Oi, meninas! Finalmente postei mais um capitulo! Sintam-se a vontade e deixem reviews (eles praticamente fazem meu dia)... Aproveitem!
- Alô...
- Senhor Ilusão?
- Ah, é você, Alfred...
- Puxa, que voz mais desanimada! Acho que eu merecia um pouco mais de entusiasmo por ter ficado a manhã inteira procurando minha ilusão. Onde você se escondeu?
- Acho que você não tem nada com isso, Alfred.
- Isso é o que se pode chamar de um fora. Só que eu sou surdo à palavra não. Eu insisto até ouvir o sim que eu quero ouvir.
- Olhe, eu perdôo a sua insistência se...
- Não quero que você perdoe. Quero que você a aceite!
- Desculpe, Alfred, é que hoje eu não...
- Como fazer para dobrar você, Arthur?
- Você já sabe o meu nome?
- Sei muito mais. Sei que você está triste e sei também que você está com a tristeza errada.
- Como sabe disso?
- Certas coisas não se precisa saber. Basta sentir.
- Pois você sente errado. E não tem nada que se meter comigo. Me deixe, tá legal? Esqueça-me!
- Eu nunca vou esquecer daquela noite, naquele jardim...
- Tchau, Alfred.
O fone já estava longe do ouvido de Arthur, pronto para ser violentamente desligado, e o rapaz não pôde ouvir a última frase de Alfred:
- Eu quero você, moleque malcriado!
- Como é? Será que o feioso, que a menininha, vai aprender a lição?
O rapaz encontrou o inimigo especialmente cruel. A rachadura partia-lhe o rosto em dois, deformava-o, agravando e justificando a crueldade.
- Então você acha que Francis ia olhar para você com olhos diferentes daqueles com que se olha o priminho? Priminho...
Arthur estava sem defesa. Dizer o quê? Defender-se como, se, naquele momento, tudo o que ele desejava era nunca ter nascido?
- O grande escritor! O grande poeta que cria versos de amor para ajudar o rival a roubar-lhe o namorado! Burro... Trouxa... Vamos! Diga que ama Francis. Diga-o com as palavras mais fortes, use os termos mais sinceros, arrebente a alma no papel! Quanto melhor você fizer, mais Francis vai ficar apaixonado... por Feliciano!
Sobre a pequena mesa de trabalho, lá estava mais uma carta. Mais um ofertório da própria vida de Arthur para Francis. Ele se punha em suas mãos, mas seria Feliciano que Francis iria abraçar.
Ao lado da carta, uma pilha dos seus livros preferidos. Paul Valéry, Vinícius, Ferreira Gullar, Garcia Lorca, Pablo Neruda... Quantos amores já haviam sido conquistados com as palavras daqueles poetas? Será que eles também sentiam o mesmo desespero que ele? O mesmo ciúme? A mesma vontade de morrer?
Impossível sentir tanto ciúme e tanto desespero por tantos amores desconhecidos. O seu caso era diferente. Só havia um namorado a conquistar. E ele o estava conquistando... para outra!
Despiu-se lentamente. Abriu o chuveiro e deixou que a água morna corresse farta por todo o corpo, na esperança talvez de lavá-lo por dentro, limpando aquela tristeza tão imensa.
Enxugou-se em frente do inimigo, sem vergonha do que ele pudesse dizer. Amanhã, no cinema, Francis estaria lendo a carta, apaixonando-se ainda mais por Feliciano, distanciando cada vez mais a esperança de, um dia, prestar maior atenção a Arthur. Arthur, o priminho, o amigo feioso, o escritor que parecia uma menina, o cupido de espinha no nariz.
Aproximou-se do inimigo rachado, disposto a eliminar pelo menos a espinha. Mas ela não fora muito grande e já havia secado. Tateou o rosto em busca de outra. Era tão feio assim aquele rosto? Tão repulsivo que um garoto como Francis não podia encontrar nada nele que o atraísse? E aquele corpo? Estava mesmo gordo? Tinha aquelas curvas, aquelas saboneteiras, aquela penugem sensível à carícia em sentido contrário, como dizia Vinicius de Moraes? Não seria atraente aquele peito pequeno e sem pelos?
"Vem, Francis, me acariciar... Vem me buscar inteirinho, Francis...'"
Naquele momento, talvez Feliciano estivesse pensando no mesmo rapaz com a mesma intensidade. Arthur sentiu como se estivesse traindo o amigo, ambos partilhando o mesmo leito com o mesmo sonho, a mesma paixão, a mesma entrega.
Ah, aquele beijo, naquele jardim... Teria sido a escuridão a benfeitora que transformara sua feiúra em fascinação e permitira que, por um instante, Francis se sentisse atraído por ele?
Aquele beijo.. , a pele cheirosa daquele peito de sonho em seus lábios... a correntinha a roçar-lhe o rosto... o hálito acariciante se aproximando... os lábios quentes procurando a umidade dos seus...
Ah, bendita penumbra que lhe permitiria, ao menos uma vez, a ventura de abandonar-se naqueles braços adorados! Depois, porém, com a mesma penumbra, no laboratório, tudo tinha sido diferente. Só houvera decepção, dor, catástrofe.
"Ah, Francis amado, por que não me tomou novamente, como seu boneco, naquele laboratório gelado, no meio das formas mumificadas, do formol, no meio dos ácidos e das fórmulas, das cobras e das aranhas? Da Linamarina? No meio da Linamarina, do pó branco dos sonhos destruídos, das garotas presas em frascos, da Lina e da Marina, da Linaarthur, da Arthurmarina, da Linaranha, Marinaranha, aranhaarthur, cobrafrancis, aranha e cobra... Ai, cobra e aranha, aranha e cobra, a aranha quer a cobra, a cobra busca a aranha, a aranha se debate na gaiola de vidro, vai quebrar-se o vidro, já vem vindo a cobra, vem, Francis, me abraça, me enlaça, me arregaça, me enleia, tateia, procura, me aperta, me pega, me toma, te amo, sou seu, estou nu, te quero, te pego, te levo comigo, me leva contigo, me faz viver, me faz feliz, me faz totalmente seu! Ah, Francissssss... Ahhh..."
