Capítulo Sete: As Jóias
Ele sabia que não devia tê-la levado consigo, ponderou, passando a mão pelos cabelos.
Às vezes, tinha esperanças de que ela pudesse se portar bem diante de situações que a desagradavam. Mas, para seu desgosto, Ino era excessivamente mimada, incapaz de esconder sua insatisfação.
Naquela tarde, após a conversa com Tsunade, Gaara foi obrigado a se utilizar do seu último artifício, a carta secreta que ansiava não precisar dispor: contatar Danzou. Sua reunião não havia sido tão produtiva quanto imaginara outrora e ele não havia conseguido muito, além de aborrecimentos e uma proteção relevante para Ino.
Ao rodar os olhos e observá-la, notou-a levemente entediada, caminhando ao seu lado.
Mediante a situação, ele não poderia dar-se ao luxo de mantê-la consigo na Suna. Ela estava esperando o filho deles e, caso isso chegasse a bocas alheias, poria em risco toda sua gestação.
A decisão súbita de levá-la àquele jantar não veio, apesar de tudo, de modo tão súbito. Embora soubesse que ela faria exatamente o que lhe dissera, ou seja, permanecer como um enfeite de mesa, Gaara preferiria que as pessoas começassem a vê-la como ela era: a mulher dele.
"Apenas fique em silêncio." Disse ele enquanto um empregado abria a porta do restaurante.
Os olhos azuis cintilantes de Ino chamejaram ao notar-se diante de um dos estabelecimentos mais caros da Vila. Gaara não era oneroso, de modo que evitava locais excessivamente luxuosos, dignos da sua posição de Kage.
Ela estava acostumada a tê-lo ao seu lado, jamais ostentando sua fortuna. A casa dele, em seu país, era enorme e suntuosa, mas mesmo os móveis e os enfeites de estante não eram de ouro ou prata, nem reluziam com pedras preciosas. Gaara nunca lhe dera presentes que valessem mais do que ele achava o suficiente.
Quando ambos deslizaram pelo tapete vermelho da entrada, ela sentiu-se imediatamente deslocada. Embora costumasse se vestir bem, seu guarda-roupa nem de perto se assemelhava ao das mulheres mais abastadas da Vila.
"Você não me disse que viríamos em um lugar assim." Reclamou.
"Você está ótima." Disse Gaara, sem encará-la. "Mesa cinco." Requisitou ao atendente.
"Reservada para Sabaku no Gaara, correto, senhor?" Ao que o ruivo concordou, o outro sorriu. "Por favor, sigam Darien."
Darien os conduziu. Foram guiados até a mesa ao lado da dos Hyuuga, que se mantiveram silenciosos aos cumprimentos, e ele puxou a cadeira para que Ino se sentasse. Os dedos ásperos e masculinos roçaram levemente em seu braço coberto ao ajudá-la, mas ela os ignorou.
Darien, então, entregou-lhes os cardápios.
"Sintam-se à vontade, senhores."
Pelo modo como os lábios de Gaara se mantiveram crispados antes de esconder o rosto atrás do menu, Ino soube que não havia a menor satisfação em ver-se ali, em meio a famílias e pessoas obviamente satisfeitas em exibir seu poder.
A loira sorriu ao reconhecer Hinata na mesa contígua e não recebeu mais do que um rápido movimento de cabeça em troca.
"Não gosto desse lugar." Disse a Yamanaka, notando a senhora que desfilava em seu casaco de peles. "Por que você não marcou em outro restaurante?"
"Danzou sugeriu aqui." Respondeu Gaara, seco.
Um minuto depois, quando o garçom veio perguntar se já haviam decidido o que pedir com relação às bebidas, Ino preferiu um suco natural, enquanto o ruivo exigiu um scotch.
Havia uma mulher observando-os, desdém em seus olhos.
"Repara em como ela me olha." Resmungou Ino, desgostosa.
Gaara manteve-se imperturbável.
Desde o início, ele soube que talvez as coisas desandassem àquele ponto. Ele e Ino não eram casados, mas viviam juntos e, para o tradicionalismo existente tanto entre seus anciões como em várias famílias, era uma afronta às boas maneiras.
Ele já tinha certeza, porém, de que toda Vila sabia do seu envolvimento com a loira e que, como Kage, isso asseguraria que ninguém se atrevesse a tentar seduzi-la.
Um homem influente e importante, era como o viam os de fora, e Gaara não tencionava desfazer aquela imagem.
Já estava na metade do copo de scotch quando, por fim, reconheceu Danzou aproximando-se da mesa em que estavam, acompanhado pelo mesmo atendente que anteriormente os recebera.
"Desculpe-me pelo atraso." Disse, assim que o ruivo ergueu-se para apertar-lhe a mão.
"Não há problemas." Reiterou Gaara, impassível.
Observando-o sentar-se, Ino finalmente ligou o nome à pessoa. O nome Danzou, sem a associação à imagem, era-lhe indiferente. Ela ouvira falar daquele homem e dos seus feitos extremistas, ligado a ANBU Ne, mas nunca realmente o conhecera.
Quando, desdenhoso e divertido, ele, com os cabelos salpicados de grisalho, cumprimentou-a com um esgar de lábios educado, a loira estendeu a mão e solicitou um beijo sobre a mesma, um pouco mais de prepotência em seus gestos do que normalmente teria.
Mas, pensou, satisfeita, ela era mulher de um Kage e isso lhe dava direito a certos privilégios.
"Olá, senhorita." Saudou Danzou, antes de sentar-se.
Gaara não fez apresentações. Um homem informado como Danzou já devia ter consciência da identidade da loira ao seu lado.
Assim que os três tornaram a se acomodar em seus devidos lugares, Danzou ergueu o dedo e solicitou ao garçom uma garrafa de saquê.
"É bom começar a noite com uma boa bebida." Explicou.
Pacientemente, o ruivo esperou que Danzou estivesse servido e saboreado o primeiro gole do seu saquê antes de tencionar iniciar a conversa. Ino, nunca antes envolvida em suas reuniões de negócios, sentiu-se incapaz de tirar os olhos de Gaara, que parecia ministrar o encontro com maestria e serenidade.
Ele manteve os músculos faciais relaxados, sinal de que não estava sentindo apreensão, e sua expressão apaziguadora era suficientemente convincente para fazer alguém desconfiado deixar de se preocupar.
"Vamos aos negócios, então, meu caro?" Danzou perguntou, sorrindo.
Gaara moveu a cabeça numa leve afirmativa.
"Eu já assegurei a você de que preciso de um bom general para o meu exército." Disse, os dedos tamborilando em torno do copo de scotch. "Você é velho e experiente, saberá lidar com os meus homens."
Os olhos de Danzou piscaram por um leve momento, como se estivesse deleitando-se e ao mesmo tempo refletindo sobre a declaração.
"Eu sou extremista, duro e caro, Gaara." Falou enfim.
"Eu investiguei você." Confessou o ruivo, encolhendo os ombros. "A minha aliança com Konoha não será de grande ajuda diante dos problemas internos que posso vir a enfrentar. Estou disposto a pagar o necessário, contanto que você consiga cumprir o que disse."
"Obviamente que conseguirei." Garantiu Danzou, aborrecido. A mais leve menção de incapacidade podia perturbá-lo. "Mas Tsunade não estará de acordo." Avisou, arqueando a sobrancelha.
A má relação entre a Hokage e Danzou era conhecida por todo o contingente ninja do país. Danzou não era um homem fácil de lidar. Ambicioso, era capaz de passar por cima de alguém, se isso fosse necessário. E essa habilidade em específico podia torná-lo perigoso. Mas Gaara estava confiante de que poderia contornar eventuais desavenças com um pulso firme.
Situações extremas exigiam medidas extremas. Se não podia confiar nos líderes da sua Vila, teria de recorrer aos líderes de outras Vilas, mesmo que isso significasse lidar com a escória. Não podia deixar que a sua aliança com o país do Fogo influenciasse a sua decisão com relação à escolha dos seus novos generais.
"Quem governa o meu país sou eu." Houve frieza nas palavras de Gaara naquele momento.
Todo ninja mais velho tinha o hábito de acreditar que ele não fosse capaz. A verdade é que, há algum tempo, Gaara também não acreditava que fosse capaz, porém os fatos haviam mudado, e já não admitia contestações ou dúvidas com relação ao seu poder.
Danzou observou-o atentamente por um longo instante.
O Kazekage não dera grandes explicações a respeito dos seus problemas, mas ele podia supor o que estava acontecendo – havia anos e anos lidava com a insuportável política, afinal. Não estava, ainda assim, disposto a migrar de país, a menos que valesse a pena.
Seus planos severos de derrubar a Hokage foram, um a um, minados. Seu melhor homem, Sai, debandara para o lado de Tsunade.
Tendo sido ex-líder da ANBU e controlador da sua própria divisão de ninjas, a Raiz, adquirira experiência de guerra e capacidade o suficiente para treinar e preparar uma frota inteira para uma batalha iminente. Isso não apenas o tornava um valoroso aliado, como também um perigoso inimigo.
Pela quantidade de dinheiro que entrasse em sua conta, ele decidiria ser ou não útil naquela empreitada. E Gaara sabia daquilo.
"Vamos aos preços." Sugeriu.
"Um milhão de ienes e nada mais." Disse Gaara, ignorando o ofego discreto e quase imperceptível de Ino, ao seu lado.
Danzou receou. Sabia que não adiantaria tentar subir os valores.
"Um milhão de ienes e eu serei seu homem mais fiel." Gracejou, movendo a cabeça num gesto de cumprimento. Ergueu o copo de saquê para um brinde.
OIMPÉRIO&OIMPÉRIO
Ino estava exausta quando eles chegaram em casa.
O resto da noite havia sido um desastre, ao menos do seu ponto de vista. Detestava reuniões de negócios, principalmente se esses fossem os negócios de Gaara.
A seriedade da conversa fizera com que ela permanecesse silenciosa durante o jantar inteiro, incapaz de falar algo relevante, pois não entendia nada dos números ou dos acontecimentos. Os olhos, tanto de um homem como o do outro, não se voltaram em sua direção nem sequer uma vez.
Soltando os cabelos em frente ao espelho, desabotoou a blusa de cetim azul-clara.
Gaara estava escorado no batente da porta, observando-a, mas Ino não queria conversar. Desejava apenas deitar em sua cama e dormir.
"Muito entediada?" Indagou ele, os braços cruzados.
Ela deu um sorriso sem vontade. Noutro momento lhe responderia com uma resposta malcriada e uma careta. A descoberta da gravidez, entretanto, levou consigo uma pequena parte da sua capacidade de ser leviana.
"Ninguém mandou que eu me interessasse por um Kage." Escarneceu.
Os olhos dele estreitaram-se levemente.
"Você não prestou atenção na nossa conversa, não é mesmo?" Embora parecesse, não havia um tom de repreensão em suas palavras.
"Deveria?"
"Deveria."
Sentando-se em frente à penteadeira, depois de ter se livrado da saia, Ino derramou creme num algodão, começando a remover a maquilagem.
"Então você deveria ter me dito." Disse.
Os cabelos dela caiam às costas, cobrindo-as. Aproximando-se, Gaara afastou-os para que pudesse tocar os ombros desnudos com as mãos. Ele continuava impassível, ela pôde notar pelo reflexo do espelho, enquanto seus dedos deslizaram pela nuca dela, soltando o fecho do colar.
Ele observou as pedras falsas por um momento, antes de largar o adorno dentro do porta-jóias.
"Você gosta disso?"
"Jóias?" Indagou Ino, franzindo as sobrancelhas.
"Sim."
"Gosto." Ela arqueou os ombros, mostrando que jamais pensara muito naquilo, mas que não negava a idéia de que, em sua futilidade, gostasse de objetos caros.
Na realidade, nunca fizera questão de esconder dele seus anseios frívolos. Admitia que, como quase todas as outras mulheres, gostava de ser cortejada e presenteada e que era por isso que lidava com as flores: elas eram bonitas e agradáveis.
Ela tampouco precisava ser falsa com Gaara. Ele sabia que ela não entendia ou se interessava por seus assuntos e que preferia conversar sobre coisas mais amenas, como roupas.
"Você quer jóias de verdade?" Ele perguntou, após uma curta pausa.
Os olhos azuis ergueram-se para encará-lo e Ino abandonou o algodão sobre a penteadeira.
"Se você está se sentindo na obrigação de me dar alguma coisa, não se preocupe. Eu tenho dinheiro para pagar minhas próprias jóias, Gaara." Sorriu, erguendo-se e envolvendo-lhe o pescoço com ambos os braços.
As mãos geladas dele postaram-se em sua cintura, segurando-a próximo de si, e ela se arrepiou pelo contato, como acontecia sempre.
"Não tanto quanto eu tenho."
Ino se surpreendeu com a admissão. Seus olhos, naturalmente faiscantes, flamejaram para ele.
"Eu não vou pedir nada a você." Assegurou, o queixo erguido em sinal de orgulho.
Podia ser má vista por se relacionar intimamente com um Kage sem um compromisso, mas não precisava que a encarassem como se fossem uma aproveitadora. Não queria suscitar mais comentários desagradáveis. Não era miserável. Trabalhara durante muito tempo no ramo ninja e podia cuidar do próprio futuro.
Utilizar o dinheiro de Gaara para dar vazão ao seu prazer de comprar parecia, além de indevido, uma afronta às promessas que fizera a si mesma. Não queria nada de Gaara que pudesse ser comprado. Conquistara todo o afeto que precisava, e era isso o que realmente lhe importava.
A boca dele baixou-se para que massagear seu ombro com os lábios e ela suspirou ante a carícia.
"Não é disso que você gosta? Bobagens?" Ele perguntou, a voz rouca.
Ela por um momento aborreceu-se com o preconceito em suas palavras, mas deixou-o ir. Permitiu-se acariciar. Sabia que Gaara nunca a julgava.
"Sim, mas não preciso do seu dinheiro ou poder."
Ele apreciou a franqueza de Ino. Para a sua íntima surpresa, ela nunca lhe pedira nenhum centavo. Nem mesmo para um pequeno luxo, um presente simples, um artesanato que lhe agradasse na feira de Suna. Sempre fizera questão de pagar as próprias contas.
Aquele tipo de maturidade independente o espantava, porque ele sabia, assim como Ino sabia, que lhe daria o que quer que ela pedisse. Era seu dever mantê-la feliz e satisfeita e os meios para fazê-lo não deviam ser sequer contestados.
Soltando o fecho do seu sutiã, apertou-a nos braços.
"Faça amor comigo." Ela sussurrou, erguendo a cabeça para tomar sua boca com voracidade.
OIMPÉRIO&OIMPÉRIO
Gaara despertou com ruídos ininterruptos.
O corpo de Ino ainda estava recostado contra o seu, a respiração dela fazendo cócegas em seu tórax, e ele precisou empurrá-la suavemente para o lado para que pudesse se levantar.
Nu, livrou-se dos lençóis e descobriu a origem dos estalidos: a janela. Ao abri-la, deparou-se com uma das águias da Suna, mas não a que habitualmente lhe trazia as notícias enviadas por Baki. Ele estendeu o braço e a ave pousou sobre ele, erguendo a pata.
Retirando a mensagem, mandou-a embora. O animal logo sumiu no horizonte.
"Você tem uma festa marcada e é bom que apareça nela." Dizia. Gaara reconheceu a letra de Temari.
OIMPÉRIO&OIMPÉRIO
Enquanto procurava, dentro do armário, roupas para vestir, ele pensou que aquela talvez fosse uma boa oportunidade para apresentar oficialmente Danzou como seu novo general de exército e barbarizar um pouco mais aqueles velhos estúpidos.
Acreditava que, com sua aspereza natural, Danzou saberia lidar com qualquer insubordinação. Isso cortaria pela raiz o poder dos anciões, uma vez que o ex-ninja de Konoha atenderia apenas às suas ordens e não poderia ser subornado.
Esperava estar escolhendo o caminho certo.
Se Danzou não fosse bom o suficiente, ele não saberia mais a quem recorrer.
"Você está com problemas no seu país, Gaara?" Ino perguntou subitamente.
Ele terminava de preparar o almoço, com ela sentada sobre a mesa, as pernas dançando, sem alcançar os pés no chão, dentro de um blusão de lã. A temperatura caíra subitamente naquele dia.
Voltando-se para ela enquanto terminava de preparar o sushi, Gaara tentou supor o que instigara aquela curiosidade repentina.
"Sim." Respondeu, sacudindo a cabeça.
Ino sorriu, não se sentindo acuada pela falta de formulação.
"Você precisa de espiões, não?" Indagou.
"Sim." Concordou ele novamente.
"Por que você não solicita os Aburame?" Sugeriu ela. "Mesmo que a Hokage não possa cedê-los em nome da aliança entre os países do Fogo e do Vento, você pode solicitá-los por meio de missões internacionais."
Silencioso, ele observou-a e ela estreitou os olhos, aborrecendo-se com a análise muda.
"O que foi?" Perguntou, a voz áspera. "Estou errada?"
"Não. É uma boa idéia a sua." Anuiu Gaara, devagar.
"Eu sei." Disse ela, presunçosa. Deu um risinho, jogando o cabelo por cima do ombro. "Os Aburame são um dos melhores clãs de Konoha quando se trata de espionagem. Como você disse que estava com problemas, achei que talvez eles lhe fossem úteis."
"É." Assentiu ele, pensativo. "Serão."
OIMPÉRIO&OIMPÉRIO
Os olhos dele correram rapidamente pelo mostruário.
As jóias e as pedras adornadas nelas ofuscavam o que quer que estivesse lhe passando pela mente naquele momento. Gaara não se importava com preços ou tamanhos, apenas queria algo que combinasse com Ino.
A loira estava na floricultura, porque alegara ter uma encomenda para entregar naquela tarde, e, depois de ter aceitado sua sugestão e solicitado um Aburame por meio de missão, pagando uma quantia extra para garantir que seu pedido fosse executado sem demora, ele vira-se ali, em frente àquela loja.
Sabia que presentes não eram necessários. Ela mesma já frisara mais de uma vez a pouca importância daquele pensamento.
De todo modo, ele também sabia o quão deslocada ela se sentira naquele restaurante, durante seu jantar com Danzou. Embora Ino tivesse dinheiro suficiente para viver com conforto, não tinha o suficiente para prover-se de jóias verdadeiras.
Ele concordava que esbanjar dinheiro em bobagens era burrice, mas percebia que jamais lhe dera um presente sequer. Queria fazê-lo. Gostava de vê-la feliz. Ultimamente era como se houvesse um traço de infelicidade escondido por trás dos brilhos dos seus olhos.
Provê-la, além de satisfazê-la, significaria que a reconhecia. Não gostaria que pensassem que Ino era uma diversão momentânea, afinal, ela seria a mãe do seu filho.
Uma vendedora aproximou-se, sorrindo ao reconhecê-lo era.
"Olá, em que posso ajudá-lo?" Perguntou, solícita.
"Safiras." Disse Gaara, sem corresponder ao sorriso que recebeu. "O que você tem com safiras?"
Ele ficara satisfeito ao encontrar o colar de ouro branco, incrustado por uma enorme pedra azul, que certamente reluziria à cor dos olhos de Ino.
"Eu quero essa." E a vendedora lhe sorrira mais uma vez, porque sabia que ganharia uma enorme comissão diante daquela venda.
Com a caixa de veludo no bolso, Gaara voltou para casa.
OIMPÉRIO&OIMPÉRIO
Ino enxugou os cabelos loiros na toalha, retirando-lhes um pouco da umidade.
O vapor do chuveiro, ligado minutos atrás, embaçara o espelho e ela não conseguia observar o próprio reflexo. A toalha deslizou pelo seu corpo, secando-o, antes que ela se enrolasse e seguisse para o quarto.
Sentia-se mais leve após ter se livrado do adubo e da areia.
Preguiçosamente, vira-se obrigada a voltar para o trabalho naquela tarde. Havia encomendas a serem entregues e pessoas a serem atendidas. Como a mais conhecida floricultura da Vila, seus trabalhos eram constantemente requisitados.
A única concorrente que tinha era suficientemente forte para roubar parte dos seus antigos clientes. Mas Ino não achava que a concorrência fosse algo ruim. Não estava mais dando conta da demanda, mesmo nos dias parados, e em breve teria de trancar a loja por tempo indeterminado para que pudesse ter o bebê.
Mesmo após tanto tempo com o estabelecimento fechado em razão da morte de Inoshi, acreditara que ele tornaria a fazer sucesso quando reaberto, e acertara. Os Yamanaka tinham prestígio no comércio de flores e eram respeitados por seus belos arranjos. Não tivera problemas para se reintegrar ao trabalho, tão logo entregara panfletos referentes à reinauguração.
Espreguiçando-se, recordou-se de que precisaria cuidar da contabilidade e lucros naquela noite.
Gaara ainda não havia voltado para casa quando Ino acomodou-se no sofá e pegou a calculadora.
Quinze minutos de cálculos foram o suficiente para que ela bufasse, furiosa.
"Essa droga não bate." Reclamou para o silêncio da sala, amassando uma folha e jogando-a fora com raiva.
"O que você está fazendo?" Ouviu.
Com o lápis entre os lábios e uma expressão de aborrecimento, ela ergueu a cabeça para encarar o ruivo recém-chegado.
"A contabilidade." Disse, desgostosa.
Ele largou as chaves e uma caixa de veludo sobre a mesa de centro antes de aproximar-se, sentando-se ao seu lado. O vento frio fizera com que suas bochechas adquirissem um leve tom rosado.
"Dê-me os papéis." Mandou, estendendo o braço.
Ino quase soltou um suspiro de alívio ao fazê-lo.
Recordava-se que era sempre seu pai quem cuidava daquela parte. A recordação de que estava sozinha a fez tremer, mas ela logo seguiu a linha de pensamento: agora ela precisava cobrir todas as partes da administração, inclusive aquelas que detestava.
Os olhos de Gaara estavam tranqüilos enquanto ele analisava os documentos. Ela, ao contrário, mordiscou o lábio, nervosa.
"Seus lucros estão baixos." Ele pareceu pensativo por um instante. "Apesar do excesso de clientes, você recebe pouco. É porque cobra pouco, quase a preço de custo. O material, a cerâmica, os instrumentos, o adubo... É comprado fora da Vila e em pequenas quantidades."
Ele pegou o lápis, passando a fazer anotações, um pouco disperso.
Lidar com números era algo quase inato da sua personalidade. Quase tão fácil quanto respirar. E a aproximação com a gerência da Vila da Areia maximizou as suas habilidades latentes, de modo que agora tinha um olhar a longo prazo para qualquer estabelecimento comercial.
Sabia dizer se algo daria ou não lucro após uma curta análise de mercado. Era uma capacidade que costumava deixar Kankurou extasiado. Ele sempre reclamava da sua falta de sorte com relação aos investimentos.
"Se você encomendar quantias relevantes, as fornecedoras poderão vender a preço de fábrica, o que lhe renderá estoque e dinheiro extra." Explicou.
Ino franziu as sobrancelhas. Há um bom tempo vinha pensando em expandir, mas não tinha capital para fazê-lo. Outras necessidades mais imediatas exigiam a sua atenção.
"Não posso solicitar grandes carregamentos. Não teria como comportar tudo."
"Esse é o problema, Ino." Naquele momento, ela sentiu-se em uma das reuniões de negócios das quais ele participava, tão impessoal e sossegado, e não gostou daquela sensação. "Sua família tem renome no ramo. Você precisa expandir a floricultura, aumentar a demanda, subir os preços e contratar mais empregados."
Ela suspirou.
"Você sabe que eu não tenho dinheiro para obras agora. Meus lucros ainda são pequenos."
Um brilho nebuloso tomou conta dos olhos dele.
"Eu pago para você." Disse.
Ino ergueu-se do sofá como se picada por uma formiga, furiosa à mera sugestão.
"Não!" Gritou, batendo os braços ao lado do corpo. "Eu já disse que não quero o seu dinheiro, você entendeu?" Grunhiu. "Já falei que não preciso do seu maldito dinheiro. Eu trabalho, você entendeu?" Nervosa, não percebeu estar se repetindo. "Não preciso da sua caridade." Disse então, desgostosa.
"Tudo bem." Respondeu Gaara, tranqüilo diante daquela explosão de humor. Não era como se não a esperasse, afinal. "Então um empréstimo." Sugeriu. "Com juros." Acrescentou, vendo que ela abria a boca para protestar.
Ino teve de ceder à proposta. Era razoável, embora levada por sentimentalismo. Seria estúpida se sequer a considerasse. Pareceu pensativa por um segundo.
"Juros de quanto?"
"Os usuais 5 por cento." Gaara deu uma pequena pausa, dando-lhe tempo para protestar, e relaxou ao perceber que Ino parecia mais maleável agora que descobrira que não se tratava de um presente oneroso. "Será um investimento pessoal. Eu acredito que a Floricultura Yamanaka pode ser muito rentável." Disse, optando por amaciá-la.
Ino lhe lançou um olhar irônico, como se caçoasse do tipo de investimento pessoal que ele pretendia fazer, mas não se atreveu a contestá-lo.
"Vou desviar o dinheiro do banco da Suna direto para a sua conta e você acertará os pormenores com o responsável, está bem?"
Ela lhe deu as costas, observando a rua pela janela embaçada.
"Eu vou pensar."
Ele pousou os documentos ao seu lado, sabendo que aquilo era o máximo que conseguiria de Ino naquela noite. Lançou um curto olhar à pilha.
"A cerâmica não é tão valorizada no meu país quanto no seu." Disse, a voz áspera. "Seria melhor se você a importasse diretamente de lá. Precisaria, é claro, atender às exigências cambiais e fiscais, mas isso não é problema."
Passando a mão pelo cabelo, ela pensou que aquilo estava adquirindo dimensões grandes demais para alguém que não tinha a menor noção de como controlar financeiramente um estabelecimento comercial. Gaara não poderia engrandecer sua floricultura a ponto dela precisar lidar com grandes públicos.
Ao suspirar, postou as mãos na cintura. Tinha um filho para criar. Precisaria se arriscar. Aprenderia a lidar com a contabilidade com o tempo, se fosse necessário.
"Eu não tenho uma conta no banco." Disse, de repente, olhando-o por cima do ombro.
Ele deu um de seus pequenos e quase imperceptíveis sorrisos.
"Nós criaremos uma." Garantiu. "Onde estão os demais papéis da floricultura? Eu preciso saber quem são os seus fornecedores." Falou.
Quando ela sumiu do cômodo, atrás do que ele pedira, Gaara pensou que precisaria esperar para entregar seu presente.
Talvez por jamais terem tocado em assuntos relacionados ao dinheiro, ele não esperara se deparar com uma barreira tão forte. Mas ele deveria ter desconfiado, uma vez que Ino sempre se mostrara presunçosa demais para aceitar qualquer coisa que julgasse ser piedade alheia.
Voltando os pensamentos para floricultura, percebeu que teria um longo trabalho e pouco tempo para executá-lo.
