Capítulo VII

-Acho que a febre está baixando... – Disse Bella enquanto repousava a palma de sua mão sobre a testa do pequeno Jacob.

-Sim. – Concordou Kate com um tom animador na voz. – E ele já não está mais suando tanto. Creio que se recuperará antes do que imaginávamos.

Com um pesado suspiro, Bella deixou que todo o estresse e preocupação que vinha lhe afligindo nos últimos cinco dias se esvaíssem de uma única vez. Desde que Lorde Edward partira em sua misteriosa viagem à "negócios", o pequeno Jacob fora acometido por uma súbita febre, ficando restrito ao seu leito sobre a constante vigília de Bella.

Colocando uma compressa úmida sobre a testa do menino, ela se deixou analisar o rostinho pálido do garoto, surpreendendo-se com as manchas escuras que rodeavam seus olhinhos castanhos. Ele parecia tão frágil com aquele pijaminha branco, que sua vontade era de abraçá-lo com força e curá-lo com seus afagos.

-Ainda acho que deveríamos chamar um médico. – Disse olhando para Kate, tentando buscar o apoio da garota.

-Lamento, senhorita, mas isso seria impossível. A neblina está a cada dia mais densa, e seria loucura descer o desfiladeiro sem ter uma boa visibilidade. Além disso, duvido muito que algum médico se arrisque a subir até aqui com o tempo que está fazendo lá fora.

-Mas o coitadinho parece tão frágil... E eu não faço a mínima ideia do que tenha. Certamente não é nenhum resfriado, mas ainda assim...

-Já disse para a senhorita não se preocupar. – Insistiu Kate colocando-se ao lado dela e segurando suas mãos cansadas – Jack sempre tem este tipo de febre quando Lorde Edward viaja. Ouvi falar que é algo psicológico, sabe? Muitas crianças sofrem de coisa parecida quando alguém que amam se afasta por um longo tempo.

Bella ficou boquiaberta ao ouvir aquilo. Sabia que era comum crianças demonstravam sintomas físicos para expressar sua tristeza, mas não imaginava que Jacob pudesse ser tão apegado assim ao pai! Um pai que se quer teve coragem de assumi-lo. Quem era Lorde Edward, afinal? O homem excêntrico que tinha explosões de fúria ao ter sua privacidade invadida ou o pai atencioso que resgatava pobres donzelas de humilhações públicas? Difícil dizer...

Mas de uma coisa Bella tinha certeza: Lorde Edward amava seu filho, e aquele amor fazia com que ela sentisse uma estranha inveja em seu intimo, pois sabia que jamais seria amada daquele modo novamente. Nunca tivera um pai por perto, e por isso estimava muito o carinho paternal. Aos seus olhos, um homem que demonstrava cuidado e amor por seus filhos, era um homem de valor, e seu patrão parecia encaixar-se perfeitamente naquela descrição, embora seus costumes sombrios contrariassem aquela imagem.

-Céus... Nunca pensei que diria isso, mas gostaria que Lorde Edward regressasse logo. – Suspirou encarando a criança em seu leito, sem saber se desejava isso por Jacob ou por si própria.

-A senhorita deveria descansar um pouco. – Sugere Kate por fim, parecendo preocupada – Mal vem se alimentando e pouco dormiu na última noite.

-Mas e se o Jack acordar e não me ver?

-Ficarei aqui, caso isso aconteça. Oras, vamos senhorita Bella! Tem que descansar um pouco, ou do contrário acabará caindo doente também, e certamente isso não fará bem algum ao Jacob. Prometo que não sairei até que a senhorita regresse.

Bella queria protestar, queria se recusar a sair dali por um segundo que fosse, mas sabia que Kate tinha razão. Não podia descuidar de si mesma... Precisava estar forte para ficar ao lado de Jacob, caso o menino piorasse. Por alguma razão, vinha se apegando cada vez mais a ele, e sentia que não conseguiria deixá-lo por motivo algum no mundo. Era engraçado, mas jurava que havia uma conexão maior entre eles! Uma conexão que ia além da explicação.

-Está bem. – Disse deixando-se finalmente vencer – Irei descansar um pouco, mas me chame caso algo aconteça, ouviu bem?

-Sim, senhorita. Farei como diz. Tomei a liberdade de mandar Tanya esquentar um pouco de água, caso a senhorita queira se banhar. Ela deixará uma tina em seu quarto, e ficará ao seu dispor.

-Obrigada, Kate. Você é mesmo uma boa amiga.

Disse com um sorriso sincero, enquanto levantava-se e abraçava a arrumadeira de forma carinhosa. Nunca imaginara que encontraria uma amizade tão especial em Masen Rock, mas agora, sabia que Kate seria sempre sua companheira constante, e no fundo de seu coração, sentia-se extremamente grata por aquilo.

Dedicando um último olhar à Jacob, Bella saiu finalmente do quarto, com o objetivo de descansar um pouco em seu próprio leito. Porém, bastou dar dois passos para sentir suas pernas queixando-se das inúmeras horas que passara sentada ao lado de Jacob. Talvez fosse bom caminhar um pouco para dissipar a rigidez de seus membros, e pensando naquilo, Bella se pôs a caminhar pela sombria mansão.

Deixava que seus passos tomassem o rumo que quisessem, evitando as escadas e os corredores sem saída. A caminhada não fazia bem apenas para seu corpo, como também para sua mente, pois já fazia dias que o confinamento em que se encontrava atormentava sua consciência. O ócio era seu pior inimigo, e não raramente Bella se via imaginando coisas das quais deveria se abster. O principal alvo de suas divagações era certamente Lorde Edward e seus estranhos hábitos, além de seu comportamento duvidoso.

Tentava evitar o máximo que podia pensar a despeito do que o mendigo lhe dissera naquele dia em que se perdera no bosque, mas era inevitável. As acusações feitas contra Lorde Edward eram realmente preocupantes, e aquilo lhe inquietava deveras. Além disso, frequentemente se recordava da conversa que ouvira entre seu patrão e o senhor Jenks, pouco antes deles saírem em uma suspeita "viagem à negócios".

Lorde Edward frequentemente agia como um homem honrado, porém, os fatos apontavam para algo totalmente diferente, e Bella não podia contestá-los! Mas por que isso lhe afligia tanto? Não era da sua conta os estranhos hábitos que Lorde Edward tinha, então, por que se sentia tão desapontada com aquilo?!

Refletia sobre aqueles fatos quando percebeu que estava na ala oeste! Oh, como fora parar justamente ali? Justamente no local onde Lorde Edward lhe proibira de transpassar? Sabia que o correto a se fazer seria dar meia volta e sair dali o quanto antes, mas movida por uma audácia desconhecida, Bella avançou.

O local estava completamente escuro, sem nenhuma fonte de luz para iluminar seu caminho, e por isso ela tinha que tatear nas sombras. Andava de forma lenta, temerosa, enquanto tentava distinguir as formas à sua frente. Sabia que no fundo do corredor havia o quatro de Lorde Edward e Lady Rosalie, mas não era por ele que buscava. Não... Bella não pretendia ver aquela pintura novamente. Seu objetivo era o quarto proibido. O quarto ao qual seu patrão lhe repreendera severamente por tentar bisbilhotar.

Mas agora, Lorde Edward não estava ali, e sentindo um leve arrepio percorrer sua coluna, Bella parou em frente a porta que ficava no final do corredor, ao lado esquerdo... Com a mão trêmula, ela girou a maçaneta, tentando não pensar muito nas consequências de seus atos, e quando sentiu o trinco estralar, empurrou a pesada porta, ouvindo as dobradiças gemendo.

A pálida luz do anoitecer entrava no cômodo pela vidraça da janela, e seus olhos demoraram um pouco para adaptarem-se aquela sombria penumbra. Mas aquilo não lhe reprimiu, e lentamente Bella avançou pelo quarto, tentando identificar um móvel ou outro. O aposento era grande, com paredes enegrecidas pelo tempo e um estranho ar melancólico pairando ao seu redor. Tudo ali parecia ter sido abandonado há séculos, mas ainda assim, o piso estava limpo e não havia um único grão de poeira sobre os móveis. Era como se um fantasma vivesse ali dentro... O fantasma de uma jovem Lady que deixara aquele mundo da forma mais trágica possível!

Bella reprimiu uma terrível vontade de sair correndo para o mais longe possível, e algo em seu interior fazia com que suas entranhas se revirassem. Céus... Que tipo de pessoa mantinha um mausoléu como aquele em sua própria casa? Era como se Lorde Edward esperasse que sua irmãzinha voltasse a qualquer momento, mas todos sabiam que Lady Rosalie jamais deitaria novamente naquela ostentosa cama, ou brincaria com as inúmeras bonecas de porcelana que ornamentavam as prateleiras. Sem ter muita consciência do que fazia, Bella começou a andar pelo quarto, observando cada detalhe e tentando imaginar como seria aquele lugar se sua dona ainda estivesse viva.

Estava completamente absorta em seus pensamentos, quando viu uma delicada escrivaninha próxima à janela, e sem pensar direito no que fazia, caminhou até aquele belo móvel. Quantas cartas Lady Rosalie não deve ter escrito enquanto se sentava ali para aproveitar a luz do dia que entrava pela janela? Quantos diários, poemas ou versos ela não leu? Bella sentiu uma terrível tristeza lhe consumindo, e já estava prestes a sair dali, quando notou que uma das gavetas parecia semiaberta. Ela tentou fechá-la devidamente, mas algo estava emperrado, e com um puxão, Bella acabou abrindo a gaveta, surpreendendo-se com seu conteúdo! Lá dentro, a única coisa que havia, era um pedaço de papel amarelado pelo tempo.

Parecia uma carta, endereçada a uma tal senhorita Alice Brandon, escrita com uma letra fina e delicada. Relutando um pouco, Bella segurou a missiva, usando a fraca luz que entrava pela janela para analisá-la, antes de abrir o envelope e se por a ler. A carta parecia datada à nove anos atrás, e logo depois seguia-se o seguinte texto:

Querida Alice... Um longo e terrível mês já se passou desde que eu parti de sua casa, e não consigo mais dormir ou me alimentar. Sinto que minhas forças estão sendo consumidas pela tristeza que assola minha alma dia após dia, e não sei se conseguirei suportar isso por mais tempo! Eu implorei à Edward! Juro que implorei de joelhos para que ele se casasse com você e assumisse a criança... Mas meu irmão diz que não pode fazer isso! Oh, minha querida, creio que não posso suportar essa dor. Você foi uma das pessoas mais especiais que tive em minha vida, e sei que lhe fiz um grande mal ao envolvê-la em tudo isso, mas imploro por vosso perdão, pois jamais terei o meu! Sei que estraguei tudo e acabei arrastando todos vocês, desonrando nossas famílias com um ato imprudente. Mas o que foi feito está feito, e agora só me resta tentar remediar. Irei falar mais uma vez com meu irmão, e juro que tentarei fazê-lo ver a prudência em meio a tudo isso. Edward não guarda rancor algum de você, e tenho certeza de que lhe trataria muito bem caso viessem a se casar. Porém, se por ventura eu não consiga convencê-lo, considere este como um último adeus, minha cara, pois temo que não conseguirei viver com esse terrível vazio que trago no lugar do peito.

Saudades eternas de sua mais fiel amiga, Rosalie Cullen.

-Mas o que...? – Bella sentia a pergunta que se formava em seus lábios morrendo pouco a pouco antes mesmo de serem pronunciadas, sem conseguir conter seu espanto.

Então a verdadeira mãe de Jack era uma fiel amiga de Lady Rosalie! Isso explicaria o suicídio da jovem dama, mas ainda assim, Bella achava tudo aquilo muito excêntrico. E agora que pensava sobre esse assunto, o que teria acontecido com a senhorita Brandon? Oh, céus! Que tipo de homem era Lorde Edward? Que tipo de homem engravidava a amiga de sua irmã, e depois abandonava-a a sua própria sorte?

Não... Não podia acreditar nisso! Tinha que haver algo de errado naquela história, mas não conseguia dizer exatamente o que.

Bella estava completamente absorta naqueles pensamentos, sentindo sua cabeça doer cada vez que tentava compreender o que acabara de ler, quando um vulto negro pousou sobre a escrivaninha, fazendo com que ela gritasse e desse vários passos para trás. Seu coração batia disparado no peito, mas quando viu o gato negro encarando-a com seus grandes olhos amarelos, amaldiçoou o animal mentalmente. Era a segunda vez que ele lhe assustava em um mês! Só podia está de marcação.

-O que foi? – Provocou o bichano enquanto o ouvia produzindo um ruído gutural que vinha do fundo de sua garganta – Para a sua informação, também não vou com a sua cara, seu saco de pulgas.

Sem querer se demorar mais naquele lugar, discutindo com um gato, Bella virou-se novamente para guardar a carta dentro da escrivaninha, mas quando olhou para o lado, acabou dando outro grito ao ver a pequena garota parada ao seu lado.

-Irina! – Exclamou enquanto repousava a mão sobre o peito, no exato local onde seu coração batia com ainda mais força – Você me assustou. Não te vi entrando...

A garota nada respondeu. Apenas continuou lhe encarou com aqueles aéreos olhos cinzentos, e só então Bella recordou-se que Irina era praticamente muda. Céus... Era melhor sair dali, antes que mais alguém viesse lhe assustar.

-Eu... Ouvi o som de uma janela batendo contra o vento e por isso vim fechá-la antes que começasse a chover. – Mentiu Bella, tentando justificar seus reias motivos para está ali – Mas vejo que você vem fazendo um bom trabalho... Não há um único grão de pó neste quarto e por isso creio lhe darei um dia livre. Agora vamos. Não tenho tempo para perder aqui.

Bella fez um gesto indicando a porta, e juntas saíram daquele sombrio quarto, rumo aos corredores da ala leste. Caminhavam lado a lado, e aquilo só servia para aumentar a estranha sensação que lhe invadia. Não pôde evitar de sentir-se aliviada quando finalmente chegaram ao meio do caminho, onde tiveram que se separar e só assim Bella se viu livre da silenciosa garota. Estava cansada e precisava ficar um pouco sozinha para colocar seus pensamentos em ordem, mas quando abriu a porta de seu quarto, acabou sentindo um grande pesar ao perceber que tinha companhia.

-Oh, ainda bem que a senhorita chegou! – Exclamou Tanya com seu costumeiro mau humor – A água da tina estava quase esfriando, e eu não ia esquentar mais!

-Lamento. – Disse com verdadeira sinceridade – Tinha me esquecido de que Kate pediu para você preparar o meu banho.

-Que seja. Deseja que eu fique para ajudá-la, ou já posso voltar aos meus afazeres?

-Não, obrigada. Pode ir.

De forma impaciente, Tanya se virou e caminhou até a porta, mas algo estralou na cabeça de Bella, e antes que a menina saísse, tornou a chamá-la.

-Tanya... Você mora em Masen Rock há quanto tempo? – Indagou de forma incerta, esperando que não soasse tão ansiosa quanto estava.

-Desde que eu tinha três anos. – Respondeu a menina com um tom mais brando em sua voz – Lorde Edward convidou nossa família a viver aqui quando nossa casa pegou fogo e perdemos tudo.

Aquela revelação fez com que Bella engolisse em seco e lamentasse ter tocado naquele assunto. Sabia que devia está sendo um tanto indelicada por insistir, mas ainda assim, ela prosseguiu.

-Entendo. Então, você se recorda de Lady Rosalie?

-Não muito bem. Quando ela morreu eu era ainda muito menina, mas me recordo que ela era bastante espirituosa e adorava brincar com Irina. Nunca entendi o afeto que Lady Rosalie sentia por minha irmã mais nova...

-A morte dela foi realmente muito triste, não acha? Me surpreende que uma moça de quinze anos e extremamente bonita tenha se jogado de um penhasco. Ela costumava receber muitas amigas?

-Bem, não muitas. – Revelou Tanya parecendo desconfiada – Posso saber por que tanto interesse, senhorita?

-Oh, bem, é que... Esqueça. Só estava um pouco curiosa.

-Pois se quer um conselho, eu diria para que você esquecesse esse assunto. Lorde Edward não gosta que falemos de sua falecida irmã, e isso também vale para a senhorita!

Com um olhar de reprovação, Tanya saiu do quarto, deixando Bella finalmente sozinha com seus pensamentos. Quem era Alice Brandon, afinal? Oh, o melhor que tinha a fazer era cuidar de sua própria vida, como Tanya sugeriu! Com os dedos ágeis, desfez os laços que prendiam seu vestido a cintura, e deixou que a peça caísse de forma pesarosa no chão. Sentia-se cansada, mas sua mente não parecia disposta a lhe dá uma trégua, e enquanto Bella despia suas anáguas e suas meias, tentava compreender tudo o que lera naquela velha carta. Céus... Acabaria ficando louca!

A água morna massageou seu corpo e fez com que seus músculos relaxassem no momento exato em que Bella se submergiu na tina. Era revigorante tomar um bom banho quente depois dos dias exaustivos que teve, e com a ajuda de uma esponja, se pôs a esfregar sua pele. Quando julgou está limpa o suficiente, levantou-se da tina, sentindo a água escorrendo por seu corpo, e enxugou-se com um pedaço de linho que havia sobre a cadeira mais próxima.

Sabia que devia dormir um pouco, mas sua mente não lhe daria descanso por mais que tentasse até que solucionasse aquele mistério. Sendo assim, sem suportar ficar sozinha em seu quarto por mais tempo, vestiu uma camisola limpa com o penhoar por cima e partiu rumo ao quarto de Jacob. Talvez conseguisse relaxar um pouco com o menino seu lado!

-Como ele está? – Indagou ao encontrar Kate sentada ao lado dele na cama, velando seu sono com verdadeira devoção.

-Bem, eu creio. – Respondeu com um sorriso cansado ao vê-la – Continua dormindo, mas por sorte já não tem mais febre. O pior já passou.

-Oh, graças a deus. Não sei o que faria se Jack não se recuperasse...

-A senhorita gosta mesmo dele, não gosta?

-E quem poderia não gostar de um anjinho tão doce como este? – Indagou de forma boba enquanto sentava-se do outro lado da cama e acariciava a cabecinha do pobre menino.

-Sim, tem razão. Mas a senhorita precisa comer, ou do contrário também cairá doente. Deixei um pouco de cozido sobre a mesinha, e pode comê-lo todo, pois já não tenho mais fome.

-Obrigada Kate. Não sei o que seria de mim sem você.

Bella sorriu sem jeito e de forma esfomeada, foi até a mesinha onde Jacob costumava fazer suas tarefas e comeu quase todo o cozido que encontrou. Só agora percebia o quão faminta estava, e fez uma nota mental para cuidar melhor de si mesma. Tinha que estar forte se queria cuidar daquela enorme casa, e principalmente, para poder estar ao lado de Jack.

-Kate... – Disse ao ver a pobre garota pestanejando pela décima vez – Por que não vai descansar um pouco? Eu ficarei aqui de qualquer modo e te chamo caso precise de ajuda. Não conseguirei dormir sabendo que o Jack pode piorar no meio da noite.

-Tem certeza, senhorita? – Indagou tentando reprimir um bocejo, mas falhando miseravelmente – Se quiser posso ficar aqui ao seu lado...

-De modo algum. Uma de nós é o suficiente para cuidar do Jack, enquanto a outra descansa. Agora vá. Amanhã precisarei de sua ajuda e você deve estar descansada.

Com um leve aceno de cabeça, Kate levantou-se, e após desejar uma boa noite, saiu do quarto de forma sonolenta. Agora que estava ali, sozinha com seus pensamentos, Bella apagou quase todas as velas e sentou-se ao lado de uma das grandes janelas, pondo-se a admirar a chuva que começava a cair. Aparentemente, o clima em Northumberland vinha se mostrando mais inóspito do que ela esperava, e só de imaginar o inverno, sentia calafrios percorrendo seu corpo.

Onde fora se meter? Há menos de quatro meses atrás, estava vivendo em uma confortável mansão no centro de Londres, ao lado de sua boa mãe e ajudando-a sempre que possível. Mas agora estava ali, velando o sono de um pobre garotinho que mal sabia quem era sua mãe.

O nome Alice Brandon voltou a assombrar sua mente, deixando-a tensa como uma rocha. "Juro que implorei de joelhos para que ele se casasse com você e assumisse a criança... Mas meu irmão diz que não pode fazer isso!" Rememorava cada citação daquela triste carta, e cada vez mais convencia-se de que Alice Brandon era mesmo a mãe de Jack.

Como Lorde Edward pôde deixar a mãe de seu filho desamparada? E pior: Como ele pôde arrancar a criança de seus braços e trazê-la para ser criada em Masen Rock, como um misero protegido? Aquelas perguntas estavam deixando-a tão inquieta, que Bella teve que conter-se inúmeras vezes para não correr até o quarto de Lady Rosalie em busca de novas pistas. Será que a senhorita Brandon havia entregado o filho de bom grado? Só de imaginar uma mãe sendo forçada a se separar do filho, Bella sentia arrepios percorrendo sua espinha.

Foi então que as palavras de Jacob voltaram a sua mente "Minha mamãe está morta. Morta há muito tempo". Seria mesmo isso? Teria Alice Brando padecido após o parto? Era provável... Assim, Lorde Edward teria que cuidar do filho bastardo, e com o tempo, possivelmente acabara se apegando ao garoto.

Céus, aquela história estava ficando cada vez mais sombria, e só de imaginar o caos em que a consciência de Lorde Edward deveria se encontrar, Bella sentia arrepios. Um homem que carregava nas costas a culpa pela morte da irmã e possivelmente o padecimento da mãe de seu próprio filho certamente viveria em um constante mar de culpa.

Não era de se surpreender que Lorde Edward se exclui do mundo como vinha se excluindo, privando-se dos prazeres da vida e dedicando-se exclusivamente ao seu filho. Suspirando novamente, Bella levantou-se e repousou sua mão no gelado vidro da janela, admirando a chuva lá fora, até que seus olhos captaram algo se movendo em uma considerável velocidade pela estrada.

-Por tudo que há de mais sagrado... – Sussurrou para si mesma ao descobrir que tratava-se de um cavaleiro montado em um corcel tão negro quanto a noite.

Quem seria louco a ponto de cavalgar em uma noite tão escura e chuvosa quanto aquela? Bella estreitou os olhos quando viu que o cavaleiro se dirigia a entrada de Masen Rock, e logo soltou uma imprecação ao perceber que se tratava de Lorde Edward! Com um sobressalto, ela amarrou o penhoar com mais força contra a cintura, e após certificar-se de que Jacob dormia profundamente, saiu praticamente correndo, rumo à entrada principal.

Sabia que, naquela hora, todos os criados já deveriam estar dormindo, cabendo apenas a ela a árdua tarefa de receber o senhor de Masen Rock. A chama da vela que trazia consigo tremulava conforme ela descia as escadas, mas Bella não diminuiu seu ritmo, até que chegou ao salão principal e deparou-se com Lorde Edward, completamente encharcado.

Por um momento, esqueceu-se de como formar as palavras em sua boca, e deixou-se apenas admirá-lo. Parecia que tinha cavalgado por toda a noite, com os cabelos molhados escorrendo pela testa e a grande casaca negra que vestia respingando água por todos os lados. Seus ombros largos estavam um tanto caídos, ressaltando o cansaço que lhe abatia, e seu rosto de feições angulares parecia mais pálido do que de costume.

-Milorde... – Saudou-o após recuperar finalmente a capacidade de falar – Não estávamos esperando-o hoje.

-Culpa minha, creio eu. – Respondeu ele com um sorriso sem graça em seus lábios carnudos – Não gosto de cavalgar durante o dia, e por isso resolvi adiantar minha chegada para hoje à noite.

-Oh, pois fez muito mal, milorde! A neblina está bastante densa e o senhor poderia ter se perdido ou algo pior... Além disso, chove muito e com o penhasco tão próximo...

-Está me repreendendo, senhorita Swan? – Interrompeu Lorde Edward enquanto retirava sua casaca, expondo a camisa negra que usava por baixo e as calças de montaria.

-Não, meu senhor. Apenas tento fazê-lo ver a imprudência de seus atos. Caso não se recorde, há uma criança que lamentaria profundamente se viesse a perder o pai.

-E quanto a você, senhorita Swan?

-Eu? O que tenho eu? – Indagou sem compreender onde ele queria chegar, e vislumbrando um estranho brilho em seus olhos verdes.

-Sentiria minha falta caso eu caísse do penhasco e sumisse para sempre?

-Oras, não diga bobagens, meu senhor... Deus nos livre que tamanha tragédia aconteça.

Bella teve que fazer uma força enorme para manter suas mãos firmes enquanto falava aquilo. Por algum motivo, o simples pensamento de perder Lorde Edward para sempre parecia atormentá-la de forma bastante irracional.

-Onde está o Jacob? – Indagou ele retirando as luvas de couro e colocando seu chapéu sobre o cabideiro.

-Dormindo em seu quarto. Teve febre durante os cinco dias que o senhor passou fora, mas creio que agora já está melhor. Eu quis chamar um médico, mas Carmem disse que ninguém em sã consciência aceitaria subir essa encosta com o mal tempo que está fazendo.

-Isso era esperado. Sempre que me ausento o Jacob reage dessa forma. Irei vê-lo e depois me recolherei.

-Espero que tenha feito uma boa viagem e que tenha resolvido os assuntos que tinha para resolver.

-Sim... Em parte. – Respondeu ele um tanto cabisbaixo – Creio que não obtive os resultados que esperava, mas ao menos consegui algumas informações que me eram necessárias. Agora devo ir. Estou cansado e a única coisa que quero é dormir um pouco.

-Claro, milorde. Irei aquecer um pouco de água para o senhor fazer um asseio, se assim lhe prover.

-Ficaria muito grato por isso, senhorita.

Com um aceno de cabeça, Bella viu-o subindo as escadas, rumo ao quarto de Jacob, e logo após, apressou-se até a cozinha, onde acendeu o fogo para aquecer a água. Sentia-se inquieta enquanto esperava e por isso resolveu preparar algo para que ele comesse, afinal, deveria está faminto após cavalgar a noite inteira!

Em uma bandeja, Bella separou um pouco do cozido que Carmem servira no jantar, com pão dormido, queijo e uma grande xícara de leite. Quando viu que a água já estava quente o suficiente, despejou-a sobre um balde e se pôs a caminhar até o andar superior, fazendo um tremendo esforço para equilibrar tudo o que trazia consigo. Por um segundo, relutou um pouco em adentrar na ala oeste, mas logo encheu-se de coragem e continuou avançando pelos corredores, tentando não pensar sobre a carta que lera mais cedo no quarto de Lady Rosalie.

-Não seja tola, Isabella! – Dizia para si mesma enquanto continuava seu caminho pelo corredor escuro, até que parou em frente à porta dos aposentos de Lorde Edward.

Com um suspiro profundo, ela bateu na madeira e aguardou pacientemente até que ele ordenasse que entrasse, e só então Bella girou a maçaneta e adentrou no enorme quarto.

Lá dentro, o fogo crepitava na lareira, mas ainda assim, uma atmosfera fria pairava ao redor das paredes. Bella olhou em torno de si, deixando-se vencer pela curiosidade e analisando o amplo cômodo, que contava com poucos móveis além da cama de espaldar alto, da escrivaninha próxima à janela, e de um ou dois baús que pareciam esquecidos no canto.

Estava se perguntando como Lorde Edward conseguia viver em um ambiente tão inóspito, quando o viu de costas para ela, retirando a camisa molhada que vestia e jogando-a para o lado. Bella engoliu em seco ao ver as costas musculosas de seu patrão, e antes que suas bochechas ardessem em chamas, ela virou-se para deixar a água próxima à lareira e a bandeja sobre a escrivaninha.

-Trouxe um pouco de comida, caso o senhor tenha fome. – Disse tentando manter sua voz controlada enquanto sentia seu coração batendo acelerado no peito.

-Obrigado. – Respondeu de forma curta, porem o som daquela voz aveludada fazia com que a cabeça de Bella desse mais voltas. Não ousava encará-lo novamente...

-O senhor viu o Jacob?

-Sim. Ele acordou quando eu entrei e ficou bastante feliz por me ver, mas logo voltou a dormir. Creio que deve está muito cansado, mas certamente amanhã levantará com mais disposição. É sempre assim quando eu regresso de alguma viagem.

-Ele pareceu sentir mesmo a sua falta... – Comentou vendo de soslaio que Lorde Edward dava um triste sorriso ao ouvir aquilo – O senhor quer que eu o ajude em mais alguma coisa?

-Não ousaria pedir-lhe isso, mas já que a senhorita se ofereceu, preciso que alguém me esfregue as costas, pois não posso fazê-lo sozinho.

Bella sentiu como uma corrente elétrica percorres todo o seu corpo, da cabeça aos pés, e ficou completamente congelada por alguns instantes. Esfregar as costas dele? Oh, céus... Aquilo era realmente inesperado! Claro que muitos nobres pediam ajuda à seus criados para realizarem sua higiene pessoal, mas certamente Bella não estava preparada para aquilo.

Lentamente, virou-se para encará-lo, e logo arrependeu-se, pois agora Lorde Edward estava completamente despido da cintura para cima, e ver seu torso nu era realmente desconcertante. Seu peitoral parecia ser forte e rígido, e seu abdômen era dividido por sulcos profundos, separando os músculos de um modo que Bella jamais imaginara possível. Tinha os ombros mais largos do que aparentava, e seus braços eram grossos e potentes. Como seria deixar-se envolver por todos aqueles músculos?

-Algo errado, senhorita Swan? – Indagou ele com os penetrantes olhos verdes fixos nos dela – A senhorita ficou corada de repente.

-Oh, não... – Disse tentando controlar-se – Creio que seja o calor da lareira... Eu só... Só estou procurando a esponja.

-Está sobre minha terrina, junto à navalha que uso para me barbear.

-Sim, claro.

Com passos incertos, Bella foi até o móvel que ele indicara e lá encontrou tudo o que necessitava para realizar um bom asseio. De forma prática, ela encheu a terrina com água morna e depois mergulhou uma das esponjas, deixando que ficasse encharcada para só então torcê-la, retirando o excesso de água. Quando tornou a encará-lo, viu que Lorde Edward estava sentado sobre um banco, de costas para ela, e com mãos trêmulas, Bella se pôs a deslizar a esponja pela pele de suas costas, sentindo a firmeza de seus músculos e o calor que emanava de seu corpo.

Nunca sentira algo igual em toda a sua vida, e com avidez, esfregou sua pele com uma mão, enquanto apoiava a outra em seus ombros largos. Lorde Edward era mesmo um homem desconcertante e endiabradamente bonito! Seria isso que tanto lhe intimidava? A palpável atração que começava a sentir por ele?

Oh, estava perdida! Sua mãe sempre dizia que uma boa criada jamais se deixava envolver por seus patrões, mas ali estava Bella, completamente perdida enquanto deslizava as mãos sobre aqueles músculos maravilhosamente divididos e ansiando por algo que não compreendia. Estava tão absorta naqueles novos sentimentos que começava a descobrir, que quando tornou a levar à esponja até a terrina, acabou sentindo uma dor cortante em seu dedo, soltando um pequeno gemido de surpresa.

-A senhorita está bem? – Inquiriu Lorde Edward, parecendo preocupado enquanto levantava-se e se colocava de frente para ela.

-Oh, não foi nada... Creio que cortei meu dedo em sua navalha.

-Deixe-me ver.

Antes mesmo que Bella pudesse processar o que ele acabara de dizer, sentiu as fortes mãos de Lorde Edward segurando seu pulso direito enquanto ele analisava o pequeno corte em seu dedo indicador que sangrava um pouco. Seu toque era quente e firme, e a aproximação que havia entre os dois era desconcertante. Bella podia sentir o cheiro dele, emanando de seu tronco despido e imaginando qual textura sua pele teria...

De forma irracional, levantou sua outra mão, encostando a ponta de seus dedos sobre o peito dele e descobrindo que era tão rígido quanto ela esperava que fosse, desejando tocá-lo com todo o seu corpo. Jamais sentira algo assim antes, e com a respiração pesada, Bella levantou o rosto para encará-lo.

-Não deveria fazer isso, Isabella. – Sussurrou ele, com uma voz rouca e aveludada.

Bella assustou-se com seus próprios atos, e estava prestes a afastar sua mão do peito dele, quando teve seu pulso agarrado por Lorde Edward, mantendo-o exatamente onde estava. Ela podia sentir o coração dele batendo forte por debaixo daquela pele quente, e só então percebeu que não era a única ofuscada!

-Sabe qual era o verdadeiro motivo que me levou à passar cinco dias foras de Masen Rock? – Indagou enquanto lhe encarava com a mandíbula travada, parecendo ter dificuldades para pronunciar cada palavra.

-Eu... Eu não sei...

-Foi você, Isabella. – Ao ouvir aquilo, Bella ficou completamente boquiaberta, sem compreender o que Lorde Edward queria dizer e sentindo seu corpo pegando fogo – Eu não sei o que há em você, mas sempre que está perto de mim, acabo perdendo o controle. É como se a sua voz fosse capaz de espantar todos os meus demônios.

-E isso é algo ruim?

-Sim. É algo muito ruim, pois durante anos, os meus demônios foram meus únicos companheiros. É por isso que você deve ficar longe, Isabella. Ou do contrário acabará se tornando mais um deles. Agora vá, enquanto ainda há tempo, ou do contrário não responderei por mim.

-Oh...

Aquela foi a única resposta que saiu dos lábios de Bella, antes que Lorde Edward soltasse seus pulsos, e fazendo-a sair quase correndo do quarto. Sentia-se confusa e frustrada, e o pior era que bem lá no fundo, Bella lamentava por ser tão covarde ao ponto de fugir!


Olha só... Mais mistérios para vcs! hahaha Bem, mas pelo que eu li nas últimas reviews, posso dizer que algumas teorias estão indo na linha certar ;)

Hj gostaria de agradecer exclusivamente à Marjorie (vc tá cheia de teorias né menina? tô gostando de ver haha), a Ana Krol (eh bom te ver novamente por aqui ^^), a Dama Mary Potter (aguenta firme, morrer de curiosidade não deve ser legal hahaha), a kjessica (cheia de suspeitas né?), a misterioso(a) "A" (sim, sou eu que estou escrevendo a fic! Que bom q vc está gostando! ^^) e a JOKB (que almoça e lê ao mesmo tempo!)

Vcs fazem minhas noites em claro valer a pena! Estou ansiosa para saber o que acharam da carta da Rose!

Amanhã temos mais mistérios ;*