VII. Mais vale um pássaro na mão…
Fiquei especada no meu lado do campo de batalha sem saber ao certo como reagir. Tinha derrotado os dois Pokémon do líder de ginásio. A batalha estava ganha!
Naquele momento sentia uma torrente de emoções, como nunca tinha sentido, passar por mim: orgulho de mim e dos meus pokémon pelo trabalho bem feito, alivio por tudo ter acabado da melhor forma sem nenhum ferimento grave e sentia-me sobretudo eternamente agradecida a Don por toda a ajuda e incentivo que me havia dado, sempre incansável, e com uma palavra amiga sempre pronta. Queria correr para ele e abraça-lo e, quando dei por mim, era precisamente isso que estava a fazer. Como é que isto aconteceu?
Foi com o riso calmo de Don e com as suas mãos nas minhas costas que acordei daquele semi-transe em que tinha entrado sem me aperceber. Compus-me rapidamente e olhei para ele sem saber muito bem o que dizer depois daquele momento embaraçoso.
Por esta altura já não me devia surpreender que as reacções dele não correspondessem ao da restante população mundial. Mesmo assim foi com algum espanto que reparei que ele não só parecia estar á vontade como que não tinha perdido, ao contrário de mim naquele momento, a capacidade de falar.
- "Aquilo é que eu chamo uma viragem radical do jogo. Se não soubesse que entraste em pânico achava que era manobra de distracção."
Por esta altura já havia desistido de lhe chamar bruxo. Para quê?
Não tive tempo de responder porque nesse preciso momento senti uma mão pousar-me no ombro. O líder de ginásio, que ao ver a minha reacção me deve ter dado algum tempo para me recompor, vinha entregar-me o pequeno tesouro que tinha ganho: o meu primeiro crashá. Pequenino, cinzento, em formato de rocha, poderia ser confundido com um dos muitos trabalhos artesanais da cidade de não fosse o logótipo da liga gravado na parte de trás bem como o nome do líder de ginásio e alguns números que deviam corresponder a alguma burocracia ou termo de legalidade.
- "Para um primeiro combate oficial não está nada mal. Por momentos pensei que tanta evasão fazia parte da estratégia. Espero que leves daqui uma pequena lição do que te espera em futuros combates oficiais. A partir daqui a dificuldade tende a aumentar."
Afinal eu devia ser mesmo óbvia.
Com um aceno de cabeça quase imperceptível o austero líder retirou-se.
Assinei um último formulário e sai, finalmente, da prisão de pedra em que passara as últimas quatro horas, cansada, com o meu primeiro crachá e com a sensação que tinha envelhecido uns bons dez anos.
- "Almoçamos? Que dizes, tens fome?" Don parecia genuinamente feliz com a minha vitória. Conseguia ver nos olhos dele uma mistura de orgulho com algo que não consegui identificar. Naquela altura percebi o quão faminta estava.
- "Alinho. Mas preciso de deixar estes meninos a descansar."
- "Podemos almoçar pelo centro. E que tal dar um nome ao grande herói do dia?"
Agora que ele falava nisso confesso que não sabia o sexo do meu oddish. Tinha de perguntar à enfermeira. Afinal não lhe podia dar nomes ao engano!
Foi a caminho do centro que vi pairar acima de mim uma sombra que em tudo se assemelhava a um pequeno pássaro. Percebi então que pairar era mesmo o termo adequado. O pequeno pássaro parecia ir em queda lenta até ao solo que já não se encontrava a uma grande distância.
Foi sem pensar duas vezes que corri, de braços estendidos, os poucos passos de distância que me separavam do pequeno animal. Eu hoje devia estar em modo automático!
Uma vez nos meus braços pude confirmar que se tratava de um pidgey gravemente ferido mas vivo. A enfermeira do centro ia ter mais um com que se entreter.
