Capítulo 7 – Rupturas
Why is the bedroom so cold
Turned away on your side?
Is my timing that flawed,
Our respect run so dry?
Yet theres still this appeal
That we've kept through our lives
Love, love will tear us apart again
(Joy Division: Love Will tear us apart – Les Bains Douches 18 December 1979, 1981)
Yamcha e Bulma brigavam. Todas as vezes que se encontravam, algo virava motivo de briga, a coisa não ia bem. Por mais que eles se esforçassem, parecia que o relacionamento estava saindo do controle. As duas últimas semanas antes da final do campeonato dele foram muito ruins, e tudo culminou numa briga monumental na véspera da final.
Vegeta jamais soube que ele foi o pivô da briga, porque ele estava desacordado quando tudo aconteceu, recuperando-se da explosão da câmara de gravidade provocada por seu treino excessivo. Yamcha não havia gostado nem um pouco dela ter se importado demais com os ferimentos de Vegeta, mas relevou, porque, afinal, presenciara o acidente, que acontecera no começo da manhã de sábado e sabia que tinha sido sério.
Quando Bulma e os pais socorreram Vegeta, Yamcha não se envolveu. Quando Vegeta finalmente foi medicado e sedado, Bulma apareceu, com ar preocupado.
– Acho que ele quase morreu.
– Não se perderia grande coisa, não? – disse Yamcha.
– Yamcha, ele tem treinado duro. Quer muito ajudar com os androides.
– Ajudar com os androides? Bulma, não seja tonta. Ele esta usando vocês para superar Goku, e nada garante que ele não mate nosso amigo depois de derrotar os androides!
– Yamcha, isso não é verdade. Eu tenho conversado com ele...
– Sim, você tem conversado com ele, ignorando que eu MORRI por causa de um saibaman que ele e aquele outro sayajin maluco trouxeram. E ainda não quer que eu treine!
– Eu disse isso para te POUPAR. Você não pode morrer de novo!
– Eu não posso morrer de novo, nem Goku e nem mesmo ele... nenhum de nós teria uma segunda chance, Bulma! Mas eu acho que precisamos lutar, todos nós.
– Ainda faltam quase três anos... mas você tem três anos de contrato com os Taitans! Acha que consegue dar conta de treinar, jogar e ficar mais forte? Yamcha, você vai se matar!
Ele a encarou. Não queria fazer aquela pergunta, mas precisava:
– Se pudesse escolher alguém para te defender de um grande perigo... escolheria a mim ou Vegeta?
Ela desviou olhar. Não queria responder aquela pergunta. Não podia responder aquela pergunta sem feri-lo.
– Vocês poderiam perfeitamente trabalhar em equipe.
– Não foi isso que eu perguntei.
– Não me obrigue a responder, Yamcha!
– Eu já sei a resposta, Bulma. Vou passar a noite na concentração. Eu tenho uma final de campeonato amanhã. Você não precisa ir. Pode ficar cuidando do seu novo campeão. Quem sabe ele te poupe quando decidir destruir a Terra...
Yamcha saiu em seu carro, cantando os pneus, deixando uma Bulma extremamente magoada na calçada. Ela não gostara das insinuações dele. Nunca haviam passado uma véspera de jogo separados. Ele normalmente não ia para a concentração com os outros jogadores, tinha esse privilégio porque era um astro do time e podia ficar com ela. Mas, para Bulma, ele nunca deixara de ser o jovem ladrão que ela acabara convencendo a vir para a cidade do Leste para terminar os estudos, saindo da vida de pequenos crimes. Tinham tido idas e vindas, mas ela se acostumara a acreditar que eram feitos um para o outro – mesmo com as escapadelas dele e os flertes dela com outros rapazes. Agora, não tinha mais certeza de mais nada.
Quando entrou em casa, viu que os pais estavam na sala e perguntou quem estava com Vegeta. Os dois disseram que ele parecia bem, mas ela não se convenceu muito disso. Entrou no quarto, ouvindo a respiração ritmada dele e, depois de verificar a temperatura e constatar que ele não tinha mais febre, sentou-se na mesa ao lado da cama, observando o Sayajin ferido.
Vegeta tinha marcas e cicatrizes por todo tórax, e logo teria mais algumas, levando em conta as suturas que ela mesma fizera nos braços e no ombro dele. Ele não era tão bonito como Yamcha, e ela nunca deixara de acha-lo um pouco assustador, mas descobrira, ao longo das semanas anteriores, que ele não era o monstro que ela imaginara. E, ela tinha de admitir, ele tinha algo. Não saberia definir o que era, mas era algo que a atraía.
Ela o observou, e viu que seu rosto parecia tenso... talvez fosse dor, embora estivesse sedado, ou algum sonho ruim, mas ela não pôde deixar de pensar em como ele parecia solitário e mesmo perdido, embora fizesse questão de esconder isso. Mas, apesar de saber que ele tinha uma profunda rivalidade com seu amigo Goku, ela não acreditava que Vegeta realmente o odiasse; porque percebera que ele tinha, apesar de tudo, um profundo respeito por "Kakarotto" e uma imensa responsabilidade com a ideia deles serem os últimos Sayajins do universo. Por isso tinha certeza que ele jamais destruiria a Terra ou mataria Goku e Gohan.
Cruzou os braços e deitou a cabeça nos ombros, ainda sentida. Pensou em Yamcha. Haveria solução para eles? Ela não sabia. Lágrimas vieram aos seus olhos, ela não procurou contê-las. Decidiu que no dia seguinte faria um esforço por ela e por Yamcha. Devia isso a si mesma. Com o coração mais calmo e o rosto virado para o lado oposto ao que Vegeta dormia, ela conseguiu se acalmar e acabou adormecendo.
Quando Vegeta voltou à consciência ela ainda estava ali, adormecida, mas ele não percebeu imediatamente. Olhou pela janela. O sol se punha, portanto, ele ficara muitas horas desacordado, embora em seus sonhos tivesse parecido que havia se passado muito menos tempo. Pensou nos sonhos que tivera, com Kakarotto, com seu pai... intimamente ele desistira de matar Kakarotto há muito tempo, mas ainda queria superá-lo, só que parecia impossível até mesmo alcançá-lo.
Tornar-se um super sayajin, coisa que ele sempre achara que seria seu destino, parecia agora uma espécie de maldição. Era como se chegasse a um limite e descobrisse que havia outro muro a ser transposto. Seu corpo doía além do que podia aguentar, e ele se amaldiçoava, imaginando o quanto era fraco. Queria se recuperar, e logo, almejando a força que sempre vinha quando as feridas se curavam.
De repente, percebeu a presença dela, adormecida, sentada na mesa ao lado da cama. Fitou-a longamente. Ela se importava com ele, ou não estaria ali. Não era apenas destemida... de alguma forma, ela o entendia e... apoiava. Pensou em todas as manhãs, nas conversas curtas que haviam tido e no que aprendera sobre ela. Conhecera mulheres fisicamente fortes, mas aquela era a primeira que tinha uma força que ele não sabia definir, mas respeitava cada vez mais, uma força que vinha de sua vontade e espírito. Tornou a fechar os olhos e pensou que aquele não era o foco naquele momento. Talvez um dia, mas não naquele momento. Não lutou com o sono quando ele veio. Dormir o ajudaria a se recuperar.
Quando Bulma tornou a acordar, ele dormia novamente e ela jamais soube que ele a vira ali. Pôs a mão na testa dele e sentiu alivio ao perceber que a temperatura parecia normal. Ele estava muito machucado, mas em alguns dias talvez ficasse bem. Saiu do quarto aliviada e foi tomar um banho e se deitar. No dia seguinte precisava conversar com Yamcha e tentar salvar o que restava deles.
Se Bulma tivesse avisado a Yamcha que iria ao jogo, talvez tudo tivesse sido diferente. Mas ela decidiu que seria melhor deixa-lo em paz para que se concentrasse no jogo. Ele era o melhor atleta do time, mas precisava estar tranquilo para vencer, então, ela se arrumou e pediu ao motorista da família que a levasse ao estádio, acreditando que voltaria mais tarde com ele. Acabou chegando tarde demais, perdendo a chance de entrar para a tribuna especial, onde familiares de jogadores e convidados costumavam ficar e comprou um ingresso comum para um lugar no meio da arquibancada, onde mesmo que ela gritasse, Yamcha não ouviria.
Ele jogava como nunca, marcando ponto atrás de ponto, o estádio indo à loucura. O Locutor gritava o nome dele, Jogador da Temporada, o mais completo, arremessador e rebatedor excepcional... todos os elogios os quais a mídia usualmente o cobria. Ela sentia-se feliz por ele. Yamcha merecia ter sucesso. Ele chegara com ela à cidade aos 16 anos, muito atrasado na escola, e conseguira se formar no ensino médio aceleradamente, em parte por sua aptidão para o esporte e seu carisma, mas muito por sua inteligência e força de vontade. Os professores o adoravam. Aos 19 anos, no entanto, quando ele se formou, não pensou em ir para a Universidade, pensando apenas nos torneios de artes marciais.
E ela o apoiara o tempo todo, mesmo quando isso significou que eles não se veriam por muito tempo. E ela perdoou suas inconstâncias, porque ela mesma deu suas puladinhas de cerca, entre suas idas e vindas, que ele jamais descobrira. Mas agora era bem diferente: eram adultos. Ela pensava se não era hora de finalmente encorajá-lo a fazer o pedido a ela. Serem felizes juntos.
Pensava nisso quando ele fez mais um ponto, um placar que parecia desenhar uma vitória fácil e irreversível para os Taitans. Ela sorria para a imagem do telão que mostrava um Yamcha radiante quando viu que ele jogava um beijo para a tribuna especial. Ela estranhou, mas então o telão focou em close uma garota na tribuna, que retribuiu o beijo e levou as duas mãos ao rosto, como se estivesse envergonhada. Foi um relance, mas ela a reconheceu.
Aura. A garota do Centro de Convenções, a fã dos Taitans. Ela estava na tribuna, num lugar onde ela, Bulma, deveria estar, no momento mais importante da carreira dele. Normalmente a raiva de Bulma vinha em explosões gigantescas, mas naquele momento não foi essa a sensação. Ela sentia um ódio frio, como se estivesse congelada por dentro. E, por mais que quisesse desaparecer naquele minuto, com medo de ser reconhecida ali, aguentou friamente o jogo até o último segundo, quando Yamcha foi levado nos ombros pelo time depois da vitória. Ela desceu tranquilamente e foi até o estacionamento, onde encontrou o carro dele, que tinha uma vaga cativa, onde decidiu esperar.
Apesar da vontade de pegar um instrumento afiado e arranhar toda a pintura ou um taco de baseball e quebrar todos os vidros, ela preferiu esperar calmamente ao lado do carro, vendo todos os outros carros e o público deixando o estacionamento aos poucos. Conhecia bem a rotina dos dias de jogo, passara por ela várias vezes: ele ia ao vestiário, tomava um banho demorado, ria com os companheiros de time enquanto os familiares e convidados esperavam na tribuna, onde normalmente era servido um coquetel.
Só de pensar naquela garota idiota recebendo cumprimentos que eram para ela, tinha vontade de matar não a garota, mas o cretino do Yamcha. Muito tempo passou antes dele sair, despendindo-se do resto do time, abraçado à garota morena, que ria, radiante. Bulma percebeu que Pual ia ao lado deles, parecendo constrangido e cabisbaixo. Pensou que percebera que o gato estava estranho já há alguns dias, e juntou dois mais dois, enquanto se empertigava para manter a dignidade.
Yamcha ia beijar Aura exatamente quando Pual percebeu a presença de Bulma e disse:
– Yamcha... olhe para o carro.
Ele olhou na direção do carro e pareceu petrificado. O sorriso da garota também desapareceu quando ela viu Bulma, e ela pareceu perdida, sem saber o que fazer. Bulma cruzou os braços e empinou o queixo, com altivez. Aura disse qualquer coisa para Yamcha e praticamente correu na direção do ponto de taxis. Bulma, para sua própria surpresa, teve vontade de rir, mas manteve-se séria enquanto ele se aproximava com os passos pesados que quem estava apavorado. Quando chegou diante dela, ele disse:
– Oi... você veio.
– Vim. E vi.
– O que você viu...
– Foi o suficiente. Acabou, Yamcha.
– Mas Bulma...
– Eu nunca mais quero que você me toque, entendeu? Ou chegue perto de mim.
– Bulma...
– ACABOU, ENTENDEU? – ela gritou. – eu achei que te amava, mas hoje percebi uma coisa triste: eu não me importo mais. Essa foi a última vez! Sua última chance! Não me importo mais que você tenha outra ou outras garotas, Yamcha, porque eu não sou mais a sua garota. E talvez tenha deixado de ser há muito tempo.
– E o nosso amor?
– Não resistiu à sua insegurança estúpida. Você não confiou em mim e foi me traindo com a primeira lambisgóia que se atirou no seu colo! E tudo por quê... por quê...
– Porque você está gostando de outro, Bulma.
– Não seja ridículo – pela primeira vez ela vacilou – isso é algo que você inventou...
– Que eu percebi, você quer dizer.
– Não, não existe isso. Você queria uma desculpa para...
– Talvez não. Talvez você precisasse, não de uma desculpa, – ele deu um sorriso triste – mas de um motivo. E eu burramente te dei esse motivo, talvez porque eu seja realmente muito estúpido e nem te mereça. Mas acho que te perdi antes disso, e, quando percebi... bem, eu nunca fui muito hábil com garotas.
– Bulma, Yamcha – disse Pual, desolado – vocês deveriam conversar e...
– Quieto, Pual – disse Yamcha – não temos mais o que conversar...
– Tem razão – ela disse – eu vou pegar um taxi e vou embora.
– Eu te levo – ele disse – tocando o ombro dela.
– Não, Yamcha – Ela disse, simplesmente – não quero nada de você.
Quando entrou no táxi, alguma coisa nela simplesmente se quebrou e ela rompeu num choro convulso. De alguma forma, ela sabia que uma parte da vida dela acabara naquele momento. Nunca mais voltaria para ele. A Corporação Capsula era longe o suficiente do estádio para ela se recuperar e chegar em casa recomposta. Os pais estavam jantando, mas ela não sentia fome. Perguntou sobre Vegeta e disseram a ela que ele seguia dormindo. Sem falar nada sobre o ocorrido, ela foi para o seu quarto, tomou uma longa e relaxante chuveirada e se deitou. Não conseguiu evitar o choro novamente, mas dessa vez chorou de mansinho, sem o desespero da primeira. Talvez seu coração fosse como o corpo de um sayajin e se tornasse mais forte quando as feridas sarassem. Confortada por esse pensamento, relaxou e dormiu um sono profundo e sem sonhos.
Nota: É, Yamcha, perdeu, playboy. Caminho livre, deve estar todo mundo pensando... mas nada é TÃO simples assim. Aguardem...
Nota2: Tradução da música:
Porque o quarto está tão frio
e você virado para o outro lado?
Fui eu quem perdeu o timing
ou nosso respeito se ressecou?
Ainda há aquele apelo
que nos manteve ao longo da vida?
O amor, o amor vai nos separar
