Cap 7

Cap 7

1.

- Você foi suspensa?!

Sara tirou os olhos do papel timbrado e encarou Amber totalmente incrédula.

- Estava tudo muito chato mesmo...

- Você está a menos de um mês nessa escola!

- Eu só expus minha opinião.

- Que opinião?

- Não importa.

Amber cruzou a sala e jogou-se no sofá de cara amarrada. Pegou uma revista e começou a passar as páginas a esmo e com força.

Sara a seguiu e a encarou de cima.

- Importa para mim. Ei, olhe para mim ok?- Amber levantou os olhos e bufou. - Eu quero uma explicação. Agora. - disse categórica.

- Ah, não foi tão sério assim. Eu só respondi as perguntas que senhora Delacour fez, mas ela não gostou das minhas respostas.

- Que tipo de perguntas e que tipo de respostas você deu?

- Eu não vou repetir tudo para você!

- Sim. Você vai.

- Você vai tirar o dia para me chatear agora?

- Ei! Controle sua língua certo? Eu deveria estar no lab agora porque recebi um chamado. Eu larguei tudo com Warrick só porque você andou aprontando. Então faça valer este tempo perdido e trate de me contar o que aconteceu!

- Desculpe, não queria atrapalhar seu trabalho...

Amber pareceu encabulada pela primeira vez desde que chegara em casa. Sara respirou fundo e a encarou de cenho franzido, e os lábios apertados de frustração.

- Já atrapalhou. Então? Esta senhora Delacour... Não é sua professora de história?

- É. - Amber suspirou- Estávamos na aula dela. Uma chatice como sempre e o tema era Revolução Francesa, o que com certeza, é mais chato que ela.

- E?

- E ela começou a falar dos reis e todos aqueles cabeçudos franceses da nobreza e de como tinham sido marcantes para a história junto com suas rainhas mais cabeçudas ainda. - Ela fez uma pausa e enrolou no dedo uma mecha de cabelo distraída - E eu achei muito idiota ficar defendendo esses caras que na verdade só se aproveitavam das pessoas e perderam a cabeça com razão. E eu falei isso para a senhora Delacour.

- E como você falou?

- Eu só defendi meu ponto de vista. Só que... Ela começou a dizer que eu não deveria responder e ouvir a explicação.

- Claro que você não ficou quieta... - Sara suspirou e sentou em frente à Amber.

- Óbvio que eu não ia ficar. Ela não estava contando toda a verdade, e olha que isso é um dever dela! Sabe. E ela é francesa, descendente muito, muito distante de algum desses reis babacas. Ai ficou muito mais p da vida comigo.

- Você gritou com ela?

- Não.

Sara alteou uma sobrancelha e Amber revirou os olhos, contrariada.

- Sim. Gritei. Não no começo, só depois...

- Você já tinha duas advertências por ter saído no braço com aquela garota do primeiro ano. Agora uma suspensão. Se você continuar assim está caminhando para uma expulsão. Entende isso?

- Eu não tenho culpa se as garotas daqui são idiotas e se os professores são uns patetas.

- E só você é a boa não é?- Sara recostou-se na cadeira e encarou Amber zangada.

- Que?

Uma vez ao relatar o comportamento impulsivo de Amber para Cath, a amiga lhe dissera que chegaria o momento em que Sara precisaria delimitar a tênue linha entre adulto e criança para que a garota não causasse problemas mais tarde. Pelo visto tal hora chegara.

Só que Cath esquecera de mencionar o quão difícil seria.

- Eu gosto de você, entendo sua personalidade, aceito suas opiniões e às vezes vejo muito de mim em você... Mas existe um limite para tudo Amber, até para essa sua personalidade estourada.

- Não enche.

- Sabe qual o seu problema?

- Eu não tenho problema.

- Este é o seu problema! – Sara levantou-se e largou o papel da suspensão sobre o sofá - Você está certa, você é a boa, o resto está errado. Você não respeita um adulto não importa quem seja.

- Eu respeito você.

- Não, você tenta se manter em pé de igualdade comigo. É diferente. Talvez por sua mãe nunca ter imposto limites e sempre ter se mantido longe fez com que você se sentisse a adulta, a certa. Mas você não é.

- Minha mãe também nunca me passava sermões chatos...

- Eu tenho uma novidade para você: não sou sua mãe.

- Eu achei que você me entedia, que era parecida comigo!- Amber levantou-se também ficando de frente para Sara

- Eu entendo você! E é por entender você que eu estou falando isso. Eu não tive limites e vivi da maneira que quis e apesar de isso ter lá suas vantagens também é uma droga. Eu me ferrei muitas vezes por achar que podia tudo. Aliás, ainda me ferro! E se posso mudar isso em você a tempo, vou mudar.

- Você não pode me moldar!

- Não quero moldá-la, quero que aprenda o que é certo. Eu não desejo que você cresça e seja como eu...

Sara deu as costas para ela e se aproximou da janela. Tantos erros, poucas chances de mudar.

- Eu gosto da pessoa que você é...

- Se você soubesse a verdade de como eu sou não ia dizer isso.

Solidão, amargura, ressentimentos e um passado pegajoso. Era isso que ela era no fundo. Era isso que ela não queria para Amber Trent.

- Mas o que eu poderia ter feito? Deixar ela falar aquele monte de baboseira?

- Que tal morder a língua ou dar sua opinião sem se exaltar?

- Ah vem dizer que você faria isso?

Não. Sara tinha que admitir. Ela mesma vivia passando dos limites no lab com Ecklie, e até mesmo com Griss e Catherine. Era a ovelha negra do departamento. Todos falavam de sua personalidade estourada e sua língua que não ficava dentro da boca na hora de defender a própria opinião. E era exatamente por isso sempre dificultar sua vida que ela não podia deixar se repetir com a garota.

- Não, eu não faria. Mas eu já disse que não quero que você seja igual a mim. Eu não sou um bom modelo.

- Eu não vou mudar.

- Sim, você vai.

- Tente se puder.

Amber cruzou os braços em desafio.

- Se quiser ficar aqui, vai ter que mudar ou no mínimo começar a se controlar. Eu não preciso de mais um problema.

- Eu sou só mais um problema para você não é? - Amber sussurrou com a voz carregada.

- Não, não é um problema. Mas você causa alguns.

Sara deu meia volta. Abriu uma garrafa de água que estava sobre o balcão e bebeu direto. Um ponto acima da têmpora direita latejava. Uma dor de cabeça estava chegando para fechar bem a sua tarde.

- Então porque não me manda para algum internato, me deixa por aí?

- Porque às vezes eu sou legal demais e você não tem culpa da mãe que tem.

- Não fale assim dela!

- Não a defenda também. Se ela tivesse um pingo de juízo, nem eu nem você estaríamos passando por isso agora.

- Pare!

Os olhos dela ficaram marejados e Sara sentiu o coração pesar. Estava apegada a Amber de uma maneira que aquela discussão também a magoava. Mas não podia deixar as coisas escaparem do controle e Amber continuar agindo daquela forma. Por mais que doesse, estava na hora da garota começar a entender que sua mãe não era um anjo cálido e nem agira da forma correta.

Sara só odiava o fato de ser ela a responsável por mostrar isso a menina.

- É a verdade Amber, trate de se acostumar e aceitar. Você não pode colocar Bonnie num altar e mante-la lá. Ela é sua mãe, nada muda isso, mas não agiu certo.

- Você também não está certa falando assim dela!

- Eu estou sim.

- Eu odeio você! Eu odeio você!

Amber deu as costas para Sara com as lágrimas tingindo as faces e correu para o banheiro. Bateu a porta com estrondo e Sara ouviu a fechadura estralar.

Ótimo.

Soltou todo o ar dos pulmões e apoiou os cotovelos sobre a bancada deixando a cabeça repousar nas mãos.

Com a cabeça estourando colocou a bolsa atravessada e rabiscou um bilhete. Sabia que por mais revoltada que Amber estivesse, não seria boba de sair e ficar vagando por Vegas sozinha. Sara já contara muitas histórias do seu trabalho para que a garota considerasse fugir uma má idéia.

Passou as mãos pelos cabelos em sinal de frustração e olhou para a porta do banheiro que continuava trancada.

Não era mãe, não sabia agir como uma. Era feita de trabalho. Sabia viver sozinha.

Mas tinha que mudar isso tudo se quisesse ter paz com Amber.

Saiu e fechou a porta suavemente. Precisava de mais uma folga e se Ecklie torrasse sua paciência ela passaria dos limites com ele.

Como sempre.

2.

- Sidle!

Sara parou no meio do corredor e virou-se para Ecklie que a observava da porta de sua sala.

Ponto. Se aquilo fosse loteria ela teria ganhado uma bolada.

- Sim...

- Você pediu outra folga ao Grissom?

- Sim, eu pedi.

- É sua terceira folga em duas semanas...

- E...?

- Você não acha que folgas em demasia podem prejudicar o trabalho de sua equipe?

- Eu tenho direito a estas folgas. E a equipe é muito boa para ter todo o trabalho prejudicado por isso.

Ecklie pareceu desconcertado. Odiava o fato de nunca poder dobrá-la.

- Eu soube que hoje à tarde você largou uma cena de crime para resolver problemas... Pessoais. - o tom dele foi venenoso.

- Sim, era pessoal. Mas eu não larguei a cena do crime. Eu já tinha feito minha parte e estávamos vindo para o lab para processar as evidências...

- Você deixou Brown cumprir a tarefa sozinho Sidle.

- Ele também é bom o suficiente para cumprir a tarefa Ecklie.

- Não estou discutindo a competência de Brown aqui. - ele deu um passo para fora da sala e colocou as mãos nos bolsos. - Estou falando da sua falta nos últimos tempos e de como uma hora dessas este seu comportamento vai trazer problemas para o laboratório.

- Que... Comportamento? Olhe... Você sabe quantas horas de folga eu tenho para tirar? Não, você não sabe. Fale com Grissom e peça a ele uma relação de todos meus minutos acumulados. Depois volte a falar comigo sobre isso. Posso ir?

Ecklie ficou encarando-a por longos segundos, o maxilar travado de raiva. Ela era uma pequena pedra em seu sapato. E incomodava mais que pedras maiores. A fiel seguidora de Grissom e sua maior protegida. Não importava o quanto boa CSI ela fosse, ou o quão brilhante fossem seus resultados... Podia demorar, mas um dia ele teria a felicidade de ver Sidle e seu ar desafiador fora de seu departamento.

- Vou mesmo conferir com Grissom.

- Tenho certeza de que vai. Bye Ecklie.

Ela sorriu para ele e lhe deu as costas.

Era o maior babaca prepotente que ela já tivera a infelicidade de conhecer, pensou ao sair do lab. E importuná-lo era uma boa maneira de dissipar as frustrações.

Chegou em casa e caminhou direto em direção ao banheiro. Abriu a boca para falar, mas achou melhor testar o animo de Amber antes. Forçou de leve a maçaneta da porta, que não cedeu.

- Vá embora!- a voz de Amber veio baixa, mas chorosa.

- Você pode vir chorar na sala? Não sei se você lembra, mas só há um banheiro nesta casa.

- Azar o seu.

- Vai ficar sem jantar?

- Não estou com fome.

- Certo. Eu estou.

Sara resolveu deixa-la curtir seu tempo de birra, juntou todos os papéis e livros que tinha que dar uma olhada e foi para o quarto.

Tirou os sapatos e recostou-se na cama cansada. Crianças podiam fazer birra por horas era o que Catherine dizia, então ela ainda tinha algum tempo para trabalhar e relaxar antes que Amber saísse do banheiro.

Em poucos minutos perdeu-se em meio a notas, teorias e estudos. Com os olhos presos na tela do laptop Sara deixou-se escorregar por um mundo que conhecia muito bem: Trabalho.

Estava tão concentrada e perdida no tempo que não ouviu a fechadura do banheiro fazer um clique, nem percebeu a presença de Amber na porta do quarto.

- Sara?

Ela parou de teclar e levantou os olhos. Amber segurava a porta aberta pela metade e olhava para o chão. Seus olhos estavam inchados por causa do choro e ela fazia círculos com um pé, parecendo sem jeito.

- Amber... Você quer algo? Tem alguma coisa para o jantar?

- Tem... Deve ter, eu não olhei. Não é isso.

- Hum o que é então?

- Posso falar com você?

- Você já está falando. Quer sentar aqui?- Sara indicou a cama com um gesto e Amber caminhou até o lugar arrastando os pés.

- Me desculpe.

Amber torceu o nariz e algumas lágrimas correram pelo rosto.

Oh ela não era muito boa com pessoas chorando.

-Ei. Está tudo bem. - um pouco desnorteada Sara deixou o lap de lado e trouxe Amber para perto de si abraçando-a.- Não chore mais ok? Não precisa.

- Eu... Eu fui tão idiota... Eu não queria... Você é legal comigo e eu aprontei com você. Eu... Causei problemas... Você deve me odiar... - as palavras saiam cortadas pelos soluços e Sara sentiu-se agoniada.

- Eu não odeio você está bem? Eu também passei um pouco dos limites hoje, talvez não devesse mesmo ter falado daquele jeito sobre sua mãe.

- Mas... Você esta certa sabe? Desculpe-me... Vou ser mais obediente... Eu juro... sou tão idiota!

- Acalme-se sim?

Sara abraçou-a com mais força e deixou que os soluços dela soassem pelo quarto e suas lágrimas ensopassem a frente de sua blusa.

Era uma criança. Sozinha e desamparada. E estava chorando em seus braços.

Ela amava aquela garota. Para o diabo todo o resto.

Com o passar dos minutos os soluços dela foram diminuindo até se transformarem num respirar pesado. Amber fungou algumas vezes e se afastou do abraço de Sara, limpando as faces molhadas com as costas das mãos.

- Eu molhei sua blusa preferida.

Sara riu ao olhar para a blusa preta um pouco cavada que gostava de usar.

- Sem problemas, não vou voltar para o lab hoje.

- Não vai trabalhar hoje?

- Não, pedi mais uma folga.

- Mais uma? Mas seu chefe não vai ficar brabo?

- Hum... Você lembra talvez do meu chefe?

Amber sorriu ao lembrar.

- Ah lembrei. Certo.

Amber começou a brincar distraída com um desenho na colcha. Apertava os lábios como se estivesse encabulada. Sara estendeu a mão sobre o criado mudo e pegou uma escova de cabelo.

- Amby?

- Que?

- Posso pentear seus cabelos?

A menina sorriu e virou-se de costas para Sara, jogando todo o longo cabelo para trás.

- Eu sempre quis fazer isso.

- Pentear cabelos?

- Compridos sim. Nunca deixei os meus passarem muito dos ombros.

- Dá trabalho.

- Imagino.

Ficaram em silêncio por um tempo, apenas o som da escova passando entre os fios.

- Sara?

- Hum?

- O que você disse sobre minha mãe. Eu acredito.

- Olhe Amber... Talvez eu tenha sido um pouco dura...

- Mas você estava certa. O que ela fez não é correto. Por mais que eu queira acreditar.

- Sua mãe não é uma má pessoa...

- Não é, eu sei. Mas não é normal também. Ela me abandonou. Com consciência ou não, mas ela me deixou...

- Mas como você mesma disse uma vez, para ela é normal, não está errado.

- É.

- Você está com saudades dela?

Amber suspirou alto.

- Sim. Muita.

Sara penteou os cabelos loiros de Amber até brilharem. Quando achou que estava bonito o suficiente olhou no relógio.

- Quer jantar agora?

- To com fome sim...

- Quer ir lá e descongelar alguma coisa enquanto eu arrumo alguns papéis aqui?

- Certo.

Amber levantou e foi em direção à porta. Quando estava prestes a sair virou-se e olhou para Sara.

- Sara?

Ela desligou o lap e levantou os olhos para a menina. Amber puxou todo o cabelo sobre um ombro e falou a meia voz:

- Eu gosto muito de estar aqui com você. Muito... Muito mesmo.

Ela deu um sorriso tímido e saiu.

Sara sorriu formando um biquinho, num gesto todo seu e balançou a cabeça.

-Eu também gosto muito de você. Muito... Muito mesmo.