Capítulo 7
Draco acordou se sentindo confuso. Sua cabeça doía e ele estava em um lugar estranho. Sentou-se na cama macia notando que estava usando suas roupas de trabalho e olhou à volta. O quarto grande era claro, mesmo que com a luz do sol barrada pelas venezianas, havia poucos móveis e quase nenhuma decoração.
O loiro se levantou, encontrando sua varinha sobre a mesinha de cabeceira, e desamassou as vestes. Como previra, uma das portas no aposento levava a um banheiro. Seu reflexo no espelho mostrava um rosto cansado com os olhos inchados. Ele se lavou, deixando as lembranças da noite anterior fluírem junto com a água.
Sua vontade era esgoelar Potter com as próprias mãos, e somente a consciência de que isso não ajudaria em nada a reaver seu filho o impedia de procurá-lo naquele mesmo momento com esse fim.
Desceu as escadas já familiares devagar e encarou o moreno que estava deitado no sofá, parecendo adormecido. Sirius dormia calmamente deitado de bruços em seu peito e as mãos de Harry pareciam grandes demais sobre o corpinho do bebê. Quando o loiro atingiu a sala, os olhos verdes se abriram, acompanhando-o pegar suas coisas perto da porta.
- Você vai voltar? – Harry perguntou com a voz sonolenta.
- Meu filho está aqui, não está, Potter? – Draco saiu, batendo a porta com força.
Na entrada da casa, antes de aparatar, Draco pôde ver Granger chegando.
- Harry? – ela perguntou, entrando na casa com cuidado.
O moreno se sentava no sofá, esticando a coluna enquanto embalava um Sirius que havia acordado assustado com o barulho.
- O Malfoy dormiu aqui? – ela perguntou, surpresa, tirando a criança dos braços do amigo para ele poder se recompor do sono.
- Dormiu. – ele disse, bocejando – Para falar a verdade, nem sei se ele dormiu ou desmaiou. Eu não devia ter feito, Mione, ele simplesmente não estava pronto.
- Ele te contou, Harry? – o garoto confirmou com a cabeça, indo para a cozinha preparar um café com urgência – Tudo? Então é verdade? – ela perguntou, assustada.
- O exame estava certo. É verdade. E, por favor, não me pergunte mais nada que eu não vou responder enquanto não conseguir conversar com ele direito. Sem veritaserum.
- Eu posso pelo menos saber quem é o outro pai do Sirius? Suponho que ele não fez isso sozinho. – ela perguntou, séria.
Harry parou o que fazia, seu olhar perdido em meio aos utensílios em cima da mesa. Ele fechou os olhos com força e fez um gesto com a cabeça, como quem tenta afastar algo ruim.
- Harry, eu não acredito que você não vai usar isso no tribunal! É a sua chance de acabar com todas as oportunidades que ele possa vir a ter de tirar o Sirius de você.
- Eu não preciso disso. – ele se voltou, sério, para ela – E eu espero que você respeite a minha escolha.
- Ok. – ela respirou fundo – Mas você já cogitou a hipótese que vai chegar o dia em que você simplesmente não vai querer mais o Malfoy batendo na sua porta todos os dias para te obrigar a dividir o seu filho com ele? Um dia você vai se casar, Harry, e eu suponho que vá querer formar sua própria família, começando pelo Sirius. E o Malfoy não faz parte disso.
- Hermione... – Harry suspirou, sentando em uma cadeira – A noite foi difícil, eu estou cansado e preciso desesperadamente ficar um pouco sozinho e pensar sobre tudo isso.
- Eu já entendi. Eu só trouxe a correspondência do orfanato para você, tem uns papéis que você precisa assinar.
- Ok, eu levo de volta mais tarde tudo pronto. Preciso mesmo ir lá, desde que isso começou eu abandonei o orfanato um pouco.
Hermione deixou a pasta em cima da mesa e devolveu Sirius ao colo de Harry, se virando para sair, mas o toque quente em sua mão a fez parar.
- Mione, você quer ter filhos?
- Eu penso nisso sim, Harry. É claro que eu quero ter filhos. Um dia. Não agora. – ela respondeu, curiosa com a pergunta.
- Por que não agora?
- Eu acho 18 anos muito cedo para se ter um filho. Sei que incentivei você a adotar o Sirius – ela completou, ao vê-lo abrir a boca para argumentar -, mas é diferente de você gerar. O corpo sofre muitas modificações e, por mais que hoje em dia existam recursos para que não se pare de trabalhar, há um período que exige repouso e dedicação total à criança, e eu não sei se estaria disposta a isso agora. Nesse momento eu estou começando minha vida, quero trabalhar, quero estabilidade, quero ter um futuro antes de ter um filho, entende?
O garoto concordou com a cabeça, sério, e ela se sentiu incentivada a continuar.
- Além disso, eu quero que seja com a pessoa certa. Não é que eu não goste do Ron. O que a gente está vivendo é legal e pode durar, mas ele ainda é muito imaturo, e eu sei que vou precisar de alguém do meu lado não só para formar uma família, mas também como apoio durante todo o processo.
- Mas e se... Se acontecesse um acidente, um imprevisto ou algum tipo de violência, não que eu deseje isso para você, de forma alguma, mas pode acontecer. Se você ficasse grávida de forma repentina e contra a sua vontade, você levaria até o fim? Considerando tudo isso, a pessoa errada, a hora errada, o que seria imposto ao seu corpo e à sua vida, a responsabilidade. – Harry perguntou com algum receio.
- Eu não sei, Harry. – ela refletiu por algum tempo – Se você me perguntasse se eu sou a favor do aborto, eu acho que eu diria que não, em geral. Mas estar nessa situação é algo extremamente diferente. Eu realmente não sei o que eu faria.
Ele concordou com a cabeça, mordendo o canto do dedo e voltando sua atenção para o café. Ela se sentiu dispensada e decidiu deixá-lo com seus pensamentos.
o0o
Draco tocou a campainha e assim que Harry abriu a porta não esperou convite para entrar, o empurrou e subiu direto para o segundo andar, no quarto de Sirius.
- Boa noite. – ouviu o cumprimento baixo quando passou, mas não respondeu. Potter não ouviria mais nenhuma palavra de sua boca no que dependesse de sua vontade.
Sirius estava acordado, e Draco sorriu ao vê-lo. Harry, aparentemente, estava se preparando para amamentá-lo quando chegou. O loiro assumiu essa função espontaneamente, pegando a mamadeira pronta ao lado do berço e testando sua temperatura na própria mão antes de oferecê-la ao filho.
Ter direito a momentos como esse, ficar sentado na poltrona do quarto, alimentando o bebê em seu colo, era raro, mas a essa altura ele não se questionava se havia um "valer a pena". Suportar Potter, suas excentricidades, sua presença e sua hostilidade, não era o que ia afastá-lo de seu filho. Poderiam ser momentos raros, mas eram seus, e ninguém ia tirar isso dele.
Depois de alimentado, Draco deu banho e trocou o filho, colocando-o, já adormecido, de volta no berço para que ficasse mais confortável. Puxou a poltrona mais para perto e se sentou, observando-o dormir. Não havia percebido o quanto estava cansado até aquele momento, mas ficaria ali mais um tempo. O tempo que lhe fosse permitido.
Draco ergueu a cabeça assustado quando Harry entrou no quarto, só então percebendo que cochilara. O moreno estendeu um prato de comida para ele e recebeu um olhar descrente e hostil de volta.
- Vamos, você não precisa falar comigo, mas precisa comer. Não é como se estivesse envenenada.
O loiro tirou a varinha do bolso e fez alguns testes na comida antes de aceitá-la. Harry riu e se sentou na outra poltrona do quarto, de frente para o loiro.
- Eu queria conversar com você.
Os olhos cinzas o fitaram por alguns segundos e voltaram para o prato em silêncio.
- Olha, eu sei que agi errado com você ontem e, depois de tudo o que aconteceu, eu vejo que realmente não devia ter feito aquilo.
- Não aconteceu nada, Potter, e a única conseqüência, infelizmente, da sua idiotisse é que eu estou te ignorando. Você deveria se conformar com isso e me deixar em paz. – Draco disse, ríspido, deixando o prato vazio de lado.
- Ok, eu não esperava menos, para falar a verdade, mas você podia, no lugar de me ignorar, tentar me ajudar a entender tudo o que me disse ontem. O interesse é seu.
- A verdade é complexa demais para a sua capacidade cerebral, Potter? O que você quer? Que eu faça desenhos?
- Me fala do Snape. – Harry pediu, sério.
Draco o olhou por algum tempo, analisando-o, antes de responder friamente.
- Severus e eu não tivemos nada além de uma transa técnica com objetivo pré-definido. Foi minha primeira e última vez e eu não gozei. O que mais você quer saber?
Harry balbuciou por um momento, visivelmente embaraçado, antes de voltar a questioná-lo.
- Ele não significava nada para você? Ele não fez nada para te proteger?
- Ele era amigo da família, Potter. Companheiro do meu pai durante a primeira guerra, como você deve supor, costumava freqüentar minha casa. Eu estava acostumado a tê-lo por perto e você sabe que tínhamos afinidades, enquanto professor e aluno. Sim, nos últimos dois anos ele esteve irritantemente protetor e atento a tudo o que eu fazia, e isso nem sempre era bem vindo, porque eu sabia que era ou por ordem do Lord, ou por ordem de Dumbledore. Agora, ele evitou que eu quebrasse minha alma, evitou que eu fosse muito castigado quando falhei e evitou que um homem me virasse do avesso e me largasse sangrando em uma cama com um filho na barriga. Então, de certa forma, acho que tenho algo a agradecer a ele. – Draco respondeu, amargo.
- E depois? Havia uma guerra e você estava esperando um filho dele, querendo ou não. Ele não fez mais nada por você?
- Seu romantismo me encanta, Potter. – Draco, riu, irônico – Ele me monitorou, garantindo que eu e o bebê estivéssemos saudáveis, como era a função dele designada pelo Lord. Não havia exatamente espaço para atenção e mimos, como você mesmo disse, estávamos no meio de uma guerra e não éramos exatamente um casal. Ele só... continuou fazendo o que podia, enquanto ele pôde. – a voz do loiro tinha um tom de tristeza na última frase.
- Eu o vi morrer. – Harry disse baixo, uma nota de pesar em sua voz – Não foi uma morte bonita, eu nunca desejei isso para ele.
- Eu sempre pensei que vocês se odiassem. – Draco o observou, atento.
- Eu também. – Harry sorriu, triste – Mas não sei dizer até que ponto isso foi real. Hoje eu acho que na verdade o admiro. Ele foi um grande homem e fez muito por mim também, à sua maneira.
- Então o fato do Sirius ser filho dele não te incomoda? – Draco perguntou, curioso.
- De forma alguma. Acho que é algo de que ele possa a vir se orgulhar um dia. Independente de ele ficar comigo ou não, eu gostaria de contar para ele quem foi Severus Snape, quando ele puder entender.
Os dois continuaram se olhando, mergulhados em um silêncio quase cúmplice, que Harry quebrou após um tempo.
- Você nunca me disse nada sobre o nome.
- Como? – Draco perguntou, confuso com a mudança de assunto.
- Sirius.
- Ah. – o loiro sorriu, triste – Bem, não é o nome que eu sonhei para um filho meu, mas ele já estava registrado, não é como se eu pudesse fazer alguma coisa a respeito. Ao menos é o nome de um Black, tem sua honra. Já não me irrita mais cada vez que eu escuto.
- Você tinha pensado em que nome?
- Eu não tinha escolhido. – Draco o olhou atento, e deu de ombros – Eu estava tenso demais o tempo todo para pensar nesse tipo de detalhe, e não tinha com quem discutir, acabou passando. Sirius não é tão ruim, mesmo. Mas eu gostaria que ele tivesse meu sobrenome.
- A gente vê isso depois do julgamento. – Harry disse, se levantando e caminhando até o berço para olhar o filho.
- Potter. – Draco quebrou o silêncio dessa vez, chamando os olhos verdes para ele – Por que tivemos essa conversa?
Harry deu de ombros, sorrindo.
- Reciprocidade?
-:=:-
NA: Bah, eu estou cansada, com sono, querendo um banho pelo amor de deus e ainda tenho que arrumar malas e ficar acordada até as quatro da manhã pra não perder o ônibus.
Culpem o meu mau humor pela NA indecente, mas tenham em mente que, se eu postei, é porque eu amo muito vocês.
Beijos e comentem!
