CAPÍTULO 7 - AND MY EYES FILL WITH SAND, AS I SCAN THIS WASTED LAND


Eu deixo a água quente do chuveiro escorrer pelo meu corpo cansado, exausto, enquanto vou tentado digerir o dia que tive. Tudo passou tão rápido e, embora faça apenas algumas horas, me parece ter sido há muito tempo atrás.

Tento botar a cabeça no lugar e entender o que está acontecendo comigo. Eu fico relembrando o dia de hoje, especialmente em o caminho de volta, que começou como um pesadelo, daqueles acompanha você ao longo dos anos, some por um tempo e, de repente, do nada, reaparece. E acabou deixando minha cabeça em um turbilhão de pensamentos que não consigo controlar. E a grande culpada disso tudo é ela!

"Ron, eu estou falando com você. Quer parar de revirar os olhos?"

Ela me falava enquanto regressávamos da pirâmide, deixando-me profundamente irritado. Não sei ao certo o que passa na cabeça dela, mas desconfio que ela pensa que eu ainda tenho dezesseis anos e que ela ainda pode falar comigo no mesmo tom que ela falava quando eu tinha. E isso foi o que ela faz o tempo inteiro enquanto percorríamos o caminho de volta.

É incrível como o tempo passa e no fundo, bem lá no fundo, as pessoas não mudam realmente. Hermione Granger é um dos melhores exemplos disso que eu poderia citar. Ela ainda age como se eu tivesse a obrigação de adivinhar o que passa em sua cabeça e, pior, concordar com tudo que ela pensa e que, supostamente, eu deveria saber.

Achei melhor manter minha boca fechada ou ela escutaria meia dúzia de verdades que a fariam realmente furiosa. E então seria ela quem não iria querer falar comigo. Era assim no passado e, pelo jeito, não parecia ter mudado em muita coisa.

Eu ainda estou me perguntando como ela esperava que eu fosse adivinhar que o que estava acontecendo naquele salão era o ritual onde o líder da Ordem de Anúbis estava passando pra ela o tal punhal que serve como canal entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos para que a gente possa fazer o tal ritual pra ressuscitar o Harry? E como eu iria adivinhar que aquele bando de homem de turbante e cara feia não eram enviados de Voldemort e sim as pessoas que procurávamos? Como raios ela achou que eu iria adivinhar? Eu não tenho o dom de ler pensamentos. Eu nunca tive! Eu posso ter passado a escola toda enganando Sibila Trellawney com falsas adivinhações, mas isso é toda a minha empatia com o desconhecido. Eu não consigo sequer colocar em palavras o que eu sinto... o que eu sentia por ela. Por que ela acha que eu vou conseguir entende-la sem que ela fale? Eu não consigo, porcaria! Por que isso não entra na cabeça dela?

"Você quer parar de se comportar como se tivesse 15 anos, Ron?", ela insistiu. Eu revirei os olhos novamente, sentindo, no fundo, um prazer enorme por saber que isso a deixaria muito irritada. Não respondi. Não queria responder. E ela não conseguiu me fazer responder. Mas também não calou a maldita boca. E a voz dela junto com o sol escaldante sobre a minha cabeça me fizeram sentir tonto. Eu faria qualquer coisa para Hermione calar a boca.

Na realidade eu fiz, não fiz? Eu a agarrei pelos ombros e a beijei, como nunca a havia beijado antes na vida. Ela estava desprevenida. Respondeu ao meu beijo com entusiasmo no começo. Então me afastou, furiosa. E meteu a mão na minha cara.

Eu não sei o que me levou a fazer isso, mas pensei que tivesse dado certo. Pelo menos ela calaria a boca e não falaria mais comigo. Mas aquele beijo me deixou querendo mais. E as lembranças da tempestade de areia dentro daquela barraca começaram a fervilhar na minha cabeça.

Ela continuou me olhando, com fúria. Comecei a esperar um sermão. Mas então, para minha surpresa, ela me agarrou pelos cabelos e me beijou, da mesma forma que eu a havia beijado. Depois me afastou e voltamos em silêncio até o hotel. O abençoado silêncio e a minha cabeça virada numa tempestade.

Ao entrarmos no quarto do hotel, eu me deixei cair em uma poltrona.

- Eu amo você, Mione! Nunca deixei de te amar! – eu falei, sem saber por que. Aquilo simplesmente saiu da minha boca, como um pensamento quase inconsciente há muito tempo guardado. E eu soube na hora que falava a verdade. E isso me deixou apavorado.

Ela sorriu pra mim. Parecia cansada.

- Eu sempre te amei, Ron. Eu sempre vou te amar.

E então eu a tomei nos braços com urgência. Eu precisava abraçá-la, beija-la. Eu havia chegado a uma assustadora encruzilhada da minha vida.

O mundo em que vivemos não é um mundo para sonhadores. Não é um mundo onde se espera encontrar a mulher com quem você quer passar o resto da sua vida e criar seus filhos junto com ela. Um mundo onde se possa ter sonhos de felicidade e esperar um dia conquista-los. O mundo que vivemos é cruel e cheio dor. É um mundo onde quanto menos elos você tiver, mais forte você vai ser, por que nada vai atingi-lo. Você não vai sentir dor maior do que a dor que já sente. Um mundo onde você caça ou é caçado. E nesse mundo onde o mais forte sobrevive eu tentei ser o caçador.

Mas no momento que me vejo diante dessa encruzilhada eu me pergunto se ainda existe lugar para mim nesse mundo? Se eu ainda posso ser o caçador? Depois dela? E temo que a resposta seja não.

Eu amoleci.

Eu a amo e tenho medo de perdê-la. Como perdi a todos os outros. Por que eu sei que eu não vou conseguir me erguer de novo se a perder. E eu estou contando loucamente com esse plano absurdo de Draco Malfoy para ressuscitar o Harry, por que se isso não der certo e o mundo não voltar a ser como era na minha juventude, eu estarei perdido. Completamente. Por que eu fiz a maior besteira que eu poderia ter feito: eu deixei que o elo fosse criado novamente.

E então eu a deixei no quarto e vim para o banheiro tomar esse banho. Tentativa de fazer a água levar embora meus fantasmas. Tentar clarear as idéias. As coisas estão mais claras, mas eu estou apavorado. Eu nunca senti tanto medo antes, exceto quando jovem e sem ter vivido tudo que vivi até aqui.

Amanhã voltaremos para Londres. Ela sabe o que deve ser feito quando chegar lá, mas não entrou em detalhes. E eu nem sei se quero saber esses detalhes. Deixo isso para ela e para o Malfoy. A única coisa que sei é que quero que isso dê certo. Que Harry ressuscite e cumpra a profecia e tudo possa voltar a ser como era. Isso precisa dar certo. E eu não quero nem imaginar a possibilidade de não dar certo.

Resignado, desligo o chuveiro e volto para o quarto. Para Hermione. Ela me espera.


Led Zeppelin, Kashmir