Capítulo 7
Hugo apertou os olhos, incomodado com a luz vinda da janela. Olhou em volta e encontrou-a, sentada frente à sua penteadeira penteando seus longos cachos platinados, aprontando-se para mais um dia.
- Bom dia, meu amor. - Freya disse sorridente, ao avistar através do espelho as íris esmeralda do menino faiscarem. Levantou-se e se sentou ao lado dele na cama. Com ternura, o beijou na bochecha, e afagou os cabelos dourados, agora desgrenhados - Já estou indo querido.
- Tá bem. Cuide direitinho da Delle. - A voz de Hugo falhou um pouco por conta do sono, mas os olhos já estavam bem abertos.
- Cuido sim. - O afago desceu dos cabelos para as maçãs do rosto dele - Volto no fim da tarde. Seja bonzinho e obedeça a Hilda.
- Tudo bem.
Hugo levou a mão ao rosto de Freya, e fez nela um carinho parecido ao que ela lhe fazia. E então ele ergueu-se na cama, e a abraçou o mais forte que podia. O coração do garoto agitou-se dentro do peito, levando-o a lacrimejar intensamente, o que o fez piscar incessantemente para conter isto.
- Quantas saudades, hein? Não se preocupe nós vamos nos ver a noite, está bem? Você pode até dormir aqui de novo. - Freya disse quando ele a soltou.
O peso no peito de Hugo aumentou, tendo em mente que eles não se veriam a noite.
- Tá bem. Mas mãe... eu te amo, tá? Eu te amo muito. - E voltou a abraçá-la.
- Eu também te amo, Hugo.
Freya então o beijou na testa, e ajeitou os cabelos que caíam sobre o rosto do menino. Não pôde deixar de notar o quanto estes carinhos dele soavam estranhos, diferente de seus carinhos característicos, que tranquilizavam e confortavam, especialmente nestes tempos delicados. Os afagos de agora pareciam mais melancólicos.
Mas Freya achou melhor não comentar. O cobriu com o cobertor precavidamente e o beijou no rosto mais uma vez.
Hugo observou Freya sair, já sentindo uma prematura saudade dela.
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Uma mão firmou-se contra a alça da mala, e ao outra contra a mão de Hilda. O jato pousou no campo vasto, naturalmente coberto por neve. E após alguns instantes, a escadaria da aeronave postou-se ao chão, e no alto dela surgiu, a conhecida por ser a reencarnação de Atena. Freya e Hilda entreolharam-se, intrigadas e surpresas. Saori Kido havia avisado-lhes que viria alguém para acompanhar Freya na viagem ao Japão, mas não que seria a própria a fazê-lo.
Logo atrás, seguindo-a, vinha seu mais fiel Cavaleiro, Seiya de Pégaso.
- Hilda, Freya. Como estão? - Saori cumprimentou calorosa.
- Atena, Pégaso... Mas que grata surpresa! - Exclamou Hilda, com o cenho franzido - Vamos bem. E vocês?
- Bom, considerando que felizmente não estamos aqui para combater ameaça alguma, assim como nunca mais combateremos, podem me chamar de Saori.
- Bem, está bem. - Assentiram - É muito aprazível para nós saber que por fim viveremos em paz, para sempre. Só temos a agradecer. - Freya completou, amigável.
- Nós é quem agradecemos o apoio. - Seiya disse sorrindo propiciosamente.
- Bem... - Hilda virou-se para a irmã, segurando-se com afeto as duas mãos - Você já sabe o que deve fazer, minha irmã. Boa sorte! - E então a abraçou forte - Você sabe o quanto eu confio em você.
- Sei sim, Hilda. - Soltaram-se, mas voltaram a unir as mãos - Ficará bem sozinha?
- Ficarei sim. Você está segura, afinal. - Hilda sorriu para Saori.
Freya sorriu afável, afagando a face da irmã. Recobrou a mala em sua mão, aguardou Seiya e Saori despedirem-se também e os três seguiram para dentro do jato. Do alto da escada, acenou para Hilda, que respondeu desejando-lhe boa viagem.
Ao entrar e acomodar-se no aeroplano, sentiu um objeto gelado dentro da roupa, sobre o peito. Ao postá-lo para fora, o rosário dourado refletiu incandescente a luz da janela. Sua alma iluminou-se da mesma forma, cheia de ansiedade.
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O coração pulsava igual ao motor daquele jato que pousara. Mirou a tia novamente e apanhou sua mala das mãos dela. Entrelaçou sua mão a de Hilda e a apertou, fazendo a mulher notar toda a sua tensão.
Nervoso, Hugo observou com cautela cada ato. Os passos da mulher de longos cabelos violeta pela escadaria do avião até eles, transmitindo uma forte energia, cheia de serenidade. Mas nem isso fez o louro abrandar seus nervos.
- Hilda, como vai? Quanto tempo, não? - A moça sorria ternamente, assim como Hilda.
- Vamos bem. Faz realmente muito tempo que não nos vemos...
- Mas não nos esquecemos. - Disseram as duas juntas, rindo logo após.
A atenção dela então desviou-se para Hugo, ao abaixar-se na altura dele, ainda sorrindo harmoniosa.
- E você deve ser o Hugo, não? Eu sou a Saori, para quem você e sua tia enviaram aquela carta. - Saori estendeu-lhe a mão.
- Muito... prazer. - Hugo vacilou um pouco, mas logo apertou a mão dela amigavelmente, contagiado por sua boa energia.
- O prazer é todo meu. - Saori diminuiu o tom e aumentou a atenção para com Hugo, a fim de mostrar mais afeição - Sabe, eu admiro muitíssimo o que está fazendo pela sua irmãzinha. Você tem muita coragem, meu bem, e eu admiro muito os corajosos. Portanto, pode contar comigo para qualquer coisa, certo? - E ela lançou-lhe um sorriso ainda mais afável, ao se levantar.
Hugo ainda não sentiu-se menos aflito, porém a graciosidade de Saori chegava a lembrar-lhe tanto a de sua mãe, que sentiu-se mais seguro, ao menos.
- Agora você deve ir, querido. - E então foi Hilda quem ficou na altura de Hugo, e o abraçou forte e ternamente - Vou cuidar para tudo dar certo aqui, tudo bem? Boa sorte.
- Obrigado, tia. - Ele a soltou, e apertou a mão dela - Dê um abraço desse na mamãe e na Delle, por favor.
- Darei sim... - Hilda acarinhou os cabelos dele e beijou-lhe a testa, e após entrelaçou sua mão a dele mais um vez - Escute Hugo, como a Saori disse, você é realmente muito corajoso. E as coisas sempre ocorrem bem para quem tem coragem, principalmente para um Asgardiano. É uma virtude muito cultuada pelos deuses. - Ela levantou-se então - Seja confiante como sempre, ouviu?
- Certo. - Ele por fim conseguiu sorrir.
- Ótimo. Tenha uma boa viagem. - A tia despediu-se com um beijo ruidoso.
Saori despediu-se também, e estendeu a mão à Hugo. Ele a segurou, firmando sua mão á dela como havia feito antes com Hilda, e sentiu o polegar dela acariciar o dorso de sua mão, tentando confortá-lo. Deu mais uma olhada em Hilda, que acenava sorrindo, e acenou de volta da mesma forma.
Entrou e acomodou-se no jato, e mergulhou em pensamentos enquanto sentia o aeroplano decolar. Da janela observou as montanhas nevadas de Asgard, impressionado por vê-las de cima pela primeira vez. Nunca em toda sua vida deixara aquela terra, e nunca pensou em deixar um dia. Orou para Odin, para que tudo aquilo valesse a pena, e a coragem que diziam que ele tinha fosse frutuosa.
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Como não podia deixar de ser, sempre que tentava descansar, depois da duras batalhas, era sempre acordado por risadas, que ecoavam em sua mente, especificamente para perturbá-lo, angustiá os confrontos, seus inimigos não tinham pudor algum em gargalhar de sua devoção e seu amor pelo mundo, de transformar suas crenças e sonhos em vergonha e martírios, e ferir sua alma. E estes ferimentos perduravam por muito tempo, lhe causando uma insuportável dor, e enquanto a ferida não se curasse, as malditas risadas continuariam a importuná-lo.
O louro foi despertado novamente por gargalhadas extremamente altas. Mas não eram aquelas risadas, distorcidas, e debochadas. Eram risadas realmente carregadas de alegria, contagiantes; as vozes eram agudas e doces, vozes de crianças. As crianças do orfanato - que ficava próximo á sua casa - haviam saído para brincar, e jogavam euforicamente algum esporte. Isso o confortou ainda mais, pois aquelas doces risadas não eram parte de seu consciente, eram reais. A tão sonhada paz pela qual os Cavaleiros haviam por tanto lutado era real.
Hyoga despertou de seus pensamentos ao ouvir a porta de entrada bater. Ouviu atentamente os passos leves seguirem da entrada até o quarto onde estava.
Eiri posicionou uma caixa de curativos sobre a mesa próxima. O rapaz apenas sentou-se na cama, mirando-a.
- Céus, eu o acordei. Desculpe. - A loura lamentou, observando os olhos sonolentos de Hyoga.
- Fique tranquila. Eu já estava acordado.
Eiri arqueou as sobrancelhas, convencida. Remexeu os produtos da caixa, e Hyoga tirou a camisa. A jovem então seguiu até ele e lhe tirou os curativos das costas, e após aplicou um medicamento, e então aplicou nas feridas novos curativos. Isto havia tornado-se um ritual durante as tardes, desde que o Cavaleiro de Cisne retornou da ultima batalha. A ultima, literalmente.
A única coisa que mudava nesse ritual diário era que...
- A cada dia dói menos, não é?
- É sim. - Hyoga disse - Você poderia ser enfermeira, Eiri.
- E eu sou. Todos os dias aparece um ou dois joelhos ralados para tratar lá no orfanato. Dessa algazarra que estamos ouvindo aí de fora vão surgir uns dez joelhos, talvez.
E ambos riram calorosamente.
Hyoga concentrou-se involuntariamente no toque dos dedos de Eiri. Eram tão delicados e quentes, a ponto de amenizar as ardências do produto. Talvez fosse isso que diminuísse as dores durante esse tempo todo - quase um mês - que ela cuidou dele. Era estranho pensar, a maneira como a dor diminuía com os toques lhe causava uma sensação de deja-vu. Ou melhor, de nostalgia, uma nostalgia que deixava seu coração inquieto, ansioso... e alegre.
A lembrança daqueles pequenos e gelados dedos foi tão nítida que quase os sentiu sobre o seu ombro, onde havia uma cicatriz que conseguiu com um estilhaço de gelo, em Asgard.
Bom, mais um capítulo :)
Guest: Muito obrigada por mais um review meu bem. Fico muito lisonjeada que goste da escrita, de verdade ^-^
Agradeço a todos que acompanham. Um ótimo ano novo para todos.
Tenham um boa leitura.
