CAPÍTULO 7 - UM SORRISO CORDIAL
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Os primeiros raios do sol despontavam por cima das muralhas da cidade de Prontera, anunciando um novo dia, se espalhando pelas ruas da capital de Midgard como se estivessem lavando a escuridão. Os primeiros mercadores já montavam suas lojas na Avenida Sul, para vender suprimentos para os aventureiros madrugadores, que logo cedo atravessavam os portões da cidade em busca de fama, riqueza ou poder.
Tenko grunhiu irritada e escondeu o rosto debaixo das cobertas quando os raios de sol atingiram seu rosto. Se revirou algum tempo na cama e tentou dormir de novo, mas foi impedida pela luz que entrava pela janela e pelo barulho do estaleiro preparando o café da manhã. Chutou para longe as cobertas e saltou para fora da cama. Hoje seria um dia especial. A gatuna ja estava naquela estalagem a cerca de uma semana, se recuperando da sua exaustiva peregrinação pelo deserto. Saiu apenas uma vez, para negocias seus espólios de caça com um vendedor de utilidades, e comprar alguns suprimentos de viagem. Tenko evitava ir para muito longe da estalagem, pois sabia que os guardas da família Renard poderiam estar em qualquer lugar de Prontera. Mas não poderia se esconder para sempre, e nem era essa sua intenção. Além disso, logo não poderia pagar a estadia naquele lugar, e por isso precisava voltar a caçar logo. Então, Tenko decidiu deixar a estalagem naquela manhã e se aventurar mais uma vez pelos campos selvagens de Midgard. Abriu um mapa do país que havia comprado com o vendedor de utilidades e traçou sua rota. Decidiu que sairia de Prontera pelo oeste e seguiria para a cidade de Geffen. Ouvira falar que a Vila dos Orcs era um bom campo de caça e uma boa oportunidade para um aventureiro enriquecer, então decidiu que faria uma parada naquele lugar. Fechou o mapa e guardou-o na bolsa. Lavou o rosto e passou os dedos nos cabelos. Depois se vestiu, à maneira dos gatunos, com seus trajes discretos e leves, que não impediam nenhum movimento de seu corpo, e calçou os sapatos de sola acolchoada, que não faziam barulho nenhum ao andar. Botou a adaga no cinto, desceu as escadas, pagou a conta da estalagem e saiu em direção à rua.
A estalagem ficava numa rua da parte leste da cidade. Tenko pretendia comprar equipamento, então planejava vasculhar o centro da cidade e, mais tarde, a famosa Avenida Sul, a maior área de comércio de Midgard. Mas assim que chegou ao centro, parou estupefata. Nunca tinha visto uma multidão tão grande. Ela nunca havia visitado a parte "popular" de Prontera. Apenas algumas das ruas mais vazias, e ainda assim, dentro de uma carruagem. Agora ela se sentia perdida e abismada entre tanta cores, cheiros e pessoas diferentes. Mercadores, ferreiros e alquimistas em todo lugar, sentados ao lado de seus carrinhos, anunciando seus produtos. Sacerdotes vendendo seus serviços. Mendigos puxando as capas dos passantes, implorando por zeny ou equipamento. Guerreiros de todos os tipos, desde ronins de capa esfarrapada, que andavam silenciosamente pelo mercado atrás das melhores ofertas, até orgulhosos e barulhentos membros de clãs influentes, que desfilavam pela cidade com suas armaduras brilhantes ou se reuniam nas praças para discutir sobre a Guerra do Emperium. Tenko sentiu um certo alívio, pois naquela multidão os guardas de seu pai não a encontrariam facilmente. Mesmo assim, se incomodava com o barulho e o cheiro forte de suor e das mercadorias variadas. A Avenida Sul estava tão cheia que a gatuna mal conseguia andar, e apenas com muito esforço e se esquivando dos passantes conseguiu chegar até a calçada oeste, onde alguns ferreiros exibiam belas adagas recém saídas da forja.
Logo descobriu que a maioria dos artigos vendidos na calçada oeste eram caros demais para o seu bolso. Se interessou por uma bela Damascus, reforçada com Oridecon, mas não tinha dinheiro o bastante para ela. "Sem dinheiro, sem negócio", disse o ferreiro parrudo que era dono da adaga, mascando a folha comprida que tinha no canto da boca, "Mas se tiver alguma coisa para oferecer pela faca, talvez eu aceite uma troca!"
Tenko pensou por um momento e teve uma idéia. Estendeu diante do ferreiro o seu manto de viagem. A maioria do seu equipamento era roubado dos guardas ou sentinelas do palácio, mas aquele manto provavelmente havia sido perdido por um dos cavaleiros de sua famíla que estiveram no castelo em algum dia de baile. Ela o havia encontrado perdido no estábulo certo dia, e o escondeu dentro do seu colchão junto com o resto dos equipamentos roubados. O ferreiro examinou a capa cuidadosamente. "Reforçado com Elunium, cinco vezes", disse ele. "Vale alguma coisa. Posso dar por ele a adaga e um manto novo, talvez mais algum equipamento que você queira". Tenko escolheu um broquel, também reforçado com Elunium, bem mais resistente que sua vembrassa. Quando estava indo embora, o ferreiro lhe entregou também uma garrafa, dizendo que era um "brinde" e que ela poderia usar em um momento de necessidade. Era uma garrafa de vidro, muito pequena, contendo um líquido verde-brilhante e translúcido. Tenko abriu a garrafa e aproximou-a do nariz. O cheiro da poção fez suas narinas arderem e seus olhos lacrimejarem. A gatuna sacudiu a cabeça e esfregou os olhos, tampou a garrafa e jogou-a dentro da bolsa, junto com suas poções de cura.
Satisfeita
com o negócio, Tenko dirigiu-se ao portão oeste da
cidade. Já podia enxergar a saída, quando foi
interpelada por uma mercadora. "Poções, senhorita?
Tenho de todos os tipos!", disse ela com um grande sorriso.
"Não, obrigada", disse Tenko sem olhar para o rosto
da garota. Ela ja havia comprado tantas poções que mal
podia carregá-las, e estava quase sem nenhum zeny. "Asa
de mosca? Asa de borboleta? Poção do despertar?",
insistiu a mercadora, com um sorriso ainda maior. Tenko se voltou
bruscamente e encarou a mercante. Era uma jovem pequena, um pouco
rechonchuda. Tinha o rosto arredondado, sardento, com a boca carnuda
e dois alegres olhos verde-esmeralda. Os cabelos eram lisos e
dourados. Quando viu que a gatuna havia se virado para ela, a
mercante abriu ainda mais o sorriso e estendeu um punhado de asas de
mosca e borboleta para ela. "O que vai querer, senhorita?",
ela perguntou alegremente. Tenko levantou uma sobrancelha e olhou com
uma expressão levemente confusa para a garota, que continuava
sorrindo. Depois olhou para o montinho de asas de inseto que ela
tinha nas mãos. Notou que a mão direita da mercadora
parecia estar coberta por uma espécie de vegetação.
Uma espécie de caule negro enrolado entre os dedos, que subia
pelo pulso da jovem e sumia por baixo da manga da camisa. Olhando com
mais atenção, Tenko percebeu que o caule não era
real. Era uma tatuagem.
"Por que diabos alguém
tatuaria um caule na mão?", pensou a gatuna, quando
percebeu que a mercante ainda olhava para ela e sorria. "Hã...
vinte asas de mosca, por favor!", disse ela então. Agora
ela estava literalmente sem um tostão. "Asas de mosca
sempre são úteis, vai encurtar minha viagem até
Geffen.", pensou Tenko. Ela era orgulhosa demais para admitir
para si mesma que não havia resistido ao sorriso cativante da
mercadora.
A gatuna saiu pelo portão da cidade em direção as pradarias que rodeavam Prontera. Andava calmamente, apreciando o cheiro da grama e o som da água correndo em um regato próximo. De vez em quando, via um aprendiz ou um espadachim novato lutando contra um dos Porings ou Fabres que haviam naquela região. Viu um jovem noviço batendo ferozmente em uma Pupa com um mangual pesado. Achou o rapaz parecido com seu irmão mais novo, Caifás. "Mas Caifás é espadachim.", pensou a gatuna. Estava assim, andando e divagando, quando ouviu um barulho estranho. Rapidamente virou-se para olhar. Viu um grupo de soldados marchando. Nos seus escudos, o brasão dos Renard.
Tenko grunhiu um palavrão, correu o mais rápido que pode e se escondeu junto a algumas moitas. Ser uma gatuna era útil nessas horas. Os soldados passaram por ela mas não a viram. A gatuna ja respirava aliviada, quando os soldados pararam, poucos passo à frente das folhagens onde ela se escondia. Então ela viu um caçador no meio dos soldados comuns do castelo. Com um falcão no braço. A ave olhava fixamente para a moita onde ela estava escondida. "Acho que seu falcão viu alguma coisa.", disse um dos soldados para o caçador. "Olha como ele encara aquela moita!". A gatuna suava frio, tentando controlar sua respiração. O soldado se aproximou da moita com a espada desembainhada. Colocou a arma acima da cabeça. Com um grito agudo, ele atingiu a moita com toda força. Folhas voaram para todo lado. Apenas folhas.
Enquanto isso, Tenko Kitsune estava vários metros ao norte dalí. Seu coração ainda batia rápido, mas agora ela estava segura. Resolveu continuar seguindo para o norte. Não queria arriscar um segundo encontro com os soldados de seu pai. Andou mais um pouco e viu uma jovem mercadora loura, brandindo com dificuldade um machado contra um Rocker. Tenko observou a luta de longe. Quando o Rocker morreu, a mercadora sentou-se para descansar. A gatuna postou-se do lado dela.
"Olá! Veio comprar poções?", disse a mercante, ainda ofegante da batalha. "Não, apenas agradecer", respondeu Tenko. "As asas de mosca foram muito úteis".
"Meus produtos sempre são úteis!", disse a mercadora, fazendo sinal de positivo com a mão tatuada e abrindo um largo sorriso.
Tenko sorriu de volta
