VII.
Ele acabara de ter um pesadelo. Acordara com Charlie sacudindo-o pelos ombros, e logo em seguida percebera uma Olivia assustada. Piscou os olhos enevoados. Há muito tempo não sonhava com aquele lugar. Sentiu o cheiro bom de Olivia, agora muito próxima a ele. Seus dedos claros e frios sobre a sua fronte em chamas. Todo o seu corpo estava com um calor de febre. Ela fez um movimento, que ele interpretou como a intenção de se afastar. Tocou o seu braço.
-Calma.
-Não me deixe, Olivia, por favor...
-Eu não vou, só ia preparar um chá.
-Fique aqui...só isso.
Ela aquiesceu. Charlie se afastou para deixá-los mais à vontade.
Havia uma atmosfera de perfeita fraternidade entre Charlie e Olivia. Ele era protetor ao extremo, pouco se importando em disfarçar. Após os primeiros dias baixara a guarda e passara a confiar em Peter Bishop, percebendo que ele seria incapaz de desconsiderá-la ou feri-la. Pelo menos intencionalmente.
Desde a primeira vez que viu um perto do outro, percebeu que havia algo entre eles. Ela se importava muito. A visão de Peter Bishop bêbado e sujo sendo tratado pela moça era marcante. Não sabia em detalhes das circunstâncias em que eles haviam se conhecido, mas ela ficara impressionada com ele e aquilo, não apenas tinha sido preservado, como se tornado mais intenso. Aos poucos vira que Olivia o amava, mas de um amor sem esperança. Toda ela se preocupava com o conforto de Peter, porém ela se resguardava de qualquer contato físico. Charlie não acreditava que fosse medo, pois ela parecia não ter medo de nada. Parecia antes a consciência de que ele a via com estranheza. Olivia sabia que não era amada, e o pior era a falta de esperança, pois ele parecia apegado a ela de uma forma inesperada, uma estima respeitosa muito diferente do que um homem sente por uma mulher.
Na verdade ele vivia uma confusão de sentimentos. Reconhecia sem hesitar que confiava nela, tanto pela razão quanto pelo instinto. Outra coisa relevante era o inexplicável fato de que tê-la por perto o fazia sentir-se melhor. Ela o acalmava. Perto dela Peter Bishop procurava se comportar uma pessoa equilibrada, pois adivinhava que ela o admirava, mas não saberia dizer a razão, pois não via em si mesmo nenhuma qualidade que pudesse ser apreciada por uma alma honesta como a dela.
Tentava se pautar pelo comportamento de Charlie, contudo tinha consciência que eles se afinavam em outra sintonia. Por diversas vezes se sentiu compelido a contar o que lhe acontecera há três anos atrás. O que o deixara doente, o que o levara a virar as costas para a sua vida anterior. Sabia que além de Walter, Olivia era talvez a única pessoa que acreditaria em sua história, abstendo-se de julgá-lo e de taxá-lo como louco.
No entanto recuava, sabia que não estava pronto. Ainda não. Só agora percebia que segurava firmemente a mão dela. Ficou um pouco sem jeito, mas não a soltou.
-Eu sinto muito, Olivia.
-Sente o quê?
-Não quero lhe dar mais trabalho. Nem em cem anos poderei pagar o que faz por mim.
-Que bobagem, Peter. Não fiz nada de mais.
-Salvou minha vida. Duas vezes. E, se não fosse você, eu estaria andando por aí. Foi Deus quem colocou você em meu caminho.
-Pode ser, talvez você tenha razão. Mas talvez seja essa a escrita do nosso destino e nada poderá mudá-la.
-Eu penso sempre nele...
Ela entendeu. Ela sempre pegava as coisas no ar, principalmente o que ele dizia.
-Está falando do seu pai?
-Sim... de Walter.
Olivia Dunham suspirou. Gostaria que ele se abrisse, aliviasse o coração e a alma, mas sua timidez a impedia de falar.
-Peter...
-O que é?
Ela hesitou. Tinha receio de que ele se irritasse.
-Não quer me contar o que o está afligindo?
Houve uma pequena pausa, que pareceu durar a eternidade.
-Claro que quero, mas eu não tenho coragem de dizer o que houve. Não consigo, entende?
-Acho que sim.
Silêncio. Podiam ouvir o ressonar pesado de Charlie, o pio das corujas e o farfalhar das folhas tocadas pelo vento. A lua iluminava a sala em ruínas, jogando uma farta nesga prateada no chão. O perfil de Olivia era muito suave. Ele se ergueu e segurou seu queixo com firmeza.
Ela estremeceu ao sentir o toque e baixou os olhos timidamente. Então, Peter fez uma coisa que surpreendeu a si mesmo. Aproximou seu rosto do dela e a beijou com suavidade, sentindo os lábios macios e o perfume da floresta que ela trazia em seus cabelos louros.
Para sua surpresa, ela não se esquivou. Entreabriu os lábios e aí começou a ser cada vez mais parecido com um beijo de verdade. Quando se separaram, ela murmurou desconcertada.
-Eu sinto muito, Peter.
-Não, foi bom. Não foi?
-Foi, sim.
Ele a atraiu para perto de si. Os dois ficaram deitados, enlaçados. A cabeça de Olivia adormeceu mansamente apoiada em seu ombro. Aquela proximidade o serenou. Os dois mergulharam no sono.
