Quente encontro
Um baile de inverno era realizado todo início de ano naquela comunidade, era um grande evento e as socialites se encarregavam de todos os preparativos. O tema era simples, florido, as economias foram gastas com as plaquetas de prata que serviriam de honraria aos homenageados: aqueles cujo auxílio superou as expectativas anuais.
A organização da festa era impecável, os funcionários se vestiam a rigor e a não parecia haver qualquer falha, nem mesmo na disposição das mesas. Os convidados podiam ler seus nomes nos laços que amarravam os guardanapos. Mas não havia uma distribuição diferenciada de lugares. As socialites resolveram fazer com que as pessoas interagissem e colocaram desconhecidos nas mesma mesa, empresários junto a professores, artistas junto a corretores. Enfim, promoveram uma miscelânea geral das classes trabalhadoras.
O pico da noite, além da entrega das honrarias, foi a apresentação dos alunos da primeira série da escola para crianças até 7 anos de idade, Clementine Spelman, que apareceram elegantemente vestidos em túnicas vermelhas. Balançando os folhetins com o que deveria ser a letra da música, ajeitaram-se sobre o palco com uma algazarra ralinha, mas por fim, ao verem a professora, silenciaram-se rapidamente. Ninguém imaginou que aquele amontoado de criancinhas fosse capaz de cantar uma canção tão afinadamente. No entanto, ao terminarem, foram aplaudidos de pé.
Conforme desciam do palco, cada criança era esperada pelo pai ou responsável. A professora ficou perto do palco até que a última criança fosse entregue à família correspondente, e em seguida, ela se dirigiu para a mesa onde estava seu nome. Ao percorrer o lado oposto ao que tinha tomado no início da apresentação, passando justamente pela mesa do prefeito, onde foi cumprimentada, a professora foi abordada por ninguém menos que Anthony Soprano. Os dois se encararam e ele sorriu estendendo a mão.
– Senhorita Giardino - chamou uma voz de timbre conhecido. A professora levantou os olhos e encarou Anthony Soprano.
– Senhor Soprano - e sorriu, desviando-se dele depois de apertar-lhe a mão. Mas ele não a soltou, segurando-a fortemente.
– Não esperava encontrá-la aqui!
– O senhor achava que eu não tinha vida social que não fosse aquela que o senhor conhece? - alfinetou propositalmente, arrependendo-se logo após ver a decepção nos olhos dele. Anthony sorriu. - Desculpe-me - murmurou ela ficando rubra.
– É bom saber que a senhorita convive com outro tipo de gente - falou como se não a tivesse ouvido. - Parabéns pela apresentação de seus alunos. Estavam ótimos - e sorriu, se afastando.
Macey o fitou por algum tempo antes de seguir até sua mesa. Não precisava tratá-lo daquela forma só para puni-lo. Estava ciente de que a maioria das pessoas achava anormal ser portador de alguma deficiência, mas ainda não se acostumara. Joshua era um rapaz de beleza acentuada, e talvez aquilo fizesse com que as pessoas ultrapassassem as barreiras do preconceito. Tinha certeza de que se ele tivesse outra necessidade especial, talvez síndrome de Down além da deficiência auditiva, as pessoas não tornariam a falar com ele. Não conseguindo tirar aqueles pensamentos da cabeça, achou incompatível permanecer na festa. Não tinha ares de felicidade, queria apenas deitar e descansar. Assim, tomou o casaco na recepção e se dirigiu ao elevador, que esperava de portas abertas naquele andar. Apertou o botão que indicava o térreo e quando a porta estava quase fechando, uma mão a segurou. Macey respirou fundo, prendendo a respiração por instantes. Anthony entrou sem olhá-la, ajeitou o sobretudo e cruzou os braços.
– Festa sem sal, não é? - disse ele olhando para frente.
– A apresentação das crianças salvou...
– Verdade - respondeu cortando-a.
O elevador parou no térreo, a porta se abriu. Macey ia dar o primeiro passo quando Anthony perguntou:
– Você vai a pé para casa?
– Foi assim que vim - respondeu sorrindo.
"Como era possível?" - pensou Anthony - "Ela ainda consegue sorrir".
– Posso lhe oferecer uma carona?
Macey o encarou. Os olhos pareciam marejados.
– Tem certeza que quer dar carona a uma mulher grossa como eu?
– Todos têm problemas e dias ruins, senhorita Giardino - respondeu ele, apertando o botão que os levaria ao estacionamento no subsolo. Sorriu ao ver um sorriso e seus olhos pousaram no pescoço dela. Os cabelos estavam presos num coque rebelde, fiapos soltos tocavam a pele branca, que parecia muito macia.
Deu o braço a ela, coisa que jamais tinha feito na vida: dar o braço a alguma mulher que não Carm, e conduziu-a até sua picape, do lado do carona, abrindo a porta para que ela entrasse. Macey agradeceu a gentileza. Ele deu a volta, entrou, ligou o carro e saiu lentamente. Notou o detalhe do vestido, que se abria quase até a coxa e desvendava a perna torneada. Desviou o olhar rapidamente para a estrada a frente, não queria que ela o tomasse por um tarado ou coisa parecida, apesar de provavelmente já ter pensando mal de seus atos dias atrás.
– Bem, cá estamos - disse ele, minutos depois.
– Não seria um longo trajeto, não é?
– Não, não mesmo - respondeu saindo do carro para abrir a porta para ela. Macey, no entanto, já havia aberto, ele chegou a tempo apenas de fechá-la.
– Obrigada, senhor Soprano.
Os dois estavam ao lado da picape. Uma suave brisa gélida fez os fios de cabelo de Macey balançarem e sua pele se arrepiou. Então Anthony não resistiu. Tocou o pescoço dela com as mãos e a puxou para perto de sua boca. Era tudo ou nada. Não estava se importando com o depois. Ela o repudiaria, era certo, mas não quis perder a oportunidade.
Assim que parou de beijá-la, abriu os olhos, afastando-se lentamente e percebeu que ela ainda matinha os olhos fechados, os lábios entreabertos e respirava profundamente, suspirando baixinho, como se esperasse por aquilo há tempos. Anthony tornou a beijá-la e desta vez sentiu mãos trêmulas em seu peito.
Era melhor parar. Estava brincando com fogo. Aquela não era uma mulher qualquer. Afastou-se e a fitou sério. Macey abriu os olhos lentamente. Sorriu e depois baixou a cabeça. Anthony soltou o rosto dela e juntou as mãos nas costas.
– Obrigada pela carona - ela quebrou o gelo, mas ainda olhava para o chão.
– Gostou dos meus sapatos?
Ela soltou uma gargalhada e o encarou. Ficaram em silêncio por instantes. Ele pensando se seria convidado a entrar no apartamento. Ela pensando que jamais havia deitado com um homem no primeiro encontro, mas aquilo nem fora um encontro. E ele era seu chefe e era casado. Tudo se transformaria num terrível pesadelo se desse aquele passo.
– Boa noite, senhor Soprano - falou timidamente.
Anthony retesou os músculos, mas sorriu por dentro. Era o melhor a fazer. Ela era uma mulher descente. Se quisesse apenas sexo, poderia parar em qualquer esquina. E naquela noite era o que faria. Que fosse para o espaço aquela droga de promessa.
– Boa noite, senhorita Giardino - despediu-se seguindo para a picape.
Percorreu o caminho mais longo para casa, era naquele que encontrava as prostitutas melhores, ou mais limpas, como diziam no grupinho de amigos, mas não sentiu vontade de parar e embarcar nenhuma. Estacionou o carro defronte para o mar e novamente foi masturbar-se pensando na professorinha. Ao terminar, abraçou o volante, encostando a cabeça nele e suspirou fundo.
– O que, diabos, está acontecendo com você, Tony? - perguntou-se em voz alta. - Que diabos está fazendo?
