Frase do dia: Eu sou o Homem de Ferro -Tony Stark


Em algum lugar de Metrópolis
Horário desconhecido

...

Lena. Seu nome era Lena Luthor... ela era não apenas a CEO da grande L-Corp, antiga LuthorCorp como a irmã mais nova do maior terrorista do mundo, casada com Kara Danvers há sete anos, as duas tinham um filho de quatro Conner.
Ela era uma mente brilhante, cientista, empresária, dona de inúmeras filiais pelo mundo e com uma herança multi bilionária...
Ela não fazia ideia de onde estava, apenas quando escorou as mãos na barra de ferro para firmar-se e olhar para o mar, a água batendo contra as rochas, o vento frio que acabou removendo seu capuz e jogando-o para trás, seu cabelo preso em um rabo-de-cavalo baixo e mal feito movimentando-se com o vento...

Lena. Ela era Lena Luthor.

Lena. Lena. Lena.

Ela sentiu a força e pressão em seus dedos, apertou tão forte a barra que os nós ficaram brancos, aproximou-se da beirada conseguindo ver não apenas as rochas e a água batendo como a distância dali até lá em baixo, e fechou os olhos, mal sentindo o frio...

-Lena Luthor - Ela sussurrou experimentando aquele nome e respirou fundo.

Uma. Duas. Três vezes.
Sentia seu corpo pesado, sua cabeça... seu coração.
Conner... Kara.

Sua mãe fora morta em circunstâncias que eram um mistério, ela salvou sua vida... Lena sabia disso.

Sentia...

Conner tinha apenas sete meses quando tudo aconteceu, agora ele já estava com quatro anos... quase cinco.

"Então por que está aqui?" Ela se lembra de perguntar a Kara "Eu esperei você... eu esperei... qualquer coisa, mas nada. Nunca... então por que agora? Por que não antes... só... agora, Kara?" Sentiu as lágrimas picarem em seus olhos, mas as afastou furiosamente "Quatro anos eu estive aqui... por quatro anos... eu estive bem aqui!"

"Porque por quatro anos, eu nunca... acreditei que você estava viva" Kara admitiu "Conner sim, e seu maior desejo era... vir para cá, para encontrar você e... aqui estamos" Ela abriu os braços fazendo um sinal significativo e Lena apertou os olhos para ela esperando a pitada de brincadeira que não veio.

Era verdade.

-Lena Luthor - Ela levantou os olhos assustada pelo tom de voz baixo, e a presença familiar e sombria dele além de quê o homem não estava sozinho. Vindo de um lugar desconhecido, provavelmente o beco a sua esquerda tranquilo pela rua vazia as sombras se juntavam a ele e ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha, Batman a olhou do outro lado e ela congelou onde estava. Ok... ela sabia que o Morcego era o cavaleiro negro de Gotham, então o que ele estava fazendo ali era um mistério, mas mais ainda... ele a conhecia? Que diabos era isso de que agora as pessoas brotavam do nada e tentavam chamá-la por um nome que lhe era estranho e a olhavam de cima a baixo com pena...? Já era ruim o suficiente ter isso do espelho, não precisava de mais - Não vou machucá-la, vim conversar...

Seu tom era gutural e ainda assim tranquilo, e Lena o observou, por trás da máscara, as lentes brancas cobriam seus olhos, a única exibição era o queixo proeminente e a barba por fazer, ele provavelmente deveria ter mais de um metro e oitenta parecia bonito, a capa o circulava como a própria sombra, e sua postura era calma.

-Eu não tenho nada a falar com você - Ela girou, mas parou quando ele a volta e parou diante dela cortando seu caminho, Lena tentou ver seu rosto ou expressão, tentou compreender o que diabos ela teria feito, mas suspeitava então que ele estava ali por seu nome ou o nome que carrega e não se recorda... então vacilou um pouco ante a pose fria e calma do homem. Duvidava que fosse capaz de lutar com o próprio homem-morcego se ele tentasse algemá-la e subjugá-la então apertou seu olhar - Saia do meu caminho.

-Estou aqui para ajudar.

-Quem mandou você? - Ela quis saber engolindo em seco ele respirou fundo a postura solta, a capa ondulando um pouco e Lena sentiu frio.

-Ninguém... mas eu vim aqui por Conner.

Conner?!

-Ele está bem? O que aconteceu?! Ele...

-Acalme-se... ele está bem, sinto muito. Não quis parecer que ele foi ferido... ele não foi. Ele está seguro... com os Wayne.

-Como você? O que quer com ele? - Lena se interrompeu olhando para sua postura a forma como ele levantou os braços suavemente como que para relaxar os ombros e então os soltou a capa ondulando para trás e mostrando-lhe que ele não trazia nenhum armamento e sequer tinha algo em mãos além de sua arma de escalada embora ela soubesse que o homem poderia abater um bando de bandidos com uma mão amarrada nas costas, mas algo em sua cabeça clicou e ela apertou o olhar ante a postura desconfortável de alguém com tamanha presença como o próprio Batman - Me criticar pela coisa Luthor...? Acredito que terá que entrar na fila.

-Não vim aqui por isso - ele respondeu, aquele tom gutural, e mal disfarçado pelo emulador de voz.

Não... não podia ser ele... podia?! Não... Primeiro que claro, como Batman ele teria a possibilidade de alcançar qualquer lugar no planeta com facilidade por causa do teletransportador da Torre de Vigilância, sua tecnologia era concorrente a dos Luthor, e se ele tivesse sido capaz de ir tão longe, a WayneTech não teria metade do que merecia... e Bruce Wayne, poderia ser dono do mundo... se ele quisesse sem falar que a WayneTech estava em muitas marcas da Liga da Justiça, mas daí ser o Batman...?!
Ele literalmente permanecia nas sombras...

Apenas um homem usando um traje de morcego.

-O que?

Não... por que ela? Como Lena Luthor era tão especial?!
Isso era por seu irmão que sequer lembrava?
O doido psicopata obcecado com o Superman... não, talvez também fosse algo que ela fez...

-Você vai voltar?

Como?

-O que?

-Para Conner... e Kara.

Ela sentiu o sangue sumir de seu rosto.

-Do que está falando? Kara o levou embora, aonde ele está?!

-No hotel... acalme-se. Ele está bem... eu estou perguntando porque estão preocupados com você. Seu filho acordou... Diana Wayne e sua filha o têm, mas eu apenas quero saber se você vai voltar...?

Ela quase podia ouvir o "para casa, mas sentiu-se apertando os olhos mais ainda.
Do que ele estava falando...?!

-Eu não entendo...

-Estamos procurando por você há quase cinco horas.

O que?
Era noite ainda... ela não podia... ela podia?!
Lena nem mesmo tinha um relógio, e ainda que resistisse a vontade de perguntar a ele que horas eram, ela também sabia que o Batman não brincava... nunca.

-Você saiu de seu apartamento, e não voltou - Ele prosseguiu explicando-lhe - Já se passaram cinco horas... temos algumas pessoas procurando por você. Inclusive sua esposa.

-Eu... - ela olhou a sua volta, a rua vazia reconhecendo-a como um bairro novo na cidade, ali haviam muitas casas populares e pouco comércio, provavelmente aquela hora nada aberto... não era uma surpresa. Lena olhou para a planície a sua direita. Podia ver as docas e franziu o cenho - Eu nem... sei como vim parar aqui.
Batman não respondeu, ele apenas acompanhou seu olhar.

Ela respirou fundo balançando a cabeça em um movimento fluido e respirou fundo tocando a própria testa com a mão.

-Eu imagino como...

Ela o olhou vendo-o escorar a seu lado, estranho ver o quanto o herói de Gotham era tão... humano.
E parecia realmente tranquilo em falar com ela... uma Luthor.

-Conner está bem? - Ela perguntou baixo.

-Ele está. Apenas preocupado.

Um silêncio se estabeleceu.
Lena respirou fundo. Uma... duas... três vezes.

-Não sei o que fazer... como agir... Como me sentir - admitiu a ele sem poder parar a si mesma, de costas agora para a água ela definitivamente se permitiu circular as si mesma com os braços - Eu perdi quatro anos de sua vida... e eu... eu não o conheço.

-E ainda tem o restante para estar com ele - Disse o Batman, seu olhar nas ondas do mar abaixo batendo contra as pedras, sua postura relaxada escorada no batente de metal que os mantinham seguros por trás da proteção - Eu perdi meus pais quando criança, com eles se foi minha fé, minhas esperanças... e em algum momento senti que tinha morrido também. Meu desejo de continuar vivo, em um lugar como Gotham era insuficiente... e levei muito tempo para enxergar que não estava sozinho... que jamais estive sozinho e que não era minha culpa. Nada disso também é sua culpa...

-Como posso fazer isso? Como posso...

-Comece pela verdade... - Batman girou suavemente foi a vez de Lena seguir seu olhar assustada ante a nova voz acima de sua cabeça, pelo menos uns quinze metros olhando para baixo, para ela estava o Superman, a capa vermelha ondulando atrás dele que permaneceu ali, observando-a com tamanha calma que igualava ao do Morcego, e como Lena Luthor ela não entendia isso. Sentiu-se rígida ao fitá-lo. Eles realmente estavam ali porque ela estava viva... porque era de fato a irmã de Lex e... foi quando a viu parando praticamente ao lado do homem...

-Você e Conner merecem a verdade - Lena não fazia ideia de quem disse isso...

Continuou olhando para Kara.
Em um traje negro, calças cinzentas e coturnos, uma camisa de zíper com um capuz qual não usava, o cabelo loiro e inconfundível esvoaçando com o vento... sem os óculos. Poderia reconhecer a Supergirl, ainda que estivesse com o cabelo mais curto... e em um traje diferente...
... especialmente porque a Supergirl era Kara Danvers-Luthor.

Sua esposa.
Lena olhou de novo para onde o Batman estava... ou pelo menos deveria estar.
O homem morcego se fora, e a Supergirl vulgo Kara desceu rapida e apressada para o chão aproximando-se dela e freando momentos antes de alcançá-la o braço levantado e os olhos frustrados. Lena encontrou seus olhos azuis, sem os óculos, sem as roupas formais e definitivamente em um uniforme negro sem a crista de sua família, ela ainda era muito quente... mas ela tinha certeza que nunca veria sua expressão tão furiosa...
Só que estava enganada.
Kara se sentia lívida... o medo de perdê-la enfim sendo substituído pela realidade a sua frente... que ela estava ali.
Segura e viva... bem a sua frente.


HOTEL PENSYLVANIA
QUARTO 505
9 AM

LENA NÃO CONSEGUIA DORMIR.
Ela se perguntou se antes era assim também. Respirou aliviada sentindo-se fresca, não se lembrava de tomar um banho tão longo... enrolou o cabelo em uma pequena toalha branca, alcançando a outra ela a enrolou em torno de si mesma, parou diante do espelho e limpou o embaço do mesmo grata pelo alívio momentâneo oferecido.
Sua conversa com Batman foi estranha, falar com Kara, descobrir e ver que ela era a Supergirl.
Pensou que a maior surpresa era ela ser uma Luthor.
Ok... talvez fizesse sentido que a Liga da Justiça estivesse em seu encalço, que Batman a tivesse encontrado antes dos outros, e então o Superman e todos parecessem apenas preocupados e não por ela ser a irmã do psicopata Lex Luthor... certo?
Não.
Porque mesmo sabendo e aceitando que era Lena Kieran Luthor... todo o resto era e sempre continuaria sendo... surreal.

.

"Você é a Supergirl"

"Não mais..."

Ela a fitou. Kara desviou o olhar cruzando os braços diante do corpo, e dessa vez não foi uma surpresa quando notou que o dia estava clareando e as duas estavam sozinhas, Batman e Superman longe da vista. Não percebeu quando se foram e também... não fazia diferença.

"Não atuo como Supergirl... desde que você se foi"

"Até o momento... atual?" Ela indicou-a com aquelas roupas escuras rajadas de vermelho sem nenhuma representação de seu alter-ego e ainda assim parecendo tão incrível que Lena precisou piscar e afastar a impressão deixada... aparentemente.

"Eu não apenas pendurei a capa... eu a passei adiante" Kara respondeu com tranquilidade já ensaiada ainda que um lampejo em seus olhos tenha deixado-a mais curiosa para cavar essa história a fundo "Me aposentei"

"Você é a Supergirl... ou foi, isso não importa" Lena tentou respirar ainda fitando-a e não entendendo porque Kara parecia tão confusa para sua reação nervosa. Como ela não via o quanto a situação era irônica e sádica... Lena não entendia "E eu sou Lena Luthor"

"Sim..." Ela definitivamente não seguia sua linha de raciocínio.

Por um momento, Lena quis lhe jogar alguma coisa.

"Como... somos casadas?"

"Uh... sim... o que...?"

Ela rompeu a distância parando diante de Kara o suficiente para poder distinguir aquele tom de azul único em seus olhos.
Tão bonito...

"Preste atenção Kara... como você se casou com a irmã do maior terrorista da Terra...?"

"Você não é sua família, Lena... nunca foi"

Aquilo lhe deu uma pausa e a confundiu pela forma defensiva, Kara no entanto, suspirou.

"É essa sua preocupação?"

"Eu realmente não entendo..." Lena disse honestamente apontando para o nada "Eu tive uma conversa legal com o Batman há dez minutos, e o Superman parecia genuinamente preocupado... com meu bem estar. Eu sou a merda de um Luthor... e você é a Supergirl"

Kara angulou a cabeça para ela.
Como um filhote de cachorro... e então cruzou os braços na frente do corpo apertando as sobrancelhas.

"Por que você fugiu...?"

"Eu não fugi"

"Você se foi por horas..."

"Eu precisava respirar... realmente não vi o tempo passar... não consegui dormir, só precisava... andar"

"Poderia ter me avisado... eu não sei, me dito que queria um tempo... qualquer coisa"

"Eu não quero um tempo só quero..." Ela a olhou de cima a baixo tentando enfatizar seu ponto e quando Kara continuou olhando-a de volta com aqueles olhos adoráveis, Lena bufou, a confusão e mágoa instalando-se e ela notou uma mecha de um cabelo loiro caindo contra seus olhos "Sinto muito..."
"Então por que fugiu?"

"Eu não..." ela se interrompeu encarando-a e balançando a cabeça, olhou de novo para Kara, o frio da manhã agora lhe dando um motivo para realmente circular os próprios braços e amaldiçoar-se por suas roupas casuais e finas, então Kara aproximou-se abraçando-a, Lena estremeceu de novo, dessa vez não de frio, mas fechou os olhos quando a sentiu enfiar o rosto em seu pescoço e pressioná-la com delicadeza e ao mesmo tempo força o suficiente para que lhe passasse sua própria resposta preocupada pelo seu sumiço. Ao longe, Lena viu que as pessoas começavam a brotar "Não é o melhor lugar para conversarmos..."

"Eu sei..." Kara não se mexeu, e Lena não reclamou. Ela segurou a barra de sua jaqueta sentindo o tecido que parecia revestido com alguma proteção especial, e pressionou seu braço atraindo a atenção da loira.

"Estou com frio..."

"Sim. Vou levá-la para casa"

E assim foi a conversa... quando elas chegaram, pela sacada Kara a observou e Lena sequer tinha notado o quão rápido foi tudo, Kara correu ou voou com ela até ali, e não fazia ideia porque ela mesma tinha escorado o rosto contra sua clavícula e ficado ali. Ela virou-se para abrir a porta de seu apartamento, mas não sem antes pedir a Kara para esperá-la. Apanhou uma muda de roupa, uma toalha e enfiou tudo em uma bolsa, com a porta ainda aberta voltou percebendo Kara no lugar em que a tinha deixado.

"Eu quero ver o Kon..."

Seu olhar relaxou e Kara estendeu-lhe a mão de novo, Lena assentiu e se permitiu ser puxada para ela com cuidado.
Fechou os olhos para aquele cheiro exótico que era Kara, ao mesmo tempo doce que lhe entorpecia os sentidos. E ela a levou de novo.
Quando chegaram dessa vez por um beco e voltaram andando pela porta da frente, Kara se recusando a deixá-la, ela apenas puxou o capuz para o rosto e ambas subiram pelo elevador, felizmente não havia ninguém ali além do cansado segurança que lhes deu um aceno de cabeça e voltou sua atenção a seu telefone celular e o que quer que estivesse jogando, Lena foi adiante, a mão segurando a de Kara e respirou fundo antes de levar a mão na porta para abri-la.

Kara carregava sua mala, e ela foi saudade por ninguém menos que o filho saindo tão apressado do banco em que se sentava que o mesmo caiu no chão e ele nem ligou, vindo correndo até ela, Lena soltou Kara para apanhá-lo nos braços levantando-o para cima e apertando-o contra si enquanto Kon chorava baixo.
Ela murmurou pedidos de desculpas e o pressionou contra si vendo o olhar de Alex de pé na cozinha observando-os.
Sentiu Kara atrás de si tocar o filho...
... e nenhum deles falou sobre isso.

.

Lena tinha ido dormir no quarto que era do pequeno com o mesmo aninhado contra ela, e acordou bem tarde sentindo seu corpo pesado.

Deixou Conner com Alex e foi tomar um banho. Olhou para sua franja molhada contra sua testa, o tom de loiro parecendo estranho a visão morena que tinha de si mesma quatro anos atrás além de todas as fotografias que encontrou ou foi apresentada, a comparação nos jornais... oh os jornais...
Suspirou apanhando-a e olhando para aquilo. Era era Lena Luthor.

Era como um mantra que se repetia em sua cabeça... tantas vezes. Esta manhã, quando voltavam ao hotel, a notícia tinha se espalhado.
Lena Luthor vive. Havia uma nota que ela foi incapaz de ler e ignorou seu telefone celular desde que voltara ao hotel porque não conseguia entender sobre qualquer coisa referente ao que lhe aconteceu... Deus sequer pôde encarar o mar de jornalistas que a atormentavam com perguntas... normalmente, eles apenas a olhavam de cima a baixo, quem se importava com uma cidade pequena do Kansas como Smallville?! Isso era ridículo... Como Lena Luthor poderia congelar em frente à tantos jornalistas quando a mulher apenas dirigia um olhar frio a eles que literalmente enfiavam o rabo entre as pernas...?
Claro, ela imaginou que isso nunca funcionaria em Cat Grant.

Felizmente Kara sequer disse uma palavra quando segurou sua mão e a levou pelo Lobby abrindo caminho entre as pessoas sem proferir a elas uma única palavra ou fazer qualquer movimento brusco que a denunciasse... ela nem apertava seus dedos, pelo contrário, o toque era quente e enviava eletricidade por seu corpo.
Lena apreciaria... afinal, ela era sua esposa.

Kieran só se sentia ainda mais confusa... afinal, ela era sua esposa, mas ainda não se recordava.
Suspirando esfregou a toalha em seu cabelo molhado e respirou fundo para a outra.
Era tão estranho... Ela é Lena Luthor.
Outro suspiro. A unica coisa que fazia sentido era Conner.

Conner... Aquela criança linda e maravilhosa... Sendo Lena... Ela não podia descrever seus sentimentos, apenas que o amava, mas se perguntava quando lembraria de tudo. Abriu a porta do banheiro saindo entrando para seu quarto e lembrando-se pela enésima vez das palavras de Batman... como podia dizer a uma criança de quatro anos uma verdade que não possúia? O vapor de seu banho encheu o espaço, e ela respirou fundo tomando o caminho para o quarto e ignorando o frio suave.
Queria vestir um par de pijamas e deitar de novo. Sentia-se tão cansada.
Até mesmo a sensação de estar descalça era levemente reconfortante ainda que o chão estivesse literalmente congelando seus pés.
Foi quando percebeu sua presença sem vê-la.

No canto direito da cama sentada no pequeno tamborete e no escuro, lá estava ela. Em um sueter vinho, calças xadrez o óculos no rosto o cabelo perfeitamente alinhado em um coque e a sobrancelha arqueada... Para ela. Os braços e a perna cruzados... O que diabos ela estava pensando? Lena deu um salto, a mão no coração as batidas acelerando gradativamente, como se o inferno tivesse sido tirado de dentro de sua alma ao reproduzir seus pensamentos ela ralhou:

-KARA! Que diabos...? - A loira ainda continuou encarando-a e Lena notou que ela olhava descaradamente para ela em sua toalha e tentou ocultar o rubor esperando disfarçar isso como raiva. Foi até o interruptor e acendeu a luz, a janela estava aberta e um pouco de ar fresco entrava pelo cômodo, mas serviu apenas para que sentisse mais frio. E quem ela pensava que era pra invadir seu quarto assim no meio da noite sem avisar?

Tudo bem que tecnicamente não era o seu quarto e sim o de Conner, mas... isso não era o caso.

Além de sua esposa e mãe do seu filho? Gritou seu subconsciente que Lena quis sufocar com um saco de pão.

-Precisamos conversar... - Kara disse tranquilamente... demais.

-E não poderia esperar?- Ela viu a hesitação em seu olhar e então um misto de desacordo e... Mágoa? Lembrou-se de Kon e Alex na sala e abaixou o tom - Eu não sei eu me vestir e apresentável, ou então você apenas pode ficar aí e me dar outro ataque do coração-

-Honestamente, Lena...? Não. - Kara ficou de pé, as mãos na cintura dando-lhe uma pausa para a pose de super herói irado que foi contrariado... - Você sumiu durante seis horas... Seis. Eu estava começando a enlouquecer enquanto te procurava... a entrar em pânico porque não podia achar você.

-Eu sai para pensar... - Ela repetiu cruzando os braços diante do peito para segurar a estúpida toalha pois seria muito embaraçoso se a deixasse cair...

-Você saiu para pensar - a forma como ela repetiu suas palavras em crítica e cinismo lhe obrigou a bufar automaticamente - realmente?

-Não é todo o dia que você descobre que não apenas é mãe como reencontra sua esposa e filho em sua porta e literalmente tem seu mundo virado de cabeça para baixo...! Eu não pensei que você entenderia Kara... mas talvez se sentar no escuro e esperar por mim seja a resposta certa não é?

E rumou para o banheiro Kara a seguiu parando-a no meio do caminho.
Sério?! Lena quis perguntar em frustração.

-Oh não me diga isso - respondeu Supergirl igualmente irritada - pois eu tive MEU mundo virado de cabeça para baixo quando fui deixada para criar uma criança de colo sozinha e dirigir um jornal que antes era da família da minha esposa... Nem é como se eu não soubesse como você se sente... ou no mínimo entendesse... afinal, você nem mesmo me reconhece e... - Kara murmurou alguma coisa e ela não conseguiu entender o que isso queria dizer, então levou as mãos cobrindo o rosto e bufando.

Lena a observou por um momento preocupada e vendo-a jogar o cabelo para trás e ficar de costas para ela...

-Você não entende... - Lena suspirou segurando a toalha em torno de si que ameaçou cair, e ignorou o fato de que estava molhando o quarto inteiro - Você... - Ela freou a si mesma apenas balançando a cabeça em total descrença.

-Eu o que? - Kara forçou.

-Você se lembra! - Ela gritou esperando que fosse suficiente, já de pé Kara a observou e por um momento, sua expressão suavizou.

-Sinto muito... Eu não queria... - E pausou brevemente - Lena...

-Você pode sair... Eu quero me vestir - Pediu ficando de costas para ela e foi até a porta puxando-a aberta - Diga a Conner que logo estarei na sala.

-Ele saiu com Alex... foram ver Kassie.

Oh...
Ela podia sentir o olhar de Kara que puxou a porta confundindo-a pois Lena pensou que ela realmente estava deixando-a sozinha, mas ela não fez isso, a loira a empurrou fechando a e continuando ali dentro do quarto na sua frente, um sorriso de merda em seu rosto, a postura teimosa estava de volta.
E pela segunda vez, Lena quis socá-la.

-Para você fugir de novo? - Perguntou a outra em um sorriso cínico e cruzando os braços outra vez - Nem pensar.

O que?!

-Eu não vou... Fugir. Eu não fugi - ela a lembrou.

-Certo - O olhar furioso estava de volta, e Lena definitivamente o detestava. E quando Kara sentou-se na beirada de sua cama agora cética, Lena sentiu-se arquear uma sobrancelha a ela - Pois eu não saio de perto de você nem por um segundo, mesmo que tenha que vigiá-la vinte e quatro horas por dia... sete dias por semana... fiz uma promessa a Conner e a mim mesma... eu não vou perder você, Lena.
Ela engoliu em seco para a intensidade e o calor de seu olhar.

Kara literalmente irradiava-o... e talvez o fato de que seus poderes viessem do sol fosse alguma coisa...
... sim, ela deu uma pesquisada.

-Eu não sou um objeto - Respondeu, a voz rouca.

-Eu nunca disse que era.

Ela...

-O que é essa sua coisa toda possessiva? Já aviso que não faço o tipo dominada... - E respirou fundo percebendo que de novo, Kara lhe deu aquele olhar de soslaio perguntando-se o que diabos ela estava pensando - Não estou indo a lugar algum, Kara. Eu não vou me afastar de Conner, ele é meu filho.

-Nosso filho - a forma como ela disse aquilo lhe deu uma pausa.

"Diga de novo..."
"Nosso filho. Nosso"

-Definitivamente não... você não faz o tipo que se deixa ser dominada - Kara concordou com um sorriso e a voz rouca que a fez ruborizar de novo e agora ela não poderia culpar a raiva... Pelo menos não por aquele tom especifico - além do mais... - Continuou a loira esticando-se confortavelmente na beirada da cama e respondeu provocativa - Não há nada aí que eu já não tenha visto...

-Oh Deus... - Lena murmurou furiosa por sua expressão decidida a não sair dali e então ela se virou apenas ligeiramente praguejando baixo - Você tem que estar brincando comigo...

-Eu prometi ao nosso filho e a mim mesma que não iria perder você de vista de novo, Lena. Apenas aceite isso. Quer que eu vá para a sala, tudo bem, mas ainda poderei ouvir seus batimentos e sua respiração, posso fechar os olhos se quiser até... mas não vou mais me afastar de você.

Bons Deuses essa mulher... Teimosa, quente... e irritante...
Mas ainda muito teimosa... Bom... Porque dois podiam jogar esse jogo.

-Ótimo - tirando a toalha da cabeça e jogando-a no chão ela desprendeu o nó da outra a sua frente ainda parada diante de Kara e a deixou-a deslizar lentamente por seu corpo ainda molhado - Então talvez você queira fazer a gentileza de me ajudar também, querida?

Whoa.
Um a um.

-Uh... uh... - Kara começou incerta - Ou dois a um, isso merecia um escore duplo e ao vê-la completamente sem fala, Lena sorriu - Há um sutiã branco na cama... bem atrás de você.

Kara não se mexeu continuando a beber seu corpo e ela agradeceu mentalmente por sua grande cara de pau e a todos os deuses por ter lhe removido a timidez porque o olhar de Kara definitivamente valia a pena e aproximando-se dela e esticando-se para apanhá-lo.
Apanhou a peça de roupa notando os olhos azuis encontrarem os seus, Kara estava tão vermelha que ela suspeitou ser capaz de ativar sua visão a laser assim...
... ok. De onde veio isso?! Torturando-a e ignorando o fato da loira ainda beber sua presença, Lena vestiu o sutiã e uma calcinha brancos e então virou-se para Kara, mas quando notou-a encarando-a com o cenho franzido e apertado ela quase se desconcentrou... quase.

-O que você está fazendo, Lena?

-O que acha que estou fazendo, Kara? - Repetiu a pergunta sentindo um sorriso sem humor marcar seus lábios. De pé, Kara andou até ela, com o olhar tão carregado, que automaticamente Lena deu dois passos para trás até sentir suas costas baterem contra a parede. Ela engoliu em seco por um momento, pensou que Kara fosse fazer alguma coisa na melhor das hipóteses até avançar contra ela e levá-la ali mesmo... Lena sentiu-se ainda mais quente quando ela apoiou uma mão a sua direita e a olhou nos olhos, era gradativamente mais baixa que Kara e apenas prendeu a respiração por um momento, os olhos verdes-mar nos azuis-céu.

Pareceu um longo tempo em um concurso de encarar, Kara era alguns centímetros mais alta - significativos - e desceu os olhos por seu rosto, até seus lábios e de volta para cima. Ela respirou fundo, mas com um movimento rápido, puxou a porta do quarto a sua esquerda e saiu de lá deixando-a sem fala e completamente exposta e surpresa para trás... além de confusa e inquieta.
E Lena apenas respirou soltando o ar que não sabia segurar. Aliviada... contrariada...?!
Merda. Realmente?

Kara era uma poça controlada que não se abalava com nada e desde que a viu pela primeira vez, sendo esse seu grande momento e Lena só queria tirar aquele sorriso de escárnio de seu rosto. Virando-se para a porta aberta, ela ouviu o som de passos vindo da cozinha, e ainda sem vê-la, podia sentir a presença da outra no cômodo ao lado e apenas escorou a cabeça contra a madeira e respirou fundo acalmando as batidas de seu coração.
O frio a lembrou que ainda estava usando apenas roupa de baixo, e ela andou até o armário e pegou alguma coisa aleatória para vestir-se.


Conner não era um madrugador.

E Kara podia ver que ele estava de mau humor pela falta de sono... ela não o culpava, não sabia o que era dormir há anos... e sentia seu próprio além da paciência cada vez mais escassos... Lembrou-se de um momento em que ameaçara demitir Nia apenas duas vezes em um dia no ano passado e a garota admitiu que então assim provavelmente estava começando a confiar e gostar dela, Kara sentiu-se encará-la estupefata, ela havia se transformado em Cat...
Sentado na mesa do café, Conner estava calado examinando um pão doce aparentemente arrancando pedaços aleatórios do mesmo e mastigando-os por horas a fio.
A seu lado, Kassandra comia avidamente seu sanduiche de queijo e ela e Diana levantaram os olhos para Kara que sorriu a eles.

-Mamãe! - Conner a chamou e Diana observou-o levantar-se e ir até Kara que sorriu para ela reconhecendo que seu filho agira mecanicamente desde ontem e não... ela não o culpava - Você... está sozinha? - Ele olhou curioso a sua volta, ela sabia muito bem quem buscava.

-Eu vim buscar você - Kara admitiu colocando-o confortável em seus braços.

-Mamãe...

-Vamos conversar, juntos... e explicar tudo a você.

-Verdade?

-Sim...

-Então ela... ela não foi embora?!

-Não... ela tinha ido dar uma volta ontem...

-Por que?

-Le... Ela... precisava respirar um pouco - Kara admitiu.

-Por que?

-Vamos explicar tudo. Ok?

-Okay... - Kara olhou para Diana.

-Vá, estaremos aqui.

Ela não podia dizer o quão grata estava por todos eles, Lois, Clark, Diana, Bruce... Alex.

Lena.

Como era possível...? Fácil, Lena era seu mundo e quando Kara a perdeu, ela também perdeu a razão de viver... até lembrar-se de um motivo qual agora descansava em seus braços, e então o ajeitou ali rumando para o quarto de Lena. Respirou fundo preparando-se.

-E se ela me... odiar? - Kon perguntou antes de chegarem ao lobby.

-O que? - Kara perdeu sua linha de raciocínio.

-E se a... se ela me odiar...?

-Kon...

-Eu não... quero que ela me odeie - Kara soltou o ar e o apanhou levantando-o e ajeitando-o em seu quadril, então o encarou tendo certeza que seu olhar transmitia tanta seriedade quanto suas palavras.

-Em nenhum universo... em nenhuma circunstância por qualquer motivo... Lena poderia odiar você Kon. Você é nossa razão para estar vivas, a minha e a dela... e amamos você tanto querido... que nem mesmo cabe em palavras.

Sempre assustava e admirava Kara o quanto Conner era mais parecido com Lena do que com ela, ele podia ser brincalhão e extrovertido como Alex lhe dizia, mas também era inseguro, e Kara conhecia bem o filho para saber que ele não confiava facilmente nas pessoas, que levava tempo para ele apreciar a companhia de desconhecidos e considerá-los parte de sua vida, mas quando fazia isso... quando ele realmente se importava com alguém... era de todo o coração, e alma.

Exatamente como Lena.

-Promete...?

Kara o ajeitou para que pudesse olhar em seus olhos.

-Sempre.

Ele sorriu abraçando-a e Kara voltou a caminhar colocando-o no chão e andando de mãos dadas. Ela parou diante do quarto pois ele pediu-lhe colo de novo e então abriu a porta avistando-a ali de costas na sala de pé, usando uma caxemira branca de lã, jeans negros, e girou para o som na porta, e Kara ignorou a suave e lenta queimação antes as memórias de minutos atrás e elas no quarto.

-Ei... - Lena deu um passo em sua direção e parou, Conner pressionou o ombro de Kara com força e se levantou devagar para olhá-la.

Kara definitivamente não se lembrava de ter seu próprio coração em pedaços além daquele momento, sem nenhuma palavra, Conner apenas olhou para Lena, seu semblante empolgado de segundos atrás se transformou em olhos marejados e carregados, e seu lábio tremeu. Ela avistou Alex e Lois sentadas cada uma em um banco da cozinha e se perguntou quando haviam chegado.

Sem aguentar aquilo, Lena andou até ele estendendo os braços para os quais ele já saltava, e o apertou contra si girando-o e embalando-o.
Ela não se importou com a presença de Lois, Alex... nem mesmo Kara.
Era como Kara se lembrava... quando Lena tinha Conner consigo, tudo e todos desapareciam da sua volta.

Kara o viu estremecer e voltou a ontem quando o notou chorar silencioso em seus braços, mas dessa vez ela podia ouvir os soluços do filho e cada um deles partindo-lhe o coração, mas permaneceu ali, imóvel. Lena apenas murmurando palavras de conforto e calma a criança os olhos fechados, uma mão apoiando-o em seu quadril e a outra em sua cabeça, esfregando círculos suaves em seu couro cabeludo.

-Shh... eu estou aqui. Eu estou aqui... Eu sinto muito, meu amor... eu... sinto muito - Só que dessa vez, Kara a viu chorar também.