Capítulo 7 - Terra de Gigantes
A moça encostou a cabeça na janela do trem, deixando com que seus olhos verdes se perdessem na paisagem externa. O sol do fim do dia recobria os campos romenos e seus casebres antigos com seu manto dourado, dando um aspecto onírico àquelas terras repletas de lendas e magia. Quanto mais adentravam no interior do país, mais Elizabeth tinha a sensação de que voltavam no tempo, para anos ou talvez séculos atrás.
A pequena vila para qual se dirigiam em missão era próxima dos Montes Cárpatos, e, possivelmente tinha em seu folclore local centenas de histórias sobre os temíveis vampyr. Involuntariamente o pensamento da bruxa voltou-se para o namorado que ficara em Londres. Nicholas ficaria fascinado pela vista da terra natal do famoso Conde Drácula. Mas a auror não viera à Romênia para fazer turismo, estava em uma importante e sigilosa missão. Apenas isso deveria ocupar a mente dela no momento.
Fazia um par de dias que ela e seu primo, Kamus Ivory, tinham partido da Inglaterra. Alastor Moody, chefe imediato dos dois, indicara a eles um contato em Viena, um auror do escritório do continente, que aparentemente não estava envolvido nas acusações de traição que assolava a unidade continental, e decidira ajudá-los sem o conhecimento de seus superiores. Afinal, fora ele quem descobrira os indícios do encontro entre os gigantes e comensais.
O auror austríaco lhes repassara mais algumas informações adicionais e equipamentos extras. Era o máximo que poderia fazer por Kamus e Elizabeth dada as circunstâncias, e, de resto, os dois estavam por conta própria.
Durante parte do trajeto, os dois aurores enviados por Moody aparataram para ganhar terreno rapidamente, mas, por questões de discrição, e para poupar a energia necessária para o embate que tinham diante de si, optaram por fazer o trajeto final da viagem via trem.
Betsy enrolou inconscientemente um dos seus cachos com a ponta dos dedos. O movimento fez com que ela observasse sua imagem refletida na janela. Ainda tentava se acostumar com um mar de cachos negros em sua cabeça ao invés dos usuais rubros. A sua natural cabeleira carmesim era demasiadamente chamativa para o trabalho que fora designada, por isso decidira tingir magicamente o cabelo de negro. Assim que voltasse para a Inglaterra, facilmente removeria a poção. Mas, aquela aparência a espantava um pouco, pois nunca antes percebera o quão fisicamente se parecia com a própria mãe.
Desviou o rosto da janela, fitando o primo, que estava sentado na poltrona defronte a dela. Kamus mantinha os olhos cerrados, e os braços cruzados sobre o peito. Embora estivesse aparentemente dormindo, uma sutil rigidez em seu corpo indicava que ele estava alerta.
A auror suspirou de modo quase inaudível. Era estranho. Conhecia o primo desde os seis anos de idade, quando visitara a Rússia com os irmãos e os pais, encontrou com ele esporadicamente enquanto cresciam, passaram juntos os anos de estudo em Hogwarts e o período de treinamento na Academia, mas não podia dizer que realmente conhecia Kamus. Sabia que mal arranhara a superfície de quem ele era. Conhecia apenas aquilo que ele deixava à vista. Ele era possivelmente tão ou mais fechado que Aldebaran, contudo, havia algo nele que o irmão mais velho dela não possuía: uma confiança arrogante frente às coisas. Como se nada fosse impossível para ele.
A jovem auror deixou que um sorriso surgisse em seus lábios ao se lembrar da conversa que tivera com seu outro primo materno, Sirius Black, na festa de formatura, quando foi agradecer a ele por ter lhe aberto os olhos em relação a Maxwell Sinn.
- Pelo jeito, dificilmente vamos nos ver depois que sairmos do castelo - disse Elizabeth. O estranho é, por mais que conhecesse Kamus apenas superficialmente, não conseguia concordar com Sirius. Ela sentia quase intuitivamente que ele não era uma má pessoa. Sempre sentiu. Sabia que Kamus não era um santo. A fama dos Ivory transcendia as fronteiras russas, e possivelmente ele fizera coisas em nome de sua família que a moça preferia não imaginar. Contudo, algo no fundo da mente de Elizabeth lhe dizia que o primo tinha o coração no lugar certo. Agora, mais do que nunca, estando os dois em uma inóspita terra estrangeira, ela precisava confiar nele.
- Não precisa ser assim, afinal, você é uma das poucas pessoas da nossa família que ainda vale a pena manter contato. - respondeu o moreno.
Betsy sorriu ante o gracejo. Ela sentia o mesmo em relação ao rapaz. Os primos de sua mãe, incluindo os pais e irmão de Sirius, e talvez a própria Marguerith, eram tão cheios de orgulho e preconceitos que dificilmente se conseguia manter uma relação agradável com eles. Já Sirius.. .Bem, ele era simplesmente o Sirius. Só quem o conhecia sabia como era impossível defini-lo.
- A questão, Sirius, é que, independente dos laços sanguíneos, você já escolheu a sua "família"- a ruiva meneou a cabeça, indicando a mesa onde os demais marotos estavam sentados com algumas garotas. Lily Evans tinha a cabeça apoiada no ombro de James, enquanto Susan Timms conversava com Lupin. - E acho que essa escolha vai nos levar a caminhos distintos.
O rapaz deu os ombros.
- Talvez você tenha razão. Mas, a gente nunca sabe, não é? Em todo caso, me parece que você também escolheu sua família fora daqui. - respondeu ele, apontando para a mesa ao lado daquela em que os marotos estavam sentados, onde Aldebaran conversava com Kamus e Anabelle, enquanto Marion retocava discretamente a maquiagem - Se bem que eu não sei se incluir o Ivory na sua vida seja uma escolha sensata.
Cansada, pois já fazia cerca de 48 horas que não dormia, Elizabeth deixou que suas conjecturas fossem substituídas por um sono pesado e sem sonhos. Acordou tempos depois, ao sentir a mão de Kamus em seu ombro.
- Chegamos - disse ele.
Elizabeth fitou novamente o próprio reflexo no espelho do banheiro do hotel onde ela e Kamus haviam se hospedado. Inclinou o corpo para frente, aproximando-se um pouco mais da superfície reluzente. Com um gesto delicado, traçou uma fina linha escura na pálpebra com o delineador, recobrindo-a em seguida com uma discreta sombra pérola. Vasculhando os apetrechos de maquiagem que estavam espalhados em cima da pia, selecionou um batom carmesim, aplicando-o em seus lábios. O contrate entre o branco de sua pele e o tom vivo do batom dava-lhe o aspecto de uma delicada boneca de porcelana.
Mas bonecas de porcelana não costumavam usar o tipo de roupa que a moça travestia no momento. O vestido vermelho marcava o contorno de seu corpo, o decote generoso e a fenda na lateral do vestido tanto mostravam como insinuavam. Para completar o figurino, uma pequena corrente dourada trazia na ponta um dragão irlandês envolvendo uma bela gema esverdeada, que fazia conjunto ao delicado anel que a moça tinha no anelar direito.
A auror nunca antes se vestira daquela maneira provocante e ousada, e, de certa forma, sua aparência atual não lhe agradava. Tampouco o papel que teria que desempenhar para se aproximar de um dos comensais identificados. Seduzir um homem para obter informações parecia-lhe degradante. Mas se aquilo era necessário para evitar maior derramamento de sangue, ela estava disposta a engolir o orgulho próprio e fazer o que fosse preciso para cumprir sua missão.
Ao sair do banheiro, deparou-se com o primo, sentado na mesa do canto do quarto, preparando os últimos materiais necessários para a tarefa daquela noite. Mesmo com a entrada da prima no recinto, o auror continuou silenciosamente concentrado em seu equipamento. Enfileirados no tampo da mesa de carvalho estavam as duas varinhas que Kamus sempre trazia consigo nas missões, uma pequena espada prateada devidamente reduzida, e alguns outros apetrechos que Moody e o auror austríaco que os ajudara haviam providenciado, entre eles uma bela e ornamentada cigarreira dourada.
O russo não fumava, aquela cigarreira era apenas um disfarce para o espelho de dois sentidos que havia em seu interior, e que seria necessário para se comunicar com Elizabeth.
- Você acha que as informações que o Von Weizzelberg nos deu são seguras? - perguntou Betsy, enquanto, sentada na beirada da cama, calçava os sapatos de salto alto.
- Moody confia nele - respondeu o moreno, de modo neutro, sem levantar a cabeça, ainda organizando o equipamento.
A moça permaneceu em silêncio ante aquela afirmação. Embora não conseguisse decifrar se aquilo significava que o primo também confiava no austríaco, o fato de Moody o fazer, a tranqüilizava.
- É melhor irmos - disse Kamus, levantando-se da mesa - Saímos juntos do hotel e nos separamos lá fora. É melhor chegarmos com um certo intervalo de tempo na taverna, para não levantarmos suspeitas.
A feiticeira assentiu, levantando-se também da cama. Estava na hora de começarem a agir.
O imponente prédio antigo de dois andares parecia abandonado. Nada em sua fachada externa indicava que ele estava em funcionamento, contudo, aquele fora o endereço passado por Alexis Von Weizzelberg a Kamus e Elizabeth. Betsy não se surpreendeu com aquela aparente inatividade, considerando a natureza dos negócios que ocorriam ali dentro, reserva era o mínimo a se esperar.
Atravessando a rua, ela aproximou-se sorrateiramente da porta lateral, dando três pequenas pancadas em sua superfície rígida. Uma portinhola abriu-se, revelando um rosto moreno cor de jambo, que a avaliou dos pés a cabeça, com seus profundos olhos negros.
- A escuridão não traz conforto a pequenas pombas luminosas - disse ele em romeno.
Um sorriso confiante brotou nos lábios carmesim da auror.
- Mas a noite é uma ave de rapina que abraça e transforma todos nós com suas negras asas - respondeu ela também na língua natal daquele país. Agradeceu internamente aos pesquisadores do departamento de aurores pelas poções lingüísticas que estavam desenvolvendo. O efeito era curto, mas seria mais que suficiente para o que precisava fazer naquela noite.
O moreno assentiu, abrindo passagem para ela.
Uma luz mortiça iluminava precariamente o estabelecimento. Nas mais diversas mesas do lugar, homens vestidos impecavelmente conversavam em meio a sussurros, enquanto bebericavam o conteúdo de seus copos. Líquidos de cores estranhas e fugidias, outros fumegantes... Nenhum completamente reconhecível. A auror tinha certeza que mais da metade daquelas bebidas, se não todas elas, deviam estar listadas no compendium de poções ilícitas estabelecido pelos governos bruxos há alguns anos. Enquanto os homens estavam sentados, algumas mulheres, vestidas de modo ainda mais ousado que o de Elizabeth, circulavam pelo lugar.
A moça caminhou de modo altivo até uma mesa vazia. Enquanto andava, notou que alguns olhares masculinos se voltaram para ela. Uma ponta de satisfação aflorou em seu interior. Por mais que lhe desagradasse o papel que tomava naquela trama, aquilo pelo menos era um indicativo de que estava apta para atrair a atenção do comensal que procurava.
Já estabelecida na mesa, ela abriu a pequena bolsa de cetim que fazia conjunto com o vestido, retirando de lá um pequeno pó compacto. Abriu, e, enquanto fingia retocar a maquiagem, chamou baixinho o nome do primo. No outro lado da taverna, imerso nas sombras, Kamus pegou a cigarreira, para responder ao chamado de Elizabeth.
- Ele já está aqui? - ela perguntou em um sussurro.
-Sim. Donatien Gray está sentado em uma mesa próxima das escadas. Posso vê-lo daqui. - respondeu o moreno - Mas o outro comensal de nosso arquivo resolveu acompanhá-lo esta noite.
Elizabeth levantou-se resoluta, já se dirigindo a passos calculados para a mesa indicada.
- Tudo bem, eu dou conta dos dois.
Os dois homens não poderiam ser mais diferentes fisicamente. Donatien Gray era alto e esquio, tinha o cabelo muito bem aparado, e o modo como segurava a taça de bebida revelava uma educação de requinte. Seu companheiro também era alto, mas absurdamente mais alto que Gray. Seus cabelos fartos estavam presos em um longo rabo de cavalo, e a barba tomava quase completamente seu rosto.
Aproximando-se da mesa, Betsy inclinou-se em direção de Gray, dizendo com uma voz aveludada:
- Desejam companhia para esta noite, senhores?
Sentiu a mão forte do mais alto dos homens comprimir com violência seu braço.
- Não precisamos de você aqui, vá se oferecer a quem está interessado - disse ele com uma voz grave e pesada.
- Solte a moça, Rabelais - Gray interrompeu o companheiro de horda das trevas - Não é porque sua avó era uma giganta que você deve agir como um deles. A moça está apenas fazendo o trabalho dela. E um pouco de beleza para iluminar a nossa noite, não faz nenhum mal.
Rabelais soltou o braço de Elizabeth visivelmente aborrecido.
-Preferia que continuássemos conversando em particular. - retrucou ele também em inglês.
- A presença dela aqui não nos atrapalharia em nada, afinal, nós já discutimos os detalhes mais importantes. Além disso, você entende inglês, minha querida? - perguntou ele voltando-se para Elizabeth.
A auror fez a melhor expressão de incompreensão de que fora capaz.
- Não disse? - continuou Gray, puxando em seguida Elizabeth pela mão, fazendo com que ela sentasse em seu colo.
Rabelais ainda encarava o companheiro com uma expressão de desagrado, enquanto Gray beijava o pescoço da feiticeira. A auror tentou manter a compostura ao sentir a mão do comensal comprimir-lhe a perna na altura da fenda do vestido. A vontade que tinha era de estuporá-lo naquele exato minuto, mas não podia colocar a missão em perigo.
- Sabe, Gray, esse seu fraco por mulheres ainda vai ser a sua perdição. - disse o outro comensal - Ainda não entendo por que o mestre acha que alguém como você pode acrescentar algo interessante ao grupo.
- Não é porque sua importância hereditária é tão primorosa assim que você tem que me humilhar. Tenho meus próprios talentos ocultos, na hora certa você vai ver do que sou capaz. Mas, no momento, quero mostrar para esta belezura aqui, os meus outros talentos.
Rabelais levantou-se, sorvendo o resto de sua bebida em um único gole.
- Que seja. Mas se não estiver amanhã no ponto de encontro, vamos fazer as negociações sem você.
Assim que o outro comensal se afastou, Gray aproximou-se do ouvido de Elizabeth, dizendo:
- Que tal subirmos para um dos quartos do segundo andar?
A auror se levantou, fingindo brincar com o colar, enquanto olhava de soslaio para o local onde Kamus estava sentado, dando assim, o sinal de que o alvo fora devidamente interceptado.
Subiu as escadas, deixando que o homem entrasse primeiro no aposento. Pegou o aviso de "Não Perturbe", dobrando-o na ponta conforme o combinado com o primo para indicar onde estava. Mal cerrou a porta, deixando-a destrancada, sentiu as mãos do comensal enlaçarem-na, ansiosas, pela cintura. Uma sensação de asco embolou-se, pesada, em seu estômago, mas ela tinha que continuar o jogo.
Gray puxou-a delicadamente para a cama, fazendo com que Betsy caísse por cima dele. Enquanto ele buscava o zíper do vestido, ela girou sutilmente o anel que trazia no anelar direto, abrindo a falsa pedra que havia nele. Uma pequena agulha se revelou.
O comensal beijou mais uma vez o alvo pescoço da moça. Em seguida passou a mão pelo rosto dela, dizendo:
- Desde que passei a freqüentar este lugar, nunca conheci uma mulher como você.
Fingindo retribuir o afago do comensal, a auror passou a mão no rosto dele. O homem sentiu uma picada leve, seguida de uma sensação de completo estupor.
- E nem vai conhecer. - respondeu ela, para a surpresa do homem, em um inglês perfeitamente fluente.
O comensal inerte a fitava com uma expressão de profundo ódio.
- Me olhar feio não vai adiantar nada - continuou ela, levantando-se da cama, e fechando o vestido - Acabei de te aplicar uma poção paralisante. Ainda vai demorar um bom tempo até você poder se mexer novamente.
A porta do quarto abriu-se, revelando a imponente figura de Kamus Ivory. Silenciosamente ele se aproximou do comensal. Gray fitou o rosto do homem que recém chegara. A face séria e inexpressiva do moreno fez com que ele temesse pelo que viria a seguir, pois não conseguiu decifrar quais intenções se escondiam atrás daquelas gélidas orbes azuis meia-noite.
- Quanto tempo até o efeito passar? - perguntou Kamus, sem tirar os olhos do prisioneiro.
- Uns dois, no máximo três minutos. - respondeu a moça, com os braços cruzados, encostada em uma parede próxima.
Kamus tirou do bolso interno do terno escuro que vestia uma pequena corda negra. Colocou-a em cima do peito do comensal. Em um passe de mágica, a corda começou a se movimentar, e, como uma pequena serpente negra, ela dirigiu-se aos pulsos de Gray, enrodiscando-se fortemente ao redor deles. Então, o auror levantou o prisioneiro, sentando-o na poltrona de veludo que havia no quarto.
Ainda em silêncio, retirou também do bolso do terno um pequenino frasco, em cujo interior era possível ver um líquido translúcido. Veritaserum. Sem cerimônias, despejou-o garganta de Gray abaixo.
Pouco tempo depois, o comensal se remexeu na cadeira, indicando que os efeitos do feitiço paralisante haviam cessado.
- Sua vaca!! - ele gritou para Elizabeth - Se um dia eu te encontrar de novo, juro que te mato com as minhas próprias mãos!!
Gray calou-se ao sentir a ponta da varinha de Kamus contra seu pescoço.
- Sua conversa agora é comigo - disse o russo, de modo incisivo.
O homem engoliu seco, estava em um beco sem saída. Reconhecera o veritaserum. Sabia que em questões de segundos, trairia involuntariamente seu mestre. Preferia a morte a trair o Lorde das Trevas, mas a situação não dependia mais de sua força de vontade.
- Queremos saber onde e quando será o encontro de vocês com os gigantes.- continuou Kamus.
- Amanhã, às dez horas, em um aclive incrustado no meio do Monte Moldeveanu. Lá é um portal para uma colônia de gigantes.- respondeu o homem, visivelmente contrariado.
- Pela conversa dele e de Rabelais, realmente existem outros comensais como nós desconfiávamos - interrompeu Elizabeth.
- Quantos são e onde estão? - perguntou novamente o russo.
O comensal sacudia a cabeça tentando refrear a enxurrada de verdades que sairiam de sua boca.
- Eu não sei onde estão! - gritou ele - Não sei! Nem Rabelais, que é o líder da equipe sabe. Por questões de segurança, os outros três chegaram apenas ontem, e só vamos nos ver no ponto de encontro amanhã. Eu nem sei quem são eles.
A moça arqueou discretamente a sobrancelha. Então havia mais três elementos desconhecidos na história.
- O que acha? - perguntou ela ao primo.
Kamus levantou-se para encarar Elizabeth. Não havia mais nada que o comensal pudesse dizer de útil a eles.
- Infelizmente não podemos interceptar Rabelais imediatamente, como havíamos planejado. Os outros três podem continuar a missão sem ele. Eu estudei os terrenos das áreas próximas. O acesso do local que ele indicou é difícil, mas, como estamos em menor número, será mais fácil para nós chegarmos primeiro e pegarmos todos reunidos antes que os gigantes apareçam. Acredito que as chaves de portal que Moody nos conseguiu serão o suficiente para transportá-los.
Betsy sorriu. Tinha que admitir que a autoconfiança de Kamus era impressionante. Apesar dos dois estarem em visível desvantagem em relação aos inimigos, em menor número, em meio a uma terra infestada de gigantes, ele tinha plena certeza de que sairiam vitoriosos daquela empreitada. A cada minuto daquela viagem, era forçada a admirá-lo mais e mais.
Aproximou-se, então, do comensal. Retirando o colar que trazia no pescoço, depositou-o entre as mãos atadas do prisioneiro. Gray intencionou ofender novamente a auror, mas o olhar contundente que o outro homem lhe lançou, fez com que as palavras lhe morressem na boca.
- Espero que você aproveite bem a sua estadia em Azkaban - disse ela, enquanto comprimia os dedos do homem sobre o pingente. No instante seguinte, ele desapareceu.
- É melhor voltarmos para o hotel - Kamus falou - Precisamos nos preparar para o que vamos enfrentar amanhã.
O dia mal amanhecera quando os dois aurores deixaram o hotel em direção às montanhas próximas. Ambos levavam a tiracolo uma pequena mochila, com alguns equipamentos para ajudar na escalada final, e também para auxiliar na captura dos comensais. Seguindo os mapas que Kamus havia estudado, conseguiram aparatar no sopé da montanha, mas o resto do caminho precisaram fazer a pé. Não era seguro aparaterem em terreno tão íngreme e imprevisível como aquele que tinha à frente. O consolo era que os comensais também possuíam a mesma desvantagem que eles.
Depois de algumas horas de silenciosa caminhada, os aurores chegaram ao local indicado por Gray com uma hora de vantagem. Esconderam-se atrás de algumas pedras de onde poderiam ter uma boa visão da chegada de seus inimigos. Bastava apenas esperarem pela chegada dos seguidores do Lorde das Trevas e tudo se acabaria.
Cerca de quinze minutos tinham se passado do horário combinado entre os gigantes e os comensais e nem um grupo nem o outro dava sinal de vida. Considerando o raciocínio um pouco mais lento dos gigantes, o atraso deles era esperado, mas o mesmo não se podia dizer dos comensais. Elizabeth começava a ficar impaciente com aquilo. Olhou para o primo. O atraso não parecia afetá-lo.
- Acha que eles descobriram que capturamos o companheiro deles? - perguntou ela, enquanto olhava novamente para o local com o seu onióculo.
- Duvido. - respondeu Kamus, convicto. - Você mesma disse que ele era tido como um irresponsável por Rabelais.
Mas aquelas palavras não tranqüilizaram Elizabeth. Ela temia que algo tivesse dado errado. Impedir aquele encontro era importante demais. O Lorde das Trevas não poderia ter aliados tão poderosos quanto os gigantes ao seu lado... Caso isso acontecesse, o precário equilíbrio que tinham alcançado nos últimos meses se dissolveria por completo, e a balança da guerra penderia novamente para Voldemort e seus asseclas.
Betsy pegou um objeto semelhante a um pião dentro de sua mochila.
- Vou me aproximar um pouco mais para ver se estão chegando. Qualquer coisa, eu sinalizo para você.
Kamus assentiu.
A auror desceu a escarpa, olhando fixamente para o bisbilhoscópio que trazia na palma da mão. Ele poderia avisá-la da chegada dos comensais antes mesmo que ela os avistasse. Alguns passos, o aparelho acendeu e começou a girar loucamente. Betsy fixou o olhar na trilha abaixo de onde estava, mas não havia nenhum indício de aproximação.
Elizabeth, então, virou o corpo na direção contrária. Em um vão da montanha, surgiu uma figura gargantualesca. Inadvertidamente ela adentrara no covil de um gigante. Antes que ela pudesse sacar a varinha uma monumental e pesada mão envolveu seu corpo por completo. Sentiu algo estalar, seguido por uma dor indescritível. Queria gritar, mas o ar faltou-lhe nos pulmões. Estava prestes a perder a consciência quando sentiu os dedos do gigante se afrouxarem, acompanhado pelo som de um estrondoso baque.
Quando ela se levantou, viu o primo apontando a varinha na direção onde jazia o corpo imóvel do gigante. Por breves segundos, Betsy piscou, confusa, tentando entender o que realmente acontecera. Foi então que, já parcialmente recomposta, ela compreendeu o que o primo fizera. Kamus salvara a sua vida. Mas só havia um feitiço suficientemente forte para fulminar o gigante daquela maneira: o Avada Kedrava.
Era verdade que o chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia, Bartholomeu Crouch, tentava liberar o uso dessa maldição imperdoável pelo aurores, mas, até aquele momento, não conseguira argumentos suficientemente fortes para garantir seu uso. E, ainda assim, Kamus lançara o feitiço. Não que o primo fosse afeito a regras. Pelo que Betsy sabia, ele nunca fora. Contudo, mesmo sabendo disso, aquela atitude de Kamus a surpreendera.
A bruxa tirou a varinha de dentro do bolso, apontando para o monumental cadáver.
- Desintegritas!
Aos poucos o corpo colossal foi se transformando em pequenas partículas, levadas pelo forte vento montanhês. Era melhor não deixarem nenhum resquício da presença deles ali, caso não quisessem ter mais nenhuma surpresa desagradável.
- Obrigada - disse ela a Kamus.
Ivory não respondeu, apenas deu as costas para Elizabeth, dizendo:
- Temos que voltar.
A moça assentiu silenciosamente, mas, antes de acompanhar o primo, olhou para o braço esquerdo, que latejava de dor. A possibilidade de ele ter se quebrado era grande. Conjurou algumas talas para imobilizá-lo. Quando chegassem ao hotel poderia tratá-lo adequadamente. Apressou os passos, refazendo o caminho morro acima. Ao chegar no ponto original, notou que Kamus segurava a varinha em nítida posição de ataque.
Correu até ele, pegando o novamente seu onióculo dentro da mochila. O cenário que se compunha logo abaixo na trilha a fez estremecer.Não só os comensais haviam chegado, como também uma delegação de, no mínimo, dez gigantes. O ataque que ela sofrera fez com que eles perdessem a oportunidade de interceptar os comensais.
-Vamos atacá-los? - perguntou ao russo, com um pequeno frio no estômago. Mesmo se ela não estivesse ferida, entrar em batalha naquele momento seria suicídio.
Kamus pareceu ponderar por alguns momentos, até que, guardou a varinha no bolso interno do casaco que vestia.
- Acho que voltar para a Inglaterra e avisar a Moody é a melhor estratégia.- ele respondeu.
Betsy assentiu, seguindo o moreno, que já começara o trajeto de volta para a vila. A feiticeira sentiu uma onda de raiva e frustração comprimir-lhe a garganta. Queria chorar, mas segurou as lágrimas. Sabia que aquela falha iria custar muitas vidas no futuro. As coisas iriam piorar muito, antes de melhorarem.
Nota da Autora
Oi novamente a todos!
Este capítulo é descaradamente uma homenagem ao meu seriado de TV favorito (juntamente com Lost): Alias, estrelado por Jennifer Garner (Demolidor, Elektra), no qual ela vive a agente da CIA, Sydney Bristow. (Mais detalhes: seriesonline..br/alias.html ou pt./wiki/Alias(sériedetelevisão) ). Desde que me tornei fã da série, queria experimentar escrever algo parecido. Espero ter conseguido.
Outra referência está na capa do capítulo. É homenagem a outra série, desta vez dos quadrinhos, Sin City, de Frank Miller. Nos anos 80, juntamente com Neil Gaiman (Sandman) e Alan Moore (Watchmen), Miller revolucionou os quadrinhos "comerciais", elevando-os a um outro patamar com a minissérie Batman-Cavaleiro das Trevas. Fã incondicional dos filmes e livros noir, ele criou Sin como uma espécie de homenagem ao estilo, mas também fez das HQs uma reconstrução do gênero. As revistas viraram um filme, estralado por Clive Owen, Bruce Willis, Jéssica Alba, entre outros. Quem quiser, pode ler minha resenha sobre o filme, no seguinte endereço: .br/cinema/resenhas/sincity.htm.
Outras referências no capítulo:
Donatien Gray, nosso comensal sedutor, teve seu nome retirado de Donatien Alphonse François, mais conhecido por Marquês de Sade, cuja vida foi retratada no filme Quills, estrelado por Kate Winslet e George Rush. Gray é o sobrenome de Dorian Gray, personagem principal de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Nele um homem, Dorian, nunca envelhece, mas toda a maldade e crueldade de sua alma passam a se manifestar no retrato do título.
O descendente de gigantes, Rabelais foi batizado em homenagem a François Rabelais, cujas obras mais famosas são estreladas pelos gigantescos Gargantua e Pantagruel.
O nome Terra de Gigantes foi extraído de um seriado homônimo, que, se não me engano, está sendo exibido pelo canal pago FX.
E sim, o auror do continente que auxilia Kamus e Betsy dando informações na breve parada deles na Áustria é mesmo Alexis von Weizzelberg, pai de Lucien, o amado de nossa ruivinha Meri. Esse breve encontro entre Betsy, Kamus e Alexis será mencionado nas histórias "atuais" do Expresso, mas provavelmente apenas no sétimo ano.
È isso!
Espero que tenham se divertindo com o que leram tanto quanto eu me diverti escrevendo
Abraços, Meridiana (Ana)
