as mãos e os pés (7)
Não existia muito o que eu pudesse fazer por Mito. Às vezes, além de companhia, conversávamos e saíamos, mas não desde que voltei com o projeto e comecei a trabalhar durante quase toda a semana em um pequeno escritório alugado no centro da cidade. Não era grande coisa, mas estava começando a revisar e organizar os possíveis investidores e quem podia se interessar. Começar a concretizar uma ideia sem ter algum grande nome apoiando era quase impossível. Mesmo que minha conta bancária não fosse tão ruim no momento.
Não conseguimos um retorno do Hyuuga. Sinto muito. – Miss S.
Soltei um suspiro e Mito olhou por cima do meu ombro. Ela geralmente não faz isso, mas há quase quinze minutos esperávamos a sua consulta em um sofá que pinicava, seu celular descarregou e tinha esquecido o livro que lia antes. Ou seja, não tinha muito o que fazer ou falar.
- Oh, desculpe. Foi meio automático. – Ela disse um pouco sem jeito e olhando para frente.
- Sem problemas.
Não era como se eu tivesse grandes segredos ou escondesse alguma coisa.
A recepcionista pediu desculpas pela demora de novo. Não estava demorando tanto assim, já tinha ficado quase duas horas esperando em um pronto-socorro de Suna com a garganta fechada e febre, e uma amiga descontrolada gritando com quem quer que dissesse que não era uma emergência. Porém, não é todo dia que a mulher do Hokage e também neta da atual dona do hospital ficava esperando. A moça começava a ficar nervosa.
- Você acha que a vovó vai dar as caras? – Perguntei depois de responder a mensagem.
- Hm, ela tem mais o que fazer. – Mito fez uma careta. - Foi o que disse quando perguntei se podia visitá-la. Não é como se fosse o primeiro bisneto.
- Ah, o primo Daichi, pelo menos, viveu o suficiente para passar o nome. – Disse um pouco triste. Não fomos próximos, mas era um cara legal, morreu pouco depois do casamento de Mito.
A família de minha mãe era bem numerosa cem anos atrás. Nós duas não passamos por tantas perdas quanto a matriarca da família, mas ainda era deprimente.
- Vovó disse a mesma coisa. – Mito falou alisando a barriga. – Perdeu tantas pessoas.
- Sim... – Falei contida e querendo mudar de assunto, mas não forcei a barra.
- Você falou com ela desde que voltou?
Cruzei os braços e me encolhi um pouco.
- Liguei umas duas vezes, mas acho que ainda está chateada por que não fiz Engenharia Química ou Medicina.
- Ela consegue ser bem rancorosa às vezes.
- A velhota vai implicar com isso toda vez que me ver. – Resmunguei fazendo uma careta.
Mito deu uma risadinha. Apesar de tudo o que tinha passado a velha Mai não queria ninguém lhe perturbando e perto dos noventa ainda administrava o hospital. Conversamos um pouco sobre isso até que uma jovem senhora médica pequenina e magra apareceu, fez uma pequena referência e pediu desculpas pela demora. Levantei junto com minha prima para o consultório, mas ela impediu.
- Desculpe, mas dessa vez quero ir sozinha.
Nós duas nos encaramos. Seu olhar era firme e apesar de ser uma escolha dela, não entendia. Eram os resultados de alguns exames importantes e dependendo do que fosse podiam ser pessimistas, não saberia o que dizer, mas queria estar ao seu lado.
Insisti um pouco, mas Mito levantou a mão e saiu. Sentei para esperar. Queria realmente fazer algo por ela, mas era meio difícil.
Na volta de carro, com o motorista, - motorista, sério - o tipo de situação que não deveria me acostumar quando voltasse a minha rotina comum, Mito comentou esfregando as mãos:
- Recebi praticamente os mesmos avisos de uma gravidez comum, mas não posso me movimentar tanto assim. O que é terrível por que tem uma festa a ser realizada e tanta papelada no laboratório. Preciso terminar de arrumar...
- Posso ajudar no que for preciso. – Falei olhando para ela de canto de olho. A postura perfeita e o rosto preocupado. – Mas eu sei que você tem colegas de trabalho e conhece organizadores de festas. Não vá exagerar.
- Sim, só que preciso acompanhar tudo isso. – Dessa vez os ombros caíram um pouco.
- Não se preocupe, vamos dar um jeito. Se for preciso cancelamos agora mesmo. – Puxei o celular.
- Não, não!
Ela segurou meu braço sem me olhar.
- Sua saúde é mais importante do que eventos sociais.
Guardei o celular no bolso da calça e quando me virei ela finalmente me encarava.
- Por que não pede ajuda para a vovó ou pro Hashi com o projeto?
Nós já tínhamos comentado aquilo por cima, mas nunca tinha respondido de forma direta. Era meio complicado, mas não difícil. E por ajuda, leia-se: dinheiro. Senti um pequeno aperto que depois foi acompanhado por uma súbita ansiedade, fui pega desprevenida. Respirei fundo e respondi:
- Vou pedir parceria no momento certo, não quero construir tendo nas costas a família. Quero que as pessoas invistam por que acreditam.
- Entendo, e acredito em você, mas sabe... É um caminho difícil.
Com isso ela pressionou de leve a mão no meu braço e me presenteou com um dos seus sorrisos brilhantes. Sabia que por dentro, parecia impossível no momento. Retribui por um tempo até Mito começar a apertar meu braço para valer.
- Ei vai arrancar meu braço? – Falei tentando soltar quando ela começava a grunhir de dor. Dessa vez não foi ansiedade, senti perder o chão. – O que você tem? Me diz!
- Câimbra, câimbra.
Suspirei aliviada, mas ainda sentindo meu braço ser quase arrancado.
- Tudo bem aí? – O motorista, Nakamura, perguntou preocupado.
- Tudo bem. – Respondi e virei para Mito. – Vamos, onde é?
- PÉS!
A voz era aflita enquanto ela tentava mexer os dedos dentro das sapatilhas azuis. Perguntei se resolveu alguma coisa e como resposta eu recebi outro grunhido. O motorista queria parar o carro e mandei continuar, não estávamos muito longe. Destravei o cinto de segurança e me abaixei para pegar as pernas dela.
- O que você está fazendo? – Mito perguntou com a voz fina e tentando me impedir.
- Te ajudando.
Ela tentou me impedir em vão, depois de soltar seu cinto - era perigoso, mas não ia demorar - coloquei os seus pés nas minhas pernas, tirei os sapatos e comecei a massageá-los. Ok, não é tipo de coisa que qualquer um faria com facilidade, mas não me importava muito.
Quando virei para o lado vi minha prima vermelha como um pimentão e não consegui segurar a risada, o que a fez cobrir o rosto com as mãos e resmungar. Era quase um dejávu de quando éramos mais jovens e cuidei dela depois de uma intoxicação alimentar.
- Ah, Ayame você é terrível. – Ela falou entre as mãos. – Como pode fazer essas coisas do nada? Meus pés devem estar...
- Não é a primeira vez que uma amiga minha precisa de massagem durante a gravidez. – Disse rindo e lembrando-me da mesma amiga que gritou por mim em um hospital para conseguir atendimento. Só que na época tinha um creme por perto. – Não pago conta de energia, ou de água há meses. Por enquanto, alivio suas câimbras.
O tom era de brincadeira e faria aquilo morando ou não na sua casa, mas no fundo era cada vez mais difícil aceitar a mordomia em que estava vivendo. Sabia que não ia ficar para sempre e que era bem-vinda, mas dava para ouvir a voz da minha mãe de fundo brigando comigo e no mundo real quando a mesma ligava para mim.
Mito me abraçou, quase me deixando sem fôlego. Entre um soluço contido disse:
- Obrigada e desculpe. – Sua voz era baixa. - Não acredito na sorte em que tenho de ter alguém na família que também é minha melhor amiga.
Uzumaki Mito precisa por vezes agir muito formal na presença da maioria das pessoas, por tudo o que a envolve e a expõe, desde o trabalho, ser esposa do Hokage, ser a Uzumaki mais conhecida depois da avó e agora futura mãe. Não se anula em detrimento disso, fala do que acredita e a sua opinião, mas às vezes por diversas pressões não consegue relaxar e se deixar levar, principalmente nos últimos anos.
Meu coração aqueceu com as suas palavras e segurei as lágrimas. Só ela para me deixar emotiva em um momento daqueles.
Também não acreditava na minha sorte.
n/a: Inicialmente este capítulo parecia ser bem simples na minha cabeça, mas a Mito e a Ayame tem uma amizade de longa data. Não começou exatamente na infância como foi dito, mas as duas são amigas-irmãs, e é difícil fazer jus a isso, mas precisava e preciso aprofundar um pouco mais.
Nos outros capítulos com algumas revelações vão fazer mais sentido certas palavras.
Desculpem qualquer erro.
Até
p.s.: obrigada Nehayat!
