Luna acordou se sentindo a mais feliz das mulheres. Olhou para o homem adormecido ao seu lado, e num gesto carinhoso, afastou alguns fios de cabelo do rosto dele e sorriu. Snape não era o mais belo exemplar de homem, mas era charmoso, inteligente, corajoso, habilidoso, e porque não dizer agora, seu. Levantou-se, vestindo a camisa branca dele, e foi até o banheiro. Lavou o rosto, prendendo os cabelos loiros no alto da cabeça, e depois voltou ao quarto. Ele ainda dormia. Buscou a varinha em sua capa e conjurou um café da manhã; ajeitou sobre a bandeja os bolinhos, os pães, o chá, o café e o leite. Lembrou-se por fim das frutas e do suco, e num novo gesto de varinha, fez com que surgissem. Mordeu o lábio inferior, analisando a figura do homem deitada sob os lençóis, enquanto levava o café até a cama. Posou suavemente a bandeja ao lado dele, enquanto ajoelhava ao lado da cama, e beijou-o nos lábios. Ele retribuiu carinhosamente e abriu os olhos devagar. Aos poucos, o contorno do rosto de Luna se tornou nítido e ele crispou os lábios.
― Bom dia, Severo - disse suavemente enquanto sentava-se ao lado dele, trazendo a bandeja para mais perto, e continuou: - Eu não sei ainda do que realmente gosta, mas eu...
― Resolveu engordar-me? – interrompeu-a, dando-lhe um sorriso de canto de boca. - Bolos, pães, chá... Isso é uma orgia alimentar, senhorita Lovegood. - Ele a viu ficar surpresa e tratou de acrescentar: - No entanto, estou com um enorme apetite e inclinado a abrir um precedente a seu favor.
― Seu, bobo - protestou rindo, e como uma criança sapeca, empurrou-lhe o corpo. Depois cruzou as pernas, encostando-se nele. - Achei que ia me dar uma bronca - ela estendeu a mão até a bandeja, pegando um pão. - Estou morta de fome.
― Não me admira - rebateu cínico -, seu apetite ontem era insaciável. O que me faz lembrar de uma coisa, temos que tomar certas precauções em relação ao nosso pequeno envolvimento.
― Como assim... pequeno envolvimento? - os olhos dela escureceram. - Pensei que se importasse comigo, que tivesse ao menos carinho por mim!
― Você vai me deixar falar ou vai tirar suas conclusões absurdas como sempre? - rebateu seco. Ela calou-se contrafeita, fixando seus olhos azuis nos dele. Snape bufou e continuou: - Não pretendo ser pai no momento, senhorita Lovegood, aliás, é um pensamento que me parece absurdo, devo acrescentar - ele desviou o olhar do dela, sentindo-se estranho ao dizer-lhe isso.
Luna deu uma sonora gargalhada, fazendo-o se sentir pior do que já estava. Os olhos azuis caíram sobre ele, indulgentes.
― Acha mesmo que eu seria tão tola? - disse zombeteira. - Ainda tenho que fazer muita coisa: ajudar Harry a salvar o mundo, cuidar de você e conseguir minha promissora carreira num jornal. Decididamente, nada de filhos no momento, professor - sorriu para Snape e depositou um beijo em seus lábios.
― Você é uma peste! - rosnou para ela baixinho enquanto a mantinha presa aos seus braços, fazendo com que o beijo se tornasse profundo, e depois se entregaram novamente ao prazer de seus corpos.
O dia já estava terminado quando Luna colocou a capa sobre os ombros e tomou a direção da porta dos aposentos de Snape, sob o olhar atento dele. Num gesto rápido ele se levantou indo até ela e puxou-a para trás colando seus lábios nos dela. Luna passou carinhosamente seus dedos pelo cabelo dele.
― Não devia deixá-la ir - disse sarcástico -, tendo ficado anos como espião, não devia deixá-la partir repleta de informações a meu respeito.
― Fique tranqüilo, não pretendo revelar a ninguém como você é na cama, muito menos para o Harry - sorriu enquanto via Snape revirar os olhos diante da sua resposta.
― Você não consegue ser racional, não é mesmo? - protestou.
―Não. Se eu fosse assim não estaria aqui - enrolou o cabelo dele ao dedo, fazendo um cachinho e sorriu ao ver a expressão séria. - Eu vou voltar, não se preocupe, e vou me cuidar também... E vou fazer Harry acreditar nas informações que você me deu.
― Vá, antes que eu perca a cabeça de novo! - disse se afastando dela, mas antes que Luna saísse, completou: - Caso não seja bem sucedida com Harry, nos encontraremos daqui a uma semana no mesmo bar, está me entendendo?
― É uma ordem? - rebateu.
― Digamos que seja um conselho - respondeu no mesmo tom dela. - Não ia querer me ver irritado.
― Devo imaginar que o Comensal iria atrás de mim - ela riu alto -, e provavelmente...
― ...a arrastaria até aqui e faria amor com você durante a noite toda - completou. - Agora suma!
Luna deixou a escola com os raios de sol caindo sobre o horizonte em tons alaranjados, enquanto Snape a acompanhava pela sua janela, como fizera da outra vez, só que agora seu coração se sentia esmagado. Vê-la partir o deixou entregue a um enorme vazio, e depois, à apreensão. Alguma coisa nos olhos de Luna o fazia acreditar que ela arriscaria tudo para fazer Harry acreditar nela e colocá-lo a salvo. Ele bufou, era realmente perigoso se envolver com mulheres!
A reunião da Ordem já começara quando Luna chegou. Apenas os olhos castanhos de Gina se viraram para a amiga, vendo-a deixar-se cair numa cadeira próxima. Apesar de todos não terem sentido a falta da amiga na noite passada, Gina até havia procurado por Luna na casa de seus pais e inventara uma desculpa qualquer para o fato de não saber do paradeiro da menina. Luna devia-lhe algumas explicações e ela iria arrancar uma por uma da amiga.
Lupin presidia a reunião e, depois de expor os avanços conseguidos na viagem com Harry, Rony e Hermione, encerrou-a lembrando a todos para se manterem mais vigilantes do que nunca, Voldemort estava se tornando cada vez mais implacável. Luna se levantou para sair, mas a mão fina de Gina a deteve.
― Quero falar com você, Luna - disse firme. Luna assentiu de leve com a cabeça, desviando seu caminho para a biblioteca. Assim que Gina fechou a porta atrás dela, falou zangada: - Onde você esteve à noite toda e metade do dia?
― Segura - respondeu simplesmente.
― Não vai me contar mesmo o que está acontecendo? - rebateu a amiga.
― Só se prometer confiar em mim. - disse. Gina a fitou por alguns instantes antes de responder. Luna estava diferente, mais segura de seus atos, mais firme. Resolveu ouvi-la com mais atenção.
― Está bem, Luna - seus olhos castanhos a encararam e continuou: - Confio em você, agora não me deixe aqui preocupada contigo, oras!
Luna sorriu, foi até o sofá surrado e sentou-se nele com Gina. Os olhos da amiga brilharam conforme Luna ia contando a aventura. Aos poucos, Luna foi convencendo Gina a acreditar em Snape, sem saber, é claro, que era Severo, e muito menos, sem revelar o fato de que estavam juntos. Quando acabou a narrativa, Gina perguntou:
― E o que pretende fazer?
― Vou atrás dessa Horcrux, não há outra maneira de provar a Harry que o que digo é verdade - respondeu Luna confiante.
― Não, não há - confirmou Gina -, mas eu vou com você.
Os olhos das duas se encontraram e Luna sorriu.
