorava tanto quanto a mãe de James. Mas aquela afirmação do pai dele pareceu tão firme que a ruivinha se tranqüilizou e chegou à enfermaria já sem chorar. Ela parou aos pés da cama do garoto, junto com os jogadores de quadribol da Grifinória e vários torcedores. Os pais dele ficaram ao lado da maca, e a medibruxa chegou logo, mandando todos saírem, exceto os familiares. Lily não saiu. Não era familiar mas só sairia dali se o professor Dumbledore a colocasse no ombro e levasse.
— Você não é familiar dele — disse a medibruxa parra Lily, logo que todos saíram.
— Deixe ela ficar — disse a mãe de James, ainda entre soluços, com a voz trêmula. A medibruxa não respondeu, apenas colocou um curativo sobre a cabeça de James.
— Ele teve sorte — começou a medibruxa. — O balaço só pegou a cabeça dele de raspão, se tivesse pegado em cheio talvez ele não estivesse vivo agora. — Lily vibrou por dentro. Isso significava que James estava vivo. — Mas em compensação ele quebrou o braço quando caiu. Vai ter que passar a noite aqui. Se os senhores quiserem ficar com ele, posso providenciar um lugar para dormirem.
Os pais de James não responderam, apenas olharam o filho adormecido. Lily também observava o maroto. Estava sem os óculos e o sangue de sua face já tinha sido todo limpo, mas seu rosto estava todo cheio de arranhões e seu braço esquerdo estava roxo. Deve ser o que está quebrado, pensou ela. Lily ficou ali até que a medibruxa terminasse os cuidados com James, então percebeu que deveria deixar os Potter sozinhos com seu filho por alguns minutos. Mas antes que ela pudesse sair ouviu a voz doce da sra. Potter chamá-la:
— Hey Lily, venha aqui um pouco.
Ela a seguiu até uma maca perto da porta, onde o sr. Potter já estava sentado, e depois de sentar-se, a sra. Potter apontou um lugar no meio deles para que Lily se sentasse também. Depois de todos bem acomodados, o sr. Potter começou:
— Obrigado por se importar tanto com o nosso filho. É bom saber que vamos ter alguém pra confiar quando... Bom, quando nós não estivermos mais aqui. — Ele sorriu, e Lily sentiu-se envergonhada. Pelo jeito era bem especial para os pais de James. — Você gosta muito dele, não gosta?
— Gosto sim, Jake — ela respondeu. Há alguns anos o pai de James disse que não queria ser chamado de sr. Potter pela sua "futura nora". Ele sorriu para Lily e deixou a mulher continuar.
— Não vamos poder ficar com ele durante a noite e nem amanhã. Temos muito a fazer no Ministério. Você nem imagina a loucura que está lá fora por causa das mortes e desaparecimentos que têm acontecido, Lily. — Ela olhou para Lily parecendo cansada, mas feliz. — Gostamos muito do nosso Jimmy, e não queremos que ele fique sozinho... Você pode passar a noite com ele?
— Ah... Hã... Claro.
— Ah, que ótimo! — Respondeu a sra. Potter, abraçando Lily. — Eu fico feliz em saber que você gosta tanto do nosso Jimmy a ponto de sacrificar uma noite na sua caminha macia no dormitório pra ficar aqui com ele... Muito obrigada, Lily. Muito obrigada, mesmo. — A sra. Potter sorriu para ela e Lily retribuiu, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela ouviu a medibruxa chamar o casal Potter para ver o filho, que estava acordando. Lily não foi, até porque já tinha percebido que a medibruxa não gostava muito de sua presença quando queria apenas os familiares. Então continuou sentada ali, vendo a sra. Potter encher James de beijos e abraços enquanto ele reclamava que estava todo dolorido.
LINHA AQUI
Lily acordou na manhã seguinte ao som dos pássaros que cantavam, alegres, mais um dia. Apesar de ser segunda-feira, já era bem tarde quando Lily se levantou. Estranhou um pouco o teto branquíssimo da Ala Hospitalar, mas foi só até lembrar-se de que tinha prometido aos pais de James que cuidaria dele durante a noite. Realmente, ela cuidou. Ficou acordada o máximo que podia, mas caiu no sono mais ou menos às cinco da manhã. Ao olhar para o lado, percebeu que James ainda dormia e se levantou para lavar o rosto na pia que havia no canto da Ala Hospitalar.
Quando voltava para sua maca, que era ao lado da maca de James, ela parou perto dele e ficou observando. Ele parecia ter um sono tão calmo... Também, depois de uma Poção do Sono... ela se lembrou, sorrindo. Durante a noite ele não suportava as dores da queda e acabou tendo que tomar uma dose de Poção do Sono e outra de Poção Analgésica para conseguir dormir, e essa foi uma das razões de Lily ter ficado de vigília grande parte da noite. Estava preocupada. Se ele acordasse de novo ou passasse mal, estava pronta para chamar a medibruxa. O braço esquerdo dele estava engessado. Ficaria assim até a noite daquele dia, dissera a medibruxa. Poções Reparadoras de Ossos eram muito rápidas.
Enquanto ainda o observava, ela percebeu que ele começava a se mexer lentamente, até finalmente abrir os olhos e piscar várias vezes. Lily pegou os óculos dele e os colocou em sua face para que ele pudesse enxergar a Ala Hospitalar. A primeira coisa que James fez foi gemer de dor, mas Lily não podia deixá-lo deprimido.
— Bom dia! — Ela cumprimentou, animada. — Como você está?
— Morrendo de vontade de sair daqui — ele respondeu. — A minha cabeça está doendo.
— É claro, você levou um balaço nela. Logo a medibruxa vem aí pra te dar outra Poção Analgésica, já está quase na hora. E quanto a sair daí, acho que hoje à noite você está liberado.
James sorriu e olhou para os lados, como se estivesse procurando por alguma coisa.
— Meus pais foram embora?
— Eles tiveram que ir — ela respondeu. — Disseram que está uma loucura lá fora. Andam acontecendo mortes e desaparecimentos a torto e a direito. Mas eles disseram que vão voltar hoje, daqui a pouco eles estarão aí.
— Você não devia estar na aula, moça? — perguntou James, erguendo uma sobrancelha e fazendo uma tentativa muito estranha de cruzar os braços.
— Devia... — respondeu Lily, com um ar sapeca. — Mas eu prometi pros seus pais que ia cuidar de você! Além disso, eu já perdi mais da metade de aula, nem adianta ir agora.
Logo depois de terminar a frase, Lily ouviu passos vindos do fundo da enfermaria. A medibruxa então apareceu, com seu tradicional uniforme branco e um belo sorriso no rosto. Em uma das mãos, um frasco de poção alaranjada, e na outra um copo de dosagem.
— Bom dia sr. Potter, srta. Evans. — Ela colocou o copo no criado-mudo de James e pôs certa quantidade da poção alaranjada nele, pedindo para James se levantar logo em seguida e beber. Era a Poção Analgésica, como Lily tinha deduzido. Depois de beber, James voltou a deitar-se e fechar os olhos, mas não dormiu. — Srta. Evans, a senhorita sabe se os pais do sr. Potter vão voltar ainda hoje?
— Eles disseram que iam — ela respondeu e viu a medibruxa deixar a Ala Hospitalar em direção ao cubículo onde dormia. Enquanto sozinha com James, Lily começou a observar as faixas que cobriam os ferimentos da cabeça dele. Havia algumas manchas de sangue nelas, mas nada muito preocupante. — Com fome? — Ela perguntou, assim que ele abriu os olhos.
— Um pouco. — James lhe deu um sorriso torto e olhou para os fundos da Ala Hospitalar. — Você acha mesmo que eu vou sair daqui hoje?
— Acho — Lily respondeu, concordando com a cabeça. — Você é bem forte, Jim, se recupera rápido. — Ela sorriu e tocou o gesso que envolvia todo o braço esquerdo dele. — O gesso você tira hoje, eu tenho certeza.
Antes que James pudesse responder qualquer coisa, as portas da enfermaria se abriram e os outros três marotos entraram. Remus e Peter estavam segurando as risadas, enquanto Sirius tentava se esconder atrás deles e parecia estar bem chateado. Um pouco atrás deles, vinham Alice, Dorothy e Frank, também segurando as risadas. Curiosa, Lily estava doida para saber qual foi a piada.
— Namorando na enfermaria? Nossa, que coisa feia. — Dorothy colocou uma das mãos na boca, como se o fato de Lily estar lá fosse a maior vergonha do mundo. — E aí, como você está, James? Mais morto do que vivo ou mais vivo do que morto?
Mas James não respondeu: estava rindo. Descontroladamente. Lily e Dorothy se entreolharam, sem entender nada, e olharam para Alice. Ela geralmente tinha um controle enorme em situações como aquelas e conseguia fazer aquelas perguntas que todo mundo queria fazer sem um pingo de estupidez.
— O que foi, James? — Ela perguntou, e ele apontou para Sirius. Assim que seguiu o dedo de James, Lily também caiu na risada, levando todos os outros às gargalhadas também. Exceto Sirius. Ele mantinha a cara fechada, como se não soubesse por que todos estavam rindo tanto. O fato era que ele sabia, sim: eles riam de seu cabelo. Qual cabelo, ele não sabia, porque estava careca.
É isso aí. Sirius Black estava completamente careca.
— O que... O que aconteceu com o seu cabelo, Sirius? — Perguntou Lily, ainda meio ofegante por causa das risadas. Sirius não respondeu. Em vez disso, Remus se recuperou das risadas e sanou a curiosidade de Lily.
— Ele e o James fizeram uma aposta. — Remus olhou de James para Sirius e continuou: — Sirius duvidava que você fosse voltar a falar com o James, e se vocês não voltassem a se falar, James rasparia o cabelo. — Ele deu uma pausa. — Se vocês voltassem... — e não continuou a frase porque caiu na risada de novo. Com um sorriso debochado, Lily examinou bem o "novo penteado" de Sirius e disse:
— Você está ridículo, sabia?
— Sabia! — Ele respondeu, irritado. — Eu tive que passear assim a manhã inteira! E vou ter que ficar assim até o cabelo crescer! Droga de aposta Prongs, depois que você sair daí eu vou te acertar de novo! — James não respondeu, apenas olhava para o amigo com o mesmo sorriso debochado de Lily. — Cara, esse é o penteado mais horrível dos últimos mil anos. Eu vou me esconder pra sempre no meio da Floresta Proibida.
— Mas tem seu lado bom! — Começou Peter. — Você vai poder desonrar a sua família.
— Muito engraçado, Worms — respondeu Sirius, fuzilando Peter com o olhar. — Mas não se esqueça de que a minha adorada mãezinha já me queimou da árvore genealógica há muito tempo. Foi meu presente de aniversário de 16 anos, lembra?
— Quê? — perguntou Lily, confusa. — Presente de aniversário?
— Eu faço aniversário durante as férias de verão — explicou Sirius. — No dia do meu aniversário eu fugi de casa, e antes de sair aquela cobra que gosta de dizer que foi minha mãe me chamou pra ver queimarem o meu nome da árvore genealógica. Pode ter certeza que foi o melhor presente que eu já recebi na vida. Toujours Pur. Lema idiota.
Que Sirius detestava sua família com todas as forças Lily sabia, mas que a expulsão dele da família aconteceu no dia de seu aniversário, não. Ele deve ter ficado mesmo muito feliz. Depois de alguns minutos de silêncio, James fez a mesma pergunta que tinha feito a Lily algum tempo antes:
— Vocês não deveriam estar na aula?
— Não — respondeu Frank. — Vocês não ficaram sabendo?
— Do que? — perguntou Lily.
— A professora O'Pecker desapareceu.
James e Lily se entreolharam, e ambos sabiam o que o outro estava pensando. A coisa estava realmente feia do lado de fora, tanto que já tinha atingido Hogwarts. Hogwarts, o lugar mais seguro da face da Terra. Como seria quando saíssem de lá? Viveriam pra sempre com medo de morrer ou perder algum ente querido no meio da guerra? Ou será que teriam coragem o suficiente para enfrentar na cara limpa tudo que os esperava?
Lily parou de encarar James e se sobressaltou quando ouviu a porta da enfermaria abrir novamente. Dessa vez, nada de Marotos nem de garotas: eram os pais de James mais uma vez. Lily sabia que eles não iam demorar, a sra. Potter não ia agüentar ter que deixar seu filhinho por muito tempo. Mas parecia que ela não tinha amor de mãe apenas para James, porque abraçou, beijou e criticou o cabelo de Sirius, disse a Remus que ele tinha que se cuidar melhor, deu milhões de beijos em Lily (enquanto o sr. Potter lhe pedia que não esmagasse sua nora) e, finalmente, amassou James até ele ficar do tamanho de uma caixa de fósforo, e lhe deu uma bronca enorme por causa da aposta que culminou no pior corte de cabelo que Hogwarts já vira.
— Tá mãe, mas se ele não quisesse que não aceitasse!
— Mesmo assim, James, eu não quero mais que você faça isso. Coitadinho do Sirius, ele ficou... Ridículo!
— Valeu, hein, Helen — ele sussurrou para Remus, que riu baixinho.
Não era a primeira vez que Lily via James levar uma bronca, mas nunca por causa de Sirius. Pior ainda, ela nunca tinha visto a mãe de James dizer que Sirius estava ridículo. Ele sim, era como um filho pra ela. Como Sirius nunca tivera uma família de verdade, os Potter o "adotaram" quando estava no terceiro ano. E agora até morando com eles Sirius estava. Enquanto assistia à bronca com uma vontade imensa de rir, Lily sentiu algo pesar sobre seu ombro, e se virou para ver o que era.
— Como vai a minha nora? — perguntou o pai de James, fazendo Lily corar. — Ah não, você se envergonha com isso? — Lily não respondeu, apenas sorriu. — Com o tempo você se acostuma.
— Com o quê?
— Ser minha nora.
— Ah, que isso Jake, eu...
— Não precisa negar, Lily. — O sr. Potter olhou nos olhos dela e disse: — Está escrito na sua testa.
LINHA AQUI
Quanto mais as férias se aproximavam, mais devagar os dias passavam. As três semanas seguintes à final do Campeonato Intercasas passaram como se fossem três meses. Novamente a escola de Hogwarts estava mergulhada num estado de "euforia pré-férias", já que faltavam apenas cinco dias para o Expresso de Hogwarts finalmente levar todos para casa mais uma vez. Embora todos estivessem felizes com o fim das aulas, Lily estava com medo. Uma aluna da Corvinal tinha desaparecido na semana anterior, e os pais de Aretta Sanders foram encontrados mortos na própria casa há dois dias. Apesar desses acontecimentos, o Ministro da Magia Wentworth Polaski negava que qualquer gangue do mal estivesse ativa na Inglaterra. Essa ação do Ministério de fechar os olhos para qualquer manifestação de Voldemort (como se intitulava o chefe da gangue) e de seus Comensais da Morte deixava Lily com mais medo ainda.
Além disso, ela já não tinha mais pais e com certeza Petúnia já se desfizera da casa onde moravam. Isso significava que Lily não tinha mais onde morar e nem quem cuidasse dela (não que ela não soubesse se virar sozinha, mas o Ministério da Magia e o Parlamento Inglês exigiam que menores de idade tivessem alguém responsável por eles). Estava completamente sozinha no mundo. Morar sozinha não podia, mesmo. Talvez procurasse um orfanato bruxo pra morar até completar seus 17 anos, quem sabe.
Aquele domingo quente e ensolarado era o último dia de provas da turma do sexto ano. Teriam prova escrita de Runas Antigas pela manhã, prova prática de Feitiços à tarde e prova prática de Astronomia à noite. Todos os alunos estavam reclamando do número de provas num mesmo dia, mas na opinião de Lily o pior dia foi sexta-feira. Na prova prática de Defesa Contra as Artes das Trevas, de manhã, ela quase transformou o aplicador do Ministério num rato, e à tarde, na prova prática de Transfiguração, não conseguiu transfigurar uma pena numa coruja e tirou um "Deplorável".
— Pelo menos não foi "Trasgo" — consolou Dorothy logo que contou a ela e à Alice o que tinha acontecido. — A Aretta Sanders tirou "Trasgo" em DCAT hoje de manhã. Dizem que fez o aplicador do Ministério virar pó.
Depois de terminar de se vestir, Lily consultou mais uma vez o esquema de horários das provas do 6° ano e não acreditou que aquele fosse o último dia. Depois de uma semana inteira de provas escritas e práticas, eles finalmente teriam um descanso. Para medir a correria que tinha se tornado a vida dos alunos do sexto ano desde o começo da semana de provas, Lily não via James desde a segunda-feira anterior.
As provas estavam sendo realizadas no Salão Principal. Por isso, as refeições eram feitas na Sala Comunal de cada casa, o que atrasava bastante os alunos. Os da Grifinória eram os mais prejudicados, pois a Sala Comunal dos leões era a que ficava mais longe do Salão Principal. Para evitar atrasos, o horário de cada refeição foi estendido em 30 minutos. Ao chegar à Sala Comunal, Lily se jogou no sofá ao lado de Alice e jogou a cabeça pra trás.
— Não vai comer? — Perguntou Alice, com a voz doce.
— Não estou com vontade. — Desde a última visita dos pais de James a Hogwarts, Lily se sentia mal. Não tinha mais vontade de comer e nem de andar, queria ficar no dormitório o tempo todo. Podia parecer que não, mas o fato era que Jake Potter tinha mexido com Lily ao dizer que a vontade dela de ser sua nora estava estampada na testa dela. Se já estava confusa antes, por James ter dito que gostava mesmo dela, agora estava ainda mais. Lily só tinha se apaixonado uma vez em sua vida, e agora estava com os mesmos sintomas ao chegar perto de James. Mas não podia gostar dele – era seu melhor amigo!
Pelo jeito Lily tinha acordado bem tarde, porque mal se sentou e o sinal que indicava o início de mais uma prova tocou. Ela e Alice se entreolharam e fizeram cara de cansadas, mas pegaram o material e desceram para o Salão Principal. Só foram encontrar Dorothy lá perto do salão, sozinha, o que era bem estranho para ela. Não que ela fosse galinha, mas geralmente estava com Sirius quando sumia assim. Quando as três alcançaram o Salão Principal, se despediram e sentaram cada uma em um canto. Lily se sentou perto de uma das enormes janelas do salão e observou o pergaminho aumentado 50 vezes que estava disposto no lugar onde os professores costumavam se sentar.
Hogwarts – Testes finais
26 de junho de 1977 (domingo) – Teste teórico de Runas Antigas
Professora Mahara J. Cogsworth
Não demorou e a professora entrou. Ela era morena, magra e ossuda, parecia mais um palito de fósforo com pernas. A professora Cogsworth se postou ao lado do cartaz e fez um feitiço para aumentar o volume de sua voz. No mesmo minuto, todos os alunos se calaram.
— Bom dia a todos. Espero que se saiam bem nesse teste teórico. Preparei uma prova bem fácil para vocês, mas antes de começarem preciso dar algumas recomendações. Suas penas estão equipadas com um feitiço anti-cola que vai dedurar quem estiver colando. Quando terminarem a prova, por favor levantem o braço e eu vou recolher a folha de vocês. Então poderão sair. — Ela deu um aceno com a varinha e uma prova voou até cada mesa. — Boa sorte a todos. O tempo começará a correr agora.
Lily se debruçou sobre a prova e começou a ler as perguntas. Quanto mais lia, mais a matéria de Runas Antigas era varrida da sua mente. Quanto mais tentava se lembrar das aulas, mais se lembrava de que tinha feito dupla com James na maioria delas. Cada pergunta tinha um motivo diferente para fazê-la lembrar-se dele. Correu os dedos pelos cabelos várias vezes. Droga. Não podia ter esquecido de tudo assim, tão rápido. Tentava se lembrar, mas não conseguia. James reinava absoluto em sua mente. Depois de muito relutar, finalmente Lily estava sendo forçada a aceitar a verdade.
Acho que o pai do James tinha razão.
LINHA AQUI
A Plataforma 9 ¾ estava excepcionalmente cheia naquele fim de tarde de 30 de junho. Pais e mães abraçavam seus filhos com saudade e os levavam para casa. Enquanto isso, uma ruivinha de olhos verdes e sardas no rosto observava a todos com uma expressão triste. Todos os seus amigos estavam agora sendo abraçados pelos pais, mas ela não. Não estava sendo abraçada e nem beijada, e sabia que nunca mais seria. Seus pais estavam mortos. Não havia como voltar atrás.
— Lily? — Ela ouviu uma voz doce atrás de si. — O que você está fazendo aí sozinha?
— Pensando... — ela respondeu, sem nem encarar a amiga. — No que vai ser de mim agora, Lice.
Alice abraçou Lily e lhe deu o ombro para que chorasse. E Lily chorou. Chorou como nunca tinha chorado em toda sua vida. Chorava como se sua vida dependesse disso. Não queria chorar na frente de todos, mas era inevitável. Estava sem casa, sem família. Só tinha seus amigos. Não eram pouca coisa, mas o que podiam fazer por ela? Lhe dar os pais de volta? Ninguém conseguiria fazer isso. Sabia que ir morar com um deles talvez fosse incômodo, e a última coisa que Lily queria era incomodar seus amigos.
— Eu queria te levar comigo, Lily — Alice disse depois de um tempo. — Queria mesmo. Mas nós vamos viajar pro Canadá e eu não posso te deixar sozinha.
— Não precisa se desculpar, Lice. — Ela disse, limpando algumas das lágrimas que ainda insistiam em cair. — Eu não quero incomodar.
— Então trate de enxugar essas lágrimas porque eu tenho certeza de que você vai encontrar alguém que vai fazer muito mais por você além de te dar uma casa. — Alice olhou para Frank, que estava ali perto delas, e acenou que iria logo. — E esse alguém pode estar bem mais perto do que você imagina.
Lily sorriu para Alice e observou a amiga se distanciar, dar um beijo em Frank e sair com ele e sua família em direção ao portão principal da King's Cross bruxa. Preferia mil vezes acreditar no que Alice tinha dito do que chorar, mas estava difícil. Não sabia se, depois daquela reação inusitada, James ainda gostava dela.
— Lil, o que foi? — ela ouviu aquela voz masculina que conhecia tão bem chamando. — Você tá chorando?
— Não, não foi nada... — Lily enxugou as lágrimas teimosas e encarou James. Ele parecia preocupado, mas ela não soube dizer se era com ela. — Você já vai?
— Daqui a pouco — ele respondeu, sem dar muita importância. — Você já tem pra onde ir nas férias? Quer dizer, você não vai morar com a sua irmã, vai?
— Ah, não — Lily respondeu, sem encarar James. Não queria que ele visse a tristeza em seus olhos ao pensar que teria que passar o verão num orfanato. — Ela não ia me querer lá. Isso é, se ela ainda não vendeu a casa.
— Então você não tem pra onde ir, acertei? — Ele perguntou, e como resposta obteve apenas um aceno positivo com a cabeça. — Quer passar o verão lá em casa?
— Eu? Não vou atrapalhar?
— Não mais que o Sirius, pode ter certeza.
Lily riu. Perto de James, se sentia em casa, como se tivesse uma família novamente. O nome desse sentimento ela sabia muito bem, tinha descoberto há alguns dias, durante um certo teste de Runas Antigas. Embora estivesse morrendo de vontade de ir logo pra casa de James e acabar com toda aquela aflição, Lily ainda relutou um pouco e fez James insistir mais um pouquinho. Por fim, acabou cedendo e foi com James até seus pais.
— Então, vamos? — perguntou a sra. Potter a James, Sirius e Lily. — Eu quero chegar a tempo de fazer uma lasanha bem gostosa pra comemorar a chegada da Lily à nossa casa.
— Ah, Helen, eu não pretendo fic... — mas antes que terminasse a frase, foi interrompida por Sirius, que lhe fazia sinal para não dizer nada. A mãe de James era coruja demais pra aceitar um não como resposta, Lily tinha se esquecido disso. Então a ruivinha se limitou a andar e olhar para os próprios pés enquanto o casal Potter conversava, animado, um pouco à frente deles. Sirius andava um pouco à frente de James e Lily, olhando para trás o tempo todo, como se estivesse esperando algo incrível acontecer. Demorou, mas quando Lily finalmente se viu em total privacidade (se é que é possível ter total privacidade no meio da King's Cross) com James, ela segurou o braço dele com toda a força que podia exercer.
— Ai, que foi? — Ele se virou para ela, massageando o braço. Pára de exagerar, eu não sou tão forte assim.
— Eu só queria agradecer.
— Pelo quê?
Lily respirou fundo.
— Por você ter nascido.
James sorriu enquanto Lily reunia forças para fazer o que negara tanto tempo que iria. Do nada, ela pulou no pescoço dele lhe roubando um beijo que foi retribuído com carinho. Os dois tinham se esquecido completamente de que estavam num lugar público em pleno 30 de junho. Não estavam nem aí pra isso. Quem quisesse olhar que olhasse, ninguém ali pagava as contas deles. De longe, um Jake Potter sorridente olhava para a cena parecendo bastante feliz.
— Eu te disse que não adiantava negar, Lily.
LINHA AQUI
N/A: Oi pessoas! Então, esse é o último capítulo da fic. Calma, depois desse ainda vem o epílogo, mas a fic mesmo terminou. É, um dia tinha que acabar, né, gente? Então. Agora, como presente de fim de fic, vocês podiam me dar bastante comentários, não acham? Hein? Hein?
Aliás, agradecendo à Thelma (obrigada por ler!), Naa Potter (continuei. Obrigada!²), Pattt (o diário do James é a parte dessa fic que eu mais gosto! Aliás, no chall pro qual essa fic foi feita, ele ganhou até um prêmio especial, sabia?) e Thaty (obrigada!³). Continuem lendo, porque eu não parei por aqui!
Bom pessoal, espero que tenham gostado do capítulo. Ah, gostaram? Então comentem! Não gostaram? Ah... Então comentem também! Eu aceito críticas construtivas!
Beijos e até o epílogo!
