Capitulo 6 – O que a Uns Separa, a Outros Junta

A Kaoru esticou-se na cama. Era tão bom que pudesse ficar a descansar sem preocupações… Aos Domingos devia ser ilegal acordar antes da onze da manhã. Para além disso desde aquele dia em que o tinha reencontrado não tinha conseguido descansar em condições. Ora sonhava com ele a fazer-lhe perguntas ou com algumas das coisas que tinham acontecido no passado… Era extenuante. Só tinham passado três dias desde que se tinham reencontrado e apesar de ela estar a contar que ele a fosse procurar ao hospital, isso não aconteceu.

De início a Kaoru sentiu-se aliviada mas à medida que os dias passavam ela começou a sentir-se dividida. Mas porquê que ele não a procurou? Será que ele já não queria respostas? Será que ele não tinha sentido a intensidade daquele reencontro? Ou será que estava tão cego com a Megumi que não queria saber mais do resto?

Mas afinal o que é que tu queres? Que ele venha atrás de ti com perguntas ou que te ignore? – Ela perguntou-se enquanto olhava para o tecto do quarto.

A Kaoru suspirou. Para ela aquele encontro tinha mudado muita coisa. A sua atitude perante o Enishi tinha mudado, e ele parecia já se ter apercebido disso. Mas ela não conseguia combater a necessidade que tinha de estar mais tempo sozinha. Antes de ele aparecer a Kaoru tinha tempo para pensar, escrever, ler… Mas neste último mês tinha sido como se todos os seus minutos estivessem preenchidos… E ele estava sempre presente.

Kaoru tu és impressionante… Algumas raparigas reclamam porque os namorados não lhes dão atenção e tu reclamas porque o teu te dá atenção demais! – ela suspirou ao pensar no jantar que ia ter daí a algumas horas na casa do Enishi. Ao menos hoje ia ter a oportunidade de almoçar sozinha com a Misao… O Enishi ia almoçar com os pais.

Apesar de saber que o Kenshin não ia, ela sentia-se apreensiva. O Enishi tinha prometido que não ia direccionar a atenção para eles os dois e que só queria que os seus pais a conhecessem, mas ela não se sentia à vontade com isso. Ele era muito imprevisível.

O Sano depois de muitos apelos por parte delas tinha acedido em ir ao jantar. Ele não gostava muito de ter de conviver com o Enishi. A implicância entre eles continuava igual, e ele ia só para lhes fazer a vontade. "E também porque é feio recusar-se comida." – ela recordou as palavras do amigo e sorriu, nesse aspecto ele realmente não tinha mudado nada desde o primeiro dia em que as conheceu.

Fez-se soar uma leve batida na porta e quase de seguida a Misao entrou. A Kaoru estranhou vê-la com uma bandeja na mão: "Para que é isso?"

A amiga pousou-a na mesinha de cabeceira e sentou-se de pernas cruzadas na cama: "É o nosso pequeno-almoço." – A Kaoru semicerrou os olhos – "Cheira-me que isso vem acompanhado de outra coisa."

A amiga sorriu: "Nãaaao…." Ela encolheu os ombros – "Eu só pensei que precisasses de um pouco de tempo de amigas antes do jantar de logo à noite."

A jovem suspirou: "Se preciso."

"Não te preocupes eu e o Sano vamos estar lá." – ela sorriu – "Conheceres os pais dele não vai ser assim tão mau." – ela apoiou o queixo na mão – "O pior que podia acontecer era o ruivo aparecer."

A Kaoru paralisou com a ideia. A Misao apercebeu-se da aflição da amiga e riu-se: "Eu estava a brincar!" – ela tirou um pão do tabuleiro – " Ele não disse que não ia porque tinha de ir trabalhar?"

A Kaoru suspirou: "Sim."

"Então não penses mais nisso." – fez um olhar desconfiado – "Ou tu gostavas mais que ele fosse?"

Ela pegou no copo com leite e ficou pensativa: "Não sei…"

A Misao olhou para ela. Estava a viver um dilema tão grande… "Tu continuas a amar o Kenshin, mas ele não se lembra de vocÊs… E depois de teres feito de tudo para superar o fantasma do ruivo, ele aparece logo agora que namoras com o Enishi… o que te deixa sem saberes o que fazer" – ela diagnosticou o problema.

Os olhos da Kaoru fixaram-se na amiga. Ela tinha razão. Mas havia ainda mais uma coisa: "Não te esqueças que ele namora com a Megumi... A pessoa que me deu emprego e que até agora sempre foi maravilhosa comigo."

"Se eles não namorassem tu deixavas o Enishi?" – a pergunta da Misao fez a Kaoru entalar-se com o leite. "Nunca tinhas pensado nisso?" – a amiga perguntou incrédula enquanto lhe batia nas costas.

Assim que conseguiu recuperar o folego a Kaoru recompôs-se e respondeu: "Eu não tenho coragem para acabar com o Enishi."

"Mas tu sempre lhe disseste que ia ser uma relação difícil."

A Kaoru acenou: "Sim eu sei."

Ambas ficaram a entreolhar-se durante alguns minutos, até que a Misao tocou num assunto inesperado: "Fala-me do Aoshi."

A jovem arregalou os olhos surpreendida: "Do Aoshi? Porquê?"

A outra sorriu envergonhada: "Eu gostei da forma como o descreveste… e depois de saber que o Kenshin era real pensei que o Aoshi tambem pudesse ser e fiquei curiosa de saber o que aconteceu entre vocês e que tipo de pessoa ele era… "

A Kaoru sentiu um tom de tristeza na voz da Misao. Talvez ainda estivesse relacionado com a desilusão do outro dia. Desde aí ela andava mais calma, menos expansiva, e apesar de às vezes reclamar dessa maneira da Misao, ela já tinha saudades de a ver enérgica com antes. Talvez essa tenha sido a razão que levou a Kaoru a contar-lhe aquilo que ela queria ouvir:

"O Aoshi salvou-me na noite em que me vim embora da casa do Kenshin." – ela recordou a noite em que foi atacada – "Só me lembro de estar a ser perseguida por um individuo… depois ele apareceu e salvou-me. Quando acordei estava num quarto no castelo onde ele viva."

"Ele tinha um castelo?" – a Misao deu um grito.

A Kaoru tentou acalmar a amiga: "Mais ou menos…"

"Como é que ele era?" – ela perguntou sentando-se mais perto da Kaoru

A jovem suspirou. Falar daqueles tempos trazia-lhe boas e más recordações. O Aoshi era uma constante boa recordação, um amigo com quem ela tinha sempre contado. "Ele era um bom amigo. Sabes, foi ele que me ajudou a desmascarar as pessoas por trás do esquema para me separar do Kenshin… Ele protegeu-me sempre." – a Kaoru deu uma pequena gargalhada – "O Kenshin costumava ter um pouco de ciúmes dele…"

"PorquÊ?" – a Misao perguntou curiosa.

"Bem…" – a Kaoru pigarreou – "Pode dizer-se que o Aoshi é um homem muito… interessante… É alto, de cabelo negro, tem aquele ar sério que impõe respeito a qualquer um e os olhos… são de um azul gélido… mas são completamente deslumbrantes."

A Misao bebia cada palavra da Kaoru quase como se estivesse a acrescentar os pormenores que a amiga lhe fornecia À imagem mental que tinha criado dele."Uau…" – ela exclamou.

"Foi ele que conseguiu gravar as minhas iniciais no colar que eu ofereci ao Kenshin." – ela recordou.

A Misao desceu à terra face à informação que a amiga tinha revelado: "Aquele colar que tem o nome dele também?" - perguntou.

A Kaoru abanou a cabeça: "Ele estava a usá-lo no dia em que o encontraram."

"As respostas estão todas na frente dele… Só não há nenhuma forma fácil de juntar as peças do puzzle e perceber qual é a imagem."

Os olhos azuis da Kaoru cravaram-se na Misao: "Tens razão."

"Não achas que era mais justo se ele soubesse a verdade?"

A Misao sentia que aquilo era o que a amiga queria fazer, mas havia tantas coisas a impedi-la.

"Para nós era justo. Mas e para o Enishi? E para a Megumi?"- ela perguntou – "E se mesmo depois de eu lhe contar tudo, o Kenshin continuasse com ela? Afinal de contas eu sou o seu passado enquanto ela é o presente. E se ele gostar mais do presente do que do passado? Ia ficar um ambiente tão estranho entre todos…."

"Mas vais carregar esse peso todo sozinha Kaoru?" – a Misao abanou a cabeça: "Não podes… um dia tu vais fartar-te disso. E… se o Enishi quiser algo ainda mais sério contigo? O que vais fazer? Vais ficar com ele mesmo sabendo que amas o cunhado dele?"

A Kaoru levou as mãos à cabeça: "Não sei…" – suspirou – "Eu tenho esperança de que ele se farte de mim e acabe comigo…"

A MIsao ficou espantada a olhá-la: "Ah?"

Ela fechou os olhos. Tudo o que estava a dizer não fazia sentido, mas era o que ela sentia… Uma total confusão de sentimentos contraditórios… Ela não queria que ele a procurasse, mas sentia-se triste por ele não o ter feito, queria fazer o Enishi feliz, mas procurava todas as desculpas para não estarem juntos… Se continuasse assim ia ter que lhe pedir um tempo… Mas se o fizesse ele ia desatinar…

Sentiu a mão da amiga pousar na sua. Abriu os olhos e respondeu: "Estou tão confusa Misao…"

A outra deu um sorriso caloroso: "Não te preocupes…" – fê-la deitar a cabeça no seu colo enquanto lhe mexia no cabelo como se faz às crianças para adormecer. "Tudo se vai resolver."

A Kaoru tentou encontrar a proteção e confiança que precisava nas palavras da amiga… Talvez tudo se resolvesse sem ela ter de tomar nenhuma ação… Talvez Alguém lá em cima estivesse a olhar por ela e estivesse pronto a intervir perante tamanha aflição.

Talvez…

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O Kenshin tinha lutado imenso contra a vontade de voltar ao hospital nos dias posteriores ao encontro. Já tinha obtido todas as informações possíveis e imaginárias acerca dela… Mas ela é que parecia saber tanto acerca dele…

Trabalhar tinha-o ajudado a evitar a tentação de lá voltar… Tenho tempo… Ela pode pensar que eu a ando a perseguir e ficar com má ideia de mim…

Tudo batia certo. Ela sabia o nome dele mesmo antes de ele o dizer, abraçou-o emocionada quando o encontrou, o perfume… o perfume era o mesmo… E a sua atitude quando ele explicou a amnésia. De início ela parecia ir contar algo, a sua história, a sua vida, apenas quando a Megumi entrou é que tudo mudou. Ele sentiu que isso a impediu de dizer o que queria. A expressão de alegria desapareceu e foi reposta por uma máscara de indiferença. Ela tentou fazer com que tudo parecesse um mal entendido mas era tarde demais, ela tinha revelado muita informação na primeira interação para ser apenas uma coincidência. Mas o Kenshin tinha um plano.

Apesar de não a querer forçar a nada ele tinha esperanças de a conseguir fazer falar… Descair-se.

Ele não podia deixar a Kaoru escapar. Com ela o Kenshin sentiu que era possível aquilo que há muito desejava… Saber quem realmente era… Ele não podia ser uma pessoa assim tão má… se assim fosse ela não verteria lágrimas de felicidade ao reencontrá-lo!

Pegou no carimbo e pousou no tinteiro. Kaoru Kamyia… Talvez com o Enishi e a Megumi de volta ela não se sinta à vontade… Mas haverá de chegar a altura em que a vou encontrar sozinha… Ele olhou para o computador… E se pesquisasse acerca dela? A ideia apareceu de repente – Posso pesquisar nas redes sociais… Ele pousou a mão no rato do computador ainda hesitante. Mas eu já sei tudo dela… Ou… Quase tudo… o Kenshin resistiu ao impulso. Não era assim que ele queria fazer as Coisas.

Olhou para a parede do escritório, o relógio dava seis e meia da tarde, e ele já tinha acabado todo o trabalho. Aliás, ele só tinha vindo trabalhar para que a Kaoru fosse ao jantar e assim a Megumi não precisava de ficar desiludida. Ele sabia que parte dela tinha ficado desiludida à mesma por ele não ir, mas hoje era mais importante para ela que os seus pais a conhecessem… Era quase uma afirmação perante eles de que tinha conseguido meter juízo na cabeça do irmão.

Para o Kenshin o pior ia ser mesmo o esperar até ao jantar acabar. Ele ainda não sabia se ia conseguir fazê-lo… Tinha tanta vontade de assistir à reacção dela quando o visse entrar, que até estava capaz de aturar todos as perguntas e insinuações da Srª. Yukishiro.

Ele recostou-se para trás na cadeira. O que é que ia fazer para preencher o tempo?

Olhou de novo para o computador e suspirou.

Ia ser uma luta árdua entre a si mesmo e a sua vontade.

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O Sano estacionou em frente à casa do Enishi. Durante todo o caminho a Kaoru veio calada. O que levou o Sano, alheio a tudo o que se tinha passado no hospital, a achar estranho.

Apesar de lhe ter perguntado várias vezes a razão do silêncio ela desculpou-se com uma dor de cabeça.

"Devias ter dito que não vinhas." – ele retirou a chave da ignição – "Aturar a sogra é capaz de te fazer ainda mais dores de cabeça."

A Kaoru fez um ar assustado o que levou a Misao a dar uma gargalhada.

"Eu ainda não percebi o que vim fazer aqui." – o Sano disse entre dentes, a Misao deu-lhe uma palmado no ombro – "Nós vimos para apoiar a Kaoru, além disso a Megumi é que pediu para vires." – ela respondeu. O Sano deu um sorriso traiçoeiro. Afinal ela não o achava assim tão detestável.

Ele tocou à campainha e prontamente a Megumi veio abrir com um sorriso rasgado no rosto. "Olá meninos sejam bem-vindos!"

A médica estava mesmo radiante. Assim que entraram ela fez questão de os conduzir até à sala onde estavam os pais juntamente com o Enishi.

Assim que os viu entrar o Enishi aproximou-se. "Pai, Mãe estes são o Sanosuke e a Misao." Ele apresentou-os e depois colocou o braço à volta da cintura da Kaoru – "E esta é a Kaoru." – ele aproximou-a de si.

A senhora de cabelo castanho-escuro e olhos castanhos aproximou-se e beijou a todos. "Finalmente conheço uma namorada do meu filho."

A Kaoru esboçou um sorriso. A Megumi era exactamente igual à mãe… Tirando o facto de ter cabelo preto igual ao do pai, em tudo o resto eram iguais, fisionomia, voz, a forma do rosto até mesmo a cor do batom vermelho forte que usavam era igual. O pai era um homem alto de olhos castanhos, rosto comprido e postura firme. Parecia um daqueles empresários que andam sempre a viajar de um lado para o outro.

"E isto não quer dizer que ele tenha tido muitas namoradas." – ela pousou a mão no braço da Kaoru – "Não fique preocupada minha querida."

"Não, eu não fico." – a jovem sorriu.

"Ela não tem com o que se preocupar." – ele passou-lhe a mão pelo rosto – "Eu não lhe dou motivos." – aparentemente ele estava bem, não parecia estar ressentido com ela devido ao afastamento destes últimos dias.

"Mas e então como é que se conheceram?" – a senhora perguntou pegando a Kaoru pelo braço e levando-a para a mesa, mas nesse momento entrou a Megumi com uma bandeja na mão e advertiu a mãe: "Não vais encher a pobre rapariga de perguntas, pois não?"

A Srª Yukishiro suspirou: "Pronto, pronto eu não pergunto mais nada." – ela olhou para as cadeiras – "O Kenshin não vem?" – a simpes menção do nome dele fez a Kaoru ficar com pele de galinha.

A Megumi abanou a cabeça: "Ele teve de ficar a trabalhar."

"É pena… Eu gosto tanto de falar com ele…" – ela olhou para o Sano – "Mas vejo que me vou manter muito bem acompanhada! Posso sentar-me ao seu lado?"

O Sano não se deixou intimidar e puxou de uma cadeira: "Com todo o gosto. Aliás estamos em sua casa."

A senhora sorriu e sentou-se.

O Enishi e a Megumi trocaram olhares. A mãe realmente não tinha mudado.

O Enishi fez sinal para a Kaoru se sentar ao seu lado seguida da Misao. O Pai do Enishi não se parecia incomodar com a atitude da mãe e sentou-se ao lado do filho. A Megumi pousou a travessa na mesa e começaram todos a servir-se.

"Kaoru tens feito horários diferentes nesta semana? Não te tenho visto." – a Megumi perguntou enquanto tirava a comida para o prato do irmão.

A Kaoru acenou: "Sim… Esta semana deu-me mais jeito assim… Como estou de férias da escola, aproveito para estudar com a Misao e só depois é que vou trabalhar…"

O Enishi torceu o nariz: "Ainda bem que é só temporário, não gosto que saias muito tarde, porque é perigoso."

"Sim, mas como também me vais sempre buscar não há problema." – ela respondeu

"O meu filho é um verdadeiro cavaleiro." – A Sayuri (mãe do Enishi) acrescentou.

A Kaoru sorriu: "É verdade… Eu já lhe disse que ele não precisa de me ir buscar todos os dias…. Mas mesmo assim ele vai sempre."

O Enishi pousou os talheres: "Achas mesmo que eu te ia deixar andar por aí à noite sozinha?"

"Uou… O meu irmão está muito protector, a mim nunca me foste tu buscar!" – a Megumi reclamou

O Enishi abanou a cabeça: "Tu tens carro." – ele levou uma colher de arroz à boca – "Além disso, quando não tens, o teu "queridinho" vai buscar-te."

"Se bem te conheço Mesmo que a Kaoru tivesse carro, tu ias buscá-la à mesma." – ela olhou para o irmão – "Certo?"

Ele acenou. "Claro."

A Misao riu-se: "A Kaoru demorou algum tempo a aceitar a tua boleia."

As cabeças voltaram-se na direcção da Kaoru: "Porquê?"

De repente ela sentiu-se a corar com a atenção de todos… "Bem… eu não o conhecia, não sabia que tipo de pessoa ele era."

Ele pousou o braço por cima dos ombros dela: "Eu tive que descobrir os horários dela para estar na escola quando ela saía… E mesmo assim… ela só aceitou que eu a levasse ao trabalho passado algum tempo."

A Kaoru levantou a mão: "E porque estava atrasada."

Ele riu-se: "É verdade."

O Pai do Enishi olhou para os dois: "Bem… ele sempre foi habituado a ter tudo o que queria. E, por isso, não desiste facilmente. Lá nisso saiu a mim. Megumi, filha, tens vinho?"

A médica acenou e levantou-se para ir buscar, enquanto isso ele começou a falar com o filho acerca do carro e foi neste momento que a Sayuri perguntou à Misao como é que os três se tinham conhecido. "Espera aí que eu quero ouvir isso!" – a Megumi veio a passo apressado da cozinha com a garrafa e o saca rolhas na mão – "Pai tens que abrir tu isso, eu nunca me ajeito com essa geringonça." – deu a garrafa ao pai e sentou-se a espera de ouvir a história.

A Misao endireitou-se na cadeira: "É uma história simples, eu e a Kaoru éramos vizinhas e tornamo-nos amigas logo da primeira vez que nos vimos… O Sano juntou-se uns meses mais tarde…"

"Essa é a parte engraçada." – a Kaoru acrescentou

"Aposto que ele fez asneira e vocês foram ajudá-lo." - A Megumi piscou o olho ás raparigas

"Por acaso até não!" – ele respondeu em sua defesa – "Mas eu vou deixar que sejam as meninas a contar só para que tu não digas que eu estou a exagerar."

A Megumi pôs a língua de fora e as mulheres todas na mesa se riram: "Nós tínhamos saído da escola e íamos a comer um gelado pelo caminho, quando um grupo de rapazes apareceram e nos queriam tirar o gelado." – a Misao interrompeu a Kaoru –"E de repente o Sanosuke apareceu e salvou-nos!" – deu um abraço ao Sano – "A partir daí somos como família."

O Sano apontou para si mesmo em sinal de que merecia algum reconhecimento.

"Está bem, dou-te algum crédito por isso." –a médica respondeu – "Mas aposto que a partir daí passas-te a vida toda a cravar essas pobres raparigas." – ela olhou para a Kaoru e para a Misao.

"Começando pelo gelado…" – A Kaoru respondeu.

A Megumi bateu com o punho na mesa: "Eu sabia! Afinal não te conheço assim tão mal Senhor Sagara!"

Ele abriu os braços: "Boa até já decoras-te o meu último nome!"

A Megumi enrubesceu um pouco mas não o deixou sem resposta: "De tantas vezes que vais lá ao hospital para tratares das lesões que estás constantemente a fazer!"

Após isto começaram os dois a debater as vezes que ele lá tinha ido e a estupidez dos motivos que levavam ás lesões.

A mãe dela observou a forma como os dois interagiam e sorriu. O comportamento da filha perto do Kenshin era diferente. Tornava-se mais calma. Com este rapaz, ela ficava mais impulsiva, mais parecida com a jovem que tinha saído de casa dos pais para estudar. Eu pensei que ela estava com o Kenshin… Mas a forma como ela reage perto do Sanosuke… É como se fossem íntimos… Em qualquer um dos casos… Vai bem servida.

O jantar decorreu alegre, muito melhor do que aquilo que a Kaoru tinha idealizado. A mãe deles era muito simpática e fez com que ela ficasse muito à vontade. Contou várias histórias de quando era mais nova, de quando o Enishi e a Megumi eram pequenos… Enfim… Parecia mesmo uma noite familiar…

Quando a Kaoru foi à cozinha levar os pratos à Megumi para lavar deu com ela sorridente.

A jovem pousou os pratos na banca: "Porque sorris?"

A outra completamente apanhada de surpresa piscou várias vezes os olhos antes de responder: "Foi uma noite muito agradável, como há já muito tempo não tínhamos." – esticou-lhe a mão – "Obrigada Kaoru."

A Kaoru aceitou a mão da médica: "Não tens de quê."

"A minha mãe não fez perguntas incómodas, pois não?" – ela começou a por os pratos na máquina.

"Não, a tua mãe foi muito simpática." – a resposta foi sincera.

A Megumi parou mais uma vez a olhar para o Sano a falar com a sua mãe e com a Misao: "Ele monopolizou a atenção de todas as mulheres da casa."

A Kaoru riu-se: "O Sano é mesmo assim."

A Megumi abanou a cabeça: "Receio que sim… Mas, Kaoru, vocês tem que lhe pôr algum juízo naquela cabeça, o último ferimento que ele fez na mão foi grave e ele ainda não está completamente recuperado."

A Kaoru estranhou a preocupação. Seria apenas relacionado com a parte médica, ou com algum tipo de sentimento que ela tinha desenvolvido pelo seu amigo?

A Kaoru afastou essa hipótese da cabeça. Não… Ela está com o Kenshin… e simplesmente acenou para não deixar a amiga sem resposta.

Não tinha pensado nele a noite toda, e agora que ele tinha surgido nos seus pensamentos ela começou a sentir-se ansiosa.

Pelos vistos essa ansiedade não era infundada, porque passados alguns minutos ela ouviu a Megumi exclamar: "Ele sempre veio!" e foi aí que os seus maiores medos se confirmaram. O Kenshin tinha acabado de chegar. De imediato ele cumprimentou os pais da Megumi e de seguida o Sanosuke. Os dois conversaram um pouco até que o Sano lhe apresentou a Misao. A jovem tentou agir naturalmente e esconder a preocupação com a Kaoru por isso começou a meter conversa com ele.

A Kaoru baixou a cabeça. Como é que ela tinha pensado que não se iam encontrar se ela estava na casa dele? Tinha sido ingénua.

O Kenshin aproximou-se do balcão da cozinha e cumprimentou as duas jovens com um beijo no rosto. A Kaoru arrepiou-se com a proximidade entre ambos. O que é que ele ia dizer?

"Já conheces a Kaoru, ela tratou-te no hospital." – a Megumi acrescentou –"Mas esta é a apresentação formal"

Ele esboçou um sorriso que deixou a Kaoru sem reação.

"Obrigada por teres tratado da minha mão." – os olhos dele pousaram no seu rosto nervoso. Ele parecia calmo, se não o estava disfarçava bem.

Ela olhou para a mão dele. "Está… a recuperar bem?" – ela evitou olhá-lo nos olhos

"Sim. Fizes-te um bom trabalho." – a Megumi respondeu

A Kaoru estava tão nervosa… Se continuares assim ela vai reparar… Vá lá Kaoru, age naturalmente…

"Se eu não fizesse um bom trabalho na mão do teu namorado ainda era despedida."

A Megumi deu um sorriso tímido, olhou para o Kenshin e depois para a Kaoru: "Nós não somos namorados." – ela disse num tom de confidência.

O Kenshin já estava habituado aquele tipo de mal-entendidos… Já não era a primeira vez que isso acontecia. A médica pegou no tabuleiro da sobremesa e começou a caminhar para a mesa. O ruivo foi ao armário e tirou os pratos: "Parece que ainda cheguei a tempo da melhor parte."

A Kaoru sentiu os pés como chumbo a fixarem-se no chão era como se não conseguisse mover-se. Eles não são namorados?!: "Que parte?"

Ele olhou-a com um ar inocente: "A da sobremesa, é claro!"

A jovem abriu a boca de espanto: "Ah… pois…"

"E então o que é que achas-te da "família"?" – era impressão dela ou ele estava a tentar ser casual?

"São todos simpáticos." – ela respondeu

O Kenshin ficou a olhá-la por alguns segundos. Ele estava decidido a não tocar no assunto, mas a Kaoru parecia estar numa luta interna, indecisa se havia de falar ou não.

"Queres ajudar-me a levar os pratos?" – ele perguntou disposto a não fazê-la sentir-se ainda mais desconfortável. Mas ela pareceu não estar a ouvir. "Kaoru?"

"Desculpa a minha reação naquele dia no hospital." – ela usou um tom firme e decidido. O ruivo suspirou: "Tu confundiste-me com outra pessoa…"

Ela afastou o olhar: "Sim… e a minha reação foi patética desculpa… Mas vocês são tão parecidos…" – ela sentia-se transbordada por uma enorme tristeza enquanto falava e o Kenshin notou isso, porque de imediato o olhar dela ficou distante. "Desculpa eu senti-me uma idiota depois disso..."

Uma parte dela estava a ser sincera, apesar de ele continuar a não acreditar que tinha sido apenas uma mera coincidência. Ele retirou as colheres de uma gaveta: "Eu não vou mentir… Quando te vi e pensei que me conhecesses senti-me esperançoso…"

A Kaoru baixou o olhar: "Desculpa… Deve ser difícil para ti viver sem te lembrares de uma parte da tua vida."

Ele acenou: "Sim. Muito…" – o Kenshin olhou mais uma vez para ela. Raios! Ela era mesmo bonita… Aquele olhar intenso faziam-no sentir-se estranho. Apesar de ter lutado contra si mesmo para não aparecer no jantar ele tinha perdido. Não aguentou e teve de aparecer… A imagem dela surgiu na sua mente e ele praticamente voou até casa."Mas não vamos falar disso." – ele sorriu – "Vamos estão à nossa espera para comer a sobremesa."

A Kaoru suspirou e caminhou até à sala. A Misao olhava-a curiosa. Do que teriam eles falado?

O Enishi olhou para a namorada. "Estás bem?"

Ela acenou: "Sim."

Apesar de achar que ela estava estranha ele pensou que isso se devesse a outra coisa: "Desculpa não estar a dar-te a atenção que mereces mas…" – ele ia continuar se ela não o interrompesse – "Não Enishi, esta é a tua família, e eu não estou nada preocupada com a atenção que recebo, eu já recebo muita atenção da tua parte em outros dias." – ela tentou tranquiliza-lo. Uma parte dela sentiu-se mal por lhe estar a mentir.

"Então Kenshin quando é que vamos beber uns copos?" – o Sano perguntou, de uma forma ou de outra ele tinha gostado da personalidade do ruivo.

O Kenshin suspirou: "Para a semana estou de férias, podemos marcar."

O Enishi achou estranho eles já se conhecerem, mas não comentou. A vida dele não lhe interessava.

"Acho que devias fazer um seguro de saúde antes de saíres por aí com ele Kenshin." – a Megumi resmungou. O Kenshin riu-se: "O que aconteceu foi só um acidente."- ele desvalorizou.

"Pronto, eu já sabia… Agora vou ficar marcado para sempre." – ele abanou a cabeça –"Mas eu compus a asneira, levei-o logo a correr ao hospital e a Jou-chan tratou dele."

A atenção do Enishi desviou-se de novo para a conversa deles, e ele olhou para a Kaoru à procura de uma resposta. A jovem sentiu-se numa encruzilhada perante o olhar do namorado. "Não me disses-te nada." – ele exclamou entredentes. "Com isto tudo da Misao eu até me esqueci." – ela deu a primeira resposta que lhe veio à cabeça.

O Kenshin olhou para os dois. Por alguma razão o Enishi tinha reagido mal quando soube que ela já o conhecia e não lhe contou. Seriam ciúmes? Nunca antes o Kenshin tinha imaginado o Enishi com ciúmes… Ele devia estar mesmo apaixonado por ela, para reagir assim.

A própria Kaoru apercebeu-se de que o Sano e o Kenshin tinham notado a reação do Enishi e sentiu-se mal. Ela não escondeu nada de mal, porquê que ele parecia ter ficado desconfortável ao saber que já o conhecia? Por um lado a desculpa que ela lhe deu tinha um pouco verdade. A Misao tinha sido uma preocupação constante ultimamente. É óbvio que ela podia ter-lhe contado acerca do encontro com o Kenshin, mas ela não queria ter que lhe dar a mesma desculpa que tinha dado ao ruivo… Ele já não gostava do cunhado, se ela lhe contasse que o confundiu com um ex-namorado…. Digamos que o Enishi não ia reagir muito bem.

O jantar continuou por cerca de mais uma hora. A Kaoru evitou olhar para o Kenshin, apenas o fazia quando ele estava a falar. Mas a vontade de estar a sós com ele era enorme… As recordações e pensamentos voavam na sua mente, quando deu por si, estava a pensar se seria possível que ele se apaixonasse de novo por ela? Olhou para o Enishi que falava entusiasticamente acerca de uns tios dele que adorava e sentiu-se a pior pessoa do mundo.

"É verdade, o tio Kamata costumava levar o Enishi para a mansão dele e ficavam dias e dias por lá." – a Megumi recordou.

A Sayuri ficou com um olhar distante: "Lembras-te mãe?" – o Enishi perguntou – "Lembras-te daquela vez em que andavas à minha procura e eu tinha ido com o tio Kamata para a outra aldeia?"

Ela suspirou e sorriu: "Sim filho lembro-me… Eu fiquei tão chateada convosco por causa disso… fiquei tão preocupada… afinal aquele ambiente não era nada recomendável para uma criança."

O Enishi desvalorizou: "Oh! Não digas isso! O tio Kamata ensinou-me tanta coisa…"

A Megumi recordou o olhar e postura do irmão do seu pai… Ás vezes quando olhava para o Enishi achava-os tão parecidos… Ela recordou as vezes em que o tio lhes vinha fazer companhia quando o pai estava ausente por causa dos negócios. Ele dizia que a família era como uma matilha de lobos, quando um líder saía outro ficava no seu lugar… a família nunca devia ser deixada sem um líder… O Enishi ficava radiante com as filosofias e sabedoria do tio. A Megumi apesar de achar esse tipo de pensamento retrógrada, não deixava de nutrir sentimentos pelo tio… afinal de contas ele era família.

Mas o Enishi sempre foi o sobrinho favorito… Ele chegou até mesmo a dizer que no dia em que morresse tudo o que tinha, os seus bens, os seus livros, os seus segredos e acima de tudo a sua empresa ia ser deixada nas mãos do Enishi… Ela nunca percebeu se ele tinha mesmo intenções de cumprir a promessa ou se só fazia isso para alegrar o sobrinho…

A noite passou e era já tarde quando a Kaoru, Misao e Sano se levantaram para sair. Porém antes de eles saírem a Megumi chamou a Kaoru à parte.

"Obrigada mais uma vez Kaoru."

A jovem abanou a cabeça já um pouco cansada: "Não tens de quê, foi divertido."

"É tão dificil juntar aqueles dois na mesma mesa…" – ela murmurou referindo-se ao Kenshin e ao seu irmão.

A Kaoru acenou: "O Enishi tem de parar com essa implicância com o Kenshin… Não faz sentido nenhum."

"Pois não… E cada vez mais eu tenho medo." – ela suspirou olhando para o Kenshin que ouvia alegremente a conversa da Misao.

"De quê?" – A Kaoru perguntou de imediato.

A Megumi olhou para a jovem e respirou fundo, como que se aquilo que fosse dizer a fizesse sentir um enorme peso: "Do Kenshin se ir embora."

"Porquê?" – Naquela noite já tinha ido uma notícia bombástica… a de que eles não eram namorados, mas agora saber que havia alguma coisa que o perturbava a ponto de o fazer ir viver sozinho ia ser uma outra bomba. "Por eles não se darem bem?"

"E não só…" – ela respondeu – "O Kenshin é um homem maravilhoso, mas é como se nem sempre estivesse cá…. Eu sempre atribuí isso ao facto de ele ter perdido a memória e estar sempre preocupado em encontrar alguém do seu passado… Mas nestes últimos dias ele tem andado mais distante do que antes… E o facto de as pessoas nos confundirem com um casal incomoda-o… Eu sinto isso…" – mais uma vez ela respirou fundo, a médica estava mesmo a falar a sério, e a Kaoru sentiu-se miserável por a ser a pessoa com quem ela estava a desabafar… "Mas… eu gosto mesmo dele…"

A Kaoru engoliu em seco. As coisas que ela lhe contava eram motivo de alegria e de tristeza ao mesmo tempo… Mas também de grande culpa… Afinal, ele não tinha seguido com a vida dele… Ele esperou por três anos que alguém aparecesse…

"Megumi…" – a Kaoru pousou a mão na mão dela. – "Tem calma."

A outra sorriu: "Eu tenho… Tens muita sorte em ter alguém que gosta de ti da forma que o meu irmão gosta…" – ela forçou um sorriso – "Agora vai lá. Dá para ver nos teus olhos que estás cansada."

A Kaoru tentou sorrir mas faltaram-lhe as forças… Eram muitas coisas para uma noite só. "Obrigada." E caminharam as duas para a aporta de entrada.

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O Kenshin entrou no quarto e atirou-se para a cama. Que noite… Ele tinha mesmo de fazer alguma coisa… Ele tinha de arranjar forma de falarem de estar mais tempo com ela…

Ele recordou o ar surpreso dela ao descobrir que ele e a Megumi não eram namorados… Teria isso mudado alguma coisa referente Àquilo que ela pretendia fazer?

O que ele sentia quando a Kaoru estava por perto era inexplicável… Tinha sido tão difícil tirar os olhos dela enquanto estavam todos juntos na mesa… Ele não conseguia adormecer… Se eles não tinham tido uma relação no passado então ele estava a apaixonar-se por ela… Não era correto… Não era correcto de nenhuma forma…

O ruivo voltou-se na cama. Porquê tanto movimento dentro de casa? Era tão tarde e a Megumi ainda estava a pé… Depois de a Kaoru e o seu grupo se despedirem os pais da Megumi saíram logo de seguida. Como resposta às suas perguntas mentais a Megumi entrou no seu quarto de rompante.

Ele levantou-se de imediato e observou-a. Ela não estava bem. Tinha acontecido alguma coisa grave, porque ela tinha lágrimas nos olhos. Ele passou as mãos pelo rosto dela: "O que se passou Meg?" – ele sussurrou.

A jovem agarrou-se a ele a soluçar. "Os meus pais ligaram-me agora."

"Aconteceu alguma coisa durante a viagem?" – o Kenshin perguntou preocupado. Ela abanou negativamente a cabeça: "Quando eles chegaram deram-lhes a notícia de que o meu tio Kamata… que o meu tio Kamata morreu…"

O Kenshin abraçou-a com força, apesar de nunca ter conhecido a personagem que tantas vezes eles falavam, ele não podia deixar de a apoiar naquele momento.: "Como é que ele morreu?"

"Acidente de carro." – ela respondeu – "Eu não sei como contar ao Enishi."

O Kenshin pousou a mão na cabeça dela… Ele não sabia se alguma vez tinha lidado com o facto de perder alguém que amava… Mas devia ser horrível.

"Vais ter que lhe contar." – ele avisou-a – "Vai custar-lhe porque pelo que me contas eles davam-se muito bem."

"Eu sei." – ela respondeu desencostando-se dele – "A minha mãe pediu para irmos já ter a casa deles… Depois partimos para Lisboa onde o meu tio vivia."

O Kenshin acenou: "Precisas de ajuda?"

Ela acenou: "De toda possível. Não sei quanto tempo vamos ficar por lá, mas receio que sejam algum…preciso que avises no hospital do que se passou… eles precisam de cancelar as minhas consultas e as minhas cirurgias pelo menos por esta semana."

O Kenshin guardou a informação. "Assim que clarear o dia eu vou lá avisar."

"Obrigada." – ela afastou-se com um olhar sério.

"Onde vais?" – o Kenshin perguntou

"Vou acordar o Enishi e avisá-lo do que aconteceu." – a médica fechou a porta do quarto deixando um Kenshin muito pensativo para trás.

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A Kaoru acordou sobressaltada com o barulho do telemóvel. Olhou para o visor. Enishi… o que é que ele quererá ás três da manhã?

"Enishi?" - ela perguntou ainda ensonada.

Pela voz dele ela percebeu que algo tinha acontecido. "Kaoru, eu estou aqui à tua porta, podes descer por favor?"

A Kaoru sentiu uma impressão no peito. Será que tinha acontecido alguma coisa?"Mas passou-se alguma coisa?" – ela perguntou já a vestir o robe.

Ele estava rouco: "Sim… podes descer?"

"Estou só a vestir um robe e já vou." – ela desligou e desceu rapidamente. O tom que ele usou deixou-a preocupada.

Assim que chegou à sala e abriu a porta sentiu o frio do exterior aconchegou o robe mais no peito. Abriu a porta e ele já estava à entrada.

"Enishi, o que se passou?" – ela caminhou até mais perto dele, o Enishi estava pálido, ela pode ver o carro dele mais à frente e a Megumi lá dentro.

Ele pousou as mãos nos braços dela: "O meu tio Kamata morreu… Nós vamos ter que ir a Lisboa." – ele respondeu.

Ela suspirou, ainda à pouco ele tinha estado a falar do tio e agora ele morreu…"Oh Enishi… eu sei o que deves estar a sentir." – ela passou a mão no rosto dele. – "Como é que aconteceu?"

"Um acidente de carro."

A Kaoru baixou a cabeça… "Como os meus pais." – ela murmurou

"Eu não sei quanto tempo vou ter de ficar por lá…" – ele fixou o olhar nela.

"Não te preocupes… Ficas lá o tempo que precisares." – ela assegurou – "Mas, por favor vai dando notícias."

O Enishi deu um sorriso ténue. A preocupação dela era sempre bem-vinda. Ele queria perguntar-lhe o que tinha em mente, apesar de saber que a resposta ia ser negativa… Mesmo assim ele quis tentar: "Gostava que viesses comigo."

Ele sentia que ia precisar dela ao seu lado. Não ia aguentar muito tempo sem a ver… Ainda para mais numa situação daquelas…uma semana parecia uma eternidade.

A Kaoru engoliu em seco: "Enishi… eu não posso… Eu tenho o trabalho, a escola…"

Ele suspirou. Um dia ele ia ter que fazer com que ela terminasse tudo aquilo e ficasse disponível para ele.

A Kaoru colocou os braços à volta da cintura dele. "Gostava tanto de puder ajudar mais… O que estás a sentir é tão difícil de lidar…"

"Felizmente que te tenho a meu lado para me ajudar." – ele levantou-lhe o queixo e olhou-a nos olhos antes de a beijar. O beijo foi tão intenso… era como se ele estivesse a querer aproveitar os últimos momentos com ela.

Assim que se afastaram e a Kaoru recuperou o folêgo apercebeu-se do olhar dele. "O que foi?"

Ele trincou o lábio: "Quando eu voltar… Tu ainda vais estar aqui, não vais?"

Ele estava com medo de alguma coisa? Sim, o Enishi que parecia ser tão confiante nas suas próprias qualidades, estava com medo de que a distância fizesse com que ela deixasse de gostar dele.

"Claro que vou." – ela descansou-o. Ele deu-lhe mais um beijo e afastou-se.

"Assim que chegares ligas-me?" – ela caminhou mais para o beiral.

Ele já perto do carro voltou-se: "Devo chegar em uma hora, não te vou ligar para não te acordar de novo, mas mando-te uma mensagem e depois ligo-te a uma hora que seja decente."

A Kaoru advertiu-o: "Vai com cuidado. A estrada é perigosa."

Ele entrou dentro do carro, acenou e arrancou.

A Kaoru ficou a ver o carro partir… Como as Coisas mudavam de um momento para o outro.

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De Manhã

"Kaoru onde é que vais?" – a Misao viu a amiga descer as escadas com uma mala e um casaco quente na mão.

A Kaoru parou na cozinha tirou umas coisas do frigorífico e meteu dentro da mala: "Vou andar um bocado a pé." – respondeu – "Preciso de pôr umas coisas em ordem na minha cabeça." – ela olhou para a Misao que ainda estava a tomar o pequeno almoço – "Não te importas de que não estudemos hoje?"

A amiga acenou: "Não… Eu também não me apetecia muito estudar."

A Kaoru pegou nas chaves de casa e estava pronta para sair quando a Misao a chamou: "Estás assim por causa do tio do Enishi?"

Os olhos da Kaoru fixaram-se nos da amiga: "Não no tio dele, mas nele… É difícil perder alguém assim." – ela sabia do que estava a falar… Muitas vezes ainda se recordava do dia em que lhe deram a noticia que os seus pais tinham morrido.

"Kaoru." – a Misao aproximou-se – "Tem cuidado."

A Kaoru bateu continência: "Sim." – ela sorriu. Os papeis tinham-se invertido, agora era a Misao que lhe dizia a ela para ter cuidado. – "Eu já levo almoço, por isso vou directa para o hospital."

A Kaoru deu um abraço à Misao e saiu.

A Misao voltou de novo para os seus cerejais ainda pensativa com toda aquela história. Como é que o Kenshin tinha voltado do Japão? Como será que a Kaoru foi lá parar?

Havia uma coisa que a Misao queria fazer… Havia algo acerca da qual ela estava curiosa…

Ao menos se a Kaoru não tivesse levado o diário com ela… Ela podia ler e reler e talvez entender como é que a sua amiga tinha ido parar ao outro lado do mundo… Mas desde aquele dia em que a apanhou a ler, que a Kaoru levava sempre o diário com ela.

Mas havia ainda um sítio no qual a Misao teria de pesquisar.

Ela olhou para cima.

O sótão...

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O Kenshin saiu do hospital. Ele já tinha feito o que a Megumi lhe pediu…

A Médica tinha-lhe ligado a avisar que já tinham chegado e que estava tudo dentro da normalidade. Apenas ainda não sabia ao certo quanto tempo iriam demorar… Haviam alguns assuntos de família para resolver…

O ruivo aproximou-se do carro… Tinha uma semana sozinho consigo mesmo. A ideia podia parecer assustadora mas ao mesmo tempo reconfortante…

Ele precisava pôr as suas ideias em dia… De se organizar e de começar a procurar uma casa só sua… É claro que ele não ia dizer isso à médica por telefone, nem quando ela chegasse… Tinha de lhe dar tempo para se habituar à ideia.

Ele entrou dentro do carro e conduziu até à beira mar…

Estava tudo calmo… Também ainda era muito cedo e ninguém mais se lembrava de vir para ali aquela hora. Era precisamente por isso que o Kenshin gostava daquele momento. O sol tinha nascido há pouco tempo e ainda estava tudo calmo… O mar tinha poucas ondas, o vento soprava fraco, as aves estavam a dormir umas junto ás outras… Era como se uma parte da natureza ainda estivesse a adormecida.

O Sonho que tinha tido na noite anterior foi estranho… Não havia sangue nem lutas… Havia apenas uma voz de um homem… Uma voz firme, que repetia incessantemente para que se levantasse.

O Kenshin recordou o sonho:

"Vá lá, não vais ficar aí a dormir a noite toda, Kenshin!" – ele recordou uma das expressões com clareza.

"Mas eu estou cansado!" – respondeu, mas de novo o indivíduo insistiu: "Anda lá levanta-te não tenho o dia todo!" – apesar de parecer brusco a falar, aquela pessoa não era má… porque apesar de o Kenshin sentir-se cansado, exausto, incapaz de abrir os olhos… ele sentia-se também à vontade.

"Eu não me acredito que já estas cansado!" – ele regateou de novo - "Como é que me vais suceder assim? Tu tens a perícia mas não tens resistência… E só a vais ganhar se te esforçares para aguentares cada vez mais."

"Lembra-te Kenshin o estilo HitenMitsurugi vai exigir muito do teu corpo… Tens de estar preparado. Por isso, Levanta-te!"

"Kenshin? Vá Lá! Kenshin?"

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"Kenshin?"

O Kenshin abriu os olhos De novo… Ele fechava os olhos e as coisas pareciam aparecer na sua mente… Tão vívidas… Aquilo eram lembranças do seu passado… Mas… a quem é que ele ia suceder? O que era o HitenMitsurugi?

Uma mão pousou-lhe no ombro: "Kenshin?"

Ele voltou-se para trás.

"Kaoru?" – a surpresa de a ver foi tanta que se notou na sua voz. – "És mesmo tu?"

Ela acenou. "Sim." E depois olhou para a sua roupa: "Porquê não pareço eu?"

O Kenshin levantou-se e ficou de frente para ela: "Não, não, claro que pareces tu, que pergunta estúpida que eu fiz!" – ele coçou a cabeça embaraçado – "Desculpa, só que não estava à espera de te encontrar aqui."

"Nem eu."- ela respondeu também com um sorriso – "Que coincidência."

Quando ela o viu ali sentado com os olhos fechados, perguntou-se se havia de lhe falar… Mas quando deu por si já o tinha chamado.

"O Enishi já te deu novidades?" – ele perguntou.

A Kaoru acenou: "Sim… Eles já chegaram lá à algum tempo, mas ainda não sabem quanto tempo vão ficar… Acho que tem de…"

"Resolver uns assuntos de família…" – o Kenshin terminou a frase dela.

"Sim." – a Kaoru respondeu.

O Kenshin reparou que ela estava a usar fato de treino: "Estavas a caminhar sozinha?"

"Sim."

"Não é perigoso a estas horas andares sozinha?" – ele perguntou.

A Kaoru exasperou: "Não te vais pôr com as mesmas insinuações do Enishi, pois não?" - ela meteu as mãos nos bolsos – "Eu sei defender-me, além disso já é dia."

O Kenshin levantou as duas mãos: "Tudo bem… eu rendo-me…" – e sorriu – "Mas o que te faz andar por aqui a estas horas?"

Ela olhou para o mar: "Precisava de pensar… em casa não consigo, então decidi vir para aqui… Mas e tu?"

"Eu precisava de estar sozinho tambem para meditar um pouco…" – o Kenshin respondeu.

"Pois…. E eu vim incomodar… Desculpa." – ela disse meia envergonhada retirando os phones do bolso – "Desculpa… eu vou voltar para a minha caminhada…"

Ele segurou no braço dela: "Não! Espera!" – o Kenshin deixou escorregar a sua mão até à dela: "Tu não incomodas."

A Kaoru ficou presa naquela situação por alguns segundos… A suas mãos ligadas…. Os seus olhos presos nos dele… Ele estava exactamente igual ao homem com quem ela sonhava em criança.

Ele nem se tinha apercebido de que lhe tinha dado a mão, foi um gesto impensado. "Porque é que não caminhamos juntos?" – ele disse soltando-lhe a mão –"Isto é se não te importares."

A Kaoru ficou imóvel… Ainda estava parada no tempo… "Ss..sim." – ela respondeu – "Claro que não me importo."

Ele posicionou-se ao lado dela e começaram a caminhar.

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Há coisas que por mais tempo que passe nunca morrem… E à medida que caminhavam juntos á beira-mar com o sol a nascer por trás deles… os dois apercebiam-se de que algo maior os unia… mas nenhum deles se atrevia a falar disso. Nenhum deles queria que o exterior soubesse do que sentiam por dentro, pois isso poderia destruir o momento… Por isso continuaram a andar lado a lado e quem passasse e olhasse para eles diria que eram um casal…

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Kami e .Aguia obrigada pelos vossos comentários.

Espero que tenham gostado do capítulo.

Deixem as vossas opiniões por favor. (Não se acanhem)

Beijinhos