Boa leitura!
Yumiko estacionou o seu carro do outro lado da rua onde o evento seria realizado. O prédio se elevava diante dela, iluminado por luzes brilhantes que atraíam os participantes com uma sofisticação convidativa. Felizmente ela não foi detectada pelos paparazzi que forravam o tapete vermelho, que devoravam vorazmente cada pessoa que se aproximava com uma explosão de luzes das câmeras, além das perguntas exaustivas. Ela suspirou internamente.
Ter a mídia cobrindo exaustivamente um evento desse tipo era algo inimaginável uns anos atrás, mas atualmente havia muitas celebridades japonesas que gastavam tempo e se esforçavam para apoiar as forças armadas do Japão. Alguns até mesmo visitam as tropas em zonas de combate, enquanto alguns outros ajudam os guerreiros feridos da nação com algum tipo de apoio, e fazer uma aparição nesses eventos também estava no script.
Ela odiava admitir isso, até para si mesma, mas ela estava nervosa. "Se acalme, Yumiko", ela disse a si mesma, "você é uma mulher adulta. Não há absolutamente nada para ficar nervosa."
Ela alisou as rugas imaginárias em seu vestido, e balançou levemente enquanto passava as mãos pelos quadris. Yumiko verificou a maquiagem no espelho retrovisor uma última vez antes de sair do carro.
Satisfeita com sua aparência e enfiando a mão uma última vez em seus cabelos loiros, Yumiko saiu do carro e atravessou a rua, tomando o cuidado de evitar a quantidade significativa de limusines que depositavam os VIPs no tapete vermelho. Quando ela se aproximou da entrada, preparou-se para a perda do anonimato. Assim que esse pensamento passou pelo cérebro de Yumiko, ela ouviu o ataque familiar de perguntas da multidão.
"Miura-san, você veio aqui sozinha nesta noite?"
"Miura-san, você apóia as atividades das forças armadas?"
"Miura-san, os boatos de que você arranjou um novo namorado são verdadeiros?"
Embora ela os ignorasse externamente, Yumiko caminhou até a porta principal com um sorriso nos lábios. Ela não pôde deixar de achar as perguntas completamente ridículas e divertidas ao mesmo tempo. Alguns anos atrás, ela teria ficado ofendida com a presença de repórteres em um evento de caridade para conseguir fofocas só para venderem as próximas manchetes dos tabloides, mas, assim como muitas outras coisas, ela aceitou a situação como apenas mais uma parte do mundo contemporâneo.
Yumiko deu um sorriso quando passou pelos recepcionistas e seguranças na porta e não pôde deixar de rir baixinho quando ouviu a fachada profissional deles vacilarem enquanto os mesmos respiravam animadamente.
"Cara, essa era a Yumiko Miura! Se eu soubesse que ela compareceria teria pedido um autógrafo."
Ao entrar no grande salão, Yumiko observou as decorações extravagantes e as mesas de jantar enfeitadas com arranjos de flores ornamentados. O salão tinha tetos altos e era adornada em tons luxuosos de branco e dourado, certamente destinada a inspirar os participantes com elegância e afluência e encorajá-los a ficarem um pouco menos cuidadosos com os seus bolsos hoje à noite.
Após alguns segundos de reflexão, ela começou a escanear a sala para procurar qualquer pessoa que ela pudesse conhecer, atitude que fez Yumiko repreendeu a si mesma. Não era como se ela tivesse algum problema em encontrar pessoas para conversar. Na verdade, ela sempre teve que dar uma desculpa educada para algum conversador excessivamente entusiasta para se livrar deles. Além do mais, ela sabia exatamente quem ela estava procurando.
E ela sentiu o estômago revirar quando percebeu que ele não estava lá.
Em vez de reconhecer a decepção que borbulhava em sua garganta, Yumiko disse a si mesma que não deveria se surpreender com isso. As coisas não eram as mesmas e certamente não seria tão fácil achá-lo no meio de tantas pessoas, ainda mais alguém que ela não via a quase 10 anos.
Ela balançou seus pensamentos nostálgicos sobre o garoto de olhos podres e lembrou a si mesma que não estava lá em um passeio social - ela estava lá para se encontrar com o homem por quem havia procurado e esperado incessantemente por todos esses anos. Quando Yumiko andou em direção a multidão, ela sorriu educadamente e se preparou para uma noite agradável conversando com os convidados.
Yumiko estava muito longe nas profundezas do prédio lotado para ouvir a comoção que se seguiu pouco depois de sua entrada no tapete vermelho. Chegando no evento, Hachiman saiu do carro acompanhado de Natsue, e por coincidência também viu o coronel Yoshimoto e sua esposa, Yukari Miura, uma empreendedora que gerenciava uma importante franquia de cafeterias em Chiba, usando um vestido roxo que transbordava elegância. Além deles, também haviam algumas pessoas bem vestidas que deveriam ser famosas, dada a reação dos jornalistas e fotógrafos quando viram essas pessoas.
Enquanto os jornalistas gritavam perguntas para os convidados recém-chegados atrás deles, Hachiman passou o braço pela cintura de Natsue e a puxou para si numa tentativa de afastar os repórteres ansiosos. Ela não esperava esse movimento por parte dele e tentou ao máximo não pensar em outras coisas, mas o seu corpo não estava ouvindo os seus pensamentos. Ela queria abraçá-lo tão desesperadamente. Porém quando essa incrível sensação encheu seus sentidos, naquele mesmo momento ela empurrou-a no fundo de sua mente.
Nesse momento o coronel Yoshimoto Miura os viu, e ele reconheceu ambos instantaneamente: era o capitão Hikigaya e a tenente Hasegawa. Eles andaram em direção da porta quando Yoshimoto finalmente decidiu chamá-los.
"Ei, Hachiman! Já fazia um tempo desde a última vez que estivemos no mesmo evento!" Ele acenou alegremente, e Hachiman devolveu o gesto com um sorriso divertido, sendo desnecessário dizer que Yoshimoto estava de bom humor, como sempre. Quando eles subiram os degraus e se cumprimentaram cara a cara, o homem mais velho cumprimentou Natsue com um pouco mais de formalidade, fazendo uma pergunta após isso.
"Vocês dois se lembram da minha esposa Yukari, certo?"
"Claro, Yoshimoto, você não vai parar de falar sobre como ela é incrivelmente maravilhosa, bonita e fantástica." Hachiman retrucou como se fosse a mesma tagarelice antiga, que foi recebido com um sorriso divertido de seu superior. Hachiman se virou para Yukari e a cumprimentou dando um sorriso simpático.
"É um prazer vê-la novamente, Miura-san." Ele disse num tom benévolo.
"É bom ver vocês dois bem." Sua voz era calorosa e acolhedora. Ele podia entender por que o coronel Miura a amava tão profundamente, pois no pouco tempo em que ele conviveu junto com esse homem, o capitão sempre demonstrou amor por essa mulher nos horários mais aleatórios possíveis.
"De qualquer forma sinto muito te convidar tão repentinamente, mas eu pensei que você apreciaria algo assim, sabe?" Eu não consigo suportar a ideia de não ter o meu melhor subordinado num evento desses, sabe? Então além de me tirar da minha solidão você também pode conseguir algo a mais nessa noite... Não é uma boa ideia? Provavelmente essas foram as palavras que não foram ditas enquanto Yoshimoto esfregava a cabeça com um sorriso tímido no rosto. Ele estava sempre cuidando dele, e era difícil para Hachiman admitir, mas ele sabia que o coronel era um bom homem.
"Sem problemas", absolutamente nenhum. Ele olhou para a mulher ao seu lado.
"Me desculpe se isso é rude", Yukari começou a falar com Natsue, pedindo-lhe o nome dela, pois segundo a mulher da última vez que elas se encontraram ela não tinha sido capaz de pedir, e assim elas continuaram com outras pequenas conversas frívolas, que Natsue respondeu com paciência e um pouco de prazer, e Yoshimoto decidiu puxar Hachiman para uma conversa rápida.
"Me desculpe por te tirar de suas férias, mas acredite, esse evento é realmente importante. Alguns generais de alto escalão estarão nesse evento, tanto do exército, como da marinha e da aeronáutica do nosso país, além de membros importantes do governo atual incluindo o ministro da defesa. Todos eles estão interessados no GFE e inevitavelmente eu acabarei conversando com alguns deles, e por isso é importante que um dos meus principais subordinados esteja por aqui." Yoshimoto explicou calmamente, com a sua voz emitindo um tom de aviso.
"Eu entendo, Yoshimoto." Hachiman simplesmente assentiu.
"Também quero te avisar que existe a chance de alguma dessas pessoas querer falar diretamente com você, e esse foi o principal motivo de eu ter te chamado. Você sabe lidar com essas situações e tem uma lábia excelente, e isso pode ser de grande ajuda em conseguirmos um apoio incondicional tanto do exército como do governo, então se esse momento chegar eu deixo isso aos seus cuidados." Hachiman imaginou isso. A criação de uma unidade com ainda mais recursos e fundos do que o antigo GFE exigia muitas coisas, e uma delas era o apoio tanto das forças armadas quanto do governo. Vendo a estrutura extraordinária que o Grupo de Forças Especiais detém depois da reforma do QG, isso queria dizer que o preço pra isso acontecer deve ter sido inestimável, então era compreensível a preocupação do seu coronel com esse evento.
"Além disso," Yoshimoto interrompeu os pensamentos de Hachiman, "eu ainda espero que você pegue a minha filha, então vá devagar com a Natsue. Até mais." O coronel se despediu de seu amigo enquanto sorria despreocupadamente.
Meu deus, eu não estou ouvindo isso. Hachiman riu, o que fez Yoshimoto dar uma pequena gargalhada.
Hachiman se virou para Natsue.
"Até mais, senhor." Hachiman se despediu rapidamente e marchou na direção da entrada do prédio. Natsue seguiu o seu ritmo sem nenhum problema.
"Vamos?" Ele perguntou encantadoramente para a mulher ao seu lado.
"Claro." Natsue respondeu.
Feliz por ter conseguido passar pela multidão de convidados e jornalistas do lado de fora do local e por ter se livrado do seu coronel, Hachiman entrou no prédio com Natsue e ignorou os olhares de alguns convidados que os olhavam atentamente.
O interior daquele local era tão luxuoso quanto o seu exterior. Se ele não fosse cuidadoso, ele poderia facilmente se perder dentro daquele labirinto de paredes. Hachiman virou a cabeça para a tenente, e a viu olhando para os convidados.
Quando Natsue entrou no salão do evento, não ficou surpresa ao encontrá-lo cheio de pessoas chatas e endinheiradas procurando uma desculpa para se vestir e doar dinheiro, tudo em troca de seus nomes aparecerem na mídia. Algo maçante. Muito, muito maçante.
Mas apesar disso, dizer que o evento era de alto nível seria um eufemismo. Políticos de alto escalão estavam reunidos em algum lugar desse salão. Havia mesas de comida e música de uma orquestra ao vivo, e após uma peça clássica terminou de tocar, os músicos imediatamente começaram a executar uma balada de jazz muito mais contemporânea. As pessoas conversavam apenas umas com as outras, alguns casais mais animados dançavam e alguns oficiais militares que não se viam há muito tempo se reuniam em torno de mesas para recuperar o tempo perdido.
"Vamos terminar isso logo", eles pensaram internamente enquanto olhavam para a multidão.
Hachiman havia conseguido ignorar o pensamento alguns momentos atrás, mas olhar para a mulher do coronel Yoshimoto trouxe lembranças que ele havia feito o máximo para tentar esquecer, lembranças sobre o tempo que ele passou com Yumiko Miura. A semelhança entre as duas era evidente demais, e o esforço para não lembrar dela naquela hora tinha surtido efeito, pena que não durou tanto quanto ele esperava.
Hachiman sabia que naquela época Yumiko estava querendo desenvolver uma amizade com ele, ainda mais depois de uma certa conversa que eles tiveram sobre o futuro dela, e foi a partir daí que eles começaram a se aproximar, sendo talvez a única pessoa que ele conversava ocasionalmente no seu último ano em Sobu High.
Reviver esses acontecimentos o lembrou do último dia que eles se viram antes dele ir para a Academia de Oficiais do Exército. Ele não se despediu, pois a sua mente estúpida disse que não seria necessário. Ele não sabia os sentimentos que Yumiko tinha em relação a ele naquela época, mas ela foi a única pessoa disposta a olhar para ele de uma maneira diferente, e a única pessoa que aguentou o seu comportamento de merda.
Ele ficou com medo? Ou estava apenas se prevenindo de outra desilusão em sua vida? Mesmo depois de todos esses anos, Hachiman ainda não sabia as respostas dessas perguntas.
O fato era que eles eram próximos. Mas se Hachiman fraquejasse, ele sabia que ficaria num limbo infinito, e mesmo sabendo que Miura poderia ser diferente ele não queria tentar a sorte, pois já estava farto de tantos fracassos. Foi essa percepção que o fez cortar contato com ela, saindo de sua vida para sempre. Nada poderia atrapalhar o novo objetivo de Hachiman. Nada iria atrapalhar o seu objetivo, e ele havia decidido isso há muito tempo atrás. Mas para manter essa promessa, ele precisava esquecer Yumiko e seguir em frente.
O lado estúpido dele queria ter ficado por ela, para quem sabe terem tido a vida mais incrível juntos. Ele não a amava incondicionalmente, mas mesmo depois de todos esses anos ela foi a única garota que deixou uma marca em seu coração, porém isso já não importava: além de ser condenado a viver como um lobo solitário, já era tarde demais para ele. Hachiman sabia vagamente de sua fama como atriz e também sabia que ela deve ter encontrado um grande cara agora, um cara que a ama como ela merece ser amada, que cuida dela como ele deveria ter feito naquela época. Permanecer em ação o máximo possível o impedia de pensar no que ele perdeu, no que ele poderia ter e isso era algo pelo qual ele não podia se perdoar.
Fora isso, não ajudava o fato de que ele ainda pensasse nela e ainda sonhasse com ela deitada em seus braços ocasionalmente.
"-bem, Hachiman?"
"Hm?" Hachiman olhou para o rosto de Natsue. Ela deu-lhe um olhar sério.
"Eu perguntei se você está bem. Você ficou perdido por uns instantes." Ela respondeu calmamente, enquanto olhava para o seu rosto.
Hachiman riu. Definitivamente essa mania ridícula havia voltado.
"Me desculpe, não foi nada. Que tal bebermos alguma coisa ali?", ele perguntou para a mulher enquanto apontava com o queixo para um pequeno bar que estava afastado da multidão, e com a confirmação de Natsue, ele pegou a mão dela e caminhou em direção ao bar.
Na primeira vez que ele recebeu um convite para participar de um desses eventos, Hachiman ficou em êxtase. Afinal, na época, ele só havia sido recentemente promovido a primeiro-tenente, mas já contava com participações em conflitos importantes ao redor do mundo; e naquele momento havia, no máximo, apenas um ou dois oficiais com tanta experiência de campo quanto a dele. Hachiman tinha pensado que era um sinal claro de que ele estava progredindo, coisa que ele nunca pensou que seria possível nesse meio, afinal isso nunca tinha sido o seu objetivo principal. Foi só até entrar no grande salão de baile do Hotel Sunroute Plaza, onde esse evento estava sendo realizado, que ele percebeu rapidamente que não havia sido convidado apenas por seus méritos.
Não, em vez disso, Hachiman estava lá para ser mostrado, assim como um pastor alemão em uma exposição de cães. O modo como seus oficiais superiores o arrastavam pela sala para falar com outras pessoas, não era apenas para apresentá-lo, mas sim para mostrar o seu orgulho e glória.
Isso o deixara doente. Como um dos poucos oficiais a sair ileso na primeira participação do Japão em um conflito direto desde a Segunda Guerra Mundial, ele havia se tornado um dos principais "garotos propaganda" dos militares. Os poucos combatentes que haviam sido convidados não tinham se saído melhor do que ele. No final da noite, depois de rodadas de champanhe e vinho para afogar os gritos dos fantasmas em sua cabeça, ele estava tão tonto que havia passado aquela noite na rua, dormindo numa praça perto daquele local.
Aquela noite parecia tão distante agora para Hachiman, mas ele sempre lembrava disso quando estava em um desses eventos. Ele temera que fosse forçado a passar por isso novamente quando fosse capitão, mas parecia que essa tarefa pertencia aos novatos que davam o azar de se destacarem muito em serviço, e isso foi um alívio. Ainda assim, sempre que os seus oficiais superiores vinham até ele, Hachiman sempre se lembrava daquela noite, de como ele estava despreparado, e de como era desconfortável estar num local desses, não sendo nenhum exagero dizer que ele estava furioso e até mesmo assustado na sua primeira vez. Ele era tão jovem naquela época. Apenas vinte anos de idade e já tendo visto e perpetrado os horrores da guerra, e como consequência ele tinha sido aclamado pelas mãos endinheiradas dos homens e mulheres da classe alta japonesa e a ganância aparentemente sem limites dos seus superiores.
Aparentemente ele não havia melhorado ao longo dos anos. Quase cinco anos depois, e Hachiman ainda não suportava essas funções, mesmo agora que detinha uma posição respeitável nas forças armadas de seu país.
Como capitão, ele era incapaz de se esconder no canto da sala como costumava fazer de vez em quando para respirar. Ele aprendeu a se controlar depois do primeiro evento, onde desenvolveu uma habilidade para atuar nesses locais colocando uma máscara elaborada para se proteger e desviar a atenção dos outros de si. Quando foi promovido a primeiro-tenente, ele sempre era convidado para qualquer evento, porque sempre conseguia mais dinheiro para os militares. Ninguém poderia esvaziar os bolsos profundos dos ricos e da elite como Hachiman Hikigaya.
Parecia que ele estava amaldiçoado para sempre em lidar com essas pessoas, e tudo o que ele queria era que isso acabasse logo.
"Sim, obrigada. Foi uma grande conquista conseguir que os nossos militares dessem apoio-"
Yumiko parou de falar quando viu a atenção do público ser desviada.
"Me perdoe, Miura-sama." O homem grisalho se desculpou depois de um breve momento de distração. "Seu pai sempre provoca algum tipo de tumulto quando comparece nesses eventos." Ele sorriu brevemente.
"Agora, por favor me dê licença, pois desafortunadamente eu também estou aqui a trabalho." Ele disse com um sorriso enquanto olhava para o salão, aparentemente a procura de alguma pessoa. "Com licença." Ele se despediu e saiu em direção a um pequeno bar, e foi nesse momento que ela avistou o homem pelo qual procurou por tanto tempo.
Era ele, ela tinha certeza. Era ele!
"Oh meu deus", Yumiko murmurou baixinho, avistando um homem alto, de cabelos escuros, sentado num dos assentos daquele bar enquanto bebia algo. Ela conhecia aquele homem. Ela o reconheceria a uma milha de distância.
O coração de Yumiko gaguejou com a visão de Hachiman. Ela não dignificou sua reputação pública e se aproximar para dar uma olhada melhor nele, mas notou como o corpo dela subitamente se sentiu ruborizado. Ele havia mudado, e muito. Mas ela fez o melhor que pôde para voltar sua atenção para a pessoa que havia se aproximado dela.
Yumiko se virou para a pessoa em questão, com um sorriso intacto em seu rosto.
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"Muito obrigado por atender o meu pedido, Miura-san." E lá vai mais uma pessoa. Realmente, ser uma celebridade não é fácil. Yumiko pensou zombeteiramente, mas logo lembrou de sua missão.
Ela voltou para a sua posição anterior e olhou para onde Hachiman estava anteriormente, por sorte ele ainda estava no mesmo local. Quando seu olhar o encontrou, Yumiko deu pela primeira vez uma boa olhada nele, e viu que ele havia mudado radicalmente desde a última vez que o tinha visto. Hachiman estava muito mais alto, talvez ele deveria ter uns 15 centímetros a mais do que ela; o seu cabelo também estava mais curto do que ela se lembrava, além de não apresentar mais o famoso ahoge, porém a mudança mais desconcertante, que o tornou quase irreconhecível para ela, foram os seus olhos. Agora eles estavam normais, meu deus! Ela não conseguia entender, mas agora havia algo em seus belos olhos acizentados que a acalmavam. Yumiko muitas vezes se viu tentando descobrir a cor exata dos olhos de Hachiman, mas essa dúvida nunca havia sido completamente sanada... até agora.
E por mais que Yumiko gostasse dos olhos de peixe morto do seu amado, ela não se importou nenhum pouco com essa mudança. Afinal ele ficava muito melhor com esses olhos.
Ela se perguntou se ele ainda se lembrava dela, mas foi nesse mesmo momento que ela percebeu que ele estava acompanhado.
Ela desviou o olhar para uma mulher pálida de cabelos pretos ao lado dele, não muito satisfeita com a proximidade entre eles.
Quem é essa mulher?, ela pensou imediatamente.
Os sentimentos despertados por sua proximidade e seu calor ambíguo foram imediatamente reprimidos quando Yumiko viu aquela mulher que estava com ele. No fundo de sua mente, Yumiko sabia que havia se passado anos e que talvez ele já tivesse encontrado uma pessoa, mas também poderia ser uma simples companhia. De qualquer forma, ela não pôde deixar de sentir uma pontada de desapontamento por vê-lo acompanhado, coisa que ela não esperava acontecer naquela noite.
Mas não demorou para Yumiko afastar esse pensamento de sua mente. Ela estava tirando conclusões precipitadas, e já havia chegado longe demais para desistir dele por puro achismo.
O plano original dela era abordá-lo nesse evento, mas ela decidiu fazer uma pequena mudança de plano. E quando Yumiko se virou para falar com o próximo convidado, ela sorriu mentalmente, agora com a confiança renovada.
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Sem surpresa, não faltaram pessoas que queriam falar com Yumiko durante a noite. Normalmente, essa apreciação pública a colocava de bom humor. No entanto, quando ela abriu caminho através da massa de convidados, ela percebeu que algo estava errado: algo a estava incomodando. Ela se sentia nua e enfraquecida - havia uma agitação na parte mais baixa de seu estômago e seus nervos não podiam ser acalmados.
Yumiko estava tão ansiosa nesse momento que perdeu a noção de quanto tempo já havia se passado. E as circunstâncias da noite só agravaram a sua agitação recém descoberta. Toda vez que Yumiko via aquela mulher entrelaçar os seus dedos com os de Hachiman ou o via se inclinando para dizer alguma coisa para aquela mulher, Yumiko fazia uma força descomunal e quase não conseguiu ter sucesso, mas suportou a vontade de beber nesses momentos.
No momento em que o discurso e o jantar começaram, Yumiko estava agradecida por ter terminado de conversar e finalmente sentar-se à mesa. Porém o alívio durou pouco quando ela percebeu que estava sentada com um dos líderes principais das forças armadas no Japão, e seu pai – Yoshimoto Miura, além de sua mãe, que ela tinha de admitir: ela estava absolutamente linda naquela noite. Mas felizmente ela havia avisado a eles que compareceria nesse evento, então o homem não ficou surpreso com a visão da filha, apesar de Yukari dar um leve sorriso para ela antes de retomar a conversa com uma outra convidada.
Na verdade, o foco de Yumiko era a mesa vizinha, onde Hachiman estava com aquela mulher. De vez em quando, a mulher sussurrava no ouvido de Hachiman, atitude que por si só era suficiente para agravar o humor azedo de Yumiko.
Quando a cerimônia terminou e as pessoas começaram a se levantar de suas mesas e a caminho das portas, Yumiko vagamente concluiu que era o que ela deveria fazer também. Ela começou a se levantar até que percebeu que Hachiman havia tomado a mesma atitude.
Hachiman se endireitou abruptamente e se virou. De trás de suas costas, Yumiko viu a mulher de cabelo preto na frente dele. Antes que ela pensasse em se levantar novamente, eles foram em direção da porta. Começaria naquele momento a sua pequena tarefa, e a hora de agir era agora.
Yumiko os seguiu imediatamente, querendo da maneira mais imediata possível saber o que esses dois eram um para o outro.
Natsue dirigia um Mazda MX-5 Miata vermelho, com rodas de prata pura que refletia a lua, confortáveis assentos de couro, além de um painel totalmente automatizado que contava com inúmeros acessórios que Hachiman tinha certeza que não era de fábrica. Ele não havia dado muita atenção a esses detalhes na ida, mas agora estava muito impressionado com o gosto dela.
"Esses gostos humildes, Natsue." Hachiman sorriu.
"Fico feliz que tenha gostado." ela sorriu olhando para baixo para ter certeza de que ele estava com o cinto de segurança. A segurança para ela sempre vinha em primeiro lugar, ao contrário dele, que havia pilotado a moto como um louco algumas horas atrás.
Uma vez que ela começou a dirigir, ele ligou o rádio com um pouco de atrevimento, permitindo que seu encontro fosse escolhido.
"Por favor, coloque algo minimamente audível, Hachiman." Ela brincou, fazendo uma curva acentuada ao redor da curva à frente apenas para foder com ele.
"Puta que pariu, mulher. Não faz nem um segundo que entramos e já está tentando me matar?" Hachiman disse enquanto descansou a mão na perna dela por um momento, dando-lhe alguns tapinhas.
"Estou apenas devolvendo o favor de mais cedo." Ela brincou, enchendo o carro com a sua ira divertida. Ele simplesmente revirou os olhos enquanto passava pelas estações do rádio, odiando a maioria das músicas que tocavam. Até que Rooster, do Alice in Chains, começou a tocar. Eles tiveram a sorte de pegar os primeiros segundos. Hachiman já tinha ouvido isso algumas vezes antes durante a sua estadia nos EUA e se identificava bastante com a música.
A guerra era o inferno, e o arranjo sombrio, lento e impulsionado pelo baixo nos versos faz com que as explosões e os altos sons do refrão se sentir como o inferno. O refrão surge do nada e atinge você com toda a força do mundo. A música relata a experiencia de vagar pelos pântanos infestados de Viet Congs apenas para ser recebido com tiros e explosões súbitas da artilharia inimiga depois de um longo período de silêncio desconfortável. Era uma música que se baseava nos sentimentos e ansiedades do soldado se preocupando com a sua situação de combate, com os violões esparsos e rastejantes acompanhando esses versos, e os seus momentos de violência, medo e orgulho casando com as partes mais agudas da música.
Sim, realmente era uma música incrível.
Hachiman nunca foi alguém que ouvisse muita música, e quando ouvia na maioria das vezes eram músicas de animes, principalmente o tema de PreCure, que talvez deve ter sido a música que ele mais ouviu em seu tempo de adolescente. Porém com o passar dos anos a música ajudou a afastar a sua mente das coisas que ele havia feito e presenciado nas forças armadas, e as vezes era melhor ouvir um bom som do que beber.
"Nunca pensei que você gostasse de grunge." Ela disse, girando o volante com uma mão.
"Eu gosto, e também fico surpreso que você conheça o gênero." Ele respondeu olhando para ela, enquanto admirava o seu rosto que havia ficado levemente corado. Apesar de já ter visto diversas mulheres em sua vida, Hachiman ainda se surpreendia com a beleza de Natsue.
Depois de cerca de meia hora ouvindo o melhor que o grunge tinha a oferecer, o carro de Natsue parou em frente ao seu apartamento, e houve um pequeno silêncio antes de Hachiman decidir falar algo.
"Obrigado por me trazer para casa, Nat-san." Ele desafivelou o cinto, e nesse momento ela o viu fechar os olhos, como se de repente ele lembrasse de algo.
"Você quer dormir aqui hoje à noite?" Hachiman perguntou calmamente, sabendo a possível reação que poderia causar em Natsue.
"O quê?" Ela respondeu surpresa, e não ajudou em nada o fato dela começar a corar profusamente enquanto falava. Ele tentava não olhar para a mulher, mas o esforço que ela estava fazendo para não exteriorizar o seu embaraço deixou a reação ainda mais adorável.
Se eu soubesse antes o quanto isso é prazeroso... Ele pensou enquanto olhava para a expressão aturdida que Natsue estava fazendo.
"Nat-san, você quer dormir aqui hoje à noite?" Ele repetiu a pergunta com um leve sorriso, satisfeito por ter arrancado uma reação fofa da mulher.
"H-hm" Ela desviou o olhar, sabendo que poderia facilmente ficar em transe com aqueles lindos olhos dele. Ela queria aceitar, porém ela ainda tinha deveres e um deles era terminar os preparativos para a equipe do GFE, sendo que o prazo máximo expirava em dois dias. Ela também já havia se comprometido o suficiente e não queria dar os seus superiores um motivo para pôr a sua função atual em xeque.
Natsue continuou a reprimir todas as suas emoções e falou friamente, embora num tom meio desajeitado. "E-eu tenho que ir. Ainda tenho que terminar os preparativos para a nossa equipe, e quero terminar isso o mais rápido possível." Ela olhou para ele, esperando por sua resposta.
"Não se preocupe, eu entendo", ele balbuciou enquanto assentia suavemente com a cabeça, "fico satisfeito por ter uma parceira tão responsável ao meu lado, mas você pode reconsiderar o meu pedido após terminar isso?"
Hachiman não sabia quando havia começado a se comportar despreocupadamente em torno de algumas pessoas; era algo que ele havia desenvolvido como um auxiliar para lidar com certas pessoas em certos momentos, mas ele nunca esperou que gostaria tanto disso. E embora ele fosse um profissional exemplar, isso não significava que ele não poderia se divertir um pouco com a sua tenente e puxar algumas cordas para acertar as probabilidades a seu favor.
"H-Hikigaya!" A mulher de cabelos pretos gritou, com Hachiman observando com satisfação enquanto o rosto de Natsue novamente ficou corado de vergonha.
"Boa noite, Natsue." Hachiman se despede e abre a porta, deixando o frio precoce entrar no carro de Natsue. Ele sai do carro e começa a andar em direção ao prédio.
"Boa noite, Hachiman." Natsue disse enquanto olhava ele se afastava sem olhar para trás. Logo em seguida ela deu a partida no carro e saiu do local.
Apesar de desprezar o comportamento desse homem, Natsue sabia que estava perdendo essa guerra. Como ele conseguia ter tal efeito sobre ela? Ao longo de todos os seus 23 anos de idade, nenhum homem vivo foi capaz de fazê-la se sentir tão sentimental e emocional. E por mais que tentasse negar, Natsue definitivamente sentia algo por ele. Hachiman Hikigaya aquecia o seu interior, e a fazia se sentir desejada.
Ela ainda não tinha certeza, mas depois de terminar os preparativos, talvez... talvez ela reconsidere a proposta dele.
Yumiko bateu o pé em agitação enquanto o elevador levou um longo (e agonizante) tempo para subir. Ela tentou acalmar o coração e a respiração acelerada, dizendo a si mesma que era apenas uma visita comum, numa tentativa contraproducente de acalmar o seu coração.
Após vê-lo sair do carro daquela mulher, Yumiko se dirigiu a portaria do prédio sabendo que seria reconhecida pelo porteiro ou seja lá quem for, comportamento que facilitou a sua entrada no apartamento de Hachiman. Bastou somente algumas palavras e um ou outro sorriso para aquele homem liberar a sua passagem. Após chegar no hall de entrada do prédio, Yumiko se dirigiu a um dos elevadores num misto de incerteza e ansiedade, mas felizmente ela conseguiu gerenciar esses sentimentos.
No momento em que a porta do elevador se abriu, Yumiko saiu para o corredor e caminhou rapidamente para a porta marcada com o número "92", informação que havia conseguido com a sua informante. Era o quarto mais distante do elevador, mas também era o mais próximo da escada de incêndio que ia até o térreo. Talvez isso tenha alguma coisa a ver com a profissão dele? Ela pensou.
...É agora! Ela pensou num tom resoluto após respirar profundamente.
Ela bateu alto na porta e esperou, e depois de apenas alguns segundos, ouviu passos suaves do outro lado da porta.
"Quem é?" A voz era dura e ameaçadora. Yumiko sorriu.
"..." Apesar da vontade de falar alguma coisa, ela não respondeu.
"Quem está aí?" Ele perguntou novamente num tom ainda mais rude do que o anterior, mas pela segunda vez ela não respondeu.
"Porra." Ela o ouviu dizer atrás da porta, mas continuou aguardando.
Houve um barulho de trancas antes da porta se abrir. Os olhos de Hachiman estavam nublados de exaustão e ele não usava nada além de calças pretas. Yumiko suspirou internamente para o seu físico. Este era um momento bastante ruim para admirar o corpo bem definida de um certo militar que havia desaparecido por anos, mas Yumiko não pôde deixar de ficar em transe com esse Hachiman Hikigaya. Nos anos seguintes ao seu desaparecimento, ela passou a se importar profundamente com Hachiman... muito mais do que ela jamais imaginou. E aqui estava ele agora, bem em sua frente, e muito melhor do que ela imaginava.
"O quê? Yumiko?" O aperto de Hachiman na maçaneta ficou mole quando ele disse incrédulo, com a boca aberta e os olhos arregalados.
"Há quanto tempo, Hachio." Yumiko disse com um sorriso enquanto encurtava a distância entre eles.
