Apanhámos o autocarro e fomos deixados na entrada da nossa escola. Víamos o grande portão e por trás daqueles muros imponentes estava o edifício em si. Era bastante grande. Entramos e fui de imediato para a minha sala. É claro que passei pela sala de convívio, mas não queria ficar lá. Ali não era um sítio para pensar, tinha sempre muito barulho de fundo.

–Susan. – olhei para trás e parei.

–Oh, olá Miriam.

–Olá Susan. Porque é que não foste ter connosco à sala de convívio, sabias que estávamos lá.

–Desculpa Miriam, nem sequer vos vi, estava distraída.

–Não te preocupes com isso agora. Vamos chama-las?

–Sim.

Acabamos por ir para a sala de convívio. Lá se ia o meu plano de pensar num sítio calmo por água abaixo.

–Olá Susan. – disse Elizabeth.

–Olá Elizabeth, Claire, Matthew,

–Oh, olá Su. – Claire estava distraída a falar com Matthew. Por isso é que não me tinha visto chegar.

–Seja bem-vinda Susan. – disse Matthew num tom trocista.

–Obrigada Matthew. – respondi-lhe da mesma maneira.

Matthew tinha o cabelo preto liso e uns profundos olhos azuis da cor do céu quando não há nuvens. Também possuía um sentido de humor bastante peculiar, isso e a sua inteligência faziam com que as raparigas não se aproximassem dele, apesar de ele ser um rapaz bastante bonito.

Ele era da nossa turma, mas pertencia ao grupo de Edmund. Admirarava-me que ele se desse tão bem com rapazes mais novos do que ele. Quando Matthew não estava com eles, andava à nossa volta, a chatear-nos.

Apesar de às vezes reclamarmos com ele, todas gostávamos dele.

–Susan, Susan. – era Claire.

–Desculpa, estava a pensar.

–Eu reparei. – todos começaram a rir-se a bandeiras despregadas.

–Bem, como eu estava a dizer. – falou Matthew. – Nem tudo são más notícias … - eu interrompi-o.

–E quais são as más notícias?

–Ah, pois é Su, estavas noutro mundo, não é? – Lancei-lhe um olhar furioso. – As más notícias é que começou a chover. – continuei com o ar amuado. - Oh Susan, não vais ficar chateada, pois não?

–Tens sorte que hoje não estou para me chatear.

–Continua Matty. – Foi Miriam a falar. Era a única que lhe chamava Matty, eu achava aquilo um pouco estranho. Mas o que eu achava mais estranho acima de tudo era o facto de ele não reclamar com isso. Ele normalmente fazia piadas com todos os assuntos imagináveis e possíveis.

–Continuando. As boas notícias, ou melhor, a boa notícia é que a Mrs. Bennet hoje não vem dar aulas porque está doente.

–Essa é que é uma boa notícia Matthew! – Falou Claire.

–Parece que temos companhia. – comentou Elizabeth com ar aborrecido.

Aproximaram-se de nós os amigos de Matthew, incluindo o meu irmão, Edmund. O melhor amigo de Matthew, Charles falou:

–Matthew, onde tens estado?

–Estive aqui o teeempo todo.

–No meio de raparigas?

–Não. Isto são rapazes disfarçados de raparigas.

–Não tens piada Matt. – disse Charles com um sorriso enorme na cara.

Charles podia ser bonito, com o seu sorriso perfeito, com os seus cabelos aos caracóis acastanhados e com os seus olhos escuros, mas estava rotulado devido ao grupo onde se inserira. Todos os que pertenciam aquele grupo eram chamados de "Os palermas", ou "Os idiotas". Apesar de serem rotulados assim eram populares. Não me surpreendia que Edmund se tivesse inserido ali. Todos os que estavam naquele grupo tinham um pouco a mania de que eram engraçados.

Matthew acabou por se levantar e juntamente com Charles, juntar-se ao tal grupinho. Conseguia ver que Edmund estava lá, juntamente com Bray, Dempster e Grayson. Daqui a algum tempo falar-vos-ei melhor destes três.

Não estavam presentes todos os "membros" do grupo. Mantinham uma conversa bem animada, mas o meu olhar percorreu a sala e fixou-se em Peter. Fiquei sobressaltada quando reparei que alguém ao lado dele estava a olhar para mim. Era William.

Senti-me a corar e desviei logo o olhar. Sentia-me mal não ter falado com William desde o dia em que eu o abracei. Simplesmente eu não tinha coragem para o fazer. Gostava demasiado dele para o magoar.

Apesar do barulho e da minha dor de cabeça que cada vez ia aumentando mais, tinha de pensar bem no que ia fazer naquele dia.

Tinha de ir ter com Sirama. Mas não era o dia combinado. Será que aquela voz era confiável? Podia ser apenas a minha imaginação a falar mais alto. Estava demasiado confusa.

Estava decidido. Tinha de ver Sirama, tinha de a ver. Ela era a minha única ligação que tinha com Caspian. Tinha de correr o risco. Tinha de o fazer.

As aulas acabaram e eu precipitei-me para a saída, apressando o passo. Quando estava quase a chegar ao portão de entrada, ouvi uma voz ao longe.

–Susan! Susan!

Reconheci imediatamente a voz, era Claire. Parei e virei-me. Vi-a ela a correr na minha direcção. Quando me alcançou estava com a respiração descontrolada.

–Susan, tu não vinhas comprar as fitas?

Esquecera-me completamente. Mas já lhes tinha prometido que ia. Aquilo alterou o meu plano. Iria com elas comprar as fitas e depois rapidamente iria ter à loja de Sirama.

Apanhamos o autocarro e fomos deixadas perto da loja, tínhamos de andar muito pouco.

Quando finalmente estávamos na rua pretendida, conseguia ver a grande tabuleta por cima da loja de tecidos que dizia "Penley's". Penley era o dono da loja.

Entramos. A decoração daquele lugar era bastante simples. As paredes eram brancas e a mobília bege. Estava tudo muito bem arrumado. Em frente à porta de entrada estava um grande balcão onde o Sr. Penley estava a ter uma conversa entusiasmada com uma cliente. Aquela loja tinha duas "divisões". Uma em que só estavam mesmo tecidos, mas essa era aquela onde nunca entravamos, embora fosse sempre onde estavam mais clientes.

A que nos interessava, era a divisão mais pequena, onde se efectuavam os pagamentos. Ou melhor, a que se encontrava logo depois da entrada. Onde estava o Sr. Penley a falar com a cliente.

Via simples manequins usando roupas já feitas e alguns tapetes pendurados na parede.

As quatro atravessamos a divisão e obviamente, quem estava na frente a liderar, era Elizabeth. Chegamos a uns balcões que tinham pequenas coisas expostas, como linhas, objectos para costurar, botões, fechos, cintos. E claro, fitas.

Da última vez que estivéramos ali não havia tanta variedade de cores. Só havia pretas e laranjas. Mas agora havia vermelhas, roxas, brancas, verdes, azuis, castanhas …

É claro que Elizabeth entrou em histeria quando viu que havia verdes. Começou logo a ver quais eram as melhores.

–Ainda bem que chegaram verdes. São todas tão bonitas que acho que nem consigo escolher.

–Vais ter de escolher. – Disse Claire agarrando em meia dúzia de fitas à sorte.

–Acho que vou levar uma preta, ou uma branca. Tem de ser uma que dê com todas as cores. – Miriam parecia muito séria.

–Preta é uma cor tão morta. É melhor levares uma branca Miriam – Sugestionou Elizabeth.

–Acho que é o que vou fazer. E quanto a ti Susan, de que cor vais levar?

–Vou levar vermelha. Já há algum tempo que queria uma que combinasse com o uniforme.

Depois de todas estarem todas escolhidas, fomos pagar.

–Boa tarde meninas, em que posso ajuda-las?

–Boa tarde, - respondemos nós em uníssono. Elizabeth foi a primeira a pagar.

–Bem, queria estas três.

–Muito bem menina. – ela acabou por comprar uma verde turquesa, uma verde escura com pintas brancas e uma azul clara.

Depois foi Claire que pagou, seguida por Miriam. Finalmente fui eu e acabamos por sair da loja.

Elas fizeram questão de me "escoltar" até casa, apesar de eu dizer mais do que uma vez de que não era necessário.

Esperei que elas virassem a esquina para subir rua acima. Precisava de me apressar, ainda estava longe. O meu coração batia mil à hora.

Quando finalmente cheguei à rua pretendida, hesitei e parei. Fiquei parada ali no meio da rua com o olhar fixado no chão. As pessoas não se importavam e passavam por mim como se não estivesse ali.

O meu "transe" continuou até ser interrompido por uma voz. A voz parecia tão distante que me fazia lembrar um sonho.

–Menina, menina. – era um homem de meia-idade. Via-se que era abastado e provavelmente devia estar a regressar a casa.

–Ah. Desculpe. Eu, eu … - não consegui terminar a frase. Quanto tempo teria ficado ali? Minutos? Horas?

–Está bem? Estava muito quieta. Parecia estar numa espécie de transe. – estremeci. Aquilo acontecera-me sem que eu pudesse evitar.

Antes de eu conseguir justificar o meu estranho estado, tudo escureceu. Acordei deitada no meio da rua. Estava um grupo de pessoas à minha volta. Ao levantar-me apercebi-me que estava com uma forte dor de cabeça. Tentei manter-me direita, mas cambaleava. O estranho que me oferecera ajuda voltou a falar-me:

–Está bem? Quer que a leve a um hospital?

–Não, não. Eu estou bem. Apenas estava fraca. – menti.

–Foi por causa de não comer há já algumas horas? Se quiser podemos passar no café e posso-lhe oferecer algo para comer.

–Sim, penso que foi isso, mas eu estava de regresso a casa. Por isso não será necessário oferecer-me alguma coisa para lanchar. Mas obrigada na mesma.

–Mas pode desmaiar pelo caminho – por acaso, era um ponto bem visto, mas eu tinha de ir ter com Sirama. Tinha de o fazer.

–Isso é pouco provável porque eu moro ali logo ao virar da esquina. – menti.

–Então nesse caso, boa tarde menina.

–Obrigada por tudo.

–Não precisa de agradecer, fiz apenas o que qualquer um faria.

E o homem que me oferecera ajuda deu meia-volta e foi-se embora. Também eu continuei o meu caminho.

Estava cada vez mais próxima da loja de Sirama. E se ela não estivesse ali? Quando finalmente estava em frente ao local desejado, encostei a mão à porta e, para meu alívio, a porta abriu-se.

–Sirama? – perguntei eu com timidez.

Ninguém respondeu. Fui dando alguns passos até que vi a longa trança de cabelos negros.

–Susan, - Disse ela com alguma admiração- não te esperava ver aqui.

–Não foi Sirama quem mandou o mensageiro?

–Que mensageiro? Susan, eu não mandei nenhum mensageiro. Por acaso é intrigante, como é que foste saber que eu estava cá? Mas eu também não vou ficar aqui muito tempo. Amanhã partirei outra vez. Fala-me desse tal mensageiro.

Deu-me um aperto no coração. Ela ainda não tinha encontrado Aslan.

–Não o vi. Era apenas uma voz. Disse-me que estavas aqui e falou-me de outras coisas. Ele dava a entender que sabia muito.

–Hum.

Se Sirama sabia de algo, não me iria dizer.

–Toma isto, não tencionava estar contigo, mas já que vieste até aqui hoje – entregou-me uma carta para a mão. – Não sei quando voltarei, Susan. - Na carta conseguia ler numa letra bem polida "Susan". Deu-me uma enorme vontade de chorar, mas engoli as lágrimas. Comecei a tremer. Era de Caspian.