Capítulo VII – Ilusões Passadas
"Eu não me importo de onde você vem,
desde que você venha para mim.
Eu não gosto de ilusões,
eu não consigo vê-las claramente."
Sick Puppies – All The Same
Anteriormente...
Algo dentro de mim dizia-me que eu tinha o direito de passar o dedo em seu rosto e afastar aquela lágrima dali. Mas após fazer isto, outra parte de mim dizia-me que já não tinha mais esse direito há anos...
- Kaka... – Era só isso que ela conseguia falar?! Senti minhas mãos soarem frio, tinha um certo receio por ter dito isso tarde demais. – Kakashi-kun? – Céus! O que há de errado com meu nome?!
- Diga o que há Jun?
- SEU TARADO FILHO DA MÃE!
- Oh inferno... – Sussurrei a mim mesmo, não convencido de que teríamos essa discussão novamente...
Eu já não sabia se meus olhos marejavam pelas lembranças ou pela dificuldade de engolir.
Ele está olhando-me daquele jeito. O mesmo olhar ao qual eu não via há sete anos! Eu era tão ingênua, mas ele nunca se importou, ou melhor, nunca notou.
- O que você quer aqui? – Minha voz não saiu tão agradável aos ouvidos quanto eu queria.
- Eu já lhe disse, vim trazer o sorvete.
- Já trouxe... Porque continua aqui? – Apontei para porta, educação nunca foi uma virtude minha, e não seria a sua presença que mudaria isso.
- Eu... – Ele sorriu irônico e suspirou longamente. – Eu vou indo... – Seus olhos não estavam dirigidos aos meus e sim aos próprios pés.
- Arrogante tal qual Sakumo dizia... – Sussurrei com a intenção de não ser ouvida, mas ele sempre ouviu, não seria diferente agora.
Ele disse que estava de partida, mas senti que seu corpo se aproximava do meu, pois seus dedos se tocaram os meus. Desviei-lhe o olhar.
Novamente, ele sorriu irônico e deu-me às costas.
– E você está errada. – Sua voz soou baixa naquele cômodo. – Eu não sou tudo o que dizem Jun.
Ouvi um suspiro. Apenas o último suspiro que eu ouviria dele naquele dia e depois... Mais nada além de uma porta sendo fechada à minha frente e os passos que foram se esvaindo para longe.
Não posso mentir e dizer que não me abalei com tal frase dita sofregamente por aqueles lábios. Eu vi claramente longos dez anos passarem em um flash por minhas pálpebras... Como se meu cérebro fosse um projetor e minhas pálpebras a tela, apenas esperando para que a luz se apagasse e o filme começasse a rodar. Sem cortes e sem censuras.
As lágrimas, os sorrisos, as palavras, os gestos... Os arrependimentos, as gratificações, as decepções... O ódio, a amizade, a insegurança e por fim... A solidão.
Por mais que tenha eu passado cada noite daqueles dez anos com uma mulher diferente, pela aurora era somente eu e minha própria solidão...
Mas não agora. Eu amadureci e ela também. Não farei as mesmas retaliações de antes.
Eu tenho alguns metros de papéis para assinar e um filho, apesar de não ser meu, para criar e esses pensamentos não me ajudam em nada.
E o que Senji queria afinal? Trazê-la para cá? Depois de ele mesmo ter exigido que eu nunca mais sequer a olhasse novamente, ele a trás para baixo de minhas vistas e ainda me faz propostas descabidas, praticamente jogando-a para mim? Ou será que eu é quem estou sendo jogado novamente a ela? Como um simples e fútil objeto inanimado, sem sentimentos... Sem um coração?
Eu realmente aparento ser tudo o que dizem? Todas as severas comparações para com Sakumo são a mais pura e fria verdade? Sorri irônico. Como se algum dia eu tivesse parado par dar atenção ao que dizem sobre mim... Mas logo... Logo ela que sequer falava seu nome a minha frente?
Ela que, quando menor, dizia que a única coisa a qual eu poderia ser comparado a ele era pelas madeixas.
Sacudi meus pensamentos firmemente. Eu não seria novamente seu pequeno brinquedo de tortura psicológica e emocional a mercê de uma ninfeta que se faz de inocente, quando na verdade é incapaz de medir a dimensão das próprias lágrimas!
Fui tolo no momento em que a peguei nos braços e, acariciando sua cabeça, pensei que, talvez, ela não pudesse ser mais cruel quanto da última vez.
Talvez eu tenha apelado para o seu ponto fraco sem necessidade... É a primeira vez que faço isso e, a medir pela dor do arrependimento que minhas palavras trouxeram-me, gostaria que fosse a última.
Os olhos cinzentos diziam apenas duas coisas: decepção e dor. Exatamente como da última vez... Eu o decepcionei... De novo.
Não! Eu não devo me sentir culpada, ele apenas acaba de colher tudo o que plantara há anos atrás! Se ele pensa que ficarei inerte como antes, está enganado! Mostrarei o quanto amadureci e o quanto sou alheia a seus sentimentos. Sorri sem esconder o sadismo de meus pensamentos. Eu o farei sofrer de tal maneira que ele jamais esquecerá.
Já estava encharcado... Não havia um centímetro de mim que ainda não tinha sido atingido pelos pingos grossos e pesados da chuva.
Deixei meus olhos se perderem entre os carros enquanto o sinal se fechava para minha passagem... Talvez eu devesse ter um carro, pensei ao ver um casal jovem e uma criança ao banco de trás de um desses lançamentos do ano. Não seria difícil idealizar-me dentro de um carro assim... O problema seria criar a imagem de mais alguém dentro dele além de eu mesmo e minha solidão...
Ergui a viseira do capacete para ter uma visão melhor... Aquele sinal parecia levar anos para mudar.
O dia começou tão ensolarado, não pensei que cairia tanto água assim por isso não pus uma jaqueta ou algo do gênero. Apenas a camisa social que, além de ter sido levemente destroçada por Tsunade, era de um tecido fino e acabara ficando toda encharcada... O pior que poderia acontecer é eu conseguir um resfriado.
O buzinar grave do caminhão por trás de mim despertou-me dos pensamentos.
Faltavam pouco mais de três quadras a percorrer para que eu finalmente chegasse em casa... Foi em alguma curva dentre essas três quadras que eu olhei-a nos olhos... Não. Não poderia ser ela? Ali?
Quis dar volta, mas o retorno só estava na próxima esquina! Virei minha cabeça para trás, querendo vê-la novamente... Nada. Uma simples calçada empoçada e vazia. Pus meus olhos de novo no trajeto.
Talvez fosse o excesso de cafeína que esteja dando-me alucinações? Respirei fundo enquanto diluía os pensamentos absortos e dobrava por outra esquina.
